Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
Saudável e fashionable: a patinação no Rio de Janeiro do século XIX (1878‐1892)
Healthy and fashionable: skating in 19th century Rio de Janeiro (1878‐1892)
Saludable y moderno: el patinaje en Río de Janeiro durante el siglo XIX (1878‐1892)
Victor Andrade de Melo
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Recebido 05 Novembro 2015, Aceitaram 01 Julho 2016
Resumo

Entre 1878 e 1892, se estruturaram no Rio de Janeiro algumas experiências pioneiras de uma diversão que logrou rápido e intenso sucesso: a patinação. Considerando que a imprensa já desempenhava um relevante papel à época, pretende‐se discutir os posicionamentos sobre a modalidade publicados em revistas e jornais fluminenses. Interessa‐nos, inclusive, sua peculiaridade em relação a outras práticas corporais existentes no momento (esportes, ginástica, dança). O intuito é lançar mais um olhar sobre essa diversidade que se delineava em um momento importante na consolidação tanto dessas manifestações culturais quanto da nação brasileira, processos que se articulavam e tinham a capital do país como palco privilegiado.

Abstract

Between 1878 and 1892, it were structured in Rio de Janeiro some pioneering experiences of skating, a practice that obtained fast and intense success. Considering that press has played an important role at that time, this article intends to discuss the meanings attributed to this amusement in fluminenses newspapers and magazines, including its peculiarities compared to other body practices (sports, gymnastics, dance). The aim is to launch a look at this diversity that were in organization in an important moment of the consolidation both of these cultural manifestations and the Brazilian nation, processes that were articulated and had the country capital as a privileged place.

Resumen

Entre 1878 y 1892, surgieron en Río de Janeiro algunas experiencias pioneras del patinaje, una práctica que logró un rápido e intenso éxito. Teniendo en cuenta que la prensa desempeñaba un papel importante en aquel momento, este artículo pretende mostrar los planteamientos que se hacían sobre esa modalidad en periódicos y revistas fluminenses, que citaban su singularidad en comparación con otras prácticas corporales de aquella época (deportes, gimnasia o danza). El objetivo es echar un vistazo a esa diversidad que existía en un momento importante en la consolidación tanto de esas manifestaciones culturales como de la nación brasileña, procesos que se articulaban y tenían a la capital del país como un espacio privilegiado.

Palavras‐chave
História do esporte, História do lazer, História do corpo, Patinação
Keywords
Sport history, Leisure history, Body history, Skating
Palabras clave
Historia del deporte, Historia del ocio, Historia del cuerpo, Patinaje
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Introdução

“Dize‐me se patinas, dir‐te‐ei quem és. Tal será dentro de pouco tempo o mote da suprema elegância”.1 Com o tom irônico usual de suas crônicas, Machado de Assis assim diagnosticou a repercussão de uma novidade que desembarcou no Rio de Janeiro nos anos 1870, a patinação. Menos de um mês depois, o literato sugeria que a prática integrava o quadro de uma vida pública muito ativa: “Nada direi das corridas de domingo, para não cair na repetição. A vida fluminense compõe‐se agora de óperas, corridas, patinação e pleito eleitoral; é um perpétuo bailado dos espíritos”.2

No Rio de Janeiro, as primeiras experiências com a patinação foram organizadas em 1872, no Teatro Pedro II, na ocasião o mais importante da Corte, propriedade de um conhecido empresário do entretenimento, Bartholomeu Correia da Silva. A despeito da relevância da iniciativa, até mesmo em função de sua curta duração – apenas dois meses – não se consolidou o gosto pela modalidade na cidade, algo que se observou apenas a partir de 1878, quando foi inaugurado o primeiro rinque mais bem estruturado, o Skating‐Rink.

Poucos meses depois da sua inauguração, assim registrou um cronista da Gazeta de Notícias, periódico que ocupou espaço de relevância na sociedade fluminense do último quartel do século XIX:

A patinação é atualmente o divertimento quase que se pode dizer universal. Ainda há bem pouco tempo só capazes visitados pelo gelo gozavam deste exercício tão higiênico como a ginástica e a esgrima. No Skating‐Rink há hoje corridas de amadores, o que quer dizer uma enchente de espectadores.3

Na ocasião, já tinham recrudescido os entretenimentos, a reboque de uma maior dinamização da vida pública que, na década de 1860, se reduzira por pelo menos três motivos: uma crise econômica, a ocorrência de epidemias e a Guerra do Paraguai (Melo e Schwan, 2014). Contribuiu também com o renovado frenesi urbano a atuação de grupos abolicionistas e republicanos, que ganharam força com o fim do conflito ao sul do país. Nesse momento tão importante para a nação, no âmbito da diversão, de forma múltipla, sentiam‐se as tensões e mudanças que se delineavam na economia, política e cultura.

