Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
Tempo de provas curtas e volume de treinamento como preditores do desempenho de maratona
Short‐time race time and training volume as predictors of Marathon performance
Tiempo de pruebas cortas y volumen de entrenamiento como predictores del rendimiento de Maratón
Onécimo Ubiratã Medina Meloa, Rodrigo Torma Bernardoa, Edson Soares da Silvaa, Karen Przybysz da Silva Rosaa, Renan dos Santos Coimbraa, Leonardo Alexandre Peyré‐Tartarugab,c,,
a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Laboratório de Pesquisa do Exercício, Porto Alegre, RS, Brasil
b Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Departamento de Educação Física, Porto Alegre, RS, Brasil
c Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programas de Pós‐Graduação em Ciências do Movimento Humano e Ciências Pneumológicas, Porto Alegre, RS, Brasil
Recebido 06 Julho 2016, Aceitaram 19 Junho 2017
Resumo

Além das determinantes fisiológicas, o desempenho em maratonas é influenciado por características antropométricas, de treinamento e de experiência dos atletas. O objetivo do estudo foi investigar a associação desses fatores com o desempenho de maratonistas brasileiros. Um questionário foi aplicado nos dois dias anteriores à Maratona Internacional de Porto Alegre. Dentre os achados, os atletas de menor índice de massa corporal foram mais rápidos e o desempenho em provas de 5 e 21km apresentou correlações altas com o desempenho (r = 0,76 e r = 0,81, p < 0,01). Isso sugere que corredores mais rápidos na maratona são mais rápidos em provas de distâncias menores. Além disso, índices como experiência anterior e distância dos treinos longos não foram bons preditores do desempenho para maratona.

Abstract

Not only physiological variables, but anthropometric, training and experience characteristics influence marathon performance. The aim of this study was to investigate the correlation of those factors on Brazilian marathoners performance. A questionnaire was applied in the two days prior to the International Porto Alegre Marathon. Mainly, athletes with lower body mass index were faster on the race, and performance at 5km and 21km have high correlations with marathon performance (r=0.76 and r=0.81, p<0.01), suggesting that the fastest runners in the marathon are faster over shorter distances. In addition, indices like previous experience and long session distances were not good performance predictors for marathoners.

Resumen

Además de los determinantes fisiológicos, el rendimiento en maratones está influenciado por las características antropométricas, el entrenamiento y la experiencia de los atletas. El objetivo del estudio fue investigar la asociación de estos factores con el rendimiento de los corredores de maratón brasileños. Se aplicó un cuestionario en los dos días antes de la Maratón Internacional de Porto Alegre. Entre los hallazgos, los atletas con menor índice de masa corporal fueron más rápidos, y el rendimiento en las pruebas de 5 y 21km están altamente correlacionados con el rendimiento (r = 0,76 yr = 0,81, p <0,01), lo que sugiere que los corredores más rápidos en la maratón son más rápidos en pruebas de distancias más cortas. Además, los índices tales como la experiencia previa y la distancia de entrenamientos largos no fueron buenos indicadores de rendimiento para la maratón.

Palavras‐chave
Corrida de distância, Maratona, Desempenho, Cargas de treinamento
Keywords
Distance running, Marathon, Performance, Training loads
Palabras clave
Carrera de distancia, Maratón, Rendimiento, Cargas de entrenamiento
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Introdução

Nas últimas décadas a participação em maratonas tem aumentado exponencialmente, com centenas de maratonas em todo o mundo, que atraem mais de 40.000 participantes (Trappe, 2007). Desde 1983 ocorre na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul, Brasil) a Maratona Internacional de Porto Alegre (MIPA), prova oficial reconhecida pela Confederação Brasileira de Atletismo e recomendada para alcançar bom desempenho no Brasil devido aos poucos aclives e declives no percurso, à temperatura local (média de 14° à época da prova) e por seguir todos os padrões da AIMS (Association of International Marathons and Distance Races).

Embora exista um conjunto de conhecimentos acerca dos principais fatores fisiológicos determinantes de desempenho na corrida de longa distância (Consumo Máximo de Oxigênio ‐ VO2máx, Economia de Corrida e o Limiar Anaeróbio; Coyle, 1995), cresce o número de estudos que procuram validar testes de campo para a determinação desses preditores do desempenho de corredores (Dolgener et al., 1994; Knechtle et al., 2010; Tanda e Knechtle, 2013; Dellagrana et al., 2014). Além disso, há especial interesse na identificação de parâmetros que podem influenciar essas determinantes (Tanda e Knechtle, 2015), como características antropométricas, do treinamento ou de experiência e suas associações com o desempenho (Tanda e Knechtle, 2013).

