Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
Estratégias biopolíticas de construção do corpo e vigilância da saúde: o caso “Medida Certa”
Biopolitical strategies of construction of the body and of health surveillance: the “Right Measure” case
Estrategias biopolíticas de construcción del cuerpo y vigilancia de la salud: el caso “A la medida”
Angélica Teixeira da Silva Leitzkea,, , Luiz Carlos Rigob, Alan Goularte Knuthc
a Universidade Federal de Pelotas, Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Pelotas, RS, Brasil
b Universidade Federal de Pelotas, Escola Superior de Educação Física, Pelotas, RS, Brasil
c Universidade Federal de Rio Grande, Instituto de Educação, Rio Grande, RS, Brasil
Recebido 30 Agosto 2018, Aceitaram 11 Dezembro 2018
Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo analisar as práticas discursivas que tratam do corpo e da saúde, presentes na primeira temporada do quadro televisivo Medida Certa, do programa Fantástico, da Rede Globo, e do livro Medida certa, como chegamos lá!. A metodologia usada foi a análise de discurso na perspectiva foucaultiana. Conclui‐se que as práticas discursivas presentes no quadro e no livro constituem‐se um dispositivo pedagógico midiático que prescreve modus operandi de vigilância para o corpo e para a saúde. Assim, aproxima‐se mais das estratégias biopolíticas de vigilância da vida do que de uma perspectiva do cuidado ético e estético do corpo e da saúde.

Abstract

This research aimed to analyze the discursive practices about health and the body present in the first season of Right Measure – a part of the TV show Fantástico, on Rede Globo – and the book Right Measure, How We Got There!. The methodology used was a discourse analysis within the Foucaultian perspective. It concludes that the discursive practices both in the TV show and in the book result in a pedagogical device of the media which serves to prescribe us modi operandi of surveillance for the body and for the health. Thus, it is argued that such a device is a set of biopolitical strategies of life surveillance rather than an ethical and aesthetic stance on caring about health and the body.

Resumen

El objetivo de esta investigación era analizar las prácticas discursivas que tratan del cuerpo y de la salud presentes en la primera temporada de la sección Medida Certa, del programa televisivo brasileño Fantástico y del libro A la medida, cómo lo logramos. Se utilizó como metodología el análisis del discurso en la perspectiva foucaultiana. Se concluye que las prácticas discursivas presentes en la sección y en el libro son un dispositivo pedagógico mediático que prescribe un modus operandi de vigilancia del cuerpo y la salud. Así, este programa se acerca más a las estrategias biopolíticas de vigilancia de la vida que a una perspectiva de cuidado ético y estético del cuerpo y la salud.

Palavras‐chave
Corpo humano, Saúde, Mídia audiovisual, Discursos
Keywords
Human Body, Health, Audiovisual media, Discourses
Palabras clave
Cuerpo humano, Salud, Medios audiovisuales, Discursos
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Introdução

Desde a emergência da noção moderna de corpo, em meados do século XVII, estruturam‐se investimentos sob o indivíduo e a população. Deu‐se, inicialmente, uma acomodação de mecanismos disciplinares sobre o corpo individual, o homem‐corpo, operados a partir de sua separação, alinhamento, classificação e vigilância (Foucault, 1999a; Foucault, 2007). Posteriormente, em meados do século XVIII, o poder ganha uma nova configuração. Emerge a biopolítica1 (Foucault, 1999a), que incorpora o poder disciplinar e institui uma governamentalidade,2 a partir da vigilância populacional, do homem‐espécie.

A biopolítica extrai seus saberes dos estudos demográficos através de medições estatísticas, defineo seu campo de intervenção e exerce seu poder a partir de uma regulamentação3. Com a expectativa da distribuição dos casos em uma população, são traçadas curvas de normalidade, cujas técnicas dos dispositivos de segurança se operacionalizam na captura e condução dos sujeitos (Foucault, 2008b). A promoção da vida e a manutenção da saúde tornam‐se uma questão de segurança (tabela 1).

