Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:374-80 - Vol. 40 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.02.001
Artigo Original
Satisfação com a vida e status social subjetivo em atletas de futsal e futebol de campo
Satisfaction with life and subjective social status in athletes of indoor soccer and soccer
Satisfacción con la vida y el nivel social subjetivo en jugadores de fútbol sala y de fútbol
Walan Robert da Silvaa,, , Kamyla Freitasa, Helton de Carvalhoa, Elisa Ferraria, Mariluce Vieirab, Fernando Luiz Cardosoa,c
a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (Cefid), Laboratório de Gênero, Educação, Sexualidade e Corporeidade (Lagesc), Florianópolis, SC, Brasil
b Universidade Oeste Catarinense (Unoesc), Laboratório Interdisciplinar do Lúdico e do Comportamento Motor (Lilucom), Chapecó, SC, Brasil
c Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), Programa de Pós‐Graduação em Educação (PPGE), Florianópolis, SC, Brasil
Recebido 04 Abril 2016, Aceitaram 20 Fevereiro 2018
Resumo

O objetivo foi verificar diferenças na satisfação com a vida e no status social subjetivo entre atletas de futebol e futsal e analisar possíveis relações entre essas variáveis. Participaram 142 atletas, do sexo masculino. Foram usadas a Escala de Satisfação com a Vida e Escala MacArthur de Status Social Subjetivo. Na análise dos dados usaram‐se estatística descritiva, teste qui‐quadrado, teste exato de Fischer, teste U de Mann‐Whitney e correlação de Spearman. Os atletas de futsal mostraram‐se mais satisfeitos com a vida e o status social subjetivo. A satisfação com a vida apresentou correlação positiva com as dimensões do status. Conclui‐se que os atletas de futsal do universo investigado têm uma maior percepção de satisfação com a vida e o status social subjetivo em comparação com os de futebol.

Abstract

The aim was to investigate differences in life satisfaction and subjective social status between soccer and indoor soccer athletes and analyze possible relationships between these variables. The study included 142 males athletes. Was used the Satisfaction with Life Scale and the MacArthur Scale of Subjective Social Status. Was used descriptive statistics, Chi‐square, Fisher exact test, U‐Mann Whitney test and Spearman correlation. Indoor soccer players were more satisfied with life and subjective social status. Satisfaction with life was positively correlated with all the dimensions that make up the subjective social status. It was concluded that the indoor soccer players have a greater sense of satisfaction with life and subjective social status when compared to soccer players.

Resumen

El objetivo fue estudiar las diferencias en la satisfacción con la vida y el nivel social subjetivo entre los jugadores de fútbol y de fútbol sala, y analizar las posibles relaciones entre estas variables. Participaron 142 jugadores de sexo masculino. Se utilizó la Escala de Satisfacción con la Vida y la Escala MacArthur del Nivel Social Subjetivo. Para el análisis de los datos se utilizó la estadística descriptiva, la prueba de chi cuadrada, la prueba exacta de Fisher, la prueba de la U de Mann‐Whitney y el coeficiente de correlación de Spearman. Los jugadores de fútbol sala estaban más satisfechos con la vida y el nivel social. La satisfacción con la vida se correlacionó positivamente con el nivel social subjetivo. Se concluyó que los jugadores de fútbol sala tienen mayor sensación de satisfacción con la vida y el nivel social subjetivo cuando se los compara con los de fútbol.

Palavras‐chave
Satisfação com a vida, Status social subjetivo, Futebol, Futsal
Keywords
Satisfaction with life, Social status subjective, Soccer, Indoor soccer
Palabras clave
Satisfacción con la vida, Nivel social subjetivo, Fútbol, Fútbol sala
Introdução

No esporte, a satisfação de um atleta caracteriza‐se por ser uma condição afetiva positiva a qual pode ser determinada por estruturas, processos e resultados avaliativos e complexos, relacionados com sua experiência esportiva (Chelladurai e Riemer, 1997). Ela pode estar associada aos resultados, aos padrões de melhorias pessoais nos esportes (Gaudreau e Antl, 2008), bem como, com a qualidade de vida ou a maneira como o atleta percebe e administra sua carreira esportiva (Riemer, 1998).

