Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
O estabelecimento dos esportes náuticos no Rio Grande do Sul na primeira década do século xx: entre o ruder e o remo
The establishment of nautical sport in Rio Grande do Sul in the first decade of 20th century: Between ruder and rowing
El establecimiento de los deportes náuticos en Río Grande del Sur en la primera década del siglo xx: entre ruder y remo
Carolina Fernandes da Silvaa,, , Janice Zarpellon Mazob, Otávio Tavaresc
a Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Desportos, Departamento de Educação Física, Florianópolis, SC, Brasil
b Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID), Departamento de Educação Física, Porto Alegre, RS, Brasil
c Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Centro de Educação Física e Desportos, Departamento de Ginástica, Vitória, ES, Brasil
Recebido 10 Dezembro 2016, Aceitaram 05 Agosto 2017
Resumo

O artigo investiga como ocorreu o estabelecimento dos clubes náuticos no Rio Grande do Sul na primeira década do século XX. Para tanto, foram analisadas reportagens de jornais que circulavam em cidades do estado, bem como foi feita uma revisão bibliográfica sobre o assunto. As fontes examinadas apontaram que os esportes náuticos foram instituídos em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, as primeiras cidades portuárias do estado. Essa característica das respectivas cidades proveu as condições para a entrada de práticas e costumes europeus, entre elas o remo. A interpretação das informações, ainda, revelou que os clubes náuticos pioneiros no estado configuraram‐se como espaço de disputa e conciliação identitária entre as distintas culturas presentes no Rio Grande do Sul.

Abstract

This article investigates how the establishment of nautical clubs occurred in Rio Grande do Sul at the first decade of the 20th century. For this, newspaper articles that circulated in Rio Grande do Sul cities were analyzed along with a bibliographic review. The sources examined showed that the nautical sports were instituted in the first port cities of the state. This characteristic contributed to the entry of European practices and customs, among them rowing. For this study, the newspapers circulating in the cities were examined. The interpretation of the information revealed that the nautical clubs were configured as a space of dispute and conciliation between the different cultures present in Rio Grande do Sul.

Resumen

El artículo repasa cómo se produjo el surgimiento de los clubes náuticos en Río Grande del Sur en la primera década del siglo XX. Para ello, se analizaron reportajes de periódicos que circulaban en algunas ciudades del estado y se llevó a cabo una revisión bibliográfica sobre el tema. Las fuentes examinadas apuntaron al hecho de que los deportes náuticos se instituyeron en Río Grande, Pelotas y Porto Alegre, las ciudades portuarias más importantes del estado. Esta característica ha contribuido a la entrada de prácticas y costumbres europeas, entre las cuales puede citarse el remo. La interpretación de la información reveló que los clubes náuticos pioneros del estado se configuran como un espacio de competición y reconciliación identitaria entre las diferentes culturas presentes en Río Grande del Sur.

Palavras‐chave
História do esporte, Esportes náuticos, Clubes, Remo
Keywords
History of sport, Nautical sport, Clubs, Rowing
Palabras clave
Historia del deporte, Deportes náuticos, Clubes, Remo
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Introdução

Com o advento do século XX, o cenário dos clubes esportivos náuticos no Rio Grande do Sul, é marcado por transformações. Os primeiros clubes náuticos do estado se estabeleceram nas cidades portuárias de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre (Silva, 2015a,b). Eram eram centros de desenvolvimento econômico, político e social do estado, acoplados por portos, que beneficiavam a comunicação com outros lugares do mundo, principalmente com a Europa, de onde eram importados produtos, mas, também, costumes e práticas.

No caso da prática do remo, sua difusão a partir da Europa para outros lugares começou entre meados do século XIX e início do século XX (Elias, Dunning, 1992; Guttmann, 1978; Mandell, 1986). No Brasil, no período demarcado, tal esporte se desenvolveu em diversas cidades portuárias, porém de diferentes maneiras, como indicam estudos sobre o remo no Rio de Janeiro (Melo, 2010); em Florianópolis (Zanca, 2008; Vaz e Bombassaro, 2010); na cidade de Santos, no Estado de São de Paulo (Vieira, 2010; Almeida, Gutierrez E Marques, 2013); em Aracaju (Dantas Júnior, 2010); e em Recife (Lucena, 2010). Especificamente no Estado do Rio Grande do Sul, a prática do remo foi trazida pelos imigrantes, mas também chegou pelo contato cultural nos portos. A existência de um porto proporcionou as condições básicas não apenas para a fundação de clubes de remo, mas também para a promoção de regatas em algumas cidades no estado.1

