Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:363-9 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.10.001
Artigo original
Relação entre as ações finais que resultaram em gol e o mando de campo no Campeonato Brasileiro de 2009 – Série A
Relation between the final actions which resulted in gol scored and to play in home in the Brazilian championship 2009 – Serie A
Relación entre las acciones finales que culminaron en gol y jugar en casa en el Campeonato Brasileño de 2009 – Serie A
Marcelo Teixeira de Andrade, , Luciano Chequini Espírito Santo
Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Programa de Pós‐Graduação em Ciências do Esporte, Belo Horizonte, MG, Brasil
Recebido 11 Junho 2012, Aceitaram 09 Março 2013
Resumo

O objetivo deste estudo foi quantificar a ocorrência de assistências, finalizações e locais na meta onde a bola passou, para comparar a frequência das variáveis entre as equipes mandantes e visitantes. Os dados foram compostos por 1.094 gols marcados em 380 jogos. A análise dos gols foi feita com base na técnica de anotação manual (scout). As comparações da frequência das variáveis entre as equipes mandantes e visitantes foram feitas por meio do teste qui‐quadrado de proporções, com nível de significância de p<0,05. O principal local de assistência com bola em movimento foi a área central do campo. As finalizações que resultaram em gols ocorreram em maior número na área central. Em todas as variáveis analisadas houve a prevalência das equipes mandantes.

Abstract

The aim of this study was to quantify the occurrence of assists, finishing and area that ball goes, to compare the frequency of the variables between the home teams and visitors. The data were composed of 1,094 goals scored in 380 games. The analysis of goals scored was made based on the technique of manual annotation (scout). The comparisons of variable frequency between the home teams and visitors were carried out by means of the chi‐square test of proportions, with a significance level of p<0.05. The primary site for assistance with the ball in motion was the central area of the field. The finishing that resulted in goals scored occurred in greater number in the central area. In all of the variables analyzed there was the prevalence of the home teams.

Resumen

En este estudio se planteó como objetivo cuantificar el número de asistencias, remates a gol y lugares de la portería por donde ha pasado el balón para comparar la frecuencia de las variables entre los equipos locales y visitantes. Los datos estaban compuestos por 1.094 goles marcados en 380 partidos. El análisis de los goles se basó en la técnica de anotación manual (scout). Las comparaciones de la frecuencia de las variables entre los equipos locales y los visitantes se llevaron a cabo por medio de la prueba de chi cuadrado de proporciones, con nivel de significación de p< 0,05. El principal sitio de asistencia con el balón en movimiento fue la zona central del área de juego. Los remates a portería que acabaron en gol ocurrieron en su mayoría en la zona central. En todas las variables analizadas hay predominio de los equipos locales.

Palavras‐chave
Gols, Scout, Ações ofensivas, Análise de jogo
Keywords
Goals scored, Scout, Offensive actions, Analysis of game
Palabras clave
Goles, Scout, Acciones ofensivas, Análisis del juego
Introdução

A análise de jogo tem contribuído para o entendimento do futebol. Nas últimas décadas, tem crescido seu uso como recurso de observação (Garganta, 2001).

Um instrumento que vem sendo usado para a observação e análise de jogo é o scout, definido como um método numérico que processa dados de determinada equipe durante as partidas (Cunha et al., 2001); como um mapa técnico e tático dos jogos (Vendite et al., 2005); como observação‐análise que busca relatar as informações precisas sobre um adversário, para que o treinador possa estabelecer seu planejamento de jogo para determinada partida (Silva, 2004); ou como importante ferramenta para a difusão de dados sobre os adversários para os jogadores (Macedo e Leite, 2009).

