Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:353-60 - Vol. 40 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.04.015
Artigo original
O trabalho do professor de educação física nos Caps de Goiânia: identificando as oficinas terapêuticas
The work of the physical education teacher at the Caps in Goiânia: identifying the therapeutic workshops
El trabajo del profesor de educación física en los Caps de Goiânia: identificación de los talleres terapéuticos
Roberto Pereira Furtadoa,, , Marina da Costa Azevedoa, Ricardo Lira de Rezende Nevesa, Patrícia Santiago Vieirab
a Universidade Federal de Goiânia, Faculdade de Educação Física e Dança, Goiânia, GO, Brasil
b Instituto Federal de Goiás (IFG), Anápolis, GO, Brasil
Recebido 19 Abril 2016, Aceitaram 13 Abril 2018
Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar um perfil das oficinas terapêuticas, com a participação dos professores de educação física, desenvolvidas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) do município de Goiânia (GO). A partir de observações da rotina de trabalho semanal de 16 professores foi feita uma pesquisa exploratória em sete Caps. Usamos um roteiro estruturado como instrumento de coleta de dados. Em uma semana, 44 sessões de oficinas tiveram a participação de profissionais de educação física, 33 foram organizadas a partir de algum tema da cultura corporal, 33% delas ocurreram em espaços e instituições do território adscrito ao Caps. O tema mais abordado foi exercícios físicos e ginásticos, porém outros oito temas da cultura corporal também foram identificados.

Abstract

The purpose of this article is to identify the main characteristics of the therapeutic workshops, developed in Caps in the city of Goiania, with the participation of physical education teachers. An exploratory study was conducted at 7 Caps, in which the weekly work routine of 16 teachers was observed. A structured script was used as a data collection instrument. Within a week, 44 sessions of workshops were attended by physical education teachers, 33 with body practices, 33% were carried out at affiliated institutions. The most discussed topic was physical and gymnastic exercises; however other 8 body practices were also identified as central themes of the workshops.

Resumen

El objetivo de este artículo es identificar las características principales de los talleres terapéuticos, con la participación de profesores de educación física, desarrollados en los Caps de la ciudad de Goiânia. Un estudio exploratorio se llevó a cabo en 7 Caps a partir de observaciones rutinarias del trabajo semanal de 16 profesores. Como instrumento de recopilación de datos se utilizó el guion estructurado. Se asistió a 44 sesiones de talleres en una semana con la participación de profesionales de la educación física, 33 de prácticas corporales y el 33% se llevó a cabo en los espacios e instituciones del territorio adscrito a los Caps. El tema más tratado fue el ejercicio físico y la gimnasia, pero otras 8 prácticas corporales también fueron identificadas como tema central de los talleres.

Palavras‐chave
Educação física, Saúde mental, Oficinas terapêuticas, Esportes
Keywords
Physical education, Mental health, Therapeutic workshops, Sports
Palabras clave
Educación física, Salud mental, Talleres terapéuticos, Deportes
Introdução

Nos últimos anos, as oportunidades de trabalho na saúde pública para o professor de educação física foram ampliadas. Consequentemente, houve um aumento da produção científica que envolveu a educação física nas Políticas Nacionais de Saúde (PNS) e nas possibilidades de intervenção e interlocução com o Sistema Único de Saúde (SUS) (Freitas et al., 2013). Esse processo não é diferente no campo da saúde mental, que também conta com a presença do professor de educação física nos seus serviços, principalmente, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). No município de Goiânia, por exemplo, apesar de os Caps serem recentes – implantados em 1999 –, em oito dos dez Caps há pelo menos um profissional com formação em educação física nas equipes multiprofissionais.