A instauração do porto da capital do estado, Porto Alegre, ocorreu em meados do século XIX. Esse serviu de referência para os imigrantes alemães e seus descendentes fundarem, no fim da década de 1880 e início da 1890, os primeiros clubes de remo: Ruder Club Porto Alegre (RCPA) e Ruder Verein Germania (RVG). Embora os referidos clubes, identificados como “de alemães”2 (Silva, Martínková e Mazo, 2016), tenham possibilitado aos porto‐alegrenses o contato com a prática do remo, somente no princípio do século XX, com a fundação do Grêmio de Regatas Almirante Tamandaré (GRAT), em 1903, percebe‐se a apropriação dessa prática esportiva por um clube identificado como “de brasileiros”. O GRAT foi o primeiro clube de remo a negociar práticas e representações culturais de uma identidade cultural brasileira3 e, talvez, um dos motivos que favoreceram tal iniciativa foi a ação de tradutores culturais (Burke, 2009).

A tradução cultural, de acordo com os historiadores Burke e Hsia (2009, p. 15), é entendida como “descrição do que ocorre em encontros culturais quando cada lado tenta compreender as ações do outro”, ou seja, implica a descontextualização e recontextualização de experiências humanas de uma cultura para outra”. As iniciativas de tradutores culturais, provavelmente, contribuíram para a disseminação dos clubes de remo, deram oportunidade a trocas culturais não apenas entre os clubes de Porto Alegre, mas também com os clubes das cidades de Rio Grande e Pelotas, que existiam desde o fim do século XIX (Silva, 2015a,b). Esses clubes, no princípio do século XX, promoveram encontros culturais com os clubes da capital do estado, por meio da disputa de regatas, as quais se conformaram em momentos de trocas culturais entre clubes de remo de diferentes cidades.

A partir desses indícios, emerge a questão norteadora do estudo: como ocorreram as trocas culturais no processo histórico de estabelecimento dos clubes náuticos no Rio Grande do Sul na primeira década do século XX. Na feitura desta pesquisa foram usadas fontes documentais, principalmente jornais que circulavam no Estado do Rio Grande do Sul. Os jornais consultados foram A Federação, Correio do Povo e Folha da Tarde, editados em Porto Alegre. Usou‐se como critério de escolha aqueles que no período demarcado para o estudo tinham reportagens sobre o remo.4 Desses, 17 foram selecionados para constituir o corpus documental do estudo. Além desses jornais foram consultadas as apostilas produzidas por Henrique Licht, médico aposentado que tem um considerável acervo pessoal sobre o esporte nos clubes de Porto Alegre. Ressalta‐se que as apostilas resultaram de uma coletânea de reportagens coletadas sobre os esportes, no jornal Correio do Povo. Ainda, as fontes acessadas para a presente pesquisa foram a ata de fundação do Grêmio de Natação e Regatas Almirante Tamandaré e o álbum comemorativo dos 20 anos de existência do clube. Após a organização e catalogação das fontes, os dados foram interpretados à luz do referencial teórico e da revisão bibliográfica. As categorias que nortearam a interpretação dos resultados foram Esporte Moderno (Guttmann, 1978; Elias e Dunning, 1992); e Contatos Culturais (Burke, 2003). Na sequência apresentamos as informações resultantes da análise documental.

Sincretismos culturais nos clubes náuticos

Os clubes náuticos existentes em Porto Alegre manifestavam representações e práticas identificadas com uma cultura teuto‐brasileira, principalmente até o fim do século XIX (Silva, 2015a). No princípio do século XX, esse cenário começa gradualmente a se modificar com o estabelecimento do Grêmio de Natação e Regatas Almirante Tamandaré (GRAT) em 1903, clube que oficializou a língua portuguesa no estatuto e demais documentos, diferentemente dos clubes de remo precursores. Esse fato é significativo, uma vez que não apenas nos clubes pioneiros, mas também no Comitê de Regatas, entidade fundada no fim do século XIX por iniciativa desses clubes, a comunicação oficial e no cotidiano era no idioma alemão.