O Skating‐Rink rapidamente tornou‐se um centro de diversões, oferecia, além da pista para a patinação, eventos de outras práticas corporais (como lutas) e espetáculos musicais e teatrais. A despeito de seu sucesso, em 1879 o estabelecimento fechou suas portas, já que o proprietário, Frederico Glette, decidiu abrir no seu lugar o que seria uma das mais importantes indústrias da cidade no século XIX, a Fábrica de Tecidos Rink.

A essa altura, já estava disseminado o gosto pela prática. Mesmo que durante anos não houvesse um rinque como o do antigo estabelecimento, diversos clubes, inclusive alguns não diretamente ligados à prática de esportes, adaptaram suas instalações para tal e ofereciam a patinação a seus associados. Foi exatamente uma agremiação, o Clube Guanabarense, a responsável por construir uma nova pista, em 1887.

Uma vez mais, o sucesso foi imediato. A procura foi tão grande que, em pouco tempo, o rinque foi ampliado e aberto ao público em geral disposto a pagar ingressos, não mais somente aos associados. Essa mudança desencadeou diversas tensões entre os frequentadores – ligadas a padrões de comportamento, status e distinção – fatos que não interferiram na popularidade da modalidade.

Não surpreende, assim, que tenha tido grande sucesso o Belódromo Nacional, criado em 1892, com o intuito de oferecer o ensino, a prática e corridas de patinação e bicicleta. Similar às experiências anteriores, destacou‐se por ser uma iniciativa ainda mais estruturada, tornou‐se, como ocorrera com seus antecedentes, uma referência no âmbito do entretenimento naquele fim de século.

Se as mudanças sociais em curso e o novo conjunto de opções de diversão delinearam novas possibilidades de exposição e usos do corpo, na mesma medida em que se desencadearam preocupações com as consequentes necessidades de regulação, que peculiaridades cercaram a prática da patinação naquele cenário?

Tendo em conta o período de funcionamento dessas experiências pioneiras, entre 1878 e 1892, e considerando que a imprensa já desempenhava um relevante papel à época, pretendemos discutir os posicionamentos sobre a patinação publicados em revistas e jornais fluminenses. Interessa‐nos, inclusive, sua peculiaridade em relação a outras práticas corporais existentes no momento (esportes, ginástica, dança).

Parte de um projeto mais amplo, o intuito deste artigo é lançar mais um olhar sobre a diversidade de práticas corporais que se delineavam no Rio de Janeiro do século XIX, momento importante na consolidação tanto dessas manifestações culturais quanto da nação brasileira, processos que se articulavam e tinham a capital do país como palco privilegiado.

Um esporte peculiar

No Rio de Janeiro do século XIX, a patinação se apresentava em três diferentes formatos. Um deles era a prática livre, em rinques e clubes, em geral os estabelecimentos alugavam ou ofereciam os patins. O segundo era sua inserção em espetáculos, exclusivos da modalidade, ou apresentações nos moldes circenses. O terceiro eram as corridas.

Quando se conformava a prática da patinação no Rio de Janeiro, o campo esportivo já estava em vias de consolidação (Melo, 2009a, 2009b). Havia proximidades materiais e simbólicas entre ambos. Eram atividades que se delineavam em um cenário marcado pela pretensão de adesão a ideias de progresso e civilização. Relacionavam‐se à estruturação de um mercado ao redor dos entretenimentos. Além disso, os aproximava uma maior possibilidade de exibição corporal na cena pública.

