Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:318-24 - Vol. 40 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.003
Artigo original
Primórdios do jiu‐jitsu e dos confrontos intermodalidades no Brasil: contestando uma memória consolidada
Beginnings of jiu‐jitsu and intermodality combats in Brazil: answering a consolidated memory
Inicios del jiu‐jitsu y enfrentamientos intermodalidad en Brasil: objeciones a una memoria consolidada
Riqueldi Straub Lise, , André Mendes Capraro
Universidade Federal do Paraná, Departamento de Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
Recebido 26 Abril 2016, Aceitaram 08 Março 2018
Resumo

O presente estudo objetiva apresentar uma nova possibilidade de compreensão dos primórdios do jiu‐jitsu e dos confrontos intermodalidades no Brasil. Atualmente, nota‐se que diversas referências (livros, jornais, revistas, sites de notícias) apresentam um discurso hegemônico, o qual atribui ao Konde Koma e aos integrantes da família Gracie o princípio de tais modalidades no país. Com base no procedimento metodológico do paradigma indiciário, buscou‐se questionar a história hegemônica – apresentada no texto por meio de referências – a partir da análise de matérias jornalísticas do início do século XX. A análise das fontes diverge da atual versão predominante e propicia novos conhecimentos acerca da introdução do jiu‐jitsu e dos confrontos intermodalidades no Brasil.

Abstract

This study aims to present a new possibility of understanding the beginnings of jiu‐jitsu and the intermodality clashes in Brazil. Nowadays, several references (books, newspapers, magazines, sites) show a hegemonic discourse, which attributes to Count Koma and members of Gracie family the foundation of such modalities in the country. In order to question the hegemonic history, it was used the methodological procedure of the indiciary paradigm, by analyzing news from the beginning of the 20th century. The analysis of the sources differs from the current predominant version and provides new knowledge about the introduction of jiu‐jitsu and intermodality clashes in Brazil.

Resumen

Este estudio tiene como objetivo presentar una nueva posibilidad de comprensión de los inicios del jiu‐jitsu y de los enfrentamientos intermodalidad en Brasil. En la actualidad, se observa que varias referencias (libros, periódicos, revistas, sitios de noticias) presentan un discurso hegemónico, que atribuye al Konde Koma y a los miembros de la familia Gracie el principio de estas modalidades en el país. Basándose en el enfoque metodológico del paradigma indiciario, se trató de cuestionar la historia hegemónica –presentada en el texto a través de referencias– a partir del análisis de las noticias de principios del siglo xx. El análisis de las fuentes difiere de la versión actual que prevalece y proporciona nuevos conocimientos sobre la introducción del jiu‐jitsu y los enfrentamientos intermodalidad en Brasil.

Palavras‐chave
Artes marciais, Jornais, História, Brasil
Keywords
Martial arts, Newspapers, History, Brazil
Palabras clave
Artes marciales, Periódicos, Historia, Brasil
Introdução

O objetivo deste artigo é apresentar uma nova possibilidade de compreensão histórica acerca dos primórdios do jiu‐jitsu e dos confrontos intermodalidades1 no Brasil, ao longo das primeiras décadas do século XX.

Com o sentido de nortear esse objetivo, fez‐se, em um primeiro momento, um amplo levantamento de referências, a partir de diversos meios de comunicação, a fim de verificar a existência de um discurso hegemônico, que atribui ao Konde Koma2 e aos membros da família Gracie3 a introdução do jiu‐jitsu4 e dos desafios intermodalidades no país. Algo bastante próximo a uma “tradição inventada”5 (Hobsbawm, 2012), uma vez que, via de regra, tais estudos não se debruçam a uma análise pautada em fontes históricas, mas na reprodução acrítica de discursos instituídos ao longo do tempo.

O passo seguinte esteve centrado na seleção e análise de fontes históricas, quais sejam jornais datados do início do século XX, veiculados na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal brasileira. A escolha pelo uso de periódicos se deu pelo fato de não existirem, no Brasil, instituições formais que regulamentassem as disputas de jiu‐jitsu, tampouco dos confrontos intermodalidades, portanto não existem documentos oficiais sobre tais práticas. Os jornais escolhidos para este estudo foram: A Época, Gazeta de Notícias, O Paiz, O Imparcial, O Século e o Correio Paulistano, incluído por noticiar pela primeira vez a chegada de Konde Koma à capital paulista. A opção por selecionar tais periódicos se deu pelo fato de noticiarem de forma relativamente contínua aspectos relacionados aos primeiros combates de jiu‐jitsu e dos confrontos intermodalidades no país. Quanto aos cuidados metodológicos ao tratar de fontes jornalísticas recorreu‐se aqui aos preceitos de Luca (2011). O recorte temporal foi delimitado com base no período em que tais modalidades se estabeleciam em solo brasileiro, particularmente no Rio de Janeiro.