Dentre as finalidades do GRAT constava o desígnio do clube de congregar indivíduos para praticar o remo, mas que compartilhassem de uma identidade brasileira, intenção que sugere a ideia de “‘nacionalização” ou “abrasileiramento”. Na época, já circulavam no país ideias que comungavam a formação de um Estado unificado por uma cultura em comum. Como explica Fiorin (2009, p. 18), “um dos primeiros problemas que os cientistas sociais brasileiros buscaram resolver em fins do século XIX foi o da existência e das características da brasilidade”.

Os idealizadores do GRAT não se opunham a que o clube congregasse distintos imigrantes e seus descendentes que residiam em Porto Alegre, porém os associados deveriam identificar‐se com uma cultura brasileira. De acordo com o jornal Correio do Povo: “O Almirante Tamandaré acolheu amistosamente aos extrangeiros [sic] que a ele se pretendiam associar, exigiu, porém, o uso da língua nacional em todas as atividades esportivas, sociais e administrativas” (O Almirante Tamandaré, 20/01/1903, p. 2). A citação alude a que os fundadores do clube não somente estavam cientes da diversidade cultural existente na capital do estado, mas, talvez como uma estratégia de abrasileiramento, aceitassem aqueles identificados como “estrangeiros” com a condição que incorporassem práticas culturais, como, por exemplo, o uso da língua portuguesa. Tal posicionamento do clube foi ressaltado como uma forma de distinção anos depois na publicação intitulada Álbum Sportivo do Rio Grande do Sul: “O Tamandaré acolhe lealmente em seu seio o extrangeiro, exigindo delle apenas o conhecimento da nossa língua e impondo‐lhe o respeito devido à nossa terra e ao nosso pavilhão” [sic] (Rio Grande do Sul Sportivo, 1919, p. 162).

Há indícios que o clube, desde a sua organização, buscava aproximar‐se de uma identidade cultural brasileira, não apenas pelo idioma oficial, mas por meio de outras medidas (Silva, Pereira e Mazo, 2014). O próprio nome escolhido para o clube homenageia um herói da Marinha brasileira nascido no Rio Grande do Sul,5 o almirante Tamandaré, ratifica uma representação identitária, e a sede do clube foi em um prédio que simbolizava a defesa dos mares nacionais e a organização do tráfego marítimo6 em Porto Alegre. Na reunião de instalação oficial do clube, para a comemoração da fundação, o pavilhão cedido pela Capitania dos Portos ao capitão de corveta Gaspar Fróes, que também era presidente do GRAT, foi ornamentado com galhardetes, palmas e flores (Castello, 1923).

Além desses, outros vestígios identitários do clube são evidenciados nos barcos da flotilha,7 os quais foram batizados com nomes originários do idioma tupi‐guarani: Tocantins, Teffé,8Tramanday, Tupynambá e Tabajara (Rio Grande do Sul Sportivo, 1919). As denominações indígenas dos barcos revelam resquícios do movimento romântico no Brasil,9 no entanto justificativas para a escolha dos nomes constam no Album Commemorativo do 20° Aniversário do Grêmio de Regatas Almirante Tamandaré (Castello, 1923). O autor explicou as designações a partir de um discurso de correlação com uma identidade brasileira antiga formada no mito do caldeamento das três raças: “Os tabajaras, que faziam parte da tribu tupy, habitavam o litoral de Pernambuco no Rio de Grande do Norte, tendo elles auxiliado fortemente os portugueses nas lutas contra os cahetés” (p. 39).10 Assim, evidencia‐se à construção identitária clubística que foram necessários elementos de contato cultural, como adaptação nas denominações, imitação de práticas e apropriação de artefatos existentes em outras culturas, além de tradutores.