Os Caps são serviços abertos e comunitários do Sistema Único de Saúde (SUS), espaço de “referência” e “tratamento” para pessoas com sofrimentos mentais, como psicoses, neuroses graves, as quais necessitem de cuidado “intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida” (Brasil, 2004, p. 13). Esses serviços encontram sua expressão normativa na Lei n° 10.216, de 6 de abril de 2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica), que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial. Amarante (2007) explica que, tradicionalmente, o cuidado em saúde mental apresenta uma hegemonia da psiquiatria. Entretanto, para atender aos princípios contidos na referida lei, que institucionaliza a reforma psiquiátrica, o cuidado tem se reorientado para ultrapassar as intervenções tradicionais, não se restringe à consulta psiquiátrica e à intervenção medicamentosa. Desse modo, a proposta terapêutica para os usuários envolve diversas áreas do conhecimento e, portanto, outras profissões, o que favorece a integralidade do cuidado. Nesse sentido, Rodolpho et al. (2013, p. 83) argumentam que “um só serviço de saúde ou um só profissional não consegue cuidar das subjetividades, de uma perspectiva integral, solitários em seus muros e consultórios, ainda que imbuídos de um olhar solidário”.

O Ministério da Saúde preconiza que a equipe multiprofissional dos Caps seja composta por médicos, enfermeiros e profissionais de nível superior das seguintes categorias: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico. Além dos profissionais de nível médio, tais como técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão (Brasil, 2002; Brasil, 2013).

A partir dessas orientações, percebe‐se que a presença do professor de educação física no Caps não é obrigatória. Trata‐se de uma opção de cada gestão, na medida em que considera o professor de educação física como necessário ao desenvolvimento do projeto terapêutico dos usuários. Nesse sentido, é importante ressaltar o caso do município de Goiânia, em que 80% dos Caps contam com pelo menos um professor de educação física.

Além da inclusão de outras profissões, a mudança de paradigma no processo de cuidado terapêutico no Caps requer outras metodologias de intervenção, como roda de conversa, grupos de convivência, passeios e as oficinas terapêuticas. Trata‐se da tentativa de desenvolver o cuidado na perspectiva da clínica ampliada, que envolve o tratamento em uma dimensão clínica e em uma dimensão subjetiva, psicossocial e política (Ramminger e Brito, 2011; Cadore e Beck, 2011; Campos, 2003). Nessa perspectiva, há um esforço de legitimar novas metodologias e ferramentas de cuidado, evidenciar que elas são tão relevantes quanto os medicamentos e atendimentos em consultório, como as consultas médicas e psicológicas. A reforma psiquiátrica ainda é um processo em curso, portanto, permanecem as resistências a essa abordagem. Isso evidencia que ainda há muitos desafios para a consolidação do cuidado terapêutico em saúde mental na perspectiva da integralidade do cuidado, realidade que também está presente em Goiânia (Furtado et al., 2015).

As oficinas terapêuticas têm se transformado em uma das principais estratégias de tratamento oferecido nos Caps. Pinto (2011) explica que foram as propostas de rompimento com a prática e o saber psiquiátrico, defendidas pela reforma, que confeririam “ao trabalho e à atividade outro lugar e uma nova função dentro do campo da saúde mental, inserindo as atuais oficinas terapêuticas na estratégia de desinstitucionalização” (Pinto, 2011, p. 42).

Entretanto, as primeiras experiências da atividade laboral, como parte da terapia, centravam‐se no sentido funcionalista compensatório e de ocupação do tempo livre. De acordo com Amarante (2007), a inserção do trabalho no tratamento terapêutico ocorreu com o uso de “foices e enxadas”. Ao se obterem resultados considerados positivos no tratamento, não mais por milagre, mas pelo trabalho, houve a denominação dessa terapia de “trabalho terapêutico”.

É possível que muitas propostas de oficinas terapêuticas ainda sejam elaboradas a partir da perspectiva funcionalista de ocupação do tempo livre ou de oferta de práticas compensatórias. Essa perspectiva acompanhou a atenção em saúde mental ao longo de sua história e ainda hoje permanece, mesmo com todo o esforço pela reforma psiquiátrica (Yasuí e Santiago, 2011; Constantinidis, 2012). Por isso, é importante ressaltar que essa outra direção e sentido para o tratamento terapêutico representa uma perspectiva ainda em disputa e, também, requer maior materialização de propostas construídas em perspectivas antimanicomiais, exige muitos esforços em seu processo de consolidação.