Cabe destacar que a busca por referências (artigos científicos, sites, livros não acadêmicos, jornais contemporâneos e revistas especializadas), junto à busca por fontes (isto é, o material produzido no início do século XX), foi pautada pelo procedimento metodológico engendrado pelo historiador Carlo Ginzburg (1996). De acordo com Ginzburg (1996), o paradigma indiciário funciona como uma ferramenta na procura por indícios e pistas, que auxiliem na compreensão de determinado fato histórico – neste caso, a contestação da máxima de que Konde Koma tenha sido o precursor do jiu‐itsu e dos confrontos intermodalidades no Brasil.

Verificando a existência de um discurso hegemônico

A hegemonia de um discurso predominante pode ser percebida em diversas obras, entre elas a biografia produzida por Reila Gracie sobre seu pai: Carlos Gracie: o criador de uma dinastia (2012), na qual a autora descreveu a trajetória de alguns membros da família, destacou o próprio Carlos Gracie, considerado por ela como o grande precursor da saga da família. Por exemplo, ao relatar o confronto entre Carlos Gracie e o capoeirista Samuel, no fim da década de 1920, a autora declara: “Sem conseguir definir as regras que iriam nortear a luta, Carlos preferiu lutar sem regras e protagonizou com Samuel a primeira luta pública de vale‐tudo, inaugurando a modalidade de combate nos ringues brasileiros” (Gracie, 2012, p. 71); ou ainda: “Foi Carlos Gracie, no combate contra o capoeira Samuel, quem introduziu na capital federal, e talvez no país, essa modalidade de luta em que valia tudo” (Gracie, 2012, p. 80).

Nota‐se que o discurso de Reila, acerca da suposta introdução do “vale‐tudo” no país, é reproduzido por dezenas de matérias em revistas, jornais, e sites da internet.6 Vale ressaltar que a obra acima citada está eivada de interesses e afetividades, tendo em vista que Reila, majoritariamente, relata, a partir de depoimentos memorialísticos de seus parentes (pai, tios, irmãos, primos), a história da própria família e o envolvimento deles com o jiu‐jitsu e com os confrontos intermodalidades. Mesmo com esse embaraço, essa obra se tornou uma das principais referências sobre a referida temática.

A obra La famiglia Gracie e la rivoluzione del jiu‐jitsu (2008), escrita por Marcelo Alonzo, Alfredo Tucci e a equipe de repórteres da revista Judô Internacional, reforça a ideia apresentada por Reila Gracie:

“Os eventos de vale‐tudo começaram no Brasil com Hélio Gracie no início dos anos 30. Depois de ter aprendido o jiu‐jitsu com o seu irmão Carlos, o jovem Hélio Gracie começou a desafiar oponentes de estilos diferentes para colocar à prova as suas habilidades nessa arte. Depois de ter feito meia dúzia de energúmenos ‘jogarem a toalha’ com a sua técnica, Hélio começou a ficar famoso em todo país” (Alonzo et al., 2008, p. 213).7

Segundo Pinheiro (2010), a partir da década de 1930 surgiram os primeiros confrontos de uma prática bastante violenta, o vale‐tudo. O autor assinala que as primeiras disputas desse gênero de lutas foram protagonizadas pelos irmãos Carlos e Hélio Gracie, os quais, empenhados em divulgar a eficiência do jiu‐jitsu, desafiavam praticantes reconhecidos de outras modalidades, em confrontos sem regras e sem limite de tempo, com o sentido de chamar a atenção do público carioca para a modalidade.