Entre os fundadores do clube havia indivíduos com nomes e sobrenomes que remetiam a diversas nacionalidades, como, por exemplo, Franz Protzen, primeiro diretor de regatas que comandou a organização técnica do clube e Gustavo Bier Filho, que também fazia parte de uma sociedade de tiro (Continuamos a publicar..., 22/02/1906), ambos eram integrantes do quadro de sócios do RVG. Ainda estavam entre os precursores os irmãos Gustavo e Alfredo Leyraud, descendentes de imigrantes franceses. Diferentemente dos clubes antecedentes, cuja maioria dos sócios atuava no comércio local, a maior parte do grupo fundador do GRAT tinha vínculo com entidades públicas.11

Por outro lado, a despeito do ímpeto nacionalista, no GRAT percebiam‐se estrangeirismos na comunicação cotidiana, como, por exemplo, avocar o treinador Carlos Soares Bento como entraineur (Rio Grande do Sul Sportivo, 1919). O uso de um termo em francês para designar o treinador é um paradoxo aparente.12 Todavia, o uso de termos técnicos em idiomas estrangeiros, como alemão e inglês, era uma atributo evidenciado não apenas na comunicação entre membros de clubes, mas também nos jornais. Na mesma época, não apenas no remo, mas em diversos outros esportes era recorrente o uso de termos em outras línguas.13

Notícias veiculadas no exterior eram recorrentes nos jornais locais, “tornando a cultura europeia [...] o modelo de modernidade a ser alcançada” (Oliven, 2002). Todavia, no processo de negociações culturais, se observa um procedimento de mediação entre influências culturais diversas, como foi possível evidenciar na nota publicada no jornal A Federação (Na América do Norte, 19/08/1903),14 no mesmo ano de fundação do GRAT, a qual alude que havia uma busca pelo que era moderno, mencionava os esportes e aconselhava adaptá‐los à realidade brasileira, envolvê‐los por essa representação.

Negociações culturais nos clubes esportivos náuticos

Os clubes náuticos eram cenários de negociações culturais, embora ainda em fase inicial de organização, necessitavam de contínuas adaptações sociais. Nesse contexto, os clubes também eram locais de sociabilidade, promoviam regatas anuais, como, por exemplo, em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes e ao Dia da Independência.15 Nas datas comemorativas brasileiras, o GRAT mantinha presença e conduzia os festejos, mas tal feito pode ter desgostado outros clubes de remo, principalmente aqueles identificados com os teuto‐brasileiros, pois recusaram o convite do GRAT para participar dos festejos (Regatas, 02/02/1904; Regatas, 10/09/1904; Regatas, 07/09/1905).

Com o crescimento do número de clubes de remo no Rio Grande do Sul (Mazo et al., 2012), a demanda de importações de artefatos esportivos também cresceu.16 As importações se tornaram constantes devido ao aumento significativo de remadores na década de 1900, totalizaram aproximadamente três mil praticantes (Educação Physica, 25/02/1905). Contudo, a taxa de importação dos barcos de remo esportivo era de 20% (Educação Physica, 25/02/1905), o que se tornava um gasto dispendioso nos orçamentos dos clubes quando necessitavam renovar a sua frota. Tal dificuldade desencadeou manifestações sobre o assunto em busca da diminuição desse valor. 17

Em 25 de fevereiro de 1905 foi publicada, no jornal A Federação (Educação Physica, 25/02/1905), uma nota dirigida às autoridades. O texto se baseia em um discurso voltado para as benesses propiciadas pelos exercícios físicos originários dos esportes para corpo, mas especialmente para a constituição de indivíduos formadores da pátria. Melo (2010), ao fazer um exercício comparativo de estudos sobre o campo esportivo em cidades brasileiras, na transição dos séculos XIX e XX, apresenta o remo como um exemplo das transformações ocorridas em um cenário no qual se revelam práticas com exposição corporal pública. Segundo esse autor (2010), em torno do esporte tornam‐se mais comuns “imagens de desafio, superação, higiene e saúde” (p. 336). Na época, tais representações culturais do remo ainda tensionavam com as de outra prática, o turfe, que era associado à tradição, ao passado, conforme evidenciado por Melo (2001); (Melo, 2010) ao tratar dos esportes na cidade do Rio de Janeiro. A perspectiva de saúde em torno da prática do remo no Rio de Janeiro referida por Melo (2010) é semelhante às representações que motivaram a criação do GRAT em Porto Alegre, um clube que tencionava, por meio de um esporte saudável, fortalecer os indivíduos formadores da pátria (Silva, 2015).

