Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
Treinamento desportivo: perfil acadêmico dos líderes de grupos de estudo brasileiros
Sports training: Academic profile of leader Brazilian's study groups
Entrenamiento deportivo: perfil académico de los líderes de grupos de estudio brasileños
Hudson Fabricius Peres Nunesa,b,, , Marcelo Rodella Bettanima, Claudinei Chellesc,d, Romulo Eduardo Peres Nunesa, Alexandre Janotta Drigoa,e
a Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, SP, Brasil
b Instituto Federal de São Paulo, Votuporanga, SP, Brasil
c Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, SP, Brasil
d Secretaria de Esportes, Lazer e Juventude do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
e Universidade Estadual Paulista, Programa de Pós‐Graduação em Ciências da Motricidade, Rio Claro, Brasil
Recebido 29 Fevereiro 2016, Aceitaram 03 Agosto 2017
Resumo

Este estudo objetivou caracterizar o perfil acadêmico dos professores líderes de grupos de estudo brasileiros que desenvolvem pesquisas na subárea de treinamento desportivo. A metodologia usada foi a pesquisa descritiva dos currículos acadêmicos encontrados no banco de dados da Plataforma Lattes, tendo em vista que os dados quantitativos foram interpretados a partir da análise qualitativa das informações. Os resultados revelam que os grupos estão vinculados principalmente a universidades da Região Sudeste, a maioria dos líderes é doutor e a prevalência da produção científica está relacionada à preparação orgânica, pedagógica, psicológica e desportiva dos atletas.

Abstract

This study aimed at characterizes the leader teacher academic profile of the Brazilian's study groups that develop research in the sports training subarea. The methodology was descriptive research of academics CVs found at the Lattes Platform data base, considering that we interpreted quantitative data based on qualitative analysis information. The results show that the groups are mainly linked to universities in the southeast region, the most of the leaders have doctorate and the prevalence of the scientific production is related to the organic, pedagogical, psychological and sports preparation of the athletes.

Resumen

Este estudio intentó definir el perfil académico de los profesores líderes de grupos de estudio brasileños que llevan a cabo investigaciones en la subárea del entrenamiento deportivo. La metodología usada fue la investigación cualitativa de los currículos académicos que se encuentran en la base de datos de la plataforma Lattes, teniendo en cuenta que los datos cuantitativos fueron interpretados a partir del análisis cualitativo de la información. Los resultados revelan que los grupos están vinculados principalmente con las universidades de la región sudeste, la mayoría de los líderes son doctores y el predominio de la producción científica se relaciona con la preparación orgánica, pedagógica, psicológica y deportiva de los atletas.

Palavras‐chave
Educação física, Currículo, Produção científica, Desporto
Keywords
Physical education, Curriculum, Scientific production, Sport
Palabras clave
Educación física, Currículo, Producción científica, Deporte
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Introdução

Este estudo apresenta a análise descritiva dos currículos Lattes dos professores líderes de grupos de estudo na subárea de treinamento desportivo e tem como recorte a caracterização do perfil acadêmico.1

A preparação do atleta por meio do treinamento desportivo deve ser sistematicamente organizada por meio de exercícios físicos pedagogicamente estruturados e periodizados (Matveev, 1986). A organização do método precisa estar planificada, conforme os objetivos de preparação do atleta (Platonov, 2008). O treinamento é considerado uma atividade física de longa duração, graduada de forma progressiva e individualizada, e tem como objetivo superar as tarefas mais exigentes do que as habituais (Bompa, 2002), além de ser um processo ativo, complexo, regular e orientado (Weineck, 1999). Para compreender os resultados obtidos, há três variáveis importantes: o estado do atleta; o efeito do treinamento; e a carga de treinamento (Verkhoshansky, 1996).

Nessa perspectiva, torna‐se relevante o papel que os grupos de estudo desempenham em relação à sistematização e disseminação do conhecimento teórico e prático no âmbito da formação inicial, intervenção profissional e formação continuada.