Tanto Gracie (2012) quanto Alonzo (2008) e Pinheiro (2010) usam o termo vale‐tudo. Possivelmente, essa nomenclatura tenha se originado a partir da dificuldade de estabelecer regras para os confrontos entre diferentes modalidades, jiu‐jitsu, capoeira, luta livre, entre outras. Dessa maneira, o vocábulo parece designar aqueles confrontos nos quais seriam admitidas técnicas próprias de cada modalidade de esportes de combate e artes marciais. Vale aqui ressaltar que esse termo não era comumente usado no período a que esta pesquisa se refere, portanto pode‐se inferir que essa expressão surgiu em um período posterior, o que, do ponto de vista histórico, seria um anacronismo.

Retrocedendo ainda mais, França (2010) relata que o surgimento do MMA se deu no ano 648 A.C. na Grécia. Entretanto, tal prática entrou em declínio com a ascensão do Império Romano. Porém, em 1925, a modalidade teria retornado ao cenário mundial por meio de integrantes da família Gracie. Ainda segundo França (2010), Carlos Gracie aprendeu judô com Mitsuyo Maeda e, aos poucos, adaptou as regras e golpes, criou, dessa forma, o jiu‐jitsu brasileiro. Com a intenção de atrair atenção para a tal prática, Carlos passou a desafiar lutadores de outras modalidades, daí o surgimento do vale‐tudo.

França (2010), ao remeter o surgimento do MMA8 a 648 A.C. também incorre em um anacronismo, considera que esse termo surge apenas por volta de 2000. Além disso, tal afirmativa desconsidera os contextos distintos em que tais práticas ocorriam.

Fátima Regina Cecchetto, em sua obra Violência e estilos de masculinidade, ao relatar a origem e difusão do jiu‐jitsu em solo brasileiro, afirmou que “O jiu‐jitsu, no Brasil, disseminou‐se entre as classes média e alta, tendo o sobrenome Gracie como a marca de sua difusão” (Cecchetto, 2004, p. 144). No livro Filho teu não foge à luta, Fellipe Awi, ao discorrer acerca do sucesso e do reconhecimento alcançado pelos integrantes da família Gracie, no âmbito das artes marciais, relata que “A predisposição para o confronto funcionou como adubo para os primeiros desafios entre artes marciais que os Gracie promoveram na década de 1920” (Awi, 2012, p. 17).

No Almanaque Combate edição de 2011, o jornalista Eric Engelhart, ao descrever a chegada do jiu‐jitsu ao Brasil e a origem do vale‐tudo, relata que

“O vale‐tudo no Brasil nasceu da necessidade que a família Gracie tinha de provar que o jiu‐jitsu, até então desconhecido no Brasil, era mais eficiente do que as outras artes marciais, principalmente em um combate sem tempo e sem regras. Na década de 30, os duelos entre o jiu‐jitsu e as demais modalidades ferviam a cidade do Rio de Janeiro, com Carlos e Helio Gracie finalizando todos seus adversários” (Engelhart, 2011, p. 15).

A Placar, considerada a revista esportiva de maior circulação e mais popular do Brasil, lançou uma edição especial em 2012 – o Guia Placar do UFC – na qual apresentava aspectos da história e da origem do MMA. De forma muito semelhante ao discurso preconizado por Gracie (2012), a revista menciona que a luta entre Carlos Gracie e o capoeira Samuel “foi provavelmente a primeira luta pública de vale‐tudo. Pelo menos nos tempos atuais” (Placar, jan. 2012, p. 58). Ainda em 2012, a Gazeta do Povo, considerado o jornal de maior circulação no Estado do Paraná, lançou um suplemento especial intitulado Especial UFC. Nesse encarte, o periódico destaca aspectos relacionados ao MMA e UFC. Ao tratar da evolução do vale‐tudo ao MMA, o jornal declara: “A ideia inicial era provar a superioridade do jiu‐jitsu sobre outras artes marciais. Mas o desejo da família foi muito além. O clã que tem a luta no DNA foi responsável pela semente das artes marciais mistas (MMA)” (Gazeta do Povo, 2012Gazeta do Povo, 11 out. 2012, p. 2).