Tabela 1.

Roteiro de análise

Categorias  Descrição 
Características básicas do artefato  Emissora, tempo de duração, periodicidade, gênero, cunho e tipo de veiculação, características de produção, cenários, sonorização, uso dos espaços, ritmo, enfoques, recursos de linguagem. 
Modos de endereçamento e vozes autorizadas  Quem o artefato pensa que o público é e quem ele deseja que o público seja, modos confessados e aprendidos de ser e estar, principais enunciadores. 
Campos discursivos associados e materialidade específica  Saberes veiculados, a que remetem os discursos, relações com a realidade e com diferentes discursos/representações sociais numa contextualização histórica. 

Fonte: Tabela elaborada pelos autores.

Na contemporaneidade, através dos dispositivos pedagógicos midiáticos4, o corpo e a saúde são falados, representados, produzidos e normalizados. Nesse contexto, o campo midiático5 funciona como uma instância educativa de “crescente ênfase discursiva a favor do envolvimento com (auto) disciplina e normas de comportamento na busca de se promover uma ‘boa saúde”’ (Oliveira et al., 2010, p. 31‐32) (Grifos do autor).

Especificamente no âmbito da educação física brasileira, a temática da biopolítica e da governamentalidade é tratada em estudos como os de Fraga (2006); Palma (2012); Santolin e Rigo (2012; 2015). Todavia, investigações que tratem do corpo e da saúde, na perspectiva foucaultiana, permanecem pertinentes e com significativa originalidade, fazem interface com questões amplas de saúde pública e de estratégias de promoção da saúde e controle da vida.

Assim, esta pesquisa teve como objetivo analisar as práticas discursivas referentes ao corpo e à saúde presentes no quadro Medida Certa em sua primeira temporada e no livro Medida certa: como chegamoslá!6. A escolha do objeto de pesquisa justifica‐se por tratar‐se de um quadro televisivo de alcance populacional inovador, que teve altos índices de audiência7. Apesar de o Medida Certa já ter sido objeto de outras pesquisas (Cândido et al., 2016; Knuth e Rigo, 2013; Mendes e Bezerra, 2014; Bortolazzo; Machado; 2014), ele continua a suscitar inquietações e a demandar problematizações de naturezas diversas, especialmente da ordem da biopolítica.

Metodologia

O corpus empírico desta pesquisa constituiu‐se dos 12 episódios referentes à primeira temporada do quadro Medida Certa, veiculado aos domingos na Rede Globo de televisão, em 2011, de abril (03/04/2011) a junho (26/06/2011), bem como ao livro Medida certa: como chegamos lá.

Classifica‐se como um estudo qualitativo (Gil, 2008)8, com coleta dos dados a partir de fonte documental de meio audiovisual e de meio impresso. Os capítulos do quadro foram assistidos através do site de mídias audiovisuais YouTube9, em três momentos: primeiro momento de aproximação; segundo momento de transcrição para a análise e último momento de classificação a partir do roteiro.

A metodologia da pesquisa inspirou‐se na análise do discurso na perspectiva foucaultiana. Para Foucault (2008c, p. 122), discurso constitui‐se em um “conjunto de enunciados que se apoia em um mesmo sistema de formação”. Produtoras de significados construídos e modificados coletivamente, as prática discursivas divulgam e promovem regimes de verdade, criando saberes (Foucault, 1999b; 2008c). Vinculam‐se sempre a determinados campos de saber, constituem o que Foucault chamou de formações discursivas:

[...] um feixe complexo de relações que funcionam como regra: ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva, para que essa se refira a tal ou qual objeto, para que empregue tal ou qual enunciação, para que use tal ou qual conceito, para que organize tal ou qual estratégia. Definir em sua individualidade singular um sistema de formação é, assim, caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela regularidade de uma prática. (Foucault, 2008c, p. 82‐83).