Assim, a problematização do presente estudo apresenta como indagação principal: “Qual é o perfil acadêmico dos professores líderes de grupos de estudo brasileiros cadastrados na base de dados da Plataforma Lattes que desenvolvem pesquisas na subárea de treinamento desportivo?”

Nessa direção, o objetivo foi caracterizar o perfil acadêmico dos participantes desta investigação e analisar de forma qualitativa o levantamento de dados referentes a: localização geográfica, último grau da titulação acadêmica, vínculo docente, envolvimento com projeto de extensão e produção científica.

Método

O estudo é caracterizado como uma pesquisa qualitativa do tipo descritiva, delineada pela fonte documental. A pesquisa qualitativa, segundo Thomas e Nelson (2002), busca interpretar e compreender o porquê do fenômeno investigado ao considerar a dinâmica das relações sociais. A pesquisa descritiva tem como objetivo a descrição das características de uma população, fenômeno ou experiência (Gil, 2008). Para Lüdke e André (1986), a fonte documental oferece informações relevantes sobre determinado contexto, além de apresentar vantagens como flexibilidade de tempo para a pesquisa e baixo custo financeiro.

De forma similar a metodologia de outras pesquisas (Backes et al., 2009; Devide et al., 2011), esta investigação usou como fonte de dados a Plataforma Lattes2 para analisar os currículos acadêmicos de professores líderes de grupos de estudo que desenvolvem pesquisas na subárea de treinamento desportivo.

É válido ressaltar que não houve contato pessoal com os professores líderes, foram analisadas apenas as informações descritas nos currículos Lattes no período da investigação, que são públicas e autorizadas pelos próprios docentes. Assim, não houve violação à ética em pesquisa ou à Resolução n°. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) sobre todos os tratados e manifestos internacionais relacionados aos preceitos de preservação e sigilo dos documentos e entidades envolvidas.

Para o levantamento de dados foram adotados os seguintes procedimentos: 1 – acesso ao site http://lattes.cnpq.br/; 2 – Já dentro do campo diretório dos grupos de pesquisas “acessar o portal do diretório”; 3 – na base corrente “buscar grupos”; 4 – no termo de busca foram usadas como palavras‐chave “treinamento desportivo” no primeiro momento e depois e “treinamento esportivo – palavras exatas” – consultar por “grupo”; 5 – na aplicação da busca foi selecionada “nomes do grupo, nome da linha de pesquisa e palavra‐chave da linha de pesquisa” e na situação “certificado”; 6 – no filtro foram selecionadas “na grande área de conhecimento – ciências da saúde e na área – educação física”, nas demais opções não houve seleção, foi finalizado com “pesquisar”.

Na primeira etapa foram encontrados 47 registros sobre a palavra‐chave treinamento desportivo e 46 sobre treinamento esportivo. Os registros não repetidos foram armazenados e organizados em ordem alfabética em uma planilha do Microsoft Excel. Após a exploração inicial restaram 36 grupos de estudo. A partir da delimitação do objeto de estudo foram identificadas as localizações geográficas e o tempo (em anos) de existência dos grupos de estudo envolvidos nesta investigação.3

A segunda etapa objetivou explorar os currículos acadêmicos dos líderes dos grupos de estudo, vínculo atual no ensino superior, o envolvimento em projetos de extensão, as orientações de dissertações de mestrado e teses de doutorado e a produção científica de: artigos, livros, capítulos de livros, dissertações e teses (referentes ao último grau da titulação acadêmica). Exceto o desenvolvimento da própria dissertação ou tese, a análise da produção científica (artigos, capítulos de livros e livros) teve como base a incidência do ano de criação do grupo de estudo em que atua como líder, não foram consideradas publicações anteriores. A análise da produção científica foi feita por meio de leituras, interpretações de títulos e codificações das palavras‐chave sobre treinamento desportivo.

Na terceira etapa foram feitas inferências para classificar a produção científica na subárea de treinamento desportivo, em temas interdisciplinares4 e temas não relacionados ao treinamento desportivo, sob a técnica de análise de conteúdo descrita por Bardin (2011).