A partir das referências acima citadas, é possível perceber algumas inconsistências discursivas, principalmente quanto à origem do jiu‐jitsu e do vale‐tudo, neste estudo denominado confrontos intermodalidades. Outro dado que merece atenção consta no fato de haver discrepâncias em relação às datas atribuídas à origem do jiu‐jitsu ou do vale‐tudo no Brasil, alguns autores alegam que essas modalidades surgiram somente nos primeiros anos da década de 1930, porém algumas das referências acima citadas dão conta de que o surgimento do vale‐tudo’ tenha ocorrido já na década de 1920. No entanto, se por um lado existem inconsistências e contradições, por outro existem alguns dados consensuais: o primeiro deles reivindica para o Brasil a gênese dos confrontos intermodalidades. Outro dado consensual presente nessas referências faz menção ao fato de que tanto o jiu‐jitsu quanto o vale‐tudo tiveram suas origens relacionadas ao Konde Koma e à família Gracie.

Konde Koma no Brasil

A 23 de setembro de 1914 o Correio Paulistano estampava a seguinte manchete: “Estreia da afamada trupe de lutadores japoneses de jiu‐jitsu dirigida pelo campeão mundial Konde Koma” (Correio Paulistano, 23 set. 1914, p. 7). Poucos meses depois o jornal carioca A Época apresentava os integrantes da referida trupe japonesa, os quais demonstrariam na cidade do Rio de Janeiro as técnicas do jiu‐jitsu: “Konde Koma, detentor do ‘cinturão de ouro’ e intitulado campeão mundial por vencer o campeonato em Londres em 1914; Satake, campeão de 1913 em New York; Shimizu, campeão de 1913 no Peru; Okura, campeão em 1914 no Chile; e Raku, campeão em 1913 no México” (A Época, 5 abr. 1915, p. 6). Grande parte das publicações brasileiras, científicas ou não, que tratam dos primórdios do jiu‐jitsu no país considera Koma como o introdutor dessa modalidade em 1914 (Laydner & Takao, 2013).

A turnê feita pela trupe de Koma no Rio de Janeiro foi possível graças a um contrato com a empresa de Paschoal Segreto (Martins, 2004) empresário do ramo de entretenimento que costumava sediar em seus teatros campeonatos de luta romana ou boxe: “O empresário Paschoal Segretto, no intuito de apresentar ao público os golpes ligeiros do jiu jitsu, acaba de contratar para trabalhar no Carlos Gomes uma ‘trupe’ de praticantes do pouco divulgado esporte oriental” (O Imparcial, 12 mar. 1915, p. 10). As apresentações consistiam em lutas de jiu‐jitsu entre os integrantes da trupe, apresentação de técnicas de defesa pessoal e, eventualmente, desafios ao público assistente (Laydner & Takao, 2013). Em reportagens publicadas nos jornais cariocas daquele período, eram comuns os relatos de teatros lotados nos dias de apresentação dos lutadores de jiu‐jitsu (A Época, 4 mai. 1915, p. 6; O Paiz, 1° mai. 1915, p. 12). Entretanto, cumpre‐se ressaltar que a estratégia de Konde Koma de propor desafios ao público e, ainda, colocar em jogo quantias em dinheiro pode ter sido fator motivador aos espectadores.

Por meio de reportagens publicadas em diversos jornais, é possível notar o tratamento positivo dado pela imprensa carioca acerca das apresentações de Konde Koma, cujo término da temporada de espetáculos no Rio de Janeiro foi assim retratado: “Embarca amanhã à noite para Belo Horizonte, onde vai se exibir no Teatro Cassino, a trupe de lutadores japoneses do Konde Koma, que tanto sucesso alcançou ultimamente no Teatro Carlos Gomes” (O Paiz, 5 jun. 1915, p. 3).

Possivelmente, a boa impressão deixada pelos lutadores da equipe de Konde Koma, tanto para o público quanto para a imprensa carioca, gerou expectativas em outras cidades. Como exemplo, podem‐se aqui citar algumas capitais pelas quais a trupe de Koma se apresentou, dentre elas Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Recife, Belém, São Luís e Manaus (Judoctj, 2013).

Já em 1917, após rodar o Brasil com as apresentações de sua trupe, Konde Koma decidiu fixar residência no Estado do Pará. A opção por fixar‐se em Belém possivelmente tenha se dado pelo fato de a capital paraense ser o maior centro urbano da Região Norte do Brasil, além de um importante entreposto para a venda de borracha (Cairus, 2011). Nesse período, conheceu Gastão Gracie, um comerciante da região, que se interessou pelas técnicas de defesa pessoal ensinadas por Koma. Gastão encaminhou seu filho Carlos às aulas ministradas pelo japonês. Carlos se mostrou um aluno dedicado e talentoso e em pouco mais de quatro anos de treinamento já dominava grande parte das técnicas do jiu‐jitsu (Alonzo et al., 2008). Gastão e sua família mudaram‐se para o Rio de Janeiro no início de 1922. Em 1925, Carlos inaugurou a Academia Gracie de jiu‐jitsu, auxiliado pelos irmãos George, Hélio, Oswaldo e Gastãozinho.