Esse conceito traduz o nível de encontro entre o que é vivenciado pelo atleta e seus padrões de exigência (Borrego et al., 2010), pois a satisfação com a vida (SV) é um dos componentes do bem‐estar subjetivo e está diretamente ligada ao aspecto cognitivo do indivíduo, refere‐se a um julgamento da própria vida, a uma avaliação da vida de acordo com seus critérios (Shin e Johnson, 1978; Diener et al., 1985; Albuquerque & Trócolli, 2004). A partir desse julgamento, dessa avaliação, o indivíduo busca um melhor status na sociedade, na comunidade, no grupo em que está inserido, visto que o status é um atributo que tem grandes influências nas relações sociais e se refere às avaliações coletivas de superioridade e inferioridade que adquirem uma existência além das crenças individuais (Ollivier, 2009).

Dessa forma, o status pode ser visto como subjetivo, em que o indivíduo se percebe frente ao grupo; e social, que é o consenso do grupo sobre esse indivíduo (Morris, 1967). Além disso, o status social também é marcado pela presença da hierarquia (Macleod et al., 2005) em algumas situações no contexto esportivo, no qual, geralmente, o técnico e o capitão da equipe são percebidos como os indivíduos que ocupam os níveis mais altos de hierarquia e liderança dentro do grupo (Loughead, Hardy & Eys, 2006; Rúbio, 2003).

Quando se trata do ambiente esportivo, as modalidades coletivas, principalmente as de alto rendimento, apresentam um ambiente de alta cobrança sobre os atletas, seja do técnico, da torcida, família ou sociedade em geral (Hoshino, Sonoo & Vieira, 2007). Assim, o trabalho fundamentado na psicologia do esporte corresponde um importante aspecto do treinamento desses atletas (Rúbio, 1999). Nesse contexto, destacam‐se as modalidades que têm maior apelo perante a população, como o futebol e as suas duas principais variações: futebol de campo e futsal. De acordo com a literatura, o futebol e o futsal operam como um importante elemento da cultura brasileira, exercem um papel transformador e socializador. Além disso, cultiva‐se a ideia de que todo brasileiro é um jogador em potencial, o que influencia a busca de meninos para serem jogadores (Rinaldi, 2000; Zaratim, 2012; Tedesco, 2014).

Sabe‐se que no futebol brasileiro a busca de jovens pela profissionalização no futebol é intensa, motivados pela fama, pelo dinheiro e status de ídolos (Morato, Giglio & Gomes, 2011) e influenciados pela família, mídia e pelos anônimos do futebol (Anjos, Saneto & Oliveira, 2012). Por outro lado, o futsal ainda não tem o apelo popular e comercial do futebol, os valores envolvidos tanto em números de torcedores quanto em exibição em mídia apresentam uma grande diferença entre as duas modalidades.

No entanto, o futsal e o futebol são modalidades esteticamente semelhantes, porém com características distintas, como regras, dimensões do espaço de jogo, indicadores físicos e fisiológicos requeridos dos atletas e até mesmo o reconhecimento e destaque frente à mídia. Entretanto, esses são fatores tradicionalmente investigados na literatura (Nunes et al., 2012; Ribas et al., 2014; Milistetd et al., 2014). Assim, destaca‐se a escassez de estudos que verifiquem os aspectos psicológicos e sociais nessas modalidades. Na avaliação desse panorama nacional e da influência de fatores psicossociais no ambiente esportivo, pergunta‐se: qual seria o impacto desse ambiente extremamente competitivo do futebol nos parâmetros de satisfação com a vida e o status social subjetivo de seus jogadores em relação a uma modalidade similar, futsal, porém de natureza mais amadora?

Material e métodosCaracterização do estudo

Este estudo é de natureza quantitativa e do tipo descritivo exploratório com delineamento transversal (Thomas, Nelson & Silverman, 2012). Faz parte do projeto “Identidade esportiva e artística de atletas e bailarinos” e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) sob o protocolo: 275.381/2013.