Em propostas substitutivas à lógica manicomial, a presença de oficinas terapêuticas adquire uma nova legitimidade. Muitas delas ocorrem a partir de elementos que dão identidade aos diferentes campos profissionais e, consequentemente, também à educação física. Alguns autores, como Abib et al. (2010), Guimarães et al. (2012), Lírio (2011) e Machado (2015) identificaram que nos Caps os professores de educação física têm desenvolvido oficinas terapêuticas que abordam diversas práticas corporais. Essas compreendem os elementos da cultura corporal “de determinado grupo que carregam significados que as pessoas lhe atribuem, e devem contemplar as vivências lúdicas e de organização cultural. ii) Existem várias formas de práticas corporais: recreativas, esportivas, culturais e cotidianas” (Brasil, 2012, p. 28).

Entendemos ser importante que as experiências de oficinas terapêuticas desenvolvidas pelos professores de educação física em conjunto com outros profissionais da saúde sejam analisadas e compartilhadas: “não só para que as experiências exitosas possam ser adaptadas e repetidas, mas também para que novas experiências se desenvolvam a partir delas” (Ramminger e Brito, 2011, p. 159). Esse é um desafio de grande relevância para que os profissionais que trabalham nos Caps possam avançar na proposição de novos recursos e estratégias que fortaleçam o processo de reforma psiquiátrica.

É com a intenção de contribuir para esse desafio que apresentamos resultados de uma pesquisa que identificou e analisou as principais características das oficinas terapêuticas, com a participação dos professores de educação física dos Caps da cidade de Goiânia. Identificamos, entre outros elementos, a quantidade, os temas, a frequência e tempo de duração, os profissionais envolvidos e o acesso dos usuários às instituições e aos equipamentos de lazer do território adscrito, proporcionado pelas oficinas. Foram categorizadas como oficinas terapêuticas atividades coletivas, planejadas e com frequência periódica, propostas por profissionais dos Caps com o propósito de “promover sociabilidade, intermediar relações, manejar dificuldades relacionais, possibilitando experiência de construção compartilhada, vivência de pertencimento, troca de afetos, autoestima, autonomia e exercício de cidadania” (Brasil, 2013, p. 9).

Metodologia

Atualmente, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia tem dez Caps, sendo quatro Caps “ad”, cinco Caps II e um Caps “i”, com 22 professores de educação física distribuídos entre eles. De acordo com o manual Caps, o tipo “ad” seria para atendimento diário à população com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas; o tipo II seria Caps para atendimento diário de adultos, em sua população de abrangência, com transtornos mentais severos e persistentes; e o Caps “i” para atendimento diário a crianças e adolescentes com transtornos mentais (Brasil, 2004).

Nesses cenários, fizemos uma pesquisa de campo exploratória, que, segundo Triviños (1987, p. 109), “permite ao investigador aumentar sua experiência em torno de determinado problema”. A técnica de coleta de dados usada foi a observação com roteiro estruturado. As observações foram feitas nas últimas duas semanas de maio de 2014.

Todas as atividades da rotina de trabalho dos professores foram observadas, porém, para este artigo, apresentaremos apenas a análise das oficinas terapêuticas. As observações foram feitas pelos pesquisadores do grupo Ecos1 em cada Caps durante uma semana completa de trabalho, de segunda‐feira a sexta‐feira. Após finalizadas as observações, organizamos e tabulamos os dados em planilhas para facilitar a identificação dos aspectos mais relevantes observados e registrados. A caracterização geral das oficinas que apresentamos nesse artigo resultou da análise dos dados objetivos registrados em 105 roteiros estruturados de observação. Neles identificamos a presença de 44 sessões de oficinas terapêuticas. Por esse motivo, nos valemos de elementos da estatística básica no processo de análise. Dezesseis professores de educação física que integravam o trabalho nas oficinas participaram da pesquisa e seis que compõem equipes dos Caps não participaram, desses três não podiam ou não se dispuseram durante o período de coleta de dados, dois estavam na função de coordenador geral do Caps no qual estavam lotados e uma última profissional não participou porque foi integrada à equipe após a finalização da coleta de dados.

O quadro 1 apresenta os Caps, suas respectivas classificações e o quantitativo de profissionais lotados e observados durante a pesquisa.

Quadro 1.