Apesar do scout não poder garantir as vitórias às equipes, devido ao grande número de variáveis envolvidas nos resultados dos jogos esportivos coletivos, o conhecimento e os resultados das pesquisas científicas (Vendite et al., 2000; Souza et al., 2012) têm mostrado que quando se usam exercícios específicos, pautados em dados quantitativos dos elementos do jogo de futebol, o treinador consegue obter um melhor desempenho técnico dos jogadores e, consequentemente, uma preparação completa da equipe (Vendite et al., 2000; Vendite et al., 2005; Giacomini et al., 2011; Maciel et al., 2011). Cria, assim, um parâmetro de referência para a comissão técnica (Alves e Ramos Filho, 2005).

Com essa perspectiva as pesquisas sobre scout têm sido difundidas. No futebol brasileiro, um dos estudos precursores, que coletava dados sobre número de passes, desarme de cruzamentos, finalizações e faltas, entre outros, teve por objetivo informar os padrões de atividade durante as partidas. Esses resultados eram usados na elaboração dos treinamentos técnicos da equipe (Vendite et al., 2000).

Outros estudos têm investigado como as equipes mandantes obtêm vantagem sobre as equipes visitantes. Sabe‐se que o grande volume de jogo e que fatores como, por exemplo, empatia da torcida, influência dos árbitros, familiarização com as condições do campo, preservação do estado físico e adaptação às condições climáticas da região podem influenciar o desempenho (Silva e Moreira, 2008; Silva, 2004; Silva et al., 2010).

Um estudo anterior do Campeonato Brasileiro de futebol de 2008 registrou o local de onde partiram as assistências para os gols, as finalizações e os locais na meta onde a bola passou. Além disso, comparou a frequência dessas variáveis (ex.: finalizações) entre as equipes mandantes e visitantes (Andrade et al., 2015). Entretanto, no Brasil, são raros os estudos que ressaltam a importância do uso do scout para apontamento das ações que levam aos gols e sua relação com o fator mando de campo. Isto limitou a sua comparação com estudos congêneres, mas justificou a elaboração do presente estudo. O mesmo tem por objetivo diagnosticar o local de onde partem as assistências para os gols, as finalizações e os locais na meta onde a bola passou, para comparar a frequência dessas variáveis (ex.: finalizações) entre as equipes mandantes e visitantes do Campeonato Brasileiro de 2009 – Série A.

Material e métodos

Os dados foram compostos por 1.094 gols marcados nos 380 jogos realizados, de maio a dezembro, no Campeonato Brasileiro de 2009 – Série A.

Os gols foram gravados em DVD durante a transmissão dos jogos pela televisão fechada. As anotações foram feitas em um campograma, dividido em 14 áreas, para melhor identificação espacial. As áreas foram denominadas de A1 a A3 e de B1 a B12 (fig. 1). A trave foi dividida em: parte superior (G1, G2, G3, G4 e G5), centro (G6, G7, G8, G9 e G10) e parte inferior (G11, G12, G13, G14 e G15) (fig. 2). Foi usada uma planilha (software Excel 2010) para quantificar os dados.

Figura 1.
(0.11MB).

Áreas do campo onde ocorreram as ações.

Figura 2.
(0.09MB).

Locais na meta onde a bola passou.

A análise dos gols foi feita com base na técnica de anotação manual (scout), como proposto por Garganta (2001). Assim, a coleta de dados foi dividida em:

  • Área de assistências de bola em movimento e de bola parada;

  • Área das finalizações que se originaram de assistências e as que não tiveram origem em assistência (ex.: rebote);

  • Locais na meta onde a bola passou.

Caracterização das ações usadas no scout:

  • 1.

    Assistência para gol: último passe antes de uma finalização. Esse passe não é resultado de uma bola parada.

  • 2.

    Assistência para gol de bola parada: passes que resultam em finalização a partir de bola parada (ex.: faltas e escanteios).

  • 3.

    Gol que não se originou de uma assistência:

    • 3.1 Gols de rebote (RB): o rebote foi propiciado pelo goleiro ou qualquer defensor que estivesse em posição que impedisse a bola de entrar.

    • 3.2 Gols de falta direta (FD): de tiros livres diretos cobrados de fora da área em que a bola é batida diretamente para o gol.