Resultados e discussão

A tabela 1 descreve os 36 grupos de estudo encontrados relacionados à subárea de treinamento desportivo.

Tabela 1.

Identificação dos grupos de estudo

Ciências do Esporte; Grupo de Pesquisa em Esporte e Gestão (Gequip); Atividade Física e Promoção da Saúde; Avaliação da Performance Humana; Ciências do Esporte, Fundamentos do Treinamento de Força e Prescrição do Exercício Físico; Educação Física e Promoção da Saúde; Esporte, Saúde e Qualidade de Vida (Otium); Fisiologia Aplicada ao Treinamento Esportivo e para Saúde (Fites); Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Física; Grupo de Estudos do Jovem Atleta (Geja); Grupo de Estudos e Pesquisa em Planejamento e Monitoramento do Treinamento Físico e Esportivo; Grupo de Estudos e Pesquisas em Basquetebol (Gepbasq); Grupo de Estudos e Pesquisas em Treinamento Esportivo e Desempenho Físico; Grupo de Estudos e Pesquisas Pedagógicas em Ginástica; Grupo de Estudos em Esporte (GEE); Grupo de Estudos em Esportes para Pessoas com Paralisia Cerebral; Grupo de Estudos em Fisiologia do Exercício; Grupo de Estudos em Pedagogia do Esporte; Grupo de Pesquisa em Avaliação Motora Adaptada; Grupo de Pesquisa em Ginástica; Grupo Interdisciplinar de Educação Física; Integração das Dimensões Físico, Técnico e Tática do Futebol e Futsal; Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (Labimh); Laboratório de Ciências da Atividade Física (LabCAF); Laboratório de Estudos Aplicados em Pedagogia do Esporte (Leape); Laboratório de Fisiologia do Exercício (Lafex); Laboratório Multidisciplinar de Atividades Físicas, Esportes e Educação Física; Núcleo de Pesquisa em Pedagogia do Esporte (Nuppe); Núcleo de Pesquisa em Psicologia e Pedagogia do Esporte; Psicologia do Esporte e da Atividade Física; Psicologia do Exercício e do Esporte. 

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Foram encontrados 36 grupos de estudo e identificados 33 líderes.5 A maioria dos grupos de estudo encontrados tem duas ou mais linhas de pesquisa. Esse fato remete à investigação de subáreas distintas do treinamento desportivo relacionada à produção científica.

A tabela 2 descreve dados gerais da caracterização dos grupos de estudo.

Tabela 2.

Dados gerais

Tempo  1 a 5 anos  6 a 10 anos  11 a 15 anos  acima de 20 anos 
Grupos  12  12 
Regiões  Sudeste  Sul  Centro‐Oeste  Nordeste 
Grupos  19  11 
IES  PúblicaPrivada
Líderes  Homens  Mulheres  Homens  Mulheres 
  22 

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Os dados evidenciam desigualdades quantitativas quanto à distribuição dos grupos em relação às regiões brasileiras. De acordo com Meneghel et al. (2007), a sistematização da produção de conhecimento no Brasil foi iniciada na década de 1960 por meio da criação de programas de pós‐graduação stricto sensu, principalmente na Região Sudeste, e atualmente a quantidade de IES, programas de pós‐graduação,6 docentes e grupos de estudo é proporcional aos investimentos de bolsas e recursos subsidiados por agências de fomento. Estes fatos contribuem de forma significativa para a impulsão da produção científica.

A maioria dos líderes é homem e está vinculada a universidades públicas.7 Apesar da necessidade de fazer outras investigações sobre a questão de gênero, as informações desta pesquisa seguem as tendências de outras esferas da área desportiva, como cargos administrativos de direção desportiva, de treinadores e comissão técnica e representam um espaço de dominação masculina, em âmbito nacional (Ferreira et al., 2013) e internacional (Acosta e Carpter, 2014).