As competições de patins adotavam os mesmos moldes das provas que ocorriam nos hipódromos (turfe) e nos mares (remo). O modelo foi sempre muito parecido no decorrer dos anos. Pelos jornais, se divulgava uma chamada para “amadores” dispostos a participar. Os inscritos eram divididos em páreos. A programação era diversa e comumente apresentava novos desafios.4 Membros da direção da empresa/clube ou personalidades que frequentavam o rinque assumiam a função de árbitros. Os vencedores recebiam prêmios, nunca em dinheiro, mas sim artefatos, como estojos de prata, isqueiros e relógios de ouro.5

Sabemos pouco sobre esses primeiros competidores. Nos jornais, seus nomes eram apresentados somente pelas iniciais. De toda forma, há indícios de que foi crescente o número de interessados. Um grupo de caixeiros, categoria muito envolvida com os diversos entretenimentos (Popinigis, 2007; Melo e Schwan, 2014), chegou a solicitar que provas fossem no domingo para que pudessem tomar parte.6

As corridas atraíam bom público, mesmo que os ingressos custassem o dobro do usual (2$000).7 Por vezes chamadas de “noite do high life”, contaram em muitas ocasiões com a presença de importantes personagens da sociedade fluminense, inclusive a família imperial.8 As provas entusiasmavam, exponenciavam vários sentidos da patinação que, de alguma forma, se coadunavam com noções que começavam a se tornar mais socialmente valorizadas: a velocidade, o desafio, a performance corporal, a exibição pública.

O Skating‐Rink acolheu eventos de outras atividades atléticas, como provas de luta romana, nas quais se destacava “Battaglia, o primeiro Hércules”, que desafiava o público a enfrentá‐lo.9 No estabelecimento também foram promovidas as primeiras lutas de boxe da cidade, em agosto de 1878: “Soco Inglês ou Box‐ing (...), pelo Sr. Harry Clark, que dá 100$ de prêmio a quem o vencer, conforme o regulamento do Box‐ing que se dará em programa”.10 Ao anunciar‐se a segunda sessão da nova modalidade, rogou‐se “aos jogadores que não se zanguem se durante o jogo não gostarem de algum soco”.11

Em muitos momentos, houve iniciativas semelhantes de instruir a plateia acerca dos novos divertimentos. Essa postura também se percebe em outros torneios que acolheu o Skating‐Rink, como os de bilhar, apresentado como “científico divertimento”;12 de velocípedes, antecedentes das bicicletas, outra novidade que chegava à cidade e entusiasmava;13 de esgrima14 e corridas diversas.15 Compreendia‐se que o público precisava ser educado em seus procedimentos públicos, no que tange tanto a assistir quanto a praticar as modalidades.

Com tanta relação com o esporte, não surpreende que tenham surgido iniciativas de criar agremiações de patinação. Em dezembro de 1878, comunicou‐se a existência e eleição da diretoria do Clube dos Patinadores, cujo intuito era promover corridas.16 Sediada no Skating‐Rink, a sociedade parece não ter passado dos planos iniciais.

Uma segunda iniciativa, mais bem estruturada, houve em agosto de 1880. Um grupo de interessados se reuniu no Jockey Clube com o objetivo de criar o Skating Clube.17 Decidiu‐se que a agremiação deveria oferecer várias diversões, com destaque para a patinação, velocipedia e bilhar. A sociedade se estabeleceu numa sala na Rua do Ouvidor, a mais prestigiosa da cidade na ocasião. O primeiro evento foi promovido no Skating‐Rink, antes que fosse definitivamente destruído.18

Entre os dirigentes, destacam‐se os nomes de João Alvares de Azevedo Macedo (como presidente), membro de uma das mais tradicionais famílias do Rio de Janeiro, médico famoso ligado aos temas da saúde pública; Alfredo Lage (como vice‐presidente), filho de Mariano Procópio Ferreira Lage (industrial e dirigente do Jockey Clube), fotógrafo envolvido com o colecionismo de obras de arte; Arthur Mendonça (como secretário), esculápio muito ativo, inspetor sanitário, um dos criadores da Revista Médica. Como se pode perceber, dois deles estavam envolvidos com iniciativas ligadas às preocupações com a saúde e a higiene.

A criação do Skating Clube foi por alguns muito celebrada, considerada como feliz iniciativa de jovens que se preocupavam com o bem‐estar social. Um dos mais entusiasmados foi E. J., cronista do folhetim da Gazeta de Notícias. Depois de tecer muitas considerações sobre a má educação das crianças brasileiras, até em função da equivocada atuação das escolas, elogiou o fato de que gente de todas as idades poderia frequentar as atividades da agremiação.

Por encarar o clube como uma “instituição patriótica e necessária”, exaltou os fundadores pela contribuição que prestavam ao país, “um verdadeiro serviço, maior do que parece à primeira vista, muito maior do que eles próprios supõem”.19 Tratar‐se‐ia não somente de uma simples diversão, mas de uma iniciativa que ajudaria a forjar o progresso da nação.