    • 3.3 Gols contra (GC): feito por um integrante da equipe em sua própria meta.

    • 3.4 Gols de pênalti (PT): de tiro livre direto cobrado de dentro da área penal.

    • 3.5 Gols olímpicos (OL): que ocorreram a partir de uma bola cobrada diretamente de um escanteio ao gol.

    • 3.6 Gols de jogada individual (JI): em que o lance foi feito por apenas um jogador. Ou seja, quando as manobras, como dribles e conduções, foram decisivas.

    • 4.

      Finalização que resultou em gol: ponto exato de onde partiu o arremate que precedeu o gol.

A análise e o posterior registro dos gols foram feitos por dois pesquisadores independentes e um terceiro pesquisador participou nas situações de divergência. As imagens foram analisadas três vezes e pausadas no início da jogada. O objetivo foi minimizar os erros causados por análises feitas em diferentes ângulos.

Os dados foram tabulados em uma planilha (software Excel 2010), o que permitiu quantificar as áreas de origem e comparar a frequência das variáveis citadas entre as equipes mandantes e visitantes.

Este estudo trata‐se de uma pesquisa descritiva observacional. Os dados foram apresentados em valores percentuais, calculados no software Excel 2010. As comparações da frequência das variáveis (assistências para gols, assistências de bola parada, gols que não foram de assistência de um passe e finalizações) entre as equipes mandantes e visitantes foram feitas por meio do teste qui‐quadrado de proporções, com nível de significância de p<0,05. O pacote estatístico usado para análise inferencial foi o SPSS 18.0.

Resultados

No Brasileirão de 2009, 641 (58,6%) gols ocorreram a partir de uma assistência. Desses 641 gols, 564 (51,6%) foram de assistências com a bola em movimento e 77 (7%) a partir de assistências de bola parada.

Os principais locais de assistência com bola em movimento foram as áreas A2, com 16,2%, e B5, com 12,4% (fig. 3).

Figura 3.
(0.15MB).

Assistências com bola em movimento (%).

Em relação aos gols que ocorreram a partir da assistência de bola parada, os principais locais de assistência foram as áreas B2, com 42,9%, e B1, com 32,5%. Dessas, 46 (4,2%) tiveram origem em cobranças de escanteio, 21 foram escanteios cobrados do lado esquerdo (área B1) e 25 do lado direito (área B2). As 31 (2,8%) assistências restantes tiveram origem em cobranças de falta, oito partiram da área B4, oitoda área B2 e quatroda área B1 (fig. 4).

Figura 4.
(0.14MB).

Assistências de bola parada (%).

Os gols que não apresentaram origem de uma assistência foram 453 (41,4%). Desses, 139 (12,7%) se originaram de rebotes (RB), 94 (8,6%) de pênaltis e 146 (13,3%) de jogadas individuais (JI) (tabela 1).

Tabela 1.

Gols que não se originaram de assistência (%)

FD  PT  OL  GC  RB  JI 
4,8  8,6  0,3  1,6  12,7  13,3 

FD, gols de falta direta; PT, gols de pênalti; OL, gols olímpicos; GC, gols contra; RB, gols de rebote; JI, gols de jogada individual.

Em relação à origem das finalizações, 71,8% (785) partiram da área A2, 8,5% (93) da área A3 e 7,5% (82) da área B5 (fig. 5).

Figura 5.
(0.14MB).

Origem das finalizações que resultaram em gol (%).

A bola ultrapassou totalmente a linha de meta 62% das vezes na parte inferior da trave. Nota‐se que 23,2% (254) gols das bolas chutadas entraram na posição G11 e 18,6% (204) na posição G15 (fig. 6).

Figura 6.
(0.13MB).

Locais na meta onde a bola passou (%).

Em 195 (51,3%) jogos do Campeonato Brasileiro as equipes mandantes venceram e em 83 (21,8%) as visitantes. Em todas as variáveis analisadas houve um maior percentual a favor das equipes mandantes.