Sobre a titulação do último grau acadêmico dos líderes foram encontrados 17 doutores, seis mestres, seis livre‐docentes com pós‐doutorado, dois pós‐doutores e dois livre‐docentes. Considerando o ano de criação do grupo, 20 líderes já orientaram 157 dissertações de mestrado (12 orientaram temas predominantes da subárea de treinamento desportivo, seis temas interdisciplinares e dois temas não relacionados) e 50 teses de doutorado (oito orientaram temas predominantes da subárea de treinamento desportivo, quatro temas interdisciplinares e um temas não relacionados).

De 33 líderes, apenas dois não lecionam no ensino superior, 19 lecionam disciplinas da subárea do treinamento desportivo (sete na graduação e 12 na graduação e pós‐graduação), nove lecionam disciplinas que fazem interface com o treinamento desportivo (cinco na graduação e quatro na graduação e pós‐graduação) e três lecionam disciplinas não relacionadas ao treinamento desportivo (dois na graduação e um na graduação e pós‐graduação).

Essa constatação evidencia em alguns casos o descompasso entre “o que se ensina e o que se pesquisa”. Tani (2007) destaca que o professor de ensino superior deveria prioritariamente ser o pesquisador que ensina e se preocupa em disseminar o conhecimento não como um produto finalizado, mas como um processo da própria produção. Embora seja considerada a importância de desenvolver pesquisas relacionadas com o ensino dos conteúdos disciplinares, tal fato não impede que os líderes produzam conhecimento nessa temática, mas de qualquer modo torna‐se complexo ensinar e pesquisar em subáreas distintas.

Na dimensão da extensão, 18 líderes desenvolvem projetos de extensão. As atividades têm objetivos socioeducativos (n=14), de saúde (n=6), de rendimento desportivo (n=4) e de lazer (n=4).8 Para Nozaki (2012), os projetos de extensão são relevantes para: o processo de formação acadêmica, a disseminação de conhecimentos teóricos e práticos, o oferecimento de serviços de diversas naturezas e a troca de saberes. Porém, apenas quatro projetos estão relacionados ao treinamento desportivo. Isso sinaliza que há poucos líderes que desenvolvem pesquisas baseadas nos projetos de extensão.

A tabela 3 descreve a totalidade da produção científica dos líderes de grupos de estudo relacionada ao objeto de estudo.

Tabela 3.