Dentre os fatores antropométricos, o percentual de gordura é o principal fator influenciador (Tanda e Knechtle, 2015), enquanto o Índice de Massa Corporal (IMC) apresenta baixa correlação com o desempenho de maratonistas (Zillmann et al., 2013). Fatores ambientais como inclinações do terreno (Lazzer et al., 2015), temperatura (Trubee et al., 2014), umidade (Ely et al., 2007), bem como características de treinamento, como distância média semanal de treino e velocidade de treino (Tanda & Knechtle 2015), influenciam o ritmo de prova.

Apesar de longas distâncias alcançadas por sessão de treino serem um bom indicador para completar uma maratona com sucesso (Yeung et al., 2001), estudos indicam que o desempenho em maratona tem correlação negativa com o total de dias de treino, volume semanal médio por treino e volume total semanal (Hagan et al., 1981). Compreender quais características de treinamento e do atleta apresentam relação com o desempenho é de fundamental importância para atletas e treinadores. Assim, o objetivo do presente estudo foi identificar quais variáveis de treinamento, antropometria e experiência em provas prévias se associam com desempenho (Tempo Total de Prova ‐ TD) dos atletas brasileiros concluintes da MIPA.

Material e métodos

Foi aplicado um método de amostragem não probabilístico, do tipo intencional, de forma que seis avaliadores treinados distribuíram‐se nos dois dias anteriores (12 e 13 de junho de 2015) à prova da MIPA e abordaram o maior número possível de atletas durante a retirada do material de prova. Os sujeitos que se identificassem como atletas inscritos eram convidados a participar da pesquisa e, no caso do aceite, assinavam um termo de consentimento livre e esclarecido e respondiam o questionário.

Baseados nos estudo de Zillmann et al., 2013 e Tanda (2011), foi elaborado um questionário (documento suplementar 1) composto de 18 perguntas divididas em dados antropométricos (idade, estatura e massa corporal), características de treinamento (tempo de prática, número de dias de treino por semana, volume semanal médio, maior volume semanal, maior treino longo feito para a maratona, número de treinos longos maiores do que 30km e tempo de prática de musculação) e experiência em provas prévias (melhor desempenho em provas de 5km, 10km, meia maratona e maratona, número de maratonas feitas e número de provas da MIPA feitas).

A prova da 32a Maratona Internacional de Porto Alegre ocorreu em 14 de junho de 2015, com largada às 7h. A temperatura média foi de 15°C, com umidade relativa do ar de 100% e velocidade média do vento de 6km/h. Dos participantes, 96,8% (1.567 dos 1.618) completaram a prova entre 158 e 317 minutos. O tempo foi controlado por chip eletrônico, foi usado para análise o tempo líquido. Os resultados parciais e finais, como tempo e colocação, foram obtidos do site do Clube de Corredores de Porto Alegre (Corpa). Os grupos foram divididos conforme a ordem de chegada em: Grupo Rápido (GR) da 1a à 33a posição, Grupo Moderado (GM) da 34a à 68a posição e Grupo Lento (GL) da 69a à 102a posição.

Análise estatística

A normalidade e homogeneidade dos dados foram verificadas respectivamente por testes de Shapiro‐Wilk e Levene. Uma análise de variância de um caminho (Anova one‐way), seguida de teste de Tukey, foi aplicada para a identificação das diferenças entre os grupos GR, GM e GL. Foi calculado o coeficiente da variação de desempenho (CV% = 100 x SD/média) baseado no tempo de prova. Para analisar as correlações entre o desempenho e os índices de treinamento dos maratonistas, foi usado o teste de correlação de Spearman considerando‐se correlação baixa os valores entre 0,2 e 0,39; moderada entre 0,4 e 0,69; alta entre 0,7 e 0,89; e muito alta entre 0,9 e 1. O nível de significância usado foi de α ≤ 0,05 e todas as análises foram feitas no software SPSS versão 20.0 (IBM, Chicago, EUA).

Resultados

Foram preenchidos 113 questionários e desses foram descartados aqueles em que os corredores não completaram a prova. Dessa forma, 102 questionários de atletas do sexo masculino provenientes de 15 estados da federação foram analisados.

Os resultados principais são que os tempos de prova mais curtos e o volume de treinamento (semanal e o maior volume semanal) foram os melhores preditores de desempenho da maratona neste estudo.