O número de assistências de bola em movimento das equipes mandantes (358) foi maior (p=0,001) do que o das equipes visitantes (206). Os principais locais foram as áreas A2 e B5 (tabela 2). O número de assistências de bola parada das equipes mandantes (44) também foi maior (p=0,210) do que o das equipes visitantes (33). As áreas de destaque foram B1 e B2 (tabela 2).

Tabela 2.

Assistências que resultaram em gols (%)

Variáveis  Áreas
  A1  A2  A3  B1  B2  B3  B4  B5  B6  B7  B8  B9  B10  B11  B12   
ACR
Casa  6,9  11,0  6,6  4,6  5,3  3,4  4,6  9,6  3,2  4,8  1,1  0,5  1,8  1,1  0,2   
Fora  5,6  5,1  4,8  2,8  3,2  1,8  3,2  2,8  2,3  2,5  0,4  0,2  1,1  0,4  0,0   
ACP
Casa  0,0  0,0  0,0  18,2  22,1  3,9  7,8  1,3  1,3  1,3  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0 
Fora  0,0  0,0  0,0  14,3  20,8  1,3  2,6  1,3  1,3  2,6  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0 

ACR, assistências com bola rolando; ACP, assistências com bola parada.

O número de gols que não se originaram de uma assistência (ex.: pênaltis) das equipes mandantes (257) foi maior (p=0,004) do que o das equipes visitantes (196). As variáveis de maior destaque foram RB (rebotes) e JI (jogadas individuais) (tabela 3).

Tabela 3.

Gols que não se originaram de assistência (%)

  Variáveis
  FD  PT  OL  GC  RB  JI 
Casa  6,3  11,9  0,0  2,0  18,3  17,7 
Fora  4,9  8,8  0,7  2,2  12,1  14,6 

FD, gols de falta direta; PT, gols de pênalti; OL, gols olímpicos; GC, gols contra; RB, gols de rebote; JI, gols de jogada individual.

O número de finalizações que resultaram em gols (659) foi maior (p=0,002) do que o das equipes visitantes (435). Os principais locais de finalizações das equipes mandantes foram às áreas A2 com 42,3% e A3 com 5,1% (tabela 4).

Tabela 4.

Origem das finalizações que resultaram em gols (%)

Variáveis  Áreas
  A1  A2  A3  B1  B2  B3  B4  B5  B6  B7  B8  B9  B10  B11  B12 
FIN
Casa  3,3  43,2  5,1  0,3  0,2  0,0  2,0  4,6  1,4  0,4  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0 
Fora  1,9  28,5  3,4  0,3  0,1  0,1  1,4  2,9  0,9  0,1  0,0  0,0  0,0  0,0  0,0 

As equipes mandantes marcaram 659 gols, enquanto que as visitantes marcaram 435. As áreas da baliza onde predominaram o maior número de gols das equipes mandantes foram G11 com 13,7%, G15 com 11,9% e G10 com 5,8% (tabela 5).

Tabela 5.

Locais na meta onde a bola passou (%)

Áreas
  G1  G2  G3  G4  G5  G6  G7  G8  G9  G10  G11  G12  G13  G14  G15 
Casa  3,1  1,1  0,7  0,9  1,9  5,0  1,6  1,0  1,9  5,8  13,7  4,6  3,5  3,6  11,9 
Fora  1,6  0,4  0,0  0,6  0,9  3,1  1,8  1,1  1,3  3,9  9,5  3,1  1,5  4,2  6,8 
Discussão

No presente estudo as principais áreas de origem de uma assistência de bola em movimento foram a área A2, com 16,2%, e B5, com 12,4%. Em um estudo anterior (Andrade et al., 2015), a área central fora da grande área foi o principal local de origem de assistência e a ponta‐esquerda foi o segundo local com maior incidência de assistência para gols. Isso contrasta com o apurado neste estudo, pois a grande área foi o principal local de onde partiram as assistências desse tipo, seguida da área central fora da grande área.