A representação brasileira no panorama dos clubes náuticos foi reforçada quando emergiu um novo clube: o Club de Regatas Almirante Barroso (Silva, 2011). A despeito das primeiras iniciativas de fundação desse clube se iniciarem em novembro de 1904 (Licht, s/dB), a data de fundação oficial foi no ano seguinte, em 1905, conforme a publicação do texto Educação Physica (Educação Physica, 25/02/1905; A 26 de fevereiro, 02/03/1905). Não obstante ter como fundadores uma maioria de teuto‐brasileiros, optou‐se por uma denominação que remetia à ruptura com uma cultura teuto‐brasileira. Um dos nomes sugeridos foi Rowing Club Brasil (Licht, s/dB), mas depois de uma discussão que assinalou resistência ao idioma inglês na denominação do clube, foi escolhido o nome Club de Regatas Almirante Barroso (CRAB). O novo clube, assim como seu antecessor, escolheu homenagear um almirante da Marinha brasileira que comandou a vitória do Brasil na Batalha do Riachuelo.

Há duas versões sobre a gênese de fundação do clube, mas ambas devem ter concorrido para a promoção. Dias depois da disputa do prêmio Wanderpreiss18 de 1904, remadores, comandados por Osmundo Panitz, e o técnico do RVG, Ludwig Semmler, discutiram sobre a melhor forma de uso de um barco da flotilha do clube, acontecimento que resultou em uma debandada de esportistas que pensaram na fundação de um novo clube capaz de competir no mesmo nível dos já existentes (Licht, s/dB). Anos mais tarde, quando o CRAB já era reconhecido por seu grande número de vitórias nacionais e internacionais, um dos seus fundadores, Oswaldo Rothfuchs, concedeu uma entrevista ao jornal Correio do Povo, afirmou ser um dos principais idealizadores da associação esportiva (Clube Barroso, 19/02/1935). De acordo com Rothfuchs (Clube Barroso, 19/02/1935), a ideia do novo clube foi sua e surgiu a partir de um conflito com Henrique Huber, timoneiro campeão do Wanderpreiss do ano anterior. Contou que sua proposta foi bem recebida por um grupo de remadores que fazia parte do RVG. O grupo formado uniu‐se para a fundação do clube e, para surpresa de todos, foram apoiados por Henrique Huber.

Henrique Huber foi um personagem importante na instalação do CRAB, uma vez que cedeu um espaço em sua serraria para o armazenamento do material náutico, o qual também serviu como vestiário (Clube Barroso, 19/02/1935). Além disso, foi ele que fez a maioria das sugestões para a confecção dos uniformes e caracterização do clube. A serraria Birnfield foi a primeira sede do clube, onde os primeiros barcos foram construídos artesanalmente, pelas mãos de Henrique Huber e Osmundo Panitz (Licht, s/dB). Esses dois principais personagens da história do CRAB confeccionaram dois barcos, após dois meses de trabalho.

Para tal iniciativa, provavelmente, eles se aproveitaram do conhecimento adquirido através do contato com os barcos importados da Alemanha pelo RVG, clube do qual foram sócios. Mas, como o CRAB tinha um objetivo definido, preferiu não arriscar nos barcos artesanais e também encomendou da Alemanha um barco a quatro remos, o Aquidaban (Licht, s/dB). O CRAB foi pioneiro na construção de um barco a remo para o clube, com vistas a vencer o Wanderpreiss de 1905 (As grandes jornadas..., 194?). Os barcos artesanais foram batizados de Humaytá e Riachuelo, respectivamente, um gig19 a dois remos e um gig a seis remos (Licht, s/dB).

A importância da construção da identidade clubística por meio da denominação dos barcos tornou‐se comum entre os clubes, possivelmente por esses ocuparem lugar de destaque nas competições e identificarem as guarnições. Dessa forma, o simbólico em torno do nome de cada barco, além do conjunto da frota, faz com que o clube fixe representações que o definem. Enquanto os clubes de teuto‐brasileiros preservavam características de cavalheirismo, com a adoção dos prenomes das senhoritas e senhoras que frequentavam as instalações, o GRAT priorizava os idiomas dos indígenas brasileiros e o CRAB explorava a identificação com a Marinha brasileira, iniciada com a definição do patrono e perpetuada pelos barcos. A flotilha do CRAB era composta por barcos com os mesmos nomes de grandes barcos usados na defesa nacional, o que também reforçava os laços de nacionalidade.