O jiu‐jitsu já tinha se tornado relativamente conhecido no Rio de Janeiro, devido, principalmente, às apresentações do Konde Koma e sua trupe em 1915. Os integrantes da família Grace, com o sentido de provar a supremacia das técnicas do jiu‐jitsu para atrair mais alunos para sua academia, direcionavam desafios aos mestres de outras modalidades ou brigadores de rua, em alguns casos até ofereciam premiações em dinheiro àqueles que os vencessem. A estratégia parece ter dado certo, poucos anos depois o jiu‐jitsu praticado por integrantes da família Gracie era reconhecido como uma arte marcial extremamente eficiente em combates reais.

O jiu‐jitsu antes de Koma: a trajetória de Sada Miyako no Brasil

Em 1908 o jornal O Século anunciava em breve nota uma disputa de jiu‐jitsu no Rio de Janeiro: “No teatro João Caetano realizou‐se á tarde, um match de jiu jitsu, pelos dois japoneses Sada Myiako e M. Kakiora, que vieram a bordo do Benjamin Constant” (O Século, 25 dez. 1908, p. 2). Segundo a reportagem, essa disputa foi uma das diversas atrações da “exposição nacional”, feita por ocasião das festas natalinas. A nota também noticia a chegada dos lutadores japoneses ao Rio de Janeiro, a bordo do navio escola da marinha brasileira, Benjamim Constant. Dessa maneira, pode‐se notar que Miyako fazia lutas de jiu‐jitsu com um conterrâneo, possivelmente com o sentido de divulgar a eficiência das técnicas do jiu‐jitsu em solo brasileiro. Note‐se aqui que a vinda de Miyako ao Brasil se deu aproximadamente seis anos antes da chegada de Konde Koma.

Em sua passagem pelo Brasil, no fim da primeira década do século XX, o japonês Sada Miyako, representante da academia Kodokan, foi contratado pela Marinha brasileira com a função de ensinar as técnicas do jiu‐jitsu para os oficiais de elite (Cairus, 2011). Dessa maneira, o jiu‐jitsu, antes mesmo de tornar‐se conhecido da população brasileira, já era adotado pelas forças armadas, como se percebe no pequeno excerto: “Dos nossos marinheiros que já se acham preparados no jogo do Jiu‐Jitsu, alguns seguirão para instruir os aprendizes da escola do estado da Bahia e outros ficarão aqui como instrutores da escola desta capital” (Gazeta de Notícias, 27 jun. 1909, p. 8). Não se sabe ao certo quanto tempo Sada Miyako esteve na função de instrutor de jiu‐jitsu na Marinha do Brasil. Contudo, a partir dessa pequena reportagem é possível notar que o treinamento ministrado por Miyako teria sequência com instrutores brasileiros. Sada Miyako permaneceu no Brasil por mais algum tempo, fez demonstrações de defesa pessoal e das técnicas do jiu‐jitsu, até protagonizou alguns embates contra lutadores de outras modalidades (Gazeta de Notícias, 2 mai. 1909, p. 6).

Portanto, segundo as fontes selecionadas para este estudo, a chegada do jiu‐jitsu ao Brasil se deu, num primeiro momento, pela vinda de dois lutadores japoneses, Sada Miyako e M. Kakiora, cuja função era ensinar as técnicas dessa arte marcial aos marinheiros brasileiros em 1908. Já nesse período as autoridades militares pareciam perceber nessa modalidade a possibilidade de promover a disciplina e o respeito às hierarquias, estimular a organização racional e incrementar a capacidade física dos marinheiros. Segundo Cairus (2011), após a vitória do Japão sobre os russos no conflito em 1905, o Japão consolidava um status de nação moderna. Mesmo tendo uma frota mais numerosa e moderna do que os russos, a ação militar japonesa notabilizou‐se pela velocidade, organização e eficiência dos ataques (Freire, 2004). Um dos fatores que contribuíram para o impressionante desempenho militar do Japão, no campo de batalha, foi o uso da referida arte marcial como uma ferramenta para promover a disciplina, a organização das tropas e as capacidades físicas dos soldados.

