Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:400-6 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.11.003
Artigo original
Jornada escolar versus tempo de treinamento: a profissionalização no futebol e a formação na escola básica
School day versus training time: the football professionalization and training in basic school
Jornada escolar frente a tiempo de entrenamiento: la profesionalización del fútbol y la formación en la instrucción básica
Leonardo Bernardes Silva de Meloa,, , Hugo Paula Almeida da Rochab, André Luiz da Costa e Silvaa,c, Antonio Jorge Gonçalves Soaresd,e,f
a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Centro de Educação Física e Desportos, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Vitória, ES, Brasil
b Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Programa de Pós‐Graduação em Educação, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Instituto Nacional de Educação de Surdos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Bolsista de Produtividade em Pesquisa, Brasil
e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Cientista do Estado, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
f Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação, Departamento de Didática, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Recebido 07 Fevereiro 2013, Aceitaram 12 Junho 2014
Resumo

O objetivo do presente estudo foi analisar o tempo dedicado à formação profissional no futebol e à escola básica entre os atletas das categorias de base dos clubes da cidade do Rio de Janeiro e de fora dela. Fizemos entrevistas estruturadas com 228 atletas – das categorias sub‐17 e sub‐20 – de 19 clubes do Estado do Rio de Janeiro, incluindo os atletas dos clubes da capital fluminense. Observamos que os atletas dos clubes da capital investem mais tempo no futebol do que os demais jovens entrevistados. Esse tempo destinado ao esporte sugere uma concorrência com a formação escolar. Por fim, afirmamos que o tempo gasto com a formação no futebol pode criar dificuldade para uma vida escolar dedicada e para uma formação cultural de qualidade.

Abstract

The objective of this study was to analyze the time devoted to vocational training in basic schools and football among the athletes of the basic categories of clubs in the city of Rio de Janeiro and beyond. We conducted structured interviews with 228 athletes – the sub categories‐17 and under‐20 – from 19 clubs in the State of Rio de Janeiro. We observe that athletes of clubs from the capital they invest more time in football than other young people interviewed. This time spent with this sport formation suggests a competition with the school formation. Finally, we affirm that the time spent with the formation in football can create difficulties for a dedicated school life and cultural quality education.

Resumen

El objetivo de este trabajo fue analizar el tiempo dedicado a la formación profesional en el fútbol y el tiempo dedicado a la instrucción básica entre los atletas de las categorías básicas de clubes en la ciudad de Río de Janeiro. Realizamos entrevistas estructuradas a 228 atletas – de las categorías sub‐17 y sub‐20 – de 19 clubes del estado de Río de Janeiro, incluyendo a atletas de clubes de Río de Janeiro. Observamos que los atletas de clubes de la capital invertían más tiempo en el fútbol que el resto de jóvenes entrevistados. Este tiempo destinado al deporte sugiere una competencia con el colegio. Por último, declaramos que el tiempo dedicado a la formación en el fútbol puede crear dificultades respecto al tiempo dedicado al colegio y a una educación cultural de calidad.

Palavras‐chave
Educação, Jovens atletas, Esporte, Escola
Keywords
Education, Young athletes, Sport, School
Palabras clave
Educación, Atletas jóvenes, Deporte, Colegio
Introdução

A escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 ajudou a inflamar os apelos midiáticos e os investimentos para o evento. Em texto publicado no Portal 2014, Gonçalves (2012) indicou que os gastos previstos pelos representantes do governo nacional somariam R$ 26,5 bilhões em reformas e melhorias de infraestrutura urbana, estádios, segurança, entre outras exigências requeridas para um evento desse porte. Por outro lado, a Associação Brasileira de Infraestrutura e Estrutura de Base (Abdib) estimou que essa verba poderia ser ainda maior: R$ 113,3 bilhões (Godoy, 2011). O relatório da Abdib identificou 872 projetos, nas 12 cidades sedes, os quais preencheriam o investimento estimado pela Associação.