Os dados de idade, massa, estatura e índice de massa corporal (IMC) estão apresentados na tabela 1. Não houve diferença entre a estatura dos participantes dos diferentes grupos. O GR apresentou média de idade menor do que o GL (p < 0,05), além de massa e IMC menores do que o GM e GL (p < 0,05).

Tabela 1.

Valores médios e desvios‐padrão de caracterização da amostra e comparação entre grupos

Variáveis  GR (33)  GM (35)  GL (34)  Sig 
Idade (anos)  40,3 ± 6,6b  42,6 ± 10,3  46,0 ± 10,1b  2,908  0,059 
Massa (kg)  68,0 ± 8,9ab  74,1 ± 8,0a  75,4 ± 8,0b  7,012  0,001 
Altura (m)  174,4 ± 7,1  176,6 ± 6,6  175,0 ± 7,3  0,697  0,501 
IMC (kg/m2)  22,3 ± 1,6ab  23,8 ± 2,1a  24,5 ± 2,6b  8,875  0,000 

GR, Grupo Rápido; GM, Grupo Moderado; GL, Grupo Lento. Letras “a” representam diferenças entre GR e GM e letras “b” diferenças entre GR e GL, p ≤ 0,05.

Os valores médios e desvios‐padrão, bem como as comparações entre grupos de desempenho (GR, GM e GL), são apresentados na tabela 2.

Tabela 2.

Valores médios e desvio‐padrão de desempenho e índices de treinamento dos maratonistas

Variáveis  GR (33)  GM (35)  GL (34)  Sig. 
N° maratonas anteriores  9,7 ± 11,5  6,7 ± 7,4  10,1 ± 15,2  0,641  0,530 
N° maratonas em Porto Alegre  2,8 ± 5,0  2,8 ± 5,0  1,6 ± 2,7  0,921  0,402 
N° de treinos semanais  5,0 ± 1,2b  4,6 ± 1,2c  3,7 ± 1,1bc  9,337  0,000 
Volume semanal (km)  77,5 ± 34,1b  63,1 ± 22,4c  45,9 ± 20,5bc  12,164  0,000 
Maior volume semanal (km)  99,1 ± 42,7ab  80,0 ± 24,8a  66,0 ± 23,9b  9,290  0,000 
Distância maior longo (km)  35,8 ± 4,3b  33,1 ± 5,2  31,5 ± 5,9b  5,800  0,004 
N° de longos ≥ 30km  4,8 ± 2,6  3,7 ± 3,1  1,9 ± 1,8  10,299  0,000 
D5km (minutos)  17,9 ± 1,7ab  20,6 ± 1,9ac  22,6 ± 2,7bc  25,511  0,000 
D10km (minutos)  33,8 ± 11,9a  42,7 ± 3,3a  42,7 ± 3,3a  3,5411  0,033 
D21,1km (minutos)  83,2 ± 7,3ab  97,2 ± 8,9ac  110,4 ±18,1bc  39,331  0,000 
D42,2km (minutos)  148,2 ± 75,7  180,1 ± 88,6  146,8 ± 116,7  1,270  0,286 
Tempo de prática de corrida (anos)  12,31 ± 9,5  9,7 ± 7,7  11,0 ± 9,5  0,724  0,487 
Tempo de musculação (anos)  6,6 ± 6,2  6,9 ± 7,3  5,8 ± 5,1  0,217  0,805 
Estreantes  12     
CV (%)  7,78  5,42  7,70     
Resultado final (minutos)  187,6 ± 14,6ab  223,2 ± 12,1ac  267,5 ± 20,6bc  0,0204  0,000 
1a meia (minutos)  90,6 ± 6,9ab  107,3 ± 6,0ac  123,1 ± 9,9bc  145,1  145,1 
2a meia (minutos)  97,3 ± 10,0ab  115,7 ± 9,3ac  144,6 ± 14,9bc  139,385  139,3 

CV, Coeficiente de Variação de Desempenho; GL, Grupo Lento; GM, Grupo Moderado; GR, Grupo Rápido. Letras “a” representam diferenças entre GR e GM, letras “b” diferenças entre GR e GL e letras “c” diferenças entre GM e GL; p ≤ 0,05.

As correlações entre desempenho de maratona e variáveis antropométricas e índices de treinamento são apresentadas na tabela 3.

Tabela 3.