Participantes do estudo

A amostra não probabilística foi composta de forma intencional, por atletas da mesorregião oeste de Santa Catarina. Participaram do estudo 142 atletas, do sexo masculino, 78 de futsal (54,9%) e 64 (45,1%) de futebol de campo, com média de 20,25 anos (DP 4,29). Os critérios de inclusão foram: ter o mínimo de 16 anos, estar federado a um clube, associação ou secretaria de esporte no mínimo havia um ano, treinar de forma sistematizada havia pelo menos um ano, treinar no mínimo três vezes por semana e treinar regularmente no período da coleta de dados. A aplicação dos questionários durou de 30 a 40 minutos e ocorreu nos locais dos treinos, no qual os atletas respondiam individualmente, mas ao mesmo tempo.

Instrumentos e procedimentos de coleta de dados

Usou‐se um questionário que buscava identificar as características gerais dos atletas, como idade, grau de instrução, modalidade esportiva que pratica e tempo de treinamento sistematizado. Para determinar a classe econômica foi aplicado o questionário da Associação Brasileira de Empresas e Pesquisa.

A satisfação com a vida foi verificada por meio da Escala de Satisfação com a Vida (ESV), elaborada por Diener et al. (1985), que faz um julgamento sobre o quão satisfeitas as pessoas estão com suas vidas. Esse instrumento foi validado para estudantes, apresenta o Alfa de Crobach de 0,87. Trata‐se de uma escala composta por cinco itens, que variam de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). Os escores são calculados por meio das somas dos números correspondentes das respostas escolhidas, podem variar de 5 a 35, geram classificações de acordo com o resultado final: a) 31 a 35, extremamente satisfeito; b) 26 a 30, satisfeito; c) 21 a 25, moderadamente satisfeito; d) 20, neutro; e) 15 a 19, moderadamente insatisfeito; f) 10 a 14, insatisfeito e g) 5 a 9, extremamente insatisfeito (Diener et al., 1985). Para este estudo as classificações foram categorizadas em: a) satisfeito (21 a 35); b) neutro (20); c) insatisfeito (5 a 19).

Para descrever a autopercepção de status dos atletas frente aos aspectos de status social subjetivo da família na comunidade, do atleta no clube, em que lugar o atleta gostaria de estar na equipe, o segundo instrumento refere‐se à Escala MacArthur de Status Social Subjetivo Versão para Jovens (Goodman et al., 2001). Como o presente estudo envolve o contexto esportivo, essa escala foi adaptada de forma que os atletas retratem sua autopercepção em relação à sua família na comunidade, no clube em que pratica o esporte e sua autopercepção em relação ao lugar em que gostaria de estar na equipe. Esse instrumento é retratado por uma “escada social” que representa o contexto em que o atleta está envolvido, no topo da escada (degrau 10) estão as pessoas com maior status, maior respeito e mais alta posição social e no degrau de baixo (degrau 1) as pessoas que têm menor status, ninguém respeita, ninguém quer ficar próximo e apresentam uma baixa posição social. Assim, o (a) atleta marca um X no número (degrau) correspondente à sua autopercepção.

Os dados foram coletados em 2014, entre agosto e novembro. A seleção das equipes foi feita pelo fácil acesso aos dirigentes e conforme a disponibilidade dos atletas para o preenchimento dos questionários.

Análise estatística

Para análise dos dados, fez‐se análise descritiva (média, desvio‐padrão e distribuição de frequências) para caracterizar as variáveis do estudo. A distribuição dos dados foi verificada por meio do teste de Kolmogorov‐Smirnov. Em relação à estatística inferencial, usaram‐se os testes qui‐quadrado e exato de Fischer para verificar possíveis associações entre as variáveis sociodemográficas e as modalidades (futebol e futsal), o teste U de Mann‐Whitney para verificar possíveis diferenças entre as variáveis satisfação com a vida e status social subjetivo em relação às modalidade esportivas e o teste de correlação de Spearman para avaliar prováveis relações entre SV e status social subjetivo. O nível de confiança foi estabelecido em 5%. As análises foram feitas no Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 20.0.