Análise da produção científica

Palavras‐chave primáriasCodificações das palavras‐chave secundárias associadas às primárias encontradas durante a leitura e interpretação dos títulos da produção científica: unidades taemáticasTítulos
      Dissertações e teses (n=33)  Artigos científicos n=(1.576)
      Total  1° autor  2° autor  Total 
Subárea do treinamento desportivo  Método  Metodologia do treinamento  Objetivaram investigar a periodização, estruturação, organização, modelos e programas de treinamento desportivo (modalidades coletivas e individuais), e priorizaram o controle / monitoração / avaliação da distribuição de (sobre) cargas relacionadas com o volume e a intensidade do treinamento  14  50  64 
  Preparação pedagógica e volitiva  Ensino e aprendizagem  Abordaram aspectos didáticos (estratégias) e processos de ensino e aprendizagem sobre a iniciação / formação desportiva (técnicas e gestos técnicos), detecção de talento e especialização precoce, enquanto a preparação volitiva enfatizou a formação de atitudes, valores morais e éticos  45  112  157 
Preparação orgânicaObjetivaram analisar, avaliar e comparar os efeitos e as respostas orgânicas dos atletas, buscando estabelecer parâmetros que possam auxiliar e subsidiar o uso de diferentes programas de treinamento desportivo conforme as modalidades desportivas e os objetivos das diferentes etapas da preparação desportivaFisiologia  55  219  274 
Cineantropometria    36  45 
Biomecânica    15  17 
Bioquímica   
Nutrição e hidratação    11 
  Preparação desportiva  Físicas  Buscaram investigar as capacidades / qualidades físicas por meio da observação e de indicadores de desempenho que avaliam: força, resistência, velocidade, flexibilidade, equilíbrio e agilidade; aplicadas no desporto  17  43  60 
    Motora  Procuraram investigar a aprendizagem e a coordenação motora por meio da observação e de indicadores de desempenho que avaliam: andar, correr, saltar, girar, esquivar, girar, rebater, receber, chutar, arremessar, quicar; aplicadas no desporto de forma específica e combinadas    15  24 
    Técnica‐tática  Objetivaram analisar as habilidades técnico‐táticas (de modalidades coletivas e individuais) por meio da observação e de indicadores de desempenho que avaliam: o tempo de reação; as características, eficiência e eficácia dos gestos técnicos; posse de bola, posicionamento, deslocamento e jogadas durante os treinamentos e competições  11  56  67 
  Preparação psicológica  Aspectos emocionais e intelectuais  Objetivaram investigar aspectos emocionais, comportamentais e motivacionais (traços de ansiedade, influência do local das competições, estados de humor, motivos de abandono, lesão e reabilitação desportiva, liderança), buscando compreender a influência do treinamento desportivo sobre a percepção do esforço físico (aptidão aeróbia e anaeróbia, dor e estresse, síndrome de burnout, síndrome de overtraining) por meio da avaliação psicológica durante a fase de preparação e competição do atleta  49  79  128 
  Formação  Treinadores  Buscaram principalmente investigar a trajetória de vida (formação inicial e formação contínua), as ações pedagógicas, as representações identitárias e sociais, o conhecimento profissional, necessidades profissionais, prática profissional, preparação e formação profissional, resistência a mudanças, motivação dos treinadores, concepção e competência dos treinadores desportivos  33  40 
    Gestão  Procuraram demonstrar o processo de institucionalização e organização desportiva ressaltando a importância do conhecimento acadêmico na formação e preparação do atleta de elite, além de investigar as condições de infraestrutura, categorias de base, clubes desportivos, questões legislativas, políticas públicas, marketing e gestão desportiva  14  18 
Subtotal        21  225  684  909 
Temas interdisciplinares  Saúde  Efeitos do treinamento físico aplicado em diferentes populações  Ficou evidente que a aplicação do treinamento desportivo ou físico é usada como conteúdo e meio de promover e/ou reabilitar a saúde e desenvolver aspectos da preparação orgânica, física e motora de indivíduos que não são atletas de alto rendimento, analisando, avaliando e comparando os efeitos dos programas de treinamento por meio das respostas relacionadas aos aspectos fisiológicos, cineantropométricos, bioquímicos, biomecânicos e nutricionais, aplicados em populações sedentárias ou ativas, obesas, diabéticas, com doenças crônicas, deficientes físicos, com disfunções hormonais e metabólicas  10  117  373  490 
Outros  Outros temas  Diversos  Pesquisas sobre carreira docente; formação docente inicial e continuada; prática pedagógica; profissão; aspectos socioculturais da educação física; lazer; gestão de equipamentos públicos de lazer e saúde; temas escolares; metodologia e processo de ensino‐aprendizagem de atividades circenses  48  129  177 

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Em números absolutos os artigos científicos são volumosos, o treinamento desportivo é representado por 58%, a saúde por 31% e outros temas por 11% das publicações. Em relação às dissertações e teses, 21 líderes abordaram o treinamento desportivo, dez a saúde e dois discorreram sobre outros temas. Apesar de as informações quantitativas serem tradadas qualitativamente, não foi feita a leitura na íntegra e nem a estratificação do Qualis‐Capes9 dos periódicos científicos de toda a produção acadêmica devido à escolha dos procedimentos metodológicos desta pesquisa.