Coeficientes de correlação linear entre desempenho na maratona dos 102 atletas (102) e por grupo de corredores (Grupo Rápido, Grupo Moderado e Grupo Lento) versus desempenho em provas mais curtas, valores antropométricos e índices de treinamento (variáveis que apresentaram diferenças em duas comparações [ab, ac ou bc] na Anova)

Variável  D 5km  D 10km  D 21,1km  prmeia  segmeia 
102  0,762b  0,604b  0,812b  0,934b  0,974b 
GR  0,765b  0,619b  0,491b  0,704b  0,846b 
GM  0,441  0,375a  0,492b  0,611b  0,748b 
GL  0,293  0,512b  0,567b  0,738b  0,730b 
Variável  Massa  IMC  Trsemana  Volsemana  Mvolume 
102  0,343b  0,383b  ‐0,473a  ‐0,560b  ‐0,471b 
GR  0,376a  0,290  ‐0,335  ‐0,460b  ‐0,530b 
GM  0,048  0,052  ‐0,369a  ‐0,446b  ‐0,431b 
GL  0,043  ‐0,247  ‐0,247  ‐0,365a  ‐0,286 

Desempenhos das distâncias 5km, 10km, 21,1km. Desempenho da maratona de Porto Alegre 2015 dividido em dois trechos da maratona (prmeia e segmeia). Na parte inferior: massa, IMC, dias de treino por semana (Trsemana), volume semanal (Volsemana) e o maior volume semanal feito (Mvolume). Indica significância, p < 0,05 símboloa, p < 0,01 símbolob.

Discussão

Em relação ao desempenho em provas mais curtas do que a maratona (D5km, D10km, D21,1km), os três grupos estudados apresentaram diferenças, nas distâncias de 5km e 21,1km, fator que indica uma maior integração entre os principais aspectos determinantes do desempenho da corrida (VO2máx, Economia de Corrida e Limiar Anaeróbio) de longa distância. Na distância de 10km houve diferença entre os grupos GR e GM. Segundo Noakes et al. (1990), os corredores mais rápidos na maratona também são mais rápidos em distâncias curtas e os melhores preditores de tempo de desempenho para as distâncias longas seriam o tempo de prova das distâncias de 10km e 21,1km. Nossos resultados mostraram uma correlação alta (r = 0,762; p < 0,01) para os 5km e 21,1 km (r = 0,812; p < 0,01) e moderada para os 10 Km (r = 0,604; p < 0,01) entre 96 dos 102 corredores, o que poderia ser atribuído à maior média dos tempos dos nossos maratonistas (94 minutos) em comparação com o estudo citado (77 minutos) (Noakes et al., 1990).

Tanda e Knechtle (2013) demonstraram que a intensidade do treino é o fator mais importante que influencia o desempenho na maratona, seguido por percentual de gordura e distância média semanal. Em nosso estudo o maior volume semanal e volume semanal apresentaram correlação moderada com todos os atletas (r = ‐0,47 e r = ‐0,56) e com os grupos GR (r = ‐0,53 e r = ‐0,46) e GM (r = ‐0,43 e r = ‐0,44). Isso indica esses como principais fatores para o desempenho dentre as características de treinamento avaliadas.

Hagan et al., 1981,1987 observaram que o IMC foi melhor indicador em corredores experientes para o desempenho de prova em mulheres em comparação com homens. O IMC ideal para maior velocidade em provas de maratona, segundo Marc et al., 2014, é de 19,8 kg.m‐2. Em nosso estudo, o valor mais próximo do ideal foi do GR, com IMC de 22,3 kg.m‐2, os demais grupos apresentaram significativamente maiores médias de IMC. Esse achado poderia ser explicado pelo maior volume semanal e número de treinos por semana desse grupo, que causariam um gasto calórico semanal mais significativo.

A média de idade dos grupos encontrada no estudo é semelhante aos estudos de Trappe (2007) e Tanda (2011), o grupo GR é mais novo do que o GL. Em relação à estatura não houve diferenças entre os três grupos, achado semelhante aos estudos de Tanda (2011) e Slovic (1977).

No presente estudo, o número de maratonas completadas foi similar entre os grupos, com correlações moderadas e fracas GR (r = 0,59) GM (r = 0,49) e GL (r = 0,32) em discordância com o encontrado por Hagan et al., 1987, que encontraram uma correlação negativa moderada (r = ‐0,47). O autor creditou esse como importante aspecto para um bom desempenho em provas de longa duração, o que questionamos, visto que se trata de uma correlação de valor médio, e não alto. Achado semelhante foi encontrado no tempo de prática, sem diferenças entre os grupos, o que poderia indicar que experiência em provas não é um importante preditor de desempenho, o que corrobora Bale et al., 1985. Essa hipótese é reforçada pelo número de estreantes na maratona (28 no total), distribuídos de modo similar entre os grupos, como nos achados de Dolgener et al., 1994, que compararam dois grupos de estreantes na distância de maratona e não encontraram diferenças no desempenho. Dos vários índices analisados, alguns indicaram fraca correlação com o resultado final, como: D 42,2km (provas anteriores) r = 0,219 (p < 0,05). Hagan et al., 1981 sugerem que a experiência anterior, por si só, não é determinante para o desempenho, mas sim a intensidade de treino, que é mais importante do que o próprio VO2máx.