Classificação quanto ao tipo e modalidade de usuários e quantitativo de professores de educação física lotados e observados por Caps

CapsaTipoModalidadeProfessores de educação física
Lotados  Observados 
II  Transtorno adulto  02  02 
II  Transtorno adulto  04  04 
II  Transtorno adulto  01  01 
II  Transtorno adulto  05  03 
II  Transtorno adulto  00  00 
Transtorno infantil  03  03 
ad  Álcool e outras drogas adulto  02  01 
ad  Álcool e outras drogas adulto  03  02 
adib  Álcool e outras drogas infantil  02  00 
Total      22  16 

Fonte: Autoria própria.

a

Optamos por ocultar os nomes dos Caps e substituí‐los pelas letras de A até I.

b

Em Goiânia há essa particularidade não muito comum. Trata‐se de um Caps “ad” direcionado ao público menor de 18 anos.

Pode ser observado no quadro que 10 dos profissionais observados são lotados em unidades tipo II direcionadas para transtornos mentais. Esse perfil predominante em relação aos profissionais observados resulta da própria organização dos Caps no município, que também apresenta uma quantidade inferior de Caps “ad” e Caps “i”. Cabe ressaltar que algumas das categorias de análise identificadas proporcionam maior enfoque interpretativo, outras não apresentam tal potencialidade, mas também se mostraram relevantes para serem descritas, pois podem auxiliar na compreensão dessa realidade ainda pouco explorada pela literatura do campo acadêmico da educação física.

Identificação das oficinas terapêuticas

Durante as observações, identificamos que muitas oficinas terapêuticas conduzidas pelos professores de educação física tiveram a participação de mais de um profissional, o que reforça a defesa de Malavolta e Wachs (2005) de que as oficinas terapêuticas expressam a lógica do trabalho coletivo e se tornam importantes mecanismos no tratamento dos usuários. Das 44 sessões observadas, 25 (57%) não tiveram a participação de qualquer outro profissional e 19 (43%) tiveram a participação de outros profissionais. Entre essas sessões, uma foi acompanhada por outro professor de educação física e 18 foram acompanhadas por profissionais de outra categoria, como musicoterapia, psiquiatria, psicologia, farmácia, enfermagem, técnico em enfermagem e estagiários de psicologia e de enfermagem.

No que diz respeito ao esforço no desenvolvimento de intervenções interdisciplinares, destacamos dois Caps. Em um deles, em todas as oficinas terapêuticas que contam com a presença de professores de educação física, havia também pelo menos um profissional de outra categoria. Cabe salientar que durante as oficinas todos os profissionais intervieram no grupo com abordagens terapêuticas. No outro Caps que destacamos também notamos o esforço em direção à interdisciplinaridade. Das 14 sessões observadas, 10 foram acompanhadas por um profissional de outra categoria, com contribuições significativas. Vale ressaltar que ambos eram Caps II direcionados para adultos com transtornos mentais.

Na tabela 1, apresentamos o quantitativo de professores envolvidos nas oficinas terapêuticas por Caps, a quantidade de oficinas terapêuticas relacionadas ou não com algum tema da cultura corporal e a quantidade de sessões que ocorreram durante o período da pesquisa.

Tabela 1.

Quantidade de professores de educação física e de oficinas terapêuticas por Caps

Tipo de CapsProfessores observadosOficinas terapêuticas
Temas da cultura corporalOutros temasTotal de sessões
Qtd  Sessões  Qtd  Sessões 
Infantil  03  02  11  00  00  11 
II  01  00  00  01  01  01 
II  02  05  07  00  00  07 
II  03  02  02  04  04  06 
II  04  07  12  02  03  15 
AD  01  00  00  01  02  02 
AD  02  01  01  01  01  02 
Total  16  17  33  9  11  44 

Fonte: Autoria própria.

Verificamos que as oficinas terapêuticas ocorrem em horários e dias preestabelecidos em planejamento e, portanto, são contínuas, ou seja, esse mesmo quantitativo identificado na tabela 1 provavelmente se repetiria nas semanas subsequentes.

O tempo de duração das sessões das oficinas terapêuticas variou entre o mínimo de 27 minutos ao máximo de 240 minutos. O tempo de 240 minutos foi encontrado no Caps infantil, nas atividades recreativas, sob a orientação do professor de educação física, porém intermitentes e de acesso livre. Calculamos a média saneada, após análise do desvio‐padrão, de todas as demais sessões de oficinas terapêuticas, com exceção das atividades recreativas do Caps infantil, em razão de sua particularidade. Como resultado, encontramos que o tempo médio de oficinas terapêuticas é de aproximadamente 50 minutos, duas delas ficaram acima do limite e uma ficou abaixo do limite, após cálculo do desvio‐padrão.