Na capital, Porto Alegre, os clubes náuticos se disseminavam e as competições atraíam cada vez mais espectadores, “o esporte, com sua aparente valorização da vida saudável, sua efervescência, sua aparente demonstração do progresso, também, torna‐se um dos mais importantes espetáculos do século XX” (Vigarello, 2008, p. 446).

Todavia, nas cidades do interior do estado também surgiam clubes, como foi o caso de Pelotas, onde em 1° de janeiro de 1906 foi fundado o Club Sportivo Internacional. Esse clube de remo fornece um contraponto interessante, pois, ao contrário dos clubes da capital, que guiavam suas identidades entre “clubes de alemão” e “clubes de brasileiros”, parece ser produto de um contexto no qual não era possível, ou necessário, se estabelecer como agregador de uma comunidade identitária específica.

Desde o século XIX, Pelotas tinha muitos imigrantes europeus, como portugueses, irlandeses, italianos, alemães e franceses, oriundos das regiões circunvizinhas. Segundo estudo de Loner, Gill e Magalhães (2012, p. 90), “muitos elementos acabaram por se desgarrar desses agrupamentos humanos, por diferentes motivos, estabeleceram‐se na cidade e contribuíram efetivamente para o progresso local”. Essas evidências revelam que o clube esportivo pelotense, com denominação de “Internacional”, agregava diversos elementos da imigração europeia, possivelmente combinados com os imigrantes uruguaios, que “tiveram uma presença marcante na cidade de Pelotas, principalmente na zona urbana” (Loner, Gill e Magalhães, 2012, p. 281). De tal modo, esse clube parece ser oriundo de uma conjuntura mais multicultural, na qual os praticantes de remo não estabeleciam clivagens identitárias.

Considerações finais

Os clubes náuticos eram mais do que meros espaços de prática esportiva, atuavam também como lugares de negociação de representações de identidades étnico‐culturais. Tal consideração é exemplificada pela fundação dos clubes de remo de identidade alemã, outros que congregavam diferentes representações e, ainda, os que afirmavam uma identificação brasileira. Esses clubes “brasileiros” caracterizavam‐se como híbridos culturalmente, uma vez que eram compostos por elementos representativos de teuto‐brasileiros, luso‐brasileiros e brasileiros, mas todos se denominavam brasileiros e usavam o português como idioma oficial. O surgimento desses clubes revela um processo de disputas e conciliações identitárias no cenário esportivo.

Ainda que a configuração esportiva náutica tenha um sistema próprio, se mantinha conectada com outras práticas. Era comum encontrar indivíduos, sobretudo homens, que praticavam remo e natação, como também outros esportes. Também fazia parte das atividades dos clubes a organização de regatas em eventos arquitetados para outras práticas. Nesses tipos de envolvimento, os treinamentos e as regatas faziam do rio Guahyba um importante palco de exibição do desempenho e um espaço de encontros culturais, que atraía espectadores e inspirava iniciativas para novos clubes.

Os barcos foram importantes no processo de significação cultural, pois eram importados da Alemanha e França, mas quando chegavam ao Brasil recebiam novas denominações. Tais apropriações expressavam formas de negociação cultural de identidades clubística. Os clubes de teuto‐brasileiros priorizavam homenagear madrinhas, já os clubes com uma maior quantidade de representações brasileiras focavam em alcunhas que reforçassem uma identificação brasileira.

Por fim, com este estudo espera‐se contribuir para a compreensão do processo de conformação dos esportes no Brasil ao investigar os processos sociais de (re)composição identitária em cenários locais e regionais. No período estudado, a própria identidade brasileira, ainda, estava em construção, mobilizava elementos românticos como o nativismo e os símbolos militares. Nessa direção, pondera‐se como tal processo irradiou no estabelecimento de uma prática moderna, o esporte, enquanto espaço de disputa e conciliação entre a tradição e o moderno. Em contas finais, podemos dizer que o remo (“clubes brasileiros”) e o ruder (“clubes de alemães”) são, naquele momento, produtos de negociações culturais intensas.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Na cidade de Pelotas, por exemplo, a prática institucionalizada é datada de fim do século XIX e já em 1901 o Clube Naval Pelotense organizava regatas (Diário Popular, 13 jul. 1903).