O cronista descreveu com grande empolgação a primeira atividade do Skating Clube. No seu olhar, foi uma gloriosa ocasião, prestigiada pela fina flor da elite fluminense. Foram feitos 10 páreos, seis de patins e quatro de velocípedes, contaram com bom número de competidores, incentivados por uma plateia eufórica.

Trata‐se, de fato, de uma das mais efusivas celebrações da patinação, entabulada por alguém que preconizava o avanço civilizacional e a modernização da sociedade fluminense. A despeito dessa empolgação e da boa acolhida do público, assim como ocorrera com o Clube dos Patinadores, o Skating Clube não foi à frente. Uma das razões aventadas foi a falta de espaço adequado em função do fim do Skating‐Rink.

Alguns anos depois, corridas semelhantes foram organizadas por certas agremiações, especialmente pelo Clube Guanabarense, pelo Clube Ginástico Português e pelo Clube Atlético Fluminense. Em linhas gerais, o formato era similar ao anterior, com a diferença de que havia maior participação de mulheres, os nomes dos participantes já eram amplamente divulgados e apostas eram mais aceitas e até mesmo estimuladas.

De toda forma, a modalidade, pelo menos no período que abordamos, não conseguiu se consolidar como um subcampo esportivo propriamente dito. Não havia um calendário de provas, sequer competições constantes, tampouco participantes envolvidos costumeiramente se preparavam com antecedência para tal. A experiência de formação de equipes era muito ocasional. No que se refere a clubes específicos, somente houve as duas iniciativas citadas.

Por que isso ocorreu se era grande o interesse tanto pelos esportes quanto pela patinação? A explicação se encontra na sua apreensão pela sociedade fluminense do século XIX.

Utilidades

Desde os seus primórdios na cidade, se argumentou que a patinação traria benefícios para a saúde. Na primeira ocasião em que mereceu um comentário mais longo, no folhetim do Diário do Rio de Janeiro, o cronista não poupou elogios ao “divertimento agradável, útil, inocente, adotado na Europa e nos Estados Unidos”.20 Segundo seu olhar, “não há dúvida de que semelhante recreio aproveita ao desenvolvimento muscular, à agilidade e à arte do equilíbrio”.

A primeira propaganda do Skating‐Rink mobilizou representações semelhantes. A modalidade foi apresentada como saudável e fashionable. Supostamente fortalecia tanto a força muscular quanto o bem‐estar social, tanto a flexibilidade e os pulmões quanto a graça e as boas maneiras. Os argumentos apresentados claramente articulavam o glamour e os benefícios corporais, a saúde física e a social.

Essa motivação também se identifica nos discursos dos que fundaram, em 1880, o Skating Clube. Para o já citado cronista E. J., era uma iniciativa ainda mais vigorosa do que o antigo Skating‐Rink por ter nascido de “alguns moços inimigos da lazeira e da preguiça”, certos de que era preciso reagir “contra a moleza que toma conta do corpo e pouco a pouco invade o espírito”. O autor não tem dúvida de que “sem a robustez do físico vai‐se a força do intelecto”.21 O sedentarismo era apresentado como inimigo do progresso; a patinação, sugerida como uma boa forma de combater esse mal.

A potencial contribuição à nação é enfatizada em um elogio à criação do Belódromo Nacional. A patinação poderia ajudar a forjar os fortes cidadãos tão necessários à defesa e ao progresso do país: “Quer pelas suas significações militares, quer pelas suas contribuições para a educação física, ou simplesmente como prazer tonificador e distinto, a velocipedia e a patinação (...) devem merecer a atenção do público e a cultura de diversas classes”.22

Uma suposta peculiaridade da patinação era sempre exaltada. Na citada propaganda do Skating‐Rink, ressaltou‐se que os ganhos poderiam ser obtidos de forma divertida e sem excessivo cansaço. A prática seria acessível até aos mais refratários, indicada mesmo para aqueles “cuja profissão é sedentária ou que cultivam as letras”.23 As faculdades de medicina de vários países já teriam atestado tal potencialidade.

Alguns anos depois, na coluna Vida Elegante, da Gazeta de Notícias, ao exaltar a importância do rinque do Clube Guanabarense, um cronista sugeriu que uma das vantagens da patinação seria desenvolver “as forças físicas, a robustez e o vigor muscular” e evitar o “inconveniente de atuar tão diretamente sobre os órgãos respiratórios, fatigando‐os”.24 Seria similar à dança, por isso perfeita também para as mulheres.