Nessa perspectiva, a partir do pressuposto de que os discursos do campo midiático produzem modos de subjetivações10 a partir de representações11, construiu‐se o seguinte roteiro de análise12.

Práticas discursivas do medida certa: resultados e análises

O Medida Certa consistiu em um registro semanal das atividades físicas de seus participantes submetidos a um programa de treinamento físico e de mudanças alimentares, idealizado pelo professor de educação física Márcio Atalla, com o objetivo de “emagrecer, afinar a silhueta e turbinar o pique em noventa dias.” (Camargo; Ceribelli; Atalla, 2011, p. 270).

Para compreendermos a proposta, seus mecanismos e suas estratégias de produção, passaremos à sua categorização.

Características básicas do artefato

O Medida Certa constitui‐se, enquanto atração de cunho jornalístico, do tipo reality show, transmitida pelo Fantástico, programa dominical de características jornalísticas e de entretenimento, que há 40 anos compõe o quadro da Rede Globo de Televisão, destaca‐se enquanto “revista eletrônica pioneira na televisão mundial”13. A primeira temporada do quadro era figurada por dois protagonistas e apresentadores: Renata Ceribelli e Zeca Camargo – citados aqui apenas como Renata e Zeca. Suas estratégias de veiculação foram ostensivas e flutuaram em vários meios. Dessa temporada, originou‐se o livro Medida certa: como chegamos lá!, o blog interativo e aplicativo para smartphones14, ambos de mesmo nome.

A proposta foi desenvolvida e exibida em várias edições, com diferentes formatos: Medida Certa, com Renata Ceribelli e Zeca Camargo, em 2011; Medida Certa Fenômeno, em 2012, com o ex‐jogador de futebol Ronaldo Nazário; Medida Certa: a Disputa, em 2013, com Fábio Porchat, Preta Gil, Gaby Amarantos e César Menotti; e Medida Certa: o Condomínio, em 2015. Houve, também, ações articuladas entre grupos como o Sesc em 2011 e 2012, o Caminhadas Medida Certa e o Medidinha Certa.

Lançado após o término das gravações da primeira temporada, o livro Medida certa: como chegamos lá! se estrutura em um estilo autobiográfico, de cunho informativo e caráter prescritivo. Narra, em primeira pessoa, a rotina vivida por Renata e Zeca, contam suas trajetórias de vida e a experiência a partir da “reprogramação corporal”. Com relatos individuais semanais dos protagonistas, seguidos sempre de um capítulo informativo, redigido por Marcio Atalla, com a presença de indicações alimentares e de atividades físicas.

A partir da proposta, os participantes foram vistoriados em sua rotina diária, às vezes com a câmera em posição de observador, às vezes os participantes interagiam com ela, como se dialogassem com o telespectador. As tomadas foram gravadas em ambientes diversos, como a casa dos participantes, seus locais de trabalho, supermercados e restaurantes, academias frequentadas, hotéis por onde passaram, bem como locais de passeio, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, como as praias locais e a Vista Chinesa.

Em princípio, a proposta consistiria em apresentar ao público apenas a realidade vivida cotidianamente pelos participantes e seriam traçadas, a partir daí, as adaptações necessárias. No entanto, no decorrer da temporada, há situações induzidas, como testes de resistência impostos aos participantes, por exemplo, um almoço do Zeca na casa de sua mãe (FANTÁSTICO, 17/04/2011) ou a cobertura jornalística de Renata na cidade de Gramado/RS (FANTÁSTICO, 01/05/2011).

Antes da vinheta do quadro, havia a chamada do mesmo pelos apresentadores do Fantástico: “Aprendendo e ensinando” (FANTÁSTICO, 03/04/2011), “Vamos falar agora de saúde? (FANTÁSTICO, 24/04/2011), “Mas a ideia é essa! Entrar na medida certa está ao alcance de todo mundo” (FANTÁSTICO, 24/04/2011), “Reprogramar o corpo, emagrecer, perder medidas…” (FANTÁSTICO, 03/04/2011).