Os clubes de alemães foram um fenômeno que se disseminou por diversos estados do Brasil, como apontam os estudos de Mazo et al. (2012), Moraes e Silva (2011), Moraes e Silva e Capraro (2015), Quitzau (2013) e Quitzau e Soares (2010).

A pesquisa de Coertjens, Guazzelli e Wasserman (2004) revela o caso de outro clube de remo porto‐alegrense, o Club de Regatas Guahyba‐Porto Alegre, que na década de 1930 veiculou um discurso nacionalista relacionado à prática do remo, por meio das revistas publicadas pelo clube teuto‐brasileiro.

Cabe destacar que o presente estudo é parte de uma pesquisa maior, a qual analisou a fundação dos clubes náuticos e aquáticos no Rio Grande do Sul e, entre outras fontes, usou 189 jornais publicados em cidades do estado, como Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, bem como de cidades do Estado do Rio de Janeiro e Santa Catarina, para contextualização histórica.

O médico Ricardo Machado, na reunião de fundação, sugeriu um nome para o clube: Brasil. Em outro momento, M. Macalão fez a sugestão do nome adotado, em homenagem ao almirante Tamandaré (Ata de Fundação, 18/01/1903; Regatas, 19/01/1903,p. 2).

Nesse local, sede do GRAT, até hoje se situa a Capitania dos Portos, órgão da Marinha brasileira que tem a responsabilidade da emissão local sobre a segurança da navegação. É um órgão de segurança nacional identificado como representante do governo brasileiro em Porto Alegre. De tal modo, carrega a representação do pertencimento da cidade à nação brasileira. Segundo Thiesse (2000), pertencer à nação é ser um dos herdeiros de seu patrimônio comum e indivisível, conhecê‐lo e venerá‐lo.

Os primeiros barcos do clube que navegaram no rio Guahyba eram escaleres e canoas emprestadas (Licht, s/dA), depois foram adquiridos barcos próprios.

Esse barco, diferentemente dos demais, homenageou o barão de Teffé, integrante da Marinha brasileira que atuou em defesa da pátria na Batalha do Riachuelo (Grêmio Tamandaré, 01/02/1903). Conforme o site da Marinha do Brasil (Marinha do Brasil, 22/04/2015), essa batalha tornou‐se histórica e é uma data magna da Marinha brasileira em razão da grande vitória do Brasil, comandada pelo almirante Barroso (Marinha do Brasil, 22/04/2015).

O Romantismo brasileiro do século XIX é carregado de lusofobia e, principalmente, de nacionalismo. Na primeira geração do Romantismo destaca‐se a tentativa de diferenciar o movimento das origens europeias e adaptá‐lo, de maneira nacionalista, à natureza exótica e ao passado histórico brasileiro. Os primeiros românticos em busca da criação de uma nova identidade nacional sustentaram suas bases teóricas no nativismo do período literário anterior, no elogio a terra e ao indígena e ao homem primitivo. De acordo com Antonio Candido (2002), as nações de civilização ocidental têm literaturas que coexistem, a clássica e a romântica, essa última crescera naturalmente a partir do gênio de cada nação, na qual o espírito moderno relacionado ao romantismo “consistiria em romper a coexistência e promover o triunfo da literatura nacional, que no caso brasileiro deveria levar em conta a capacidade poética do índio” (p. 28). No que diz respeito a essa relação entre a literatura e o esporte, Capraro (2007) destaca que no universo de crônicas sobre futebol, no início do século XX, também estavam presentes indícios de estabelecimento de uma identidade imaginada, “com a teoria de que a identidade brasileira deveria buscar na mestiçagem, na agregação racional e nos hábitos e costumes negros, indígenas e do colonizador português a autêntica identidade nacional” (p. 131).

De acordo com Barbosa (2007), “na capitania de Pernambuco, um conjunto heterogêneo de grupos e povos indígenas, como os caetés, tabajaras e cariris, vivia ainda em luta pela estabilização e pelo controle de seus territórios, durante o século XVI” (p. 4), porém esses estavam condicionados a alianças políticas. As alianças entre tabajaras e portugueses se davam de maneira mais eficaz, enquanto as tribos caetés preferiam o conflito. Segundo Ferraz (2008), o cronista Gabriel Soares, em 1587, escreveu que os caetés “tanto mal têm feito dos portugueses nesta costa [de Pernambuco]”. Provavelmente é em razão dessas alianças que os tabajaras foram homenageados pelo GRAT e os caetés, esquecidos.