Entretanto, há periódicos que não são indexados e por isso os artigos publicados não entram na contagem dos indicadores de qualidade (Carvalho e Manoel, 2006). Para aumentar a produtividade alguns pesquisadores têm feito o recorte de dados para aumentar o número de artigos (Castiel e Sanz‐Valero, 2007). Outra estratégia de reconhecimento acadêmico é apresentar resultados próximos de revistas indexadas internacionalmente e citar autores famosos (Lovisolo, 2007). Essa estratégia pode tirar o estímulo de publicações locais ou regionais (Mugnaini, 2006). A publicação na área das ciências humanas difere de outras áreas e na maioria das vezes é publicada em livros (Betti et al., 2004), o que desencadeou a Capes apresentar em 2009 critérios e procedimentos de avaliação para serem usados pelos programas de pós‐graduação na classificação e estratificação de livros.10

De acordo com Tani (2007), a qualidade da produção científica está associada ao reconhecimento da comunidade científica e corresponde aos critérios de avaliação para a indexação em periódico científico e a sua estratificação no sistema Qualis‐Capes.

A classificação do periódico em determinadas bases de indexação usa dois mecanismos de controle, o fator de impacto, que representa o número de citações do artigo na revista, e o índice de citação dos artigos de um mesmo autor (Castiel e Sanz‐Valero, 2007). Todavia, esses mecanismos também são criticados, pois não distinguem a citação da autocitação e não excluem a citação de artigos que têm erros conceituais ou de interpretação (Pinto e Andrade, 1999).

A autoria principal na subárea de treinamento desportivo desta investigação representa um quarto da produção científica, enquanto a coautoria três quartos das publicações. A busca quantitativa de publicações tem sido criticada, principalmente em relação à troca de autoria e coautoria entre os pesquisadores (Castiel e Sanz‐Valero, 2007; Lovisolo, 2007).

De acordo com o estudo de Marchlewski et al. (2011), a somatória de artigos publicados na área da educação física está sendo influenciada pelo sistema de avaliação da produção científica e pelo reconhecimento acadêmico‐científico. Segundo o autor, esse critério de avaliação, deixa em segundo plano questões que impactam a transformação da sociedade. Contudo, as informações desta pesquisa não permitem inferir sobre a qualidade da produção científica devido à limitação metodológica.

As pesquisas sobre metodologia do treinamento e treinadores desportivos estão de acordo com a literatura internacional11 e nacional.12

As pesquisas sobre a preparação atlética, principalmente relacionadas aos aspectos orgânicos (fisiológicos e cineantropométricos), representam aproximadamente a metade de toda a publicação sobre o treinamento desportivo e se aproximam dos resultados encontrados no estudo de Williams e Kendall (2007), seguidas da preparação: pedagógica (volitiva), desportiva (técnico‐tática, física e motora) e psicológica.

O conceito de treinamento desportivo nos últimos anos foi estendido para outras áreas e populações e passou a influenciar diversos pesquisadores, de forma específica as pesquisas focaram compreender o que está por trás do movimento, ou seja, investigar as condições e potencialidades orgânicas, físicas e motoras (Barbanti et al., 2004).

Considerações finais

Em síntese, o tempo de criação de três quartos dos grupos de estudo corresponde a dez anos ou menos. A maioria dos líderes é homem, tem a titulação de doutor e vínculo com universidades públicas. Pouco mais da metade dos líderes leciona disciplina(s) na subárea do treinamento desportivo ou em subárea(s) interdisciplinar(es) oferecida(s) na graduação e nos programas de pós‐graduação de educação física (principalmente nas regiões Sudeste e Sul) e desenvolve projetos de extensão, e a minoria dos projetos é na mesma linha de pesquisa. Em relação à produção científica, um quarto das publicações é de primeira autoria, dois terços são sobre o treinamento desportivo e a maioria das pesquisas sobre a preparação atlética e desportiva está relacionada aos aspectos orgânicos, físicos e motores.

Os esforços desta investigação em caracterizar o perfil acadêmico dos líderes dos grupos de estudo não esgotam a temática do treinamento desportivo, tampouco pretendem generalizar as singularidades e a relevância do trabalho desenvolvido pelos líderes dos grupos de estudo ou desconsiderar a contribuição de outros pesquisadores e/ou grupos de estudo desativados.