Resultados

A amostra constitui‐se de 142 atletas, com média de 20,25 anos (DP 4,29), 78 (54,9%) praticantes de futsal e 64 (45,1%) de futebol de campo, todos do sexo masculino.

Na tabela 1 são apresentadas as características gerais da amostra, as maiores proporções de atletas avaliados não tinham companheiro, 81,3% no futebol e 69,2% no futsal, 85,9% dos atletas de futebol e 89,7% do futsal pertenciam ao estrato econômico médio, tinham ensino médio completo 50% do futebol e 60,3% do futsal. E a maior parte dos atletas competia em nível estadual, 92,2% futebol e 89,7% futsal.

Tabela 1.

Valores de frequência absoluta (f) e relativa (%) do grau de instrução e tempo de treinamento sistematizado

    Futebol
f (%) 
Futsal
f (%) 
p‐valor 
Estado civilaCom companheiro  12 (18,8)  24 (30,8)  0,074c
Sem companheiro  52 (81,3)  54 (69,2) 
Classe econômicabBaixa  1 (1,6)  1 (1,3)  0,782c
Média  55 (85,9)  70 (89,7) 
Alta  8 (12,5)  7 (9,0) 
Grau de instrução do individuobFundamental completo  31 (48,4)  25 (32,1)  0,057c
Médio completo  32 (50,0)  47 (60,3) 
Superior completo  1 (1,6)  6 (7,7) 
Nível de competiçãobEstadual  59 (92,2)  70 (89,7)  0,235c
Nacional  3 (4,7)  6 (7,7) 
Internacional  2 (3,1)  2 (2,6) 
a

Teste exato de Fischer.

b

Teste qui‐quadrado

c

p‐valor < 0,05.

Na tabela 2 é apresentada a comparação do nível de satisfação com a vida e o status social subjetivo entre as modalidades futebol e futsal. Os jogadores de futsal mostraram‐se mais satisfeitos com a vida e com status social subjetivo, além de perceber um maior status na família e no clube.

Tabela 2.

Comparação de satisfação com a vida e status social entre as modalidades

  Futebol X (dp)  Futsal X (dp)  p‐valor 
Nível de satisfação com a vida  21,06 (5,50)  25,46 (4,21)  0,001a 
Lugar em que a família está  7,09 (1,91)  7,99 (1,99)  0,08a 
Lugar em que está no clube  5,52 (2,14)  6,54 (2,04)  0,04a 
Satisfação com o status social subjetivo  7,09 (1,91)  7,99 (1,99)  0,001a 

Teste U de Mann‐Whitney.

a

p‐valor < 0,05.

Ao considerar a relação entre a satisfação com a vida e as variáveis que compõe os status social subjetivo, foram observadas correlações fracas, porém consideradas significantes (tabela 3).

Tabela 3.

Correlação entre nível de satisfação com a vida e status social subjetivo

  Nível da satisfação com a vida
  Futebol
(r) 
Futsal
(r) 
Total
(r) 
Lugar em que a família está  0,305a  0,142a  0,289a 
Lugar em que está no clube  0,292a  0,274a  0,356a 
Satisfação com o status social subjetivo  0,300a  0,298a  0,355a 

Correlação de Spearman.

a

p‐valor < 0,05

Discussão

O objetivo do presente estudo foi verificar a relação entre a satisfação com a vida e o status social subjetivo entre as modalidades de futebol e futsal. De forma geral os atletas apresentaram‐se em maioria sem companheiros, pertencentes a uma classe econômica média, com ensino médio e competiam em nível estadual.