Um aspecto é bastante importante dentro dos princípios e dos conceitos que nortearam o estudo. Os projetos identificados não foram listados por atender exclusivamente à Copa do Mundo, mas principalmente porque têm potencial para reduzir ou eliminar deficiências e carências atuais ou previstas tanto na infraestrutura quanto na rede de serviços públicos (Godoy, 2011).

Todo esse investimento público para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil reforça a cristalização da identidade nacional de que somos “o país do futebol”. Outro aspecto a ser notado é o papel da mídia na criação da aura sacralizada do esporte bretão em nosso território. A fala do jornalista William Waak, da Rede Globo de Televisão, define em tom preciso o prestígio do futebol no Brasil: “O futebol é a paixão nacional, consagra e enriquece jogadores, técnicos e dirigentes. Transforma craques em deuses”.1 (4a Divisão, 2009). Essa importância e esses investimentos designados a esse esporte fomentam no imaginário de crianças e adolescentes a crença na possibilidade de mobilidade social e econômica pelas vias do futebol.

O presente artigo é produto de uma investigação feita com atletas das categorias de base dos clubes de futebol no Estado do Rio de Janeiro. A motivação para a pesquisa partiu da hipótese presente no senso comum, a saber: jogadores de futebol têm poucas oportunidades de frequência à escola, devido à rotina de treinamento e às competições regulares dos campeonatos estaduais, regionais, nacionais e, em alguns casos, internacionais. A partir dessa afirmativa, pensamos que o investimento simultâneo na dupla carreira, de atleta e de estudante, as quais ambas exigem tempo e dedicação para um bom desempenho, pode levar o indivíduo a priorizar uma carreira em detrimento da outra. Tomamos o conceito de “dupla carreira”,’ na medida em que tanto o esporte quanto a escola são instituições que exigem que o ator social passe por diferentes fases e aprendizagens até ser considerado apto para exercer seu papel social em cada etapa das carreiras dessas respectivas instituições. Aquilina (2013) indica a necessidade de os atletas terem uma dupla carreira, pois são poucos os atletas de alto rendimento recompensados financeiramente e que conseguem reconverter suas experiências esportivas pregressas em ocupações no mercado do esporte.

A seleção para o ingresso nas categorias de base de futebol se inicia precocemente e, muitas vezes, acontece antes mesmo dos 12 anos (Damo, 2007). Um dos meios mais populares de recrutamento – conhecido como “peneira’–, em geral, trata de frustrar as expectativas de um enorme contingente de jovens aspirantes à profissionalização no futebol. As estimativas indicam que menos de 1% dos candidatos pretendentes a uma vaga no “mercado da bola” consegue alcançar seu objetivo (Toledo, 2002). Por exemplo, em 1995, dos 3.500 jovens que se aventuraram no processo seletivo do São Paulo Futebol Clube, apenas cinco foram aproveitados (Toledo, 2002). Treze anos mais tarde, apenas dois jovens foram selecionados entre os 1.000 candidatos, de todo o Brasil, presentes na peneira do Clube de Regatas Flamengo (Olheiros Virtuais, 2009). Muitos são os exemplos semelhantes a esses supracitados e, independentemente do intervalo de tempo, a realidade é a mesma: poucos conseguem ingressar nas categorias de base dos principais clubes do futebol brasileiro. Todavia, o acesso às equipes de base dos clubes não se dá apenas por essa forma universal, pois existem outras possibilidades de ingresso por meio de observadores, vinculados ou não aos clubes, que saem em busca de potenciais atletas em torneios de bairro, de escolas e nos clubes periféricos ao mercado.