Diante das limitações apresentadas anteriormente, sugerimos a necessidade do desenvolvimento de outros estudos para fazer inferências e aprofundar a análise inicial desta ou de outras pesquisas sobre a temática do treinamento e/ou treinadores desportivos, considerando a análise do Qualis‐Capes dos periódicos (fator de impacto), uso de outras bases de dados ou de outra metodologia, como destacado no estudo de Gilbert e Trudel (2004), para analisar, revisar e exaurir o conteúdo das pesquisas e adotar critérios específicos.

De acordo com Viveiros et al. (2015), recentemente o Brasil obteve avanços em relação à aproximação do conhecimento científico do treinamento desportivo com o campo prático dos treinadores, como a rede Cenesp,13 em parceria com 14 universidades criadas pelo Ministério do Esporte e com a Associação Brasileira de Treinadores criada, pelo Comitê Olímpico Brasileiro, mas ainda existem dificuldades como o trabalho exaustivo para a produção do conhecimento científico (cobrança de publicação de alto impacto), o conflito de interesses entre a comissão técnica e os pesquisadores, a precarização de fomento a linhas de pesquisas sobre o desporto de alto rendimento e a dificuldade de aplicar o conhecimento científico em situações práticas (grupos de atletas/modalidades desportivas e restrição quantitativa de amostras).

Entendemos que o conhecimento especializado e multidisciplinar sobre o treinamento desportivo, aplicado pelo treinador desportivo, desde a iniciação à maestria desportiva, deve estar pautado em um conjunto de procedimentos (teóricos, práticos, metodológicos e avaliativos) sistematicamente organizados que possa conduzir à preparação integral do atleta (pedagógica e volitiva; orgânica, física e motora; técnica e tática; e psicológica), associadas as dimensões científicas, socioculturais e éticas que envolvem os processos do treinamento desportivo.

E para que isso ocorra a educação física enquanto profissão que tem buscado desenvolver um corpo de conhecimento especializado, organizado e dinâmico (Barros, 1993; Drigo, 2009; Freidson, 1998), necessita desenvolver pesquisas coerentes com a relevância de seus desdobramentos, caso contrário, estará cumprindo apenas critérios de produtividade (prestígio científico) exigidos pelos programas de pós‐graduação ao reproduzir a lógica da visibilidade/quantidade de dados bibliométricos em detrimento do impacto social ou da qualidade da produção científica.

Assim, o sentido desta pesquisa foi compreender como a produção científica tem sido desenvolvida e provocar a reflexão de como o conhecimento científico, a partir da caracterização do perfil acadêmico dos líderes dos grupos de estudo, tem subsidiado a epistemologia do treinamento desportivo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Tese de doutorado em ciência da informação)
Nascimento, 1998
Nascimento JV. A formação inicial universitária em educação física e desportos: uma abordagem sobre o ambiente percebido e a auto‐percepção de competência profissional de formandos brasileiros e portugueses. 1998. 367 f. Tese (Doutorado) Faculdade de Ciências do. Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto, Porto, 1998.
Nozaki, 2012
Nozaki JM. Os significados e as implicações da extensão universitária na formação inicial e na atuação profissional em educação física. 2012. 403f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Motricidade) – Pedagogia da Motricidade Humana, UNESP, Rio Claro, 2012.
Pinto e Andrade, 1999
A.C. Pinto,J.B. Andrade
Fator de impacto de revistas científicas: qual o significado deste parâmetro?
Química Nova, 22 (1999), pp. 448-453
Platonov, 2008
V.N. Platonov
Tratado teral de treinamento desportivo
Phorte, (2008)
Tani, 2007
G. Tani
Educação física: por uma política de publicação visando à qualidade dos periódicos
Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 29 (2007), pp. 9-22
Thomas e Nelson, 2002
J.R. Thomas,J.K. Nelson
Métodos de pesquisa em atividade física
3ª. ed, Artmed, (2002)
Trudel et al., 2014
P. Trudel,D. Culver,W. Gilbert
Publishing coaching research
Research methods in sports coaching, pp. 250-260
Trudel et al., 2010
P. Trudel,W. Gilbert,P. Werthner
Coach education effectiveness
Sports coaching: professionalisation and practice, pp. 135-152
Tubino, 2003
M.J.G. Tubino
Metodologia científica do treinamento desportivo
13a. ed., Shape, (2003)
Verkhosansky, 1996
Y.V. Verkhosansky
Força: treinamento da potência muscular
Centro de Informações Desportivas, (1996)
Viveiros et al., 2015
L. Viveiros,A. Moreira,D. Bishop,M.S. Aoki
Ciência do esporte no Brasil: reflexões sobre o desenvolvimento das pesquisas, o cenário atual e as perspectivas futuras
Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 29 (2015), pp. 163-175
Weineck, 1999
J. Weineck
Treinamento ideal: instruções técnicas sobre o desempenho fisiológico incluindo considerações específicas de treinamento infantil e juvenil
Manole, (1999)
Williams e Kendall, 2007
S.J. Williams,L.R. Kendall
A profile of sports science research (1983‐2003)
Journal of Science ans Medicine in Sport, 10 (2007), pp. 193-200