No decorrer da década de 1910, era recorrente nos jornais cariocas o discurso que enfatizava a necessidade de o Brasil se transformar em uma “nação forte”. Tal discurso tinha cunho militarista e tornou‐se ainda mais notório com a eclosão da Grande Guerra (Silva & Carneiro, 1998). Nesse sentido, a adoção do jiu‐jitsu como arte marcial pela Marinha brasileira poderia ser justificada como uma tentativa de incrementar as capacidades militares da nação.

O jiu‐jitsu era retratado nos jornais como “uma arte científica e o sistema de educação física, moral e intelectual dos japoneses” (O Imparcial, 30 mar., 1915, p. 10). Apesar de sua proveniência oriental, ou seja, distante dos padrões de civilidade europeus (Elias, 2011), tal arte marcial era considerada moderna e civilizada, pois suas técnicas conciliavam a maximização da eficiência com o uso mínimo de energia, isso em um momento em que esses eram conceitos importantes para o processo de industrialização (Cairus, 2011). Nas páginas dos periódicos cariocas era recorrente o discurso de que o fraco poderia vencer o forte com o uso das técnicas do jiu‐jitsu. Em um período posterior o referido discurso tornou‐se muito popular por ser sistematicamente usado por Konde Koma e mais tarde por integrantes da família Gracie com o sentido de enfatizar as qualidades da arte marcial.

Miyako e os desafios intermodalidades

Além da instrução das técnicas do jiu‐jitsu para os marinheiros brasileiros Miyako também usava outros recursos com o sentido de provar a supremacia da arte marcial proveniente do Japão. Quatro meses após chegada de Miyako ao Brasil, o jornal O Paiz publicava o seguinte anúncio.

“Hoje segunda‐feira 19 de abril – Curiosa e interessante luta japonesa do jiu‐jitsu. Match entre Sada Miyako e o lutador português Arnaldo José Ferreira, vencedor de um match com o celebre japonês Raku no Colyseo dos Recreios de Lisboa. Arnaldo José Ferreira, de 18 anos e um metro de peito, desafiou Sada Miyako para um match em 10 minutos (O Paiz, 19 abr. 1909, p. 8).

Tal confronto provavelmente tinha a intenção de provar a eficiência da arte marcial japonesa, tendo em vista a possibilidade de que o lutador português, embora com avantajada compleição física, não dominasse tais técnicas. É possível, segundo esse pequeno excerto, notar que em Portugal já havia ocorrido uma luta de caráter intermodalidade. Os jornais pesquisados não trazem o resultado da disputa entre Miyako e Ferreira. No entanto, o importante nesse momento é que, já em 1909, foi possível perceber a existência de desafios de lutas intermodalidades no Rio de Janeiro. Tal fato pode ser comprovado em outra reportagem, publicada em O Paiz, na qual é relatada a conduta do lutador japonês quanto a esses desafios:

“À hora determinada, apresentou‐se o mestre japonês Sada Miyako, que, como se sabe, desafiava a qualquer pessoa para lutar, prometendo prêmios àquele que o conseguisse subjugar. Por várias vezes alguns campeões se apresentaram no tablado, e, entretanto, o terrível japonês facilmente os matava (O Paiz, 2 mai. 1909, p. 2).

O referido jornal já distinguia os procedimentos adotados pelo lutador japonês para demonstrar a eficiência do jiu‐jitsu por meio dos desafios. O texto ainda ressalta o fato de o lutador japonês oferecer “prêmios” aos seus contendores, como provável forma de estimular o aceite dos combates por populares. As fontes escolhidas para esta pesquisa não esclarecem o que eram os tais “prêmios”, mas possivelmente se tratasse de quantias em dinheiro. A estratégia de oferecer prêmios por parte do lutador japonês parece ter obtido certo sucesso, tendo em vista o aceite de outros lutadores para tais desafios. Conforme o relato da reportagem, invariavelmente as disputas terminavam com vitória de Miyako.