Destaque‐se que a busca dos jovens do sexo masculino por uma vaga no mercado do futebol não corresponde às oportunidades oferecidas. O mercado profissional do futebol no Brasil tem um número de postos de trabalho limitado. O Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (Sapesp) estimou que 20% dos atletas sindicalizados, em 2009, encontravam‐se em situação de desemprego. Comparando com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mesmo ano, o percentual de desempregados no Brasil atingia 8,8 pontos (in4a Divisão, 2009). Dados de 2013 do Sapesp indicaram que cerca de 30% dos quase quatro mil jogadores do Estado de São Paulo encontravam‐se em situação de desemprego em abril de 2013. Esses dados ficam alarmantes quando comparamos com a taxa de desemprego do Dieese, que apontou 11,3% de desempregados para a população economicamente ativa no mesmo período. O número de posto de trabalhos vem diminuindo com a extinção de clubes que disputam campeonatos oficiais. Damo (2007) estimou em 800 o número clubes de futebol credenciados nas subsidiárias da Fifa. Em 2009, o número de clubes caiu para 734 (Pluri Consultoria, 2013). Em 2013, o número de clubes que disputavam competições oficiais chegou a 654 (Pluri Consultoria, 2013). Houve, portanto, uma redução de 146 clubes em apenas seis anos. Além da diminuição dos postos de trabalhos, os jogadores enfrentam problemas de um calendário sazonal, que não contempla a maioria dos clubes brasileiros. Diante desses dados, a situação dos jogadores de futebol pode ser ainda mais precária. De acordo com a Pluri Consultoria (2013), em 2013 havia 12.888 jogadores registrados na CBF. No entanto, apenas 2.579 tinham contratos com duração prevista para toda a temporada. Os outros 10.309 jogadores tinham seus contratos de trabalho com a data de término firmada concomitantemente ao fim das competições estaduais – cerca de quatro meses. Os dados acima apontam que quase 80% dos jogadores no Brasil ficam sem clube a partir do fim dos campeonatos estaduais ou precisam buscar clubes no exterior. Com o fim dos campeonatos estaduais, somente as equipes que disputam uma das quatro divisões nacionais se mantêm ativas para o resto da temporada, ou seja, apenas 100 clubes. Tal fato faz com que esses indivíduos dividam sua rotina de treinamento e competições com outras ocupações ordinárias no mercado de trabalho para garantir sua sobrevivência (In4a Divisão, 2009).

A pirâmide salarial do futebol brasileiro é outro indicador que põe à prova as condições de mobilidade social e econômica pretendida com esse esporte. Em 2009, 84% dos atletas profissionais recebiam até R$ 1.000,00; 13% tinham ganhos entre R$ 1.000,00 e R$ 9.000,00; e 3% obtiveram vencimentos mensais acima dos R$ 9.000,00. Esses dados não sofreram mudanças significativas desde meados da década passada (4a Divisão, 2009; Helal et al., 2005). Observemos que, para a maior parte dos casos, estamos diante de salários que podem estar aquém das aspirações e dos modelos midiáticos de atletas do futebol. Por essa razão, questionamos como um esporte com tão poucas oportunidades concretas para o acesso e permanência nos postos de trabalho desperta o interesse de tantos jovens em idade escolar.

O objetivo do presente estudo é analisar o tempo dedicado à formação profissional no futebol e à escola básica, comparar os dados entre os jovens atletas das categorias de base dos clubes da cidade do Rio de Janeiro e das instituições esportivas fora da capital fluminense.

Material e métodos

A coleta de dados foi feita em 19 clubes do Estado do Rio de Janeiro em 2009. Fizemos entrevistas estruturadas no sentido de entender como os atletas de duas categorias de base dos clubes de futebol do Estado do Rio de Janeiro destinavam tempo às atividades de profissionalização2 no esporte e na formação escolar. O roteiro foi elaborado a partir das categorias que tratavam sobre a dedicação aos treinamentos, à escola e os dados de origem familiar. Neste estudo, concentramo‐nos em analisar os dados sobre o tempo gasto pelos atletas nas atividades relacionadas ao futebol e à escola. Desse modo, comparamos os resultados de acordo com a localização dos clubes, a saber: a) clubes instalados na capital do Estado do Rio de Janeiro; e b) clubes fora da capital fluminense.

A amostra foi composta por 228 atletas, 119da categoria sub‐17 e 109da categoria sub‐20. Usamos nesse estudo o método não probabilístico casual para a seleção da amostra. Observamos que os clubes do Rio de Janeiro estão no centro do mercado de formação profissional de atletas de futebol no Brasil. A distribuição dos clubes por localização geográfica ficou da seguinte forma: a) 10 clubes da capital do Estado do Rio de Janeiro; e b) nove clubes de fora da capital fluminense.