No Campeonato Brasileiro Série A de 2008 (Andrade et al., 2015) os principais locais de assistência de bola parada foram as áreas B2, com 38,9%, e B1, com 25,9%. Esses resultados corroboram os do presente estudo não só na questão das áreas utilizadas, mas também apresentando uma tendencia de maior ocorrência no setor direito do campo. A assistência desse tipo vem se apresentando de forma diferente de acordo com o tipo de competição, mostrando a relevância dessas situações. Nas competições envolvendo seleções variou entre 10 a 20%. Na copa do Mundo de 1994, por exemplo, 10,8% dos gols ocorreram de assistência de bola parada. Destes, 6,5% se originaram de falta e 4,3% de escanteio. Estes valores quase duplicaram na Copa de 1998 alcançando 19,9% da totalidade dos gols, sendo 6,4% dos gols a partir de falta e 13,5% de escanteio (Lopéz, 1999). O percentual se manteve na Eurocopa de 2004, alcançando 18%, muito embora a relação entre os gols que ocorreram a partir de faltas (8%) e escanteios (10%) tenha modificado (Ramos e Oliveira, 2008). Já na Copa de 2006, os gols de escanteio diminuíram para 5,4% do total (Silva e Campos Júnior, 2006). O que denota a maior atenção dada nesta competição por parte das equipes a esta jogada. Nas competições por clubes a variação da ocorrência dessas ações é menor. Talvez pelo maior entrosamento das equipes.

No Brasileiro de 2008 (Andrade et al., 2015), a assistência de bola parada representou 10,6% dos gols ocorridos. Os escanteios foram responsáveis por 5,4% e as faltas 5,02% dos gols. Os valores foram similares no Campeonato Espanhol de 1998/1999, atingiram 11,5% dos gols, sendo 5,3% de falta e 6,2% de escanteio (Lopéz, 1999). Na Champions League os escanteios apresentaram valor similar, 6,34% (Barletta, 2009). Já na Copa Libertadores da América os escanteios foram responsáveis por 11,11% dos gols (Barletta, 2009), o que é perfeitamente justificável pois nesta competição este tipo de jogada é bastante utilizada. No presente estudo, muito embora o escanteio tenha apresentado valor próximo ao de outros estudos (4,8%), as assistências de faltas geraram apenas 2,8% dos gols. Esse fato deve gerar atenção, pois a bola parada é uma opção na decisão de jogos. As equipes brasileiras detêm esse conheciment e devem valorizar esse tipo de jogada, pois podem ser decisivas como visto em todas as competições. Vale ressaltar que em competições curtas, este tipo de jogada também é privilegiada nas ações ofensivas. Nessas competições, cujo regulamento prevê a fase eliminatória, as equipes jogam mais cautelosas e sobem ao ataque com mais frequência quando têm a possibilidade de fazer essas jogadas (Ramos e Oliveira, 2008). Esse tipo de jogada pode garantir a vitória sem grande exposição ao ataque (Lopéz, 1999). Outro aspecto a ser relevado é que nessas competições estão presentes os grandes especialistas nesse tipo de lançamento, pois se trata de competições entre seleções e clubes de alto nível.