Ainda em 1909, aconteceu no Rio de Janeiro uma disputa entre os lutadores Sada Miyako e Cyríaco da Silva, capoeirista brasileiro. O resultado de tal embate repercutiu intensamente em diversos periódicos da capital carioca, tais como O Paiz, Gazeta de Notícias, Careta e Revista da Semana. A Gazeta de Notícias, em uma longa reportagem intitulada “Jiu‐jitsu vencido pela capoeiragem” relata detalhadamente tal disputa, aqui editada:

“Todas as noites, lá estava o público assistindo o interessante ‘esporte’ e aplaudindo o japonês, que, calmo, frio, ia derrubando com os seus golpes de surpresa os adversários de todas as nacionalidades que ousavam apresentar‐se na arena. Pois ontem foi vencido o profissional de ‘jiu jitsu’ por um negro que não é profissional de capoeiragem. É digno de registro o golpe empregado pelo negro brasileiro para vencer o japonês. Esse golpe ficará para história. E foi ele um ‘rabo de arraia’. [...] A plateia, que já conhecia das intenções do negro, que para ali foi a convite de uns moços conhecedores do nosso terrível jogo de capoeiragem, estava ansiosa para assistir à luta, quando soube que o profissional não aceitava o encontro. Começaram as reclamações que iam degenerando em desordem. Cadeiras foram atiradas, mesas foram tombadas, enquanto os assovios vaiavam. Nisso o pano subiu e apareceu no palco o profissional do ‘jiu jitsu’ que ia lutar com o nosso capoeira. [...] Enfrentaram os dois adversários e após dois minutos de ansiedade geral o negro que mantinha o mesmo espaço que o separava do japonês abaixou‐se de repente, firmou‐se nas mãos e, rodando os pés no ar, como quem faz uma ‘pantana’, deu tão violento choque no profissional de ‘jiu jitsu’ que o atirou no chão estonteado. [...] Os espectadores em massa trouxeram o vencedor para a rua e em aclamações andaram com ele pelas redações dos jornais (Gazeta de Notícias, 2 mai. 1909, p. 6).

Nessa citação torna‐se possível perceber alguns detalhes da luta intermodalidade. Devido à escassez de fontes desses primeiros desafios, não se sabe ao certo sob quais regulamentações essas lutas estavam sujeitas. Num primeiro momento, pode‐se inferir que cada lutador pudesse usar todos os recursos próprios de sua arte marcial, considerando que a luta teve fim com um golpe típico da capoeira, o “rabo de arraia”.

Considerações finais

Possivelmente o sucesso dos integrantes da família Gracie na maioria daqueles “desafios”, somado ao fato de que Rorion Gracie idealizou no início da década de 1990 um evento intermodalidade, o Ultimate Fighting Championship (UFC), cujo irmão Royce Grace se sagrou vencedor em três das quatro primeiras edições do evento, evidenciaram que as técnicas do jiu‐jitsu eram superiores às de outras modalidades e ao mesmo tempo notabilizaram o sobrenome Gracie. Tais fatos possivelmente tenham sedimentado a atual predominância de um discurso hegemônico, o qual atribui aos membros dessa família a introdução dos desafios intermodalidades no Brasil, algo bastante próximo a uma “tradição inventada”’ (Hobsbawm, 2012), a qual vincula a gênese dos confrontos intermodalidades exclusivamente à ação dos Gracie. Segundo essa versão histórica, predominante no Brasil – e, provavelmente, no mundo –, Carlos Gracie aprendeu as técnicas de jiu‐jitsu ao longo da segunda década do século XX com o japonês Mytsui Maeda, também conhecido como Konde Koma, considerado por vários pesquisadores como precursor do jiu‐jitsu no Brasil.

Nesse sentido, as fontes aqui apresentadas e analisadas contestam esse discurso hegemônico em favor do Konde Koma e dos integrantes da família Gracie. Constatou‐se que já em 1908, ou seja, seis anos antes da chegada do Konde Koma ao Brasil, Sada Miyako ministrava aulas de jiu‐jitsu para os militares da Marinha brasileira. Além disso, as fontes mostram que o mesmo Sada Miyako já protagonizava em teatros da então capital federal lutas intermodalidades, o que contraria a ideia de que essa é uma premissa dos Gracie.