Grant et al., 1984 sugeriram que corredores iniciantes não precisam fazer altos volumes semanais e encontraram correlação negativa entre volume e tempo de desempenho de maratona. Embora não tenhamos entrevistado algum corredor de grupo de elite, vários corredores treinaram com altos volumes semanais (> 110km por semana). Diferentemente, em relação ao número de treinos por semana, os grupos GR e GM apresentaram maiores valores em relação ao GL, o GR apresentou uma frequência maior de dias, o que, em conjunto com o maior volume semanal médio, poderia ser responsável pelo melhor desempenho do GR. Valores maiores do que os relatados no estudo de Lepers e Cattagni (2012).

Contrariamente ao esperado, não há diferenças entre os grupos na prática regular de musculação. Isso indica que esse talvez não seja um preditor importante do desempenho nesses atletas. Esse achado é corroborado por estudo prospectivo semelhante ao presente estudo, no qual não foram observadas diferenças na redução de lesões em grupo de corredores que treinaram força máxima e grupo controle (Bale et al., 1985; Baltich et al., no prelo). Esse resultado deve ser analisado com cautela, pois vários achados demonstram que corredores de longa distância melhoram o desempenho após um programa de treinamento de força máxima ou rápida (Taipale et al., 2010; Mikkola et al., 2011; Beattie et al., 2016). Provavelmente, os diferentes protocolos e cargas usados nos treinamentos de força não tenham sido suficientes a ponto de apresentar uma forte relação com desempenho nesses corredores.

Legaz‐Arrese et al., 2007 encontraram um Coeficiente de Variação (CV) de 2,19% verificado nos 50 melhores sprinters e corredores de longa distância na Espanha. Em contraste, nosso estudo coletou dados principalmente de atletas amadores, que foram mais heterogêneos na distância da maratona com CV de 6,96%.

As maiores diferenças apresentadas estão relacionadas a aspectos do desempenho em provas mais curtas ou à influência da intensidade do treino no desempenho na prova de maratona. O ponto forte do presente estudo é fornecer dados sobre o perfil dos atletas maratonistas brasileiros, em vista da escassez de informações sobre essa população. O número de corredores desse estudo foi maior do que o dos estudos de Hagan et al., 1981e Sjödin e Svedenhag (1985), alcançaram 6,3% dos corredores homens concluintes dessa prova.

Entre as limitações do nosso estudo podemos citar a ausência de avaliação de composição corporal, avaliações fisiológicas específicas, acessos a diários de treinamento de cada atleta com percentuais usados em cada zona de intensidade. É bem reconhecido na literatura que outros aspectos, tais como nutricionais, psicológicos e ritmo individual de cada corredor, influenciam o desempenho em maratonas e não foram avaliados no presente estudo. Porém, entendemos que tais avaliações seriam inviáveis devido ao número de sujeitos (102) e às razões logísticas. Além disso, os resultados devem ser analisados com cautela, pois cada prova apresenta suas particularidades, como terreno e condições climáticas.

Conclusão

As principais diferenças entre os grupos dessa amostra foram encontradas no desempenho nas provas de distâncias menores e nos volumes de treinamento. Isso demonstra que corredores mais rápidos na maratona foram também mais rápidos em distâncias menores e treinaram maiores volumes semanais. As aplicações práticas indicam que, ao decidir correr a prova de maratona, o atleta já deve ter conseguido bons tempos em provas mais curtas e manutenção de maiores volumes de treinamento, demonstra assim boa integração dos fatores determinantes da corrida. Além disso, índices como experiência anterior e distâncias dos treinos longos, nessa amostra, não foram bons indicadores de desempenho na corrida de 42 km.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Agradecimentos

Este estudo não seria possível sem o auxílio do CNPq/Brasil e da Capes/Brasil. Também agradecemos ao Grupo de Pesquisa Locomotion/UFRGS pelas discussões e pelos comentários.

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Autor para correspondência. (Leonardo Alexandre Peyré‐Tartaruga leonardo.tartaruga@ufrgs.br)
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