Neste estudo, 453 gols não tiveram uma assistência prévia, valor superior ao do Campeonato Brasileiro de 2008 (Andrade et al., 2015), em que ocorreram 334 gols. Desses, 10,8% ocorreram de pênaltis, semelhantemente ao valor encontrado neste estudo (8,6%), ao da Copa de 2006 (8,8%) (Silva e Campos Júnior, 2006) e ao da Eurocopa de 2004 (9%) (Ramos e Oliveira, 2008). Esses números retratam uma informação relevante sobre a forma como agem os defensores dentro da área, chamam atenção para os aspectos relacionados ao treinamento de marcação. Os gols de rebotes representaram 12,7% do total. Em 2008, os gols a partir de rebotes representavam 15,7% do total. Isso sugere que pode estar ocorrendo falta de pressão sobre o jogador que fez o gol. Neste estudo 4,8% dos gols (53) ocorreram de falta direta, No Campeonato Brasileiro de 2008 – Série A, foram 4,1% (43) e no Espanhol de 1998/1999, 4,6% (47 gols), resultados esses similares. Nas Copas de 1994 e de 1998, as faltas diretas apresentaram índices de 11,8% (11 gols) e 5,3% (cinco gols) (Lopéz, 1999). Na Eurocopa de 2004, 4% dos gols resultaram dessa ação (Ramos e Oliveira, 2008). Em 2009, 13,3% dos gols tiveram origem em jogada individual, valores superiores aos 7,1% de 2008. Outros estudos também demonstraram que a jogada individual é muito usada. Nas Copas do Mundo de 1994 e 1998, 11,8% e 11,1% dos gols, respectivamente, se originaram desse tipo de jogada e na Liga Espanhola de 1998/1999, 14,9% (Lopéz, 1999).

Os gols ocorreram 85,5% das vezes dentro da área. Os locais de maior incidência foram as regiões A2 e A3. Os gols de fora da área ao centro também foram destaque. Esses resultados são similares aos de estudos anteriores. No Campeonato Brasileiro de 2008 – Série A (Andrade et al., 2015), 84,9% dos gols de dentro da área, e 73,2% partiram de dentro da área ao centro. De fora da área ocorreram 15,1% dos gols, 13,8% (143) partiram da região central do campo. Na Copa de 1994, 81,7% dos gols foram de dentro da área e 18,3% de fora da área. Na Copa de 1998, 89,7% ocorreram de dentro da área e 10,3% de fora da área (Lopéz, 1999). No Campeonato Espanhol de 1998/1999, 83,6% dos gols foram finalizados de dentro da área e 16,4% de fora da área (Lopéz, 1999). Em 2006, durante a Copa da Alemanha, 82,3% dos gols foram de dentro da área e 17,7% de fora (Silva e Campos Júnior, 2006). Assim, fica evidente que se deve dedicar atenção à orientação das equipes, pois a região do campo que compreende a grande área é o local com maior incidência de gols.

A bola ultrapassou totalmente a linha de meta 62% das vezes na parte inferior da trave. Dessas, 23,2% (254 gols) das finalizações entraram na posição G11 e 18,6% (204) na posição G15. Esses resultados são similares aos de um estudo anterior que mostrou que bola entrava 60% das vezes na parte inferior da trave, 22,9% na posição G11 e 18,3% na posição G15. Sugere‐se aos treinadores das equipes que façam treinos de finalização com ênfase nessas regiões (Andrade et al., 2015), pois 426 gols do Campeonato Brasileiro de 2008 e 458 gols do Brasileiro de 2009 entraram nessas áreas.

O presente estudo encontrou um maior número de vitórias das equipes mandantes. Resultados semelhantes foram encontrados em vários outros estudos (Silva, 2004; Silva e Moreira, 2008; Silva et al., 2010; Almeida et al., 2011).

Vários são os fatores que podem explicar esse maior número de vitórias. O campo de jogo, por exemplo, as diferentes dimensões encontradas, as características do gramado e a familiaridade podem alterar a tática e o estilo técnico dos jogadores, bem como propiciar uma maior consciência de localização dos atletas que jogam em casa, e permitir a eles uma orientação e reorientação mais eficaz nas ações decorrentes exigidas nas partidas (Silva, 2004; Nevill e Holder, 1999; Pollard, 2002).

No Campeonato Brasileiro de 2008 (Andrade et al., 2015) houve um maior número de assistências de bola em movimento e de bola parada a favor das equipes mandantes. Por isso, as equipes mandantes apresentaram um desempenho melhor. Esses resultados corroboram os encontrados no presente estudo.