Entre os sete Caps pesquisados, em apenas dois deles os professores de educação física não fizeram oficinas terapêuticas com os temas da cultura corporal na semana da observação. Identificamos 17 oficinas terapêuticas relacionadas à cultura corporal. Algumas delas tinham a frequência superior a uma vez por semana, por isso ocorreram 33 sessões de oficinas com temas da cultura corporal, em uma semana de observação, representaram 75% das 44 sessões. Entre os 16 professores, 12 (75%) desenvolveram pelo menos uma das oficinas com essas temáticas.

O número expressivo de oficinas com temas da cultura corporal revela que há uma aposta na potencialidade dessas atividades para o processo terapêutico e tratamento do usuário. Além disso, demonstra que a identidade desse campo acadêmico e profissional está contemplada na rotina do serviço. Por outro lado, apenas 11 (25%) das oficinas observadas não são estruturadas a partir dessas práticas. Essas, geralmente, foram organizadas em formatos de grupos terapêuticos, nos quais predominam as rodas de conversas.

No período de observação, os Caps com maior quantidade de oficinas terapêuticas com temáticas da cultura corporal foram dois Caps tipo II direcionados a adultos com transtornos mentais, um deles com sete oficinas e o outro com cinco. Destaca‐se que o Caps com sete oficinas é também aquele com a maior quantidade de professores observados, o que certamente contribuiu para um quantitativo superior de oficinas terapêuticas com temas da cultura corporal. Entretanto, não é possível estabelecer uma vinculação direta entre o tipo de Caps e a presença dessas práticas, pois em outros dois Caps com a mesma classificação um deles não tinha oficina terapêutica com temas relacionados à cultura corporal e o outro tinha apenas duas, no período da observação.

As discrepâncias em relação à quantidade de oficinas com temas da cultura corporal ofertadas nos Caps e à presença ou não de servidores de outros campos profissionais evidenciam que cada Caps tem uma organização autônoma e pode avaliar as oficinas terapêuticas de forma diferente. Essa condição, por um lado, permite que os Caps se auto‐organizem de acordo com suas características e escolhas, mas, por outro, dificulta o desenvolvimento do trabalho dos profissionais. Ramminger e Brito (2011, p. 159) defendem que a organização do trabalho nos Caps precisa avançar para a construção de algumas normatizações que funcionariam “como suporte coletivo à atividade de trabalho, ao regrar e apoiar os comportamentos e decisões de cada trabalhador, contribuindo, inclusive, com a preservação de sua saúde”.

A cultura corporal em oficinas terapêuticas: temas e território

As oficinas terapêuticas organizadas a partir de algum tema da cultura corporal foram categorizadas da seguinte forma: jogos e brincadeiras; atividades recreativas2; hidroginástica; exercícios físicos e ginásticos; futebol; dança; práticas integrativas; avaliação física e lutas. Na tabela 2 é possível observar a quantidade e percentual de oficinas e sessões de acordo com os temas.

Tabela 2.

Quantidade de oficinas terapêuticas e sessões por temas da cultura corporal

Temas  Quantidade de oficinas  Porcentagem  Quantidade de sessões  Porcentagem 
Exercícios físicos e ginásticos  05  29%  05  15% 
Dança  02  12%  04  12% 
Práticas integrativas  02  12%  04  9% 
Jogos e brincadeiras  02  12%  03  9% 
Futebol  02  12%  02  6% 
Avaliação física  01  6%  02  6% 
Hidroginástica  01  6%  02  6% 
Atividades recreativas  01  6%  10  30% 
Lutas  01  6%  01  3% 
Total  17  100%  33  100% 

Fonte: Autoria própria.