Procedimentos metodológicos

As entrevistas foram agendadas diretamente com os responsáveis pelo clube. A seleção dos atletas respondentes foi feita aleatoriamente e garantimos o direito de liberdade de escolha para a feitura da entrevista e o anonimato aos jovens. As entrevistas foram feitas em contato direto com os atletas, durante ou após os treinamentos, de acordo com as possibilidades dentro de cada clube.

Procedimentos de análise

Os dados foram tratados a partir de uma análise descritiva com cálculo de média e desvio padrão, complementadas – quando necessárias – com o cálculo de prevalência. Os indivíduos foram agrupados por categoria (sub‐17 e sub‐20) e turno escolar (manhã, tarde e noite). Para a análise dos dados observados foi construída uma planilha no programa Microsoft Excel e a análise estatística foi feita no programa SPSS3 para Windows (versão 19.0).

Procedimentos éticos

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Gama Filho e aprovado: processo CAEE – 0012.0.312.312‐07 e Parecer 017.2007. As entrevistas foram feitas mediante a permissão e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

No sentido de entender como o futebol pode exercer influência nas escolhas das estratégias de escolarização, tomamos como variável de análise a administração dos tempos gastos com o esporte e com a escola. Partimos do pressuposto de que a administração do tempo na rotina diária desses jovens pode ser um indicador das prioridades e escolhas que atletas e suas famílias fazem no processo de conciliação entre a escola e o futebol.

Na tabela 1 encontra‐se descrito o tempo médio semanal dedicado aos treinamentos e à escola. Percebemos que há uma grande diferença na jornada escolar dos atletas dos clubes de fora da capital em relação àqueles jovens jogadores dos clubes da capital do Estado na categoria sub‐17. A diferença entre as jornadas escolares totaliza três horas e 45 minutos. Os atletas da capital do sub‐17 têm uma jornada escolar semanal de 17 horas e 56 minutos, enquanto que os atletas de fora da capital alcançam a jornada escolar de 21 horas e 41 minutos. Tais dados nos mostram que os atletas dos clubes da capital teriam, em média, o equivalente a um dia de aula4 a menos na semana em relação aos demais atletas.

Tabela 1.

Tempo semanal dedicado ao futebol e à escola

Clubes da capitalClubes de fora da capital
Variável    Tempo de treino  Jornada escolar  Tempo de treino  Jornada escolar 
Sub‐1715:20:42  17:56:12  14:38:38  21:41:49 
DP  02:41:59  06:19:53  03:37:03  05:03:08 
Sub‐2014:57:37  17:25:50  12:57:43  19:15:46 
DP  02:49:18  04:47:15  02:11:40  03:41:50 

X, média; DP, desvio padrão.

Na categoria sub‐20 a discrepância entre as médias das jornadas escolares é menor. Quem está na capital, nos principais clubes do Estado, em média estuda uma hora e 49 minutos menos por semana do que os atletas que jogam nos clubes fora da capital. Observemos que essa diferença é menor do que a percebida na categoria sub‐17. Todavia, não podemos descartar tal fato, uma vez que ele possa representar a opção do jovem de escolher uma instituição de ensino que tenha um tempo de estudos compatível com sua rotina de atleta.

Os atletas da categoria sub‐17 dos clubes localizados fora da capital fluminense estão distribuídos quase que igualmente nos três turnos escolares (fig. 1). Nos clubes da capital, a distribuição ocorre somente nos turnos vespertino e noturno. Portanto, a variação observada na jornada escolar pode ser explicada pela diferença no tempo exigido em cada um dos turnos. O mesmo fato acontece na categoria sub‐20, ainda que o desvio padrão verificado seja um pouco mais brando.

Figura 1.
(0.06MB).

Distribuição percentual do turno de frequência à escola por categoria.