Outros fatores, como viagens e influência negativa da torcida local, contribuem para o menor desempenho das equipes visitantes. As viagens provocam desgaste e muitas vezes limitam o tempo de treino dos atletas visitantes. Um estudo mostrou que quanto maior era o público e, consequentemente, o barulho provocado por esse, menor era o desempenho dos visitantes (Nevill e Holder, 1999).

O número de finalizações que resultaram em gols das equipes mandantes foi maior do que o das equipes visitantes. Esse resultado também foi encontrado em um estudo anterior do Campeonato Brasileiro (Andrade et al., 2015).

A arbitragem também contribui para o melhor desempenho das equipes mandantes. Nevill, Balmer e Williams (2002) mostram que o árbitro é alvo de tentativas de intimidação por parte dos atletas, dirigentes, da comissão técnica e da torcida e acabam por favorecer os mandantes, principalmente em decisões importantes, como por exemplo, na marcação de pênaltis.

No presente estudo as equipes mandantes marcaram um maior número de gols do que as visitantes. Resultado semelhante aos encontrados no Brasileiro de 2008 (Andrade et al., 2015).

Em um contexto geral, a antipatia da torcida e sua influência sobre os árbitros e equipes visitantes, as condições do campo, as longas viagens e as diferenças climáticas podem dar indícios para explicar esse melhor desempenho das equipes mandantes (Silva e Moreira, 2008).

Conclusão

As assistência com bola em movimento apresentaram maior incidência na zona central do campo (A2 e B5). Já as assistências de bola parada que culminaram em gol ocorreram com maior frequência pelas laterais do campo (B2 e B1). Esses dados evidenciam a necessidade do treinamento não só ofensivo, mas principalmente defensivo em relação a faltas e escanteios, dando enfase ao lado esquerdo da defesa.

O local com maior incidência de finalização que resultou em gol foi a região central da grande área (A2), nos mandantes e visitantes. Isso demostra a importância das finalizações centrais no treinamento.

A bola ultrapassou totalmente a linha de meta na maioria das vezes na parte inferior da trave.