Olhares semelhantes podemos ver numa reportagem do Moniteur Therapeutique, “O Skating‐Rink debaixo do ponto de vista médico”, publicada em A Mãe de Família,25 periódico dedicado à educação infantil. Sugeria‐se que não só era um dos mais completos e salutares divertimentos, notadamente para as mulheres, como até mesmo melhor do que a dança. Uma de suas potencialidades seria não ser um exercício extenuante.

A repetição desse argumento é um indício de que era uma preocupação daquele tempo que se evitassem atividades muito intensas, até por desconhecimento de suas consequências para o corpo, especialmente para as mulheres, supostamente mais frágeis. Segundo o autor francês, haveria mesmo uma razão de natureza fisiológica para explicar os benefícios da patinação: a junção de exercícios ativos e passivos numa mesma prática.26 Tendo em vista essa característica, impactos na saúde eram notáveis: melhoria da digestão e do apetite; alívio para “pessoas nervosas”, atacadas de “nevralgias e insônia”; bálsamo para moças anêmicas que sofrem com a menstruação.

Certamente essas afirmações carecem de fundamento científico, ainda que com esse teor e autoridade fossem proferidas nas condições do momento. O que nos importa mesmo são as representações. Elas nos ajudam a entender uma parte dos estímulos que levaram a patinação a se tornar uma prática que abriu possibilidades de uso do corpo, por ser considerada uma modalidade que conjugava novas dimensões socialmente valorizadas (como a saúde) com antigas preocupações (por exemplo, podia ser feita com roupas não demasiadamente curtas).

De fato, a exaltação da patinação, a partir de sua relação com a saúde, deve também ser compreendida no âmbito do crescimento de preocupações com o tema, mais perceptível no Rio de Janeiro desde os anos 1850. Tratava‐se de um cada vez mais intenso processo de construção e legitimação do saber médico‐científico, do “surgimento da ideologia da higiene” (Chalhoub, 1996). No pós‐Guerra do Paraguai, isso até mais comumente se articulou com a questão da defesa nacional.

A relação com a saúde também existia nos discursos sobre o esporte (Melo, 2013) e a ginástica (Melo e Peres, 2014). Nesses dois casos, todavia, ainda havia menos iniciativas de praticar propriamente a modalidade do que de assistir aos eventos, diferentemente do que ocorria com a patinação, na qual se percebia maior equilíbrio entre as duas formas de envolvimento.

Essa característica ajuda a entender a proximidade estabelecida com a dança, na qual havia também mais envolvidos (e envolvidas) com a prática considerada “não extenuante”. É importante dizer que mesmo quando os rinques se transformaram em casas de espetáculos, os períodos reservados à prática da patinação foram mantidos e seguiram muito procurados pelo público.

Preocupações e críticas

Mesmo muito elogiada, havia preocupações e críticas à patinação. Até mesmo por tantas conexões com a saúde, um aspecto da prática preocupava a muitos, ainda que por outros fosse considerado um atrativo jocoso: as quedas. Nos jornais, com um misto de apreensão, curiosidade e por vezes certa picardia, eram comuns as notícias de tombos dos artistas em suas apresentações ou amadores em prática livre ou corridas.

Foi dedicada ao tema grande parte da cobertura de O Besouro da cerimônia de inauguração do Skating‐Rink. Aproveitou‐se o assunto para ironizar o quadro político da nação. Segundo um cronista, o Imperador “teve ímpetos de patinar, chegou mesmo a calçar uns patins imperialistas, mas deteve‐o uma poderosa razão – receio de cair, e que a multidão exclamasse – caiu a coroa!”.27 No momento, Pedro II era muito questionado por grupos diversos, especialmente republicanos e abolicionistas.

Na maior parte dos casos, os comentários diziam respeito a anônimos. Ironizou o cronista de O Mequetrefe: “Grande sarilho nas patinações de Skating‐Rink. Braços quebrados, arranhões etc. Felizmente conosco nada tem sucedido porque lá aparecemos só para apreciar”.28 Em O Repórter, outro periodista brincava: “A maior felicidade está em não quebrarmos os nossos braços no Rink”.29 Contusões, de fato, eram mais comuns do que esperavam os que exaltavam a prática.