Na análise dos os dados é possível verificar que poucos atletas apresentam escolaridade superior ao ensino médio. De acordo com a média de idade dos atletas das modalidades em questão, esses deveriam cursar o Ensino Superior. Amaral, Melo & Giavoni (2010) ressaltam a baixa escolaridade na modalidade de futebol. Vissoci (2009) até aponta que isso ocorre desde a fase de especialização (12/13 anos). No entanto, Lima e Matta (2005) explicam a baixa escolaridade no futebol e futsal pelo fato de a participação nessas não depender de um grau de escolarização dos atletas e também por serem modalidades em que muitos advêm de classes sociais menos favorecidas. Contudo, dados recentes de Klein (2014) demostram que apesar do relativo atraso escolar entre estudantes‐atletas na etapa de formação escolar e esportiva, em média esses apresentam uma taxa de repetência escolar menor se comparada às médias nacionais para estudantes da mesma faixa etária. Nesse sentido, Marques e Samulski (2009) deixam um alerta em relação à dificuldade dos atletas de conciliar escola e vida esportiva, afirmam que é de responsabilidade social dos clubes oferecer opções que facilitem e estimulem a continuação dos estudos para que eles tenham uma opção vocacional futura.

Quando analisado o nível de satisfação com a vida, os atletas de futsal apresentaram melhores níveis de satisfação em relação aos atletas de futebol. Esse resultado pode ser explicado pela diferença midiática entre as modalidades. Segundo Leme (2005), o futebol profissional no Brasil apresenta dois níveis qualitativamente diferenciados: o primeiro, o dos atletas de sucesso, bem remunerados; o segundo dos atletas “comuns”, da grande massa, que não têm “mercado” e que limitam sua carreira a atuar em times “pequenos” ou completar o elenco das grandes equipes. Assim como os atletas do presente estudo competem em nível estadual, esses ainda galgam um crescimento na carreira. Já no futsal, Nascimento Jr, Vieira e Souza (2011) associam o nível de satisfação com a vida do atleta com a percepção de coesão das equipes esportivas. Além disso, sabe‐se que não somente a coesão do grupo (equipe), mas outros fatores influenciam na satisfação com a vida dos atletas, como, por exemplo, a motivação, a liderança do treinador, a liderança no grupo, o número relativo de líderes dentro de grupos esportivos está relacionado com a percepção individual de satisfação (Eyes, Loughead & Hardy, 2007).

Pereira (2008) descreve que um jogador de futebol está sempre em busca da realização de um sonho, o qual inclui necessariamente sucesso, dinheiro, constituir família, consumir bens materiais (carros, casas, joias etc.). Sonho esse importante para todos os atletas, mas não com a mesma intensidade como no futebol de campo, o que é visível por meio da mídia televisiva e outras.

Ao encontro disso, quando observamos o status social subjetivo os jogadores de futsal apresentam médias superiores em relação aos jogadores de futebol em todos os aspectos. Uma menor percepção dos jogadores de futebol em relação ao lugar em que a família está corrobora o estudo de Medeiros, Ferrari & Cardoso (2014) que avaliou os atletas de futebol de campo de acordo com suas posições e concluiu que somente os goleiros percebem o status da família na comunidade como mais elevado. Esses resultados podem ser explicados pela família dos jogadores de futebol de forma geral pertencer a uma classe socioeconômica média baixa e baixa (Marques, Samulski, 2009), esse é um dos critérios de julgamento do status social subjetivo.

Em relação ao lugar em que os atletas se percebem no clube, uma melhor percepção dos atletas de futsal pode ser observada. Esse resultado pode ser explicado pelo status dos jogadores de futsal não estar associado diretamente à questão financeira. Fonseca e Stela (2016), por exemplo, investigaram as características de jogadores de futsal do nordeste do Rio Grande do Sul e concluíram que os motivos da participação estavam relacionados ao gosto pelo esporte, possivelmente decorrentes da participação em competições durante seu processo de aprendizagem, e não pelo clube.