Discussão

Pensemos que a jornada escolar semanal dos alunos não atletas do Rio de Janeiro – com faixa entre 15 e 17 anos – é de 23 horas e 30 minutos (Neri, 2009). Neri (2009) descreveu que o tempo dedicado à escola pode ter impacto direto na proficiência dos jovens nos testes padronizados, a saber: Enem5 e Saeb6. Com isso, verificamos que a baixa jornada escolar dos atletas em relação aos alunos não atletas do Rio de Janeiro possivelmente colocá‐los‐ia em posição de desvantagem nos resultados dos testes supracitados. Por exemplo, o Enem vem sendo estudado como forma de acesso às universidades públicas em todo país. A partir de 2012 a maioria das universidades federais passou a usar o desempenho neste teste como forma de seleção dos candidatos (Monzani e Smosinski, 2012). Essa medida nos fornece um parâmetro para entendimento das possíveis dificuldades que os jovens atletas de futebol podem enfrentar para obtenção de credenciais educacionais satisfatórias para ocupações no mercado de trabalho fora do meio esportivo. Esse fato se agrava quando as políticas de estado no Brasil pouco contemplam o que Borggrefe e Cachay (2012) chamam de “dupla carreira”, formação no esporte e na escola. Aqui, como em muito outros países, não existe uma interação entre o sistema educacional e o sistema esportivo, fica, assim, a cargo do estudante e atleta encontrar uma forma de administrar essas duas carreiras.

O alto investimento de tempo no esporte, em contraponto com a jornada escolar, pode indicar ainda uma estratégia de consolidação do projeto de vida desses atletas. Pensemos que o sistema educacional brasileiro carece de atenção para as questões de qualidade e equidade da educação. Ora, vejamos: no estudo sobre desigualdades de oportunidades no sistema educacional brasileiro, Ribeiro (2009) destacou que, apesar da contínua expansão do acesso à educação, esse estímulo foi acompanhado pela perpetuação das desigualdades entre jovens de diferentes níveis socioeconômicos, com clara desvantagem para aqueles que estão nos estratos sociais mais baixos. Cardoso (2013) indicou, ao analisar os dados do Censo de 2000 e de 2010, que tem aumentado a probabilidade dos jovens brasileiros, das camadas mais pobres, de estar na condição de quem não estuda e nem trabalha ou procura emprego. Nesse caminho, acreditamos que a escola pode desestimular uma parcela da juventude que identifica que os prêmios oferecidos por ela não serão alcançados por todos. Logo, podemos imaginar que os jovens com baixa expectativa na escola buscam outros caminhos de profissionalização simultâneos ou paralelos à escola.

A desvantagem observada para os atletas pode ser relativizada se compararmos as diferenças entre os dados referentes aos atletas dos clubes da capital e fora da capital com os resultados dos alunos não atletas. Para a categoria sub‐17, teremos a seguinte configuração: a jornada média semanal dos alunos atletas – vinculados aos clubes da capital – é reduzida em cinco horas e 33 minutos em relação aos alunos não atletas do Estado do Rio de Janeiro; a mesma comparação – referentes aos alunos atletas dos clubes de fora da capital – indica que a diminuição da jornada escolar é de uma hora e 48 minutos. Tal fato mostra que os atletas dos clubes da capital podem ter um prejuízo maior na escolarização em relação aos demais atletas. Ao mesmo tempo devemos também entender que os atletas que estão na capital têm, em função da posição de seus clubes no mercado de futebol, mais chances de profissionalização nesse esporte. Esse fato sugere que os atletas dos clubes da capital talvez secundarizem a escolarização em função da pressão e das chances que têm na carreira esportiva nos clubes mais valorizados no mercado.

Por outro lado, a prioridade de dedicação a uma carreira em detrimento da outra pode ser expressa pela proporção que a jornada de treinamento representa frente à jornada escolar. Na tabela 1, podemos ainda observar que em ambas as categorias (sub‐17 e sub‐20) a jornada de treinamento é menor do que a da jornada escolar. Nos clubes localizados na capital do Estado do Rio de Janeiro, a proporção da jornada de treinamento em relação à jornada escolar equivale a 85% aproximadamente; nos clubes fora da capital, esse percentual fica próximo dos 67 pontos. Isso, possivelmente, indicaria que os atletas das categorias de base de futebol dos clubes localizados na capital tendem a se dedicar mais à profissionalização no esporte em tela. Por sinal, os clubes localizados na capital oferecem também maiores possibilidades de profissionalização, pois são os clubes com maiores recursos financeiros e infraestrutura. Cabe lembrar que a prioridade dada à profissionalização e as dificuldades de obtenção de credenciais educacionais poderão criar problemas para aqueles que forem malsucedidos no esporte (Souza et al., 2008).