Até mesmo em função das representações construídas, para alguns os tombos deveriam ser evitados para que não maculassem as potencialidades que supostamente teria a patinação. Além disso, poderiam afastar os interessados. Por essa preocupação, a oferta de instrutores foi constante e fundamental para garantir o sucesso das iniciativas.

De toda forma, a possibilidade de quedas não foi suficiente para arrefecer a empolgação com a modalidade. “O Skating Rink vai forçosamente ser o lugar do rendez‐vous da sociedade fluminense”,30 assim um cronista celebrou e perspectivou o futuro do estabelecimento. Todavia, havia outros problemas a gerenciar, notadamente os relacionados à popularização dos espaços de patinação.

Preocupados com a “mistura de públicos”, maior até mesmo do que havia em outras diversões (como o teatro, o turfe e o remo), os responsáveis pelo Skating‐Rink conceberam um regulamento, uma tentativa de ordenar a prática para que ela permanecesse reconhecida como fashionable.31 Na verdade, tratou‐se também de atender uma exigência das autoridades, tais normas foram aprovadas pelo chefe de polícia.

A iniciativa mereceu fartos comentários do cronista responsável pelo folhetim de O Cruzeiro (Notas Semanais).32 Elogiou o fato de o regulamento determinar a vestimenta adequada para a prática, a fim de evitar que alguns se apresentassem em trajes deselegantes ou imorais. Não se deveria confundir relações mais distendidas com excesso de informalidade. Além disso, exaltou a normatização dos procedimentos de patinar, a seu ver fundamental para que o cavalheirismo imperasse, homens e mulheres pudessem de fato conviver no mesmo espaço, todos pudessem melhor desfrutar a diversão.33

O periodista traduzia bem as preocupações que desencadeavam e correspondiam às iniciativas de controle e disciplinamento. A patinação era celebrada como uma boa opção numa cidade que cada vez mais ansiava por divertimentos, como um espaço de maior liberdade, por ser saudável e refinada. Até mesmo por tudo isso, nunca se deveria perder de vista a moralidade, nem tampouco sua suposta utilidade.

Chegou a haver reclamações. Um cronista da Gazeta de Notícias observou que não estava sendo respeitada a norma de que algumas sessões fossem exclusivamente destinadas a famílias: “Esperamos que continue a reinar neste estabelecimento a mesma moralidade que até aqui tem havido”.34

Uma das maiores polêmicas ocorreu quando começaram as apresentações de patinadores estrangeiros. Incomodaram a alguns os chamados “maus comportamentos” dos artistas. Pelos jornais, frequentadores chegaram a solicitar a interrupção do espetáculo, até com ameaças de se afastar do rinque.35

Provavelmente tratava‐se de um choque de posturas. A sociedade fluminense já acolhia algumas inovações, mas ainda com limites. Além disso, incomodava a uma parte dos frequentadores a presença de gente de camadas mais populares, bem como confusões e turbas que se tornavam mais comuns. Dramatizava‐se um embate sobre quem poderia ou não frequentar o fashionable espaço, que não deveria se confundir com um circo, na visão dos mais críticos.

Houve contestações contundentes à forma de funcionamento do Skating‐Rink. Para um leitor, tratava‐se de uma grande enganação, que nenhuma notável utilidade tinha, a não ser encher os bolsos dos proprietários. Segundo seu olhar, o divertimento não ia lograr continuidade pela desorganização e confusão constantes.36 Contestações semelhantes apareceram outras vezes nos jornais, expressões de um setor da sociedade que no mínimo desconfiava da nova diversão.

Foram veiculadas até mesmo ponderações sobre a questão da saúde, tão cara aos que defendiam a modalidade. Alceste, no folhetim do Diário do Rio de Janeiro (Bric‐Brac), sugeriu que os ganhos seriam exclusividade dos que já eram robustos. Além disso, criticou a patinação noturna, pois supostamente o ar frio da noite poderia ser prejudicial. Além disso, para ele os frequentadores buscavam “menos o utile do que o dulce”.37

Um colunista de O Apóstolo, um periódico de perfil conservador vinculado à Igreja Católica, também questionou se, de fato, a prática traria algum benefício para as mulheres. Para ele, a patinação acentuava a sensualidade feminina, desvirtuava a verdadeira função das mulheres, cuidar do lar e da família; vilipendiava‐se a tão sagrada imagem da mãe. Mesmo os argumentos de que traria benefícios para a saúde, segundo o olhar do cronista, não se sustentariam. Não havia dúvidas de que se tratava de uma afronta à moralidade.38