Ao contrário dos jogadores de futsal, um ponto que afeta os atletas de futebol a terem uma baixa percepção de lugar no clube são os salários dos jogadores de futebol no Brasil, que de um modo geral são baixos ao considerar o desejo de mobilidade social e econômica dos atletas praticantes. Amaral, Thiengo & Oliveira (2007) ressaltam que uma boa parcela dos atletas abandona a carreira pela falta de pagamento, a instabilidade no emprego, os baixos salários recebidos, a distância da família e as graves lesões. Fatores esses que estão diretamente ligados ao status social subjetivo. Berzonski & Kuk (2005) deixam claro que o status sofre modificações de acordo com o momento de vida do indivíduo. Diante desse fato os atletas participantes deste estudo mostraram que estão em constante busca por um melhor status na equipe, o topo, o status mais elevado. Assim como eles querem se destacar na equipe, também buscam um melhor status no clube.

Em relação à busca por parte dos jogadores, Marques (2005) destaca que os indivíduos orientados para o ego comparam o seu desempenho com os de outros participantes na competição, procuram constantemente ser melhor do que o outro, obtêm assim um melhor status. Na realidade, todos os atletas de rendimento, inclusive os deste estudo, buscam a vitória, a qual, de acordo com Rúbio (2006), é o valor supremo da competição esportiva e está associada ao reconhecimento social, ao dinheiro e ao desejo da permanência, leva ao menosprezo de qualquer outro resultado. Isso ficou evidente no estudo de Medeiros, Ferrari & Cardoso (2014) com atletas de futebol de campo em que eles se declararam com um alto índice de insatisfação com o status social subjetivo na equipe, o que os autores acreditam que foi devido a viverem em um ambiente extremamente competitivo e estar em constante busca por um melhor status.

Encontrou‐se uma associação dos aspectos do status social subjetivo com a satisfação com a vida na qual podemos observar correlações positivas entre todas as variáveis. Isso pode ser explicado por a satisfação com a vida ser um componente cognitivo do bem‐estar subjetivo (Diener et al., 1985), em que é entendido como um processo de julgamento no qual os indivíduos avaliam globalmente a qualidade das respectivas vidas com base em critérios próprios (Diener, 1984; Diener et al., 1985). Outros componentes do bem‐estar subjetivo são as respostas emocionais das pessoas (afeto positivo e negativo) e o domínio das satisfações, nos quais pode estar a satisfação com a vida (Diener et al., 1999).

De modo geral as variáveis do status social subjetivo se correlacionam melhor com a satisfação com a vida nos jogadores de futebol. Nota‐se essa maior correlação principalmente na percepção do lugar que a família está. Assim, entende‐se que o jogador de futebol tem uma maior satisfação com a vida quando percebe sua família com um melhor status na sociedade. Marques e Samulski (2009) trazem que o objetivo de se tornar um atleta de futebol profissional, adquirir status social e melhorar as condições econômicas para toda família faz parte da rotina de prática do esporte em suas mais derivadas esferas (nas ruas, escolas etc.,) Segundo Moraes, Rabelo & Salmela (2004), uma das motivações dos jogadores de futebol para permanecer no esporte é a esperança de um dia oferecer melhores condições de vida aos seus pais.

Conclusão

Com base nos resultados do presente estudo, é possível concluir que os atletas de futsal do universo investigado têm uma maior percepção de satisfação com a vida e status social subjetivo quando comparados com os atletas de futebol, devido ao apelo social que cada modalidade apresenta. A satisfação com a vida e o status social subjetivo estão igualmente relacionados, aparentemente atletas com uma alta percepção do status social subjetivo tendem a estar mais satisfeitos com as suas vidas. Ainda, os jogadores de futebol são mais satisfeitos quando percebem sua família com um bom status.

No entanto, apesar de esses resultados irem, de um modo geral, ao encontro da literatura, pesquisas sobre o tema ainda são escassas. Nesse sentido, essas relações devem ser ainda mais analisadas de forma a compreender quais características do envolvimento físico e esportivo (nível competitivo, características da modalidade, prática não federada organizada ou de lazer, prática coletiva ou individual etc.) estão relacionadas à satisfação com a vida e o status social subjetivo, uma vez que o contexto da prática esportiva tem características muito específicas.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Autor para correspondência. (Walan Robert da Silva walanrobert@hotmail.com)
Copyright © 2018. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:374-80 - Vol. 40 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.02.001