Os termos subárea e área correspondem à hierarquização da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes). Enquanto o termo treinamento desportivo está relacionado à preparação atlética e ao alto desempenho desportivo.

A Plataforma Lattes representa a principal fonte de cadastro de docentes e pesquisadores em universidades e centros de pesquisa brasileiros, serve de apoio para atividades de gestão e formulação de políticas para a ciência e tecnologia. Atualmente existem mais de três milhões de currículos cadastrados. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br>. Acesso em: 20 fev. 2017.

Grupos de estudo repetidos, não certificados e com menos de um ano de formação foram excluídos.

O termo “temas interdisciplinares” classifica as pesquisas que usaram o conhecimento do treinamento desportivo em populações que não fazem parte do desporto de alto rendimento. Enquanto o termo “temas não relacionados” classifica pesquisas que não se relacionam ao treinamento desportivo.

Três líderes coordenam mais de um grupo de pesquisa.

A educação física no Brasil tem 37 programas de pós‐graduação (mestrado, doutorado e mestrado profissional), 19 na Região Sudeste (51,3%), nove na Sul (24,3%), cinco na Nordeste (13,5%), três na Centro‐Oeste (8,1%) e um na Norte (2,8%).Disponível em: <https: sucupira.capes.gov.br="" ucupira="" ublic="" onsultas="" oleta="" rograma="" uantitativos="" uantitativoies.jsf?areaavaliacao="21&areaConhecimento=40900002"> . Acesso em: 4 abr. 2017. </https:>

Vínculo dos grupos de estudo: uma universidade(s) confessional, duas comunitárias, quatro privadas e 26 públicas (uma municipal não gratuita, 13 estaduais e 12 federais).

Três líderes desenvolvem dois ou mais projetos de extensão.

Classificação dos artigos, da maior para a menor estratificação: A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (não indexado), para estratos superiores de A1, o periódico deve ter fator de impacto JCR‐ISI.

Classificação de livros, da maior para a menor estratificação: L1, L2, L3 e L4. Disponível em: <http: www.capes.gov.br="" mages="" tories="" ownload="" valiacao="" oteiro_livros_trienio2007_2009.pdf=""> . Acesso em: 10 abr. 2017. </http:>

Metodologia do treinamento (Matveev, 1986; Platonov, 2008; Bompa, 2002; Weineck, 1999; Verkhoshansky, 1996). Treinadores desportivos ((Mallet et al., 2009, Trudel et al., 2010, 2014;)

A rede Cenesp é composta pelas estruturas físicas e administrativas, recursos humanos e materiais existentes nas instituições de ensino superior, onde os centros ou núcleos estão implantados, e tem como objetivo detectar, selecionar e desenvolver talentos esportivos, especialmente nas modalidades olímpicas e paraolímpicas.

Autor para correspondência. (Hudson Fabricius Peres Nunes hudsonfpnunes@hotmail.com)
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