Outro dado a ser analisado diz respeito ao desvio padrão encontrado para as jornadas de treinamento e a jornada escolar. Principalmente na categoria sub‐17, observamos que o desvio padrão para a jornada escolar é de seis horas e 19 minutos para os atletas dos clubes da capital; e cinco horas e três minutos para os demais atletas. As diferenças entre as médias da jornada escolar declaradas pelos atletas e o tipo de valores discrepantes apontados pelo cálculo do desvio padrão indica que, para além do reduzido tempo da jornada escolar brasileira, as escolas não têm uma cultura padronizada que garanta o cumprimento da jornada escolar estabelecida em termos legais.7 Talvez a explicação para a variância exagerada passe pelo turno frequentado pelos atletas, como está descrito na figura 1.

Um dado relevante a ser notado na distribuição dos atletas por turno escolar é a diferença encontrada entre os clubes da capital e os de fora dela. Verificamos que os atletas dos clubes da cidade do Rio de Janeiro têm maior incidência de frequência aos turnos da tarde e da noite. Observamos que os atletas passam a estudar na escola noturna em função das demandas do futebol nessa fase da formação, que é composta de duas jornadas de treino por dia ou a alternância desses turnos. Como é sabido, o ensino noturno na educação básica tem, em geral, menor qualidade do que o diurno (Togni e Soares, 2007). Nesse caso, os atletas ficam a mercê dos contratos e das rotinas estabelecidos pelo clube, de modo que esse fato acaba por empurrá‐los para o ensino noturno e, como já dito, esse turno apresenta menor qualidade que a escola diurna (Corrochano e Nakano, 2002).

Observamos diferenças marcantes entre o tempo de dedicação à escola e aos treinamentos comparando os jovens atletas dos clubes da capital com aqueles que atuam em agremiações localizadas fora da cidade do Rio de Janeiro. Tal fato sugere que os atletas da capital fluminense priorizam a formação profissional no esporte de modo mais intenso do que os demais, provavelmente em função de estar atuando em clubes de maior prestígio, com rotinas mais rigorosas de treinamento e com alto grau de competição entre os candidatos a um posto no futebol profissional.

A alta proporção do tempo de treinamento frente à jornada escolar pode indicar uma concorrência entre essas agências de formação profissional (esporte e escola) ou entre essas carreiras. Outro dado que nos leva a pensar nessa hipótese é a dispersão exagerada do tempo dedicado à escola. Esse indicador pode nos mostrar algumas incidências, a saber: a) a baixa jornada escolar; b) a dificuldade que as instituições de ensino têm para o cumprimento de um padrão equivalente às exigências legais; c) a falta de responsabilidade dos clubes em suprirem educação qualidade para esses jovens aprendizes ou aspirante a trabalhadores do esporte; d) a falta de controle do estado sobre essas empresas do esporte (clube, empresários e empresas) que empregam esses jovens no mesmo momento em que estão cursando a educação básica e sobre o funcionamento das escolas no cumprimento da jornada escolar padrão.

O trânsito em direção ao ensino noturno pode sugerir que o período da noite se torne uma opção para compatibilizar o futebol com a escola, devido às exigências progressivas de dedicação à carreira esportiva. Os dados sugerem que os clubes da capital exigem mais dos seus atletas a ponto de a distribuição deles pelos turnos escolares ser mais desequilibrada em relação à mesma variável verificada nos demais clubes fora da capital. Como já argumentamos, o ensino noturno tem um tempo inferior de aula ao diurno e a literatura aponta para inadequação do currículo escolar para os alunos trabalhadores, sejam daqueles envolvidos com o esporte ou com profissões comuns.