As equipes mandantes apresentaram melhor desempenho do que as visitantes, resultado encontrado em todas as variáveis comparadas. O desempenho das equipes mandantes demonstra a influência do fator casa sobre o desempenho.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
Almeida et al., 2011
L.G. Almeida,M.L. Oliveira,C.D. Silva
Uma análise da vantagem de jogar em casa nas duas principais divisões do futebol profissional brasileiro
Rev Bras Educ Fís Esporte, 25 (2011), pp. 49-54
Alves e Ramos Filho, 2005
Alves DM, Ramos Filho LA. Análise da Atividade Competitiva. In: XXIV Simpósio Nacional de Educação Física, 2005, Pelotas, Anais… Pelotas: 2005. V. 1, P. 1‐12.
Andrade et al., 2015
M.T. Andrade,L.C.E. Santo,A.G.P. Andrade,G.G.A. Oliveira
Análise dos gols do Campeonato Brasileiro de 2008 – Série A
Rev Bras Ciênc Esporte, 37 (2015), pp. 49-55
Barletta, 2009
Barletta FG. Análise da origem, ocorrência e execução dos gols no futebol. Revista Digital, Buenos Aires, v.14, n. 132, 2009. Disponível em: http://www.efdeportes.com/. revista digital ‐ Acesso em 20 Des. 2010.
Cunha et al., 2001
S.A. Cunha,M.R. Binotto,R.M.L. Barros
Análise da variabilidade na medição de posicionamento tático no futebol
Rev Paul Educ Fís, 15 (2001), pp. 101-116
Garganta, 2001
J.M. Garganta
A análise da performance nos jogos desportivos. Revisão acerca da análise de jogo
Revista Portuguesa de Ciência do Desporto, 1 (2001), pp. 57-64
Giacomini et al., 2011
D.M. Giacomini,E.G. Silva,P.J. Greco
Comparação do conhecimento tático declarativo de jogadores de futebol de diferentes categorias e posições
Rev Bras Ciênc Esporte, 33 (2011), pp. 445-463
Lopéz, 1999
Lopéz MG. Desarrollo y finalización de las acciones ofensivas: análisis comparativo USA 94, Francia 98 y Liga Española 98‐99, Revista Digital, Buenos Aires. v. 4, n.17, p. 1‐2, 1999. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/. revista digital ‐ Acesso em 26 Ago. 2011.
Macedo e Leite, 2009
P.A.P. Macedo,M.M. Leite
Scout como um instrumento avaliativo do treinamento esportivo nas categorias de base do futebol
Rev Bras Futeb, 2 (2009), pp. 21-35
Maciel et al., 2011
W.P. Maciel,E.L. Caputo,M.C. Silva
Distância percorrida por jogadoras de futebol de diferentes posições durante uma partida
Rev Bras Ciênc Esporte, 33 (2011), pp. 465-474
Nevill et al., 2002
A.M. Nevill,N.J. Balmer,A.M. Williams
The influence of crowd noise and experience upon refereeing decisions in football
Psychology Sport and Exercise, 1 (2002), pp. 261-272
Nevill e Holder, 1999
A.M. Nevill,R.L. Holder
Home advantage in sport: an overview of studies on the advantage of playing at home
Sport Medicine, 1 (1999), pp. 221-236
Ramos e Oliveira, 2008
L.A. Ramos,M.H. Oliveira
Futebol: classificação e análise dos gols da EuroCopa 2004
Rev Bras Futeb, 1 (2008), pp. 42-48
Silva, 2004
Silva CD. A vantagem de jogar em casa: uma avaliação no futebol brasileiro na temporada de 2003, Revista Digital, Buenos Aires, v.71, n. 11, 2004. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/. revista digital ‐ Acesso em 27 Ago. 2011.
Silva e Campos Júnior, 2006
Silva C, Campos Júnior RM. Análise dos Gols ocorridos na 18a Copa do Mundo de Futebol da Alemanha 2006, Revista Digital, Buenos Aires, v. 11, n. 101, 2006. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd101/gols.htm ‐ Acesso em 20 Des. 2010.
Silva et al., 2010
C.D. Silva,N.C. Medeiros,A.C.D. Silva
Vantagem em casa no campeonato brasileiro de futebol: efeito do local do jogo e da qualidade dos times
Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum, 12 (2010), pp. 148-154
Silva e Moreira, 2008
C.D. Silva,D.G. Moreira
A vantagem em casa no futebol: comparação entre o campeonato brasileiro e as principais ligas nacionais do mundo
Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum, 10 (2008), pp. 184-188
Souza et al., 2012
E.L.N. Souza,B.Q. Farah,R.M.R. Dias
Tempo de incidência dos gols no campeonato brasileiro de futebol 2008
Rev Bras Ciênc Esporte, 34 (2012), pp. 421-431
Pollard, 2002
R. Pollard
Evidence of a reduced home advantage when a team moves to a new stadium
J Sports Sci, 20 (2002), pp. 969-973 http://dx.doi.org/10.1080/026404102321011724
Vendite et al., 2000
Vendite L, Moraes AC, Vendite C. Scout no Futebol: Uma Análise Estatística, In: Congresso Científico Latino‐Americano FIEP UNICAMP, 1., 2000. Anais… Campinas: FEF‐UNICAMP,;1; 2000.
Vendite et al., 2005
Vendite C, Vendite L, Moraes AC. Scout No Futebol: Uma Ferramenta Para a Imprensa Esportiva, In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro: 2005. v. 1. p. 1‐10.
Autor para correspondência. (Marcelo Teixeira de Andrade marcelo.tdandrade@yahoo.com.br)
Copyright © 2015. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:363-9 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.10.001