Com relação às temáticas abordadas nas oficinas, o tema exercícios físicos e ginásticos predomina com cinco ocorrências (29%). Nessas oficinas foram feitas atividades como caminhada, corrida, ginástica e alongamentos. O predomínio da oficina de exercícios físicos e ginásticos, em certa medida, pode ser explicado pela “insegurança frente às relações de poder instituídas que impulsionam professores a se aproximarem de práticas médicas, encontrando legitimidade apenas na base de resultados orgânicos obtidos em atividades físicas protocoladas” (Wachs e Fraga, 2009, p. 8).

É possível observar que dos nove temas da cultura corporal abordados nas oficinas, três deles (exercícios físicos e ginásticos, hidroginástica e avaliação física), ou seja, 33%, são conteúdos tradicionais no campo da educação física e que comumente são desenvolvidos e planejados a partir dos aspectos biodinâmicos da saúde humana em uma perspectiva relacionada com os discursos da aptidão física e saúde.

Já em relação ao quantitativo total de sessões, destacam‐se as atividades recreativas com 28% e, novamente, os exercícios físicos e ginásticos com 19%. Também merecem destaque as atividades de dança e práticas integrativas com 11% do total de sessões, que são menos tradicionais na educação física.

As atividades recreativas foram identificadas apenas no Caps infantil, diariamente e com a participação espontânea dos usuários, sem um direcionamento claro por parte dos profissionais. Em alguns momentos, as atividades ocorriam simultaneamente, eram elas brincadeiras com bola, atividades na piscina, jogos pedagógicos e de tabuleiro, entre outras. Essa caracterização se assemelha a algumas propostas relacionadas com a construção da ambiência nos Caps “i”. Entretanto, cabe ressaltar que em nossa pesquisa o único profissional participante dessa atividade era o da educação física, o que difere de relatos de outros autores, como Ronchi e Avellar (2013).

Nos Caps em que havia oficinas relacionadas à dança, os conteúdos trabalhados foram expressão corporal, montagem de coreografia, ensaio para quadrilha, forró e ritmos. Liberato & Dimenstain (2009) apresentam o relato de experiência de uma oficina de dança, em um Caps na cidade de Fortaleza, na qual o objetivo está para além da simples ocupação do tempo dos usuários. Moehlecke (2011), Moehlecke e Fonseca (2011, 2014), Oliveira e Araújo (2013), Reis et al. (2015), entre outros autores, também apresentam ricas experiências a partir de conteúdos da dança em diversos Caps. Esses autores, em geral, ressaltam a potencialidade desse tipo de proposta em relação aos objetivos e princípios do cuidado em saúde mental.

Nas oficinas que abordavam as praticas integrativas, identificamos atividades como massagem, ioga, meditação e respiração. É importante destacar que as práticas integrativas têm características diferentes dos conteúdos tradicionais, como os esportes e a ginástica. Barros (2006, p. 850) defende a inserção das práticas integrativas no cuidado em saúde, pois elas são “práticas de cuidado subsumidas no discurso e ação dominadora do complexo mercado de produtos e serviços da racionalidade biomédica”. Cabe observar que a inserção e o reconhecimento das práticas integrativas no âmbito do SUS é bastante recente. O processo de “legitimação e institucionalização das práticas [integrativas e] complementares no Brasil teve início nos anos 1980, principalmente após a descentralização, participação popular e crescimento da autonomia municipal, promovidos pelo SUS” (Sousa, 2013, p. 20).

Outras práticas também foram tematizadas nos Caps pesquisados, tais como jogos e brincadeiras (12%), futebol (12%) e lutas com 6%. Embora os esportes, historicamente, sejam conteúdos tradicionais da educação física, percebemos que apenas o futebol foi abordado nas oficinas terapêuticas e, ainda assim, com pouca presença. Abib et al. (2010) defendem que essa prática, quando realizada nos Caps, por ser fortemente associada com a cultura do brasileiro, pode contribuir para a motivação, adesão e envolvimento na comunidade em que vivem, bem como para reinserção social dos usuários.

Quanto às relações estabelecidas com o território adscrito, das 36 sessões de oficinas terapêuticas com temas da cultura corporal observadas, aproximadamente 33,3% ocorreram em instituições ou em equipamentos de lazer próximos ao Caps, como as residências terapêuticas I e II vinculadas a um Caps, o ginásio de esportes do batalhão da Polícia Militar, pistas de caminhada, praças, parques e outros locais públicos, como ruas e calçadas. Cabe ressaltar que se desconsiderarmos as atividades recreativas desenvolvidas no Caps “i”, esse percentual sobe para 48%, ou seja, praticamente a metade das oficinas acontece fora do espaço físico dos Caps. Merece destaque que o uso de espaços públicos contribui para fortalecer a reinserção social dos usuários, pois possibilita a construção de diálogo com a cidade e potencializa o processo de desestigmatização dos usuários.