Conclusão

O tempo gasto com a formação no futebol pode criar dificuldades para uma vida escolar dedicada e para uma formação cultural de qualidade. Os dados deste estudo sugerem que a formação no futebol se torna prioridade em relação à escola em função dos desejos dos atletas que buscam a profissionalização. Isso parece óbvio, mas esse desejo só ganha conformidade se entendermos a configuração em que se encontra o tipo de atleta aqui estudado. Um dado do contexto é o tipo de pressão que a rotina de formação esportiva impõe ao atleta. Por exemplo, os clubes da capital fluminense, centro do mercado da formação de jogadores de futebol no estado, parecem empurrar seus atletas para o ensino noturno. Com isso, esses atletas, que estão na fatia mais valorizada do mercado e com mais chances de profissionalização, administram a dupla carreira estudando à noite, provavelmente em função da rotina mais rígida de formação nos clubes da capital. Esse fato leva os atletas que estão nesses clubes da capital a terem uma jornada escolar inferior em função do turno escolar. Os indícios deste estudo e de outros, no cenário nacional e internacional, sugerem que quanto maiores as chances de profissionalização no esporte de alto rendimento, menores se tornam as possibilidades de dedicação à escola (Soares et al., 2013; Christensen e Sorensen, 2009; Aquilina, 2013; Hickey e Kelly, 2008) No caso específico dos atletas de futebol no Rio de Janeiro, Melo (2010) indica que o clube de futebol é pouco flexível em relação às exigências escolares. Em contraposição, vários atletas declararam que negociam junto aos professores e aos diretores de suas respectivas escolas as faltas e as remarcações de provas e tarefas em função das demandas do clube. Os atletas declaram que podem viajar até por um mês quando estão em competições internacionais. Assim, temos uma escola flexível diante dos clubes inflexíveis. Isso é um dado do contexto que informa àqueles que desejam tornarem‐se atletas de futebol profissional qual deverá ser a prioridade.

Se a escola básica oferece poucas chances de inserção na parte do mercado de trabalho bem remunerada – dada a desfuncionalidade do ensino médio propedêutico de garantir uma qualificação específica –, a decisão de tentar prioritariamente a carreira nos gramados e, em paralelo, conseguir a certificação do ensino médio pode ser vista com algo razoável no contexto da vida desses jovens. Pois devemos ter consciência de que a qualidade da escola no Brasil e as oportunidades de formação cultural e profissional para a juventude nessa instituição, talvez, apenas auxiliam potencializar as apostas na carreira do futebol.

Financiamento

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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“4a Divisão: o lado D do futebol” foi produzida pelos repórteres Andrei Kampff e Ari Júnior, da Rede Globo de Televisão, que visitaram 12 times – os quais participaram da 4a divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol em 2009 – em 11 cidades de todas as regiões do Brasil. Entrevistaram jogadores, parentes de jogadores, dirigentes e torcedores. O resultado desse trabalho jornalístico foi divulgado em uma série de 20 a 24 de julho de 2009 no Jornal da Globo.

Entendemos profissionalização como os processos de formação que visam à entrada num determinado mercado para exercer uma função especializada com possibilidades de retorno financeiro. O profissional é aquele que detém um saber especializado no mercado de trabalho.

Statistical Package for the Social Sciences.

Se considerarmos o tempo de aula igual a 50 minutos, indicamos que três horas e 45 minutos representariam cerca de quatro tempos de aula. Porém, indicamos que um percentual da amostra (60,5%) estuda no período noturno, quando o tempo de aula é de 40 minutos. Portanto, a perda semanal totaliza cinco tempos de aula na semana.

Exame Nacional do Ensino Médio.

Sistema de Avaliação da Educação Básica.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei n?? 9.394, de 20/12/96), a carga horária do ano letivo é de 800 horas, dividas em pelo menos 200 dias. Sendo assim, o tempo mínimo diário para a jornada escolar seria de quatro horas (Brasil, 1996).

Autor para correspondência. (Leonardo Bernardes Silva de Melo leonardo.melo@globo.com)
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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:400-6 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.11.003