A presença ativa de mulheres certamente era um componente que ampliava as preocupações. Eleazar, na verdade Machado de Assis, no folhetim de O Cruzeiro (Notas Semanais), ao comentar uma sessão no Skating‐Rink, observou: “Noto que, por ora, o belo sexo é avaro das suas graças na patinação. Salvo algumas meninas de cinco a onze anos, creio que nenhuma dama, ou rara, desceu à arena. Pois era o meio de lhe comunicar um pouco mais de elegância e correção”.39 O literato‐cronista reivindicava uma maior presença feminina, sinal dos novos tempos. De fato, esse quadro rapidamente alterou‐se.

A mudança tornou‐se explícita no âmbito do Clube Guanabarense. As mulheres eram presença constante e seus nomes orgulhosamente registrados. Essa frequência feminina passou a ser exibida como sinal de que a iniciativa estava sintonizada com os novos tempos. Por esse motivo, e pela presença de gente de vários setores das elites, um cronista consagrou: “Decididamente, o Rink do Clube Guanabarense é hoje, (...), o rendez‐vous obrigado da sociedade elegante”.40

Essa maior aceitação não significou que tivessem sido eliminadas as tensões, muito pelo contrário, até mesmo porque, com a constante presença de moças, também aumentou o número de rapazes dispostos a cortejá‐las, até se exibindo no rinque. Mesmo com restrições, a possibilidade de flertar passou a ser mais um dos atrativos. O cronista K. Marão, em O Besouro, em longa poesia irônica aborda o tema41.

Basílio (uma referência ao Primo Basílio, de Eça de Queiroz) se faz acompanhar da prima no rinque de patinação. Supostamente não tendo a mesma habilidade, “Pede a prima a sorrir/Que lhe dê uma lição/Ela acede e dá‐lhe a mão”. Na verdade, o rapaz aproveita a ocasião para seduzir a moça, “Gaba a prima os longos cílios!/Cílios lúbricos, sensuais/E os encantos divinais/Que a tornam ideal!” Ao fim, a prima cede à corte, mas a emoção do encontro ocasiona um jocoso incidente:

Ele então atarantado,

Com o progresso alcançado

Na lição de patinar,

Escorrega: - E de pés para o ar

Na queda arrasta a prima,

Que em cheio lhe cai em cima

E lhe diz em confusão

Oh! Basílio! Que sensação!

Em algumas ocasiões, os jornais sugeriram que as mulheres não eram necessariamente vítimas dessas investidas, estratégias masculinas frente à nova possibilidade de encontros públicos. Elas também seriam agentes interessadas. De forma irônica, na satírica Vida Fluminense, contou‐se a suposta história de Anita que “patinando, cai, e deixa ver coisas que... A mãe observa‐lhe: – Eu não digo que fazes mal em patinar? – Ora! É com isto que tenciono achar marido...”42

Numa cidade cheia de novidades, era mesmo a patinação uma boa expressão do conjunto de mudanças em marcha, bem como das tensões que cercavam esse processo.

Conclusão

Uma charge de Bordallo Pinheiro, publicada em O Besouro, expressa como a patinação passou a ser apresentada como um dos divertimentos preferidos da cidade. A irônica legenda relacionou a modalidade com a conjuntura da capital: “O Rio de Janeiro é um largo Skating onde todos rinquamos, escorregando, sustendo‐nos, equilibrando‐nos e caindo”.43

Diversas eram as novas possibilidades de exposição e uso do corpo naquela sociedade fluminense em mudança, entre as quais as advindas de práticas que se constituíam em valorizadas diversões. O esporte era uma delas, ainda que houvesse, em geral, mais gente que assistia do que praticava (mesmo que existissem diferenças entre as modalidades). Também na ginástica, mesmo que fosse maior o número de praticantes, os exercícios eram mais apreciados nos espetáculos oferecidos por sociedades próprias, clubes e circos.

A patinação tinha mais similaridades com a dança. Ainda que houvesse a dimensão do espetáculo e da disputa, sempre importantes para atrair e incentivar o público, formas de exponenciar representações que marcavam a modalidade – a valorização do desafio e da velocidade – reinava mais a ideia de prática não competitiva, possível de ser experimentada com maior adequação por ambos os sexos e por gente de diversas faixas etárias. Sempre foi denotado o seu caráter de diversão.