Segundo os princípios da reforma, as oficinas terapêuticas são dispositivos que devem viabilizar a desinstitucionalização, por isso seu valor enquanto prática que se articula com o que está fora dos muros da instituição. É importante lembrar que não se trata apenas de trazer o que está lá fora para dentro, mas também de sair da instituição para o espaço público, para a cidade, enfim para o mundo (Pinto, 2011. p. 47).

Por outro lado, todas as 11 sessões de oficinas que não eram tematizadas a partir da cultura corporal ocorreram dentro do espaço físico interno dos Caps. Essa diferença entre as oficinas com temas da cultura corporal e as demais pode ser um indicativo do potencial dessas práticas em uma abordagem psicossocial, desde que, além de ocupar o território, o que já representa um grande avanço na perspectiva da desinstitucionalização, os profissionais também o tematizem em um processo educativo com os usuários. É necessário avaliar em que medida o território é entendido pelos serviços simplesmente como espaço a ser “usado” ou “ocupado”, e não tematizado dentro de um processo educativo. Embora tal ocupação já represente um avanço para uma lógica de cuidado que pretende se contrapor à lógica manicomial, avanços maiores ainda podem ser conquistados. Nesse sentido, cabe ressaltar que, apesar da contribuição que a presença de atividades no território representa como um passo em direção à reinserção social, a feitura de atividades em instituições ou equipamentos de lazer presentes no território adscrito não deve ser entendida como ação suficiente nessa direção. Outras ações, como o fortalecimento das redes de cuidado, também são fundamentais neste processo.

Considerações finais

A partir desta pesquisa foi possível analisar a organização e as principais características das oficinas terapêuticas com a participação de professores de educação física dos Caps de Goiânia, contribuir com os debates a respeito da identidade profissional da educação física nesse serviço e da potencialidade que os temas da cultura corporal apresentam para a promoção de vínculos dos usuários com espaços e equipamentos do território em que vivem.

É importante destacar que em muitas oficinas terapêuticas as atividades foram desenvolvidas com a participação de outro profissional, o que indica esforços na direção de abordagens interdisciplinares na organização e execução do trabalho terapêutico. Ressaltamos que os exercícios físicos e ginásticos foram os temas mais abordados. Vemos nessa questão a força e a influência dos conteúdos tradicionais relacionados com a perspectiva da aptidão física como legitimadora da prática do profissional da educação física. Contudo, destacamos a presença de outras propostas, desenvolvidas em perspectivas distintas, evidencia que há uma pluralidade de temas da cultura corporal requisitados para o desenvolvimento de oficinas terapêuticas. Constatamos também que as sessões de oficinas duraram em média 50 minutos e que parte significativa delas ocorreu em locais externos aos Caps, em espaços e instituições do território adscrito. Isso indica que nelas há muita potencialidade para a tematização do território e outras contribuições no processo de reinserção social.

Pesquisas futuras podem aprofundar nas análises aqui desenvolvidas, questionar, por exemplo, a relação entre as propostas das oficinas terapêuticas e as necessidades dos usuários. Em alguns casos, as oficinas têm o seu delineamento elaborado pelos profissionais e são ofertadas aos usuários como opções a se inserirem. Isso indica que também pode haver propostas oriundas apenas dos interesses e facilidades apresentadas pelos profissionais e pelos recursos do território.

Financiamento

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Chamada 91/2013 ME/CNPq. Processo 487686/2013‐6

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Não é possível indicar um tema da cultura corporal específico, pois as atividades recreativas envolviam diversas práticas, tais como jogos com bola, atividades aquáticas, ginástica, jogos de tabuleiro, entre outras.

Autor para correspondência. (Roberto Pereira Furtado cremerroberto@hotmail.com)
Copyright © 2018. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:353-60 - Vol. 40 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2018.04.015