Se por um lado é inegável a importância de Konde Koma no processo de disseminação do jiu‐jitsu no Brasil, por outro pode‐se notar que a participação de Sada Myiako nesse processo é praticamente desconsiderada. Reila Gracie (2012) se refere a Myiako da seguinte maneira: “Sada Miyako se dizia lutador de jiu‐jitsu e que fora vítima de uma farsa” (Gracie, 2012, p. 70). A citação indica haver certa desconfiança quanto ao fato de Myiako ser realmente um lutador de jiu‐jitsu. Tal suspeição tende a reforçar a versão de que Maeda foi o pioneiro do jiu‐jitsu no Brasil e por consequência que os Gracie seriam os ascendentes diretos de Koma.

Financiamento

Bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Fontes

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O Imparcial. Jiu‐jitsu. Rio de Janeiro: O Imparcial, 30 mar. 1915, p. 10.

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O Paiz. Pavilhão Internacional. Rio de Janeiro: O Paiz, 19 abr. 1909, p. 8.

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O Paiz. Varias notícias. Rio de Janeiro: O Paiz, 5 jun. 1915, p.3.

O Século. Exposição Nacional. Rio de Janeiro: O Século, 25 dez. 1908, p. 2.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Silva, H. CARNEIRO, Maria Cecília Ribas. História da República brasileira: o Brasil e a 1° grande guerra 1915/1919. São Paulo: Editora Três, 1998.

Confrontos intermodalidades correspondem àquelas disputas que reúnem lutadores de modalidades distintas e cujas regras apresentam relativa flexibilidade.

Segundo o site JudoCTJ, Konde Koma, cujo verdadeiro nome era Mitsuyo Maeda, nasceu em 1878 em Aomori, Japão. Foi para Tóquio em 1894, com 17 anos, foi nesse período que iniciou seus treinos nas artes marciais japonesas, mais precisamente na academia Kodokan. Após viajar para os Estados Unidos, Reino Unido, México, Cuba e França e fazer apresentações com sentido de provar a eficiência do jiu‐jitsu, chegou ao Brasil em meados de 1914. Após fazer uma série de demonstrações das técnicas de jiu‐jitsu e protagonizar vários confrontos intermodalidades, Maeda decidiu fixar residência em Belém do Pará onde ministrou aulas de jiu‐jitsu. Maeda faleceu em 1941 na capital paraense. Informações disponíveis em: http://www.judoctj.com.br/mitsuyio‐maeda‐o‐konde‐koma‐a‐historia‐do‐jiu‐jitsu‐parte‐3/. Acessado em: 10/03/2016.

A família Gracie é muito numerosa, no entanto vale aqui ressaltar os nomes daqueles que mais tiveram influência na idealização e divulgação do jiu-jitsu. Carlos Gracie foi o primeiro da família a ter contato com as técnicas do jiu-jitsu japonês. Por meio de Carlos, os irmãos Hélio, George, Gastão Filho e Oswaldo aprenderam as técnicas. Quanto à segunda geração do jiu-jitsu da família Gracie, os mais conhecidos são Carlson (filho de Carlos Gracie), Rorion, Rickson e Royce (filhos de Hélio Gracie) (Lise et al., 2014).

Arte marcial de origem japonesa, que se desenvolve majoritariamente no chão, na qual são permitidos torsões, chaves e estrangulamentos. Golpes de percussão, tais como socos ou chutes, são proibidos.

Hobsbawm e Ranger, na obra A invenção das tradições, consideram como tradição inventada “Um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas. Tais práticas de natureza ritual ou simbólica visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado, aliás, sempre que possível, tenta‐se estabelecer uma continuidade com um passado histórico apropriado” (Hobsbawm; Ranger, 2012, p. 12).

A modo de exemplo, ver: Oliveira, 2011 (15 abr.). Disponível no site: <http: esporte.ig.com.br="" utas="" +historia+dos+gracie+o+surgimento+do+valetudo="" 1300076934073.html=""> . </http:>

Basso, 2012. Disponível no site: <http: rollingstone.uol.com.br="" dicao="" dicao‐69="" acao‐de‐lutadores=""> . </http:>

Sigla de Mixed Martial Arts, modalidade de esporte de combate que permite o uso de técnicas próprias de cada modalidade.

Autor para correspondência. (Riqueldi Straub Lise liseriqueldi@gmail.com)
Copyright © 2018. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:318-24 - Vol. 40 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.003