Essa representação também se devia a suas características: exercícios menos extenuantes, possíveis de serem praticados com roupas mais compostas e glamorosas, com menor necessidade de exposição corporal. Ainda que fosse encarada como um sinal de progresso, a patinação não só rompia menos com certos costumes como ainda os referendava. A despeito disso, ao seu redor houve preocupações e críticas ligadas à sua adequação e aos seus limites.

A patinação, assim, dramatizava as tensões daquela sociedade fluminense em transição, que buscava se vincular a discursos de civilização, mas ainda mantinha muito de seus hábitos anteriores. Sua peculiaridade é de certa forma traduzida por Machado de Assis, uma metáfora dos riscos que cercavam as novas posturas sociais em delineamento:

Não é nas unhas do cavalo que havemos de pô‐la (a alma) quando formos ao Skating‐Rink, mas nas próprias unhas, ou, melhor dito, nos patins que as substituem. No Prado Fluminense a gente faz correr o seu dinheiro nas ancas do quadrúpede, e por mais que se identifique com este, o amor‐próprio só pode receber alguns arranhões, mais ou menos leves. Na patinação, a queda orça pelo ridículo, e cada sorriso equivale a uma surriada. Sem contar que não se arrisca somente o amor‐próprio, mas também o pelo, que não é menos próprio, nem menos digno do nosso amor.44

Financiamento

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Conflitos de interesse

O autor declara não haver conflitos de interesse.

Referências
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Unicamp, (2007)

O Cruzeiro, 7 jul. 1878, p. 1.

O Cruzeiro, 4 ago. 1878, p. 1.

Gazeta de Notícias, 23 jan. 1879, p. 2.

Por exemplo, na competição de 7 de agosto de 1878, as provas foram: 8 voltas, 5 voltas de costas, 4 voltas sobre um só patim, 10 voltas, Hurdle Race – com dois obstáculos – 4 voltas, Crianças – duas voltas. Esse anúncio sobre uma das primeiras corridas feitas na cidade é um bom exemplo da dinâmica do evento. Gazeta de Notícias, 7 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 22 ago. 1878, p. 2.

O Cruzeiro, 5 out. 1878, p. 3.

Melo e Peres (2014) demonstram que a maior parte das diversões tinha um ingresso mais barato, a 1$000.

O Cruzeiro, 22 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 21 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 26 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 28 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 29 ago. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 7 out. 1878, p. 4.

Gazeta de Notícias, 4 jan. 1879, p. 3.

Gazeta de Notícias, 9 jan. 1879, p. 4.

O Cruzeiro, 21 dez. 1878, p. 3

Gazeta da Tarde, 7 ago. 1880, p. 2.

Gazeta de Notícias, 7 set. 1880, p. 4.

Gazeta de Notícias, 8 set. 1880, p. 1.

Diário do Rio de Janeiro, 1 set. 1872, p. 1.

Gazeta de Notícias, 8 set. 1880, p. 1.

Diário de Notícias, 28 ago. 1892, p. 2.

Gazeta de Notícias, 27 jun. 1878, p. 4.

Diário de Notícias, 18 out. 1887, p. 1.

Mãe de Família, abr. 1880, p. 63.

Mãe de Família, abr. 1880, p. 63.

O Besouro, 29 de junho de 1878, p. 6.

O Mequetrefe, 13 jul. 1878, p. 2.

O Repórter, 14 fev. 1879, p. 4.

Gazeta de Notícias, 2 jul. 1878, p. 1.

Diário do Rio de Janeiro, 9 jul. 1878, p. 4.

Provavelmente trata‐se de Machado de Assis.

O Cruzeiro, 14 jul. 1878, p. 1.

Gazeta de Notícias, 4 out. 1878, p. 3.

Gazeta de Notícias, 5 out. 1878, p. 2.

O Cruzeiro, 18 ago. 1878, p. 5.

Diário do Rio de Janeiro, 25 ago. 1878, p. 1.

O Apóstolo, 6 fev. 1878, p. 2.

O Cruzeiro, 11 ago. 1878, p. 1.

Diário de Notícias, 18 out. 1887, p. 1.

O Besouro, 18 jul. 1878, p. 118.

Vida Fluminense, ano 2, n. 22, 15 fev. 1890, p. 2.

O Besouro, 13 jul. 1878, p. 113.

O Cruzeiro, 7 jul. 1878, p. 1.

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