Destaca‐se o primeiro presidente do clube, capitão de corveta Gaspar Fróes; o tenente da Marinha Waldomiro Lima; Gustavo Leyraud, o funcionário dos Correios (Foi reintegrado Gustavo Leyraud, 06/11/1889); capitão e engenheiro Alfredo Leyraud (Acham‐se nessa capital, 03/12/1904); além do médico e professor da Faculdade de Medicina Ricardo Machado (Weber, 1999).

Segundo Mattos (2006), a influência francesa atinge o seu auge no Brasil na segunda metade do século XIX, quando determina os modelos da vida social e cultural, principalmente por meio de suas referências intelectuais e filosóficas na pintura, na literatura, na decoração, na culinária, na moda e no urbanismo. Pesavento (1999), ao referir a relação cultural no cenário do urbanismo parisiense, carioca e porto‐alegrense, afirma que “o modelo parisiense vem a se constituir no outro desejado, ou, em outras palavras, no ‘vir a ser’ identitário sonhado pelas elites” (Pesavento, 1999, p. 24).

O uso de termos estrangeiros nas notícias sobre os esportes estendeu‐se aproximadamente até o fim da década de 1930 em jornais e revistas publicadas no Rio Grande do Sul. Cita‐se como exemplo a Revista do Globo (1929‐1967) com predominância de termos em inglês (Mazo, 2005).

Jules Huret, jornalista francês do Figaro de Paris, visitou a Universidade de Harvard e descreveu o que vira nas páginas do jornal, que foi traduzido e publicado no O Independente (Na América do Norte, 19/08/1903). Possivelmente o interesse de divulgar o texto de Jules Huret estava pautado em fortalecer as representações dos esportes como práticas ligadas. O autor (Na América do Norte, 19/08/1903) inicia a narrativa com a comparação entre o sistema educacional da Europa e o dos Estados Unidos, diz que esse não se interessou em observar, nem tratar no texto, “visto como penso que a Europa nada tem a aprender com os pedagogos d’este país [Estados Unidos]” (Na América do Norte, 19/08/1903, p. 1) e deixa claro que esteve lá para observar o sistema esportivo.

Em outras cidades do estado, os clubes de remo procediam de forma semelhante aos clubes da capital. Em 13 de maio de 1903, o Clube Naval Pelotense promoveu uma regata no porto de Pelotas, a qual integrou os festejos da abolição da escravatura no Brasil (Diário Popular, 13 jul. 1903).

A facilidade da importação auxiliou no acesso ao modo como os artefatos são arquitetados, em razão de a estrutura dos barcos ser pouco conhecida para a produção ser correta, “com a perfeição que sempre exigem as corridas de regata” (Educação Physica, 25/02/1905, p. 1).

Vale mencionar que o primeiro registro da existência de um construtor brasileiro de barcos, Carlos Remedi, foi encontrado na revista A Cigarra, de São Paulo, em 1917 (Grande officina, 31/10/1917). No ano seguinte, em Porto Alegre, o jornal A Federação noticiou o batizado do primeiro barco do GRAT construído pela mesma fábrica: “Será feito o baptismo do bote Tibagy, outrigger, a 4 remos, construcção nacional, saído dos estaleiros do Sr. Carlos Remedi” (Grêmio Tamandaré, 18/09/1918, s/p).

O Wanderpreiss – Prêmio Móvel – foi instaurado em 1898 pelo Comitê de Regatas, quatro anos após a fundação dessa entidade, a primeira instituição organizadora do remo no Brasil (Silva, 2011). Esse prêmio foi sugerido pelo Ruder Club Porto Alegre, em comemoração ao seu 10° aniversário. A regra definia que o clube vitorioso a cada ano ficaria de posse do troféu no período, mas a posse definitiva do troféu ocorreria somente após três vitórias consecutivas.

Denominação usada para embarcações mais leves e rápidas, especialmente para a prática do remo.

Autor para correspondência. (Carolina Fernandes da Silva carol_ed.fis@hotmail.com)
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