A vinheta do quadro mostra Renata e Zeca “conferidos” de todos os ângulos. Uma espécie de planilha com prontuários médicos é mostrada junto à figura dos participantes, alude ao check up geral pelo qual passarão. Depois, aparecem de costas um para o outro, no centro de uma forma circular, onde serão vistos de todos os lados. Já na capa do livro são mostrados juntos, envoltos por fitas métricas, fazem alusão às medidas a serem conferidas e “perdidas”.

É característica do quadro a gravação de tomadas em ambientes externos, o que incentiva a participação dos telespectadores. Além disso, em diversas oportunidades, filmaram‐se os apresentadores “cobrados”, “controlados” pelos telespectadores nas ruas, em situações de treinos, na praia, em aeroportos ou restaurantes. Essa também é uma situação narrada no livro, em especial pela Renata, na Semana 8: Eu era o foco no casamento. Fui madrinha e todos os olhos estavam voltados para o que, e quanto, eu comeria.” (p. 167).

Em geral, os episódios terminam com uma informação ao público referente à temática principal da semana, com a chamada para a próxima.

Modos de endereçamento e vozes autorizadas

Sobre a questão do endereçamento, inicialmente, é preciso pensar que, para a produção midiática, é imprescindível a noção pressuposta de quem será o público, “quem eles pensam que são, em relação a si próprios, aos outros e às paixões e tensões sociais e culturais do momento.” (Ellsworth, 2001, p. 14). Essa cadeia de intenções tem relação com o que Ellsworth (2001, p. 25) chama de “potentes fantasias de poder, domínio e controle”, há uma relação interdependente entre quem o produto midiático em questão pensa que o público é, quem o público pensa que é, quem esse público quer se tornar e em quem o produto quer que ele se torne.

Ao considerarmos a estruturação do Medida Certa, temos, como protagonistas, dois jornalistas conhecidos da população brasileira, que falam de um determinado lugar com significativo reconhecimento público. Esse reconhecimento é reforçado pela linguagem e pela configuração singular do reality show. O quadro objetiva um alcance populacional, direciona‐se, mais especificamente, ao público adulto, de ambos os sexos, em idade produtiva.

Para instituir uma maior identificação entre telespectadores e protagonistas, enfatiza‐se a publicação de momentos da vida privada de Renata e Zeca (Bezerra e Mendes, 2014). O jogo rápido de câmeras explicita a rotina de vida acelerada dos participantes, como possivelmente seja a dos telespectadores. A partir do exemplo vivido pelos protagonistas, o quadro procura mostrar ao telespectador a existência de locais e a possibilidade de atividades físicas e de condutas alimentares acessíveis e indicadas para que a população possa buscar uma “reprogramação corporal” e uma vida saudável.

Todas(os) “de casa” são equiparados a Renata e ela reforça essa intenção ao lembrar que “Isso não vale só pra mim não, hein! Vale pra você aí de casa também!” (FANTÁSTICO, 17/04/2011), “Em qualquer cadeira de casa também dá pra fazer isso!” (FANTÁSTICO, 17/04/2011). Ou, ainda, ao chamar as mulheres para repetir os exercícios de tríceps braquial: “É fácil e vale a pena repetir em casa” (FANTÁSTICO, 17/04/2011).

O objetivo de alcance populacional conduz, também, às recomendações das práticas alimentares, como enfatiza o discurso de Atalla: “todo mundo pode seguir. Um: fracionar a refeição; dois: diminuir o consumo de gordura, principalmente as gorduras saturada; três: aumentar o consumo de fibras; quatro: aumentar o consumo de água; e cinco: diminuir sal e açúcar da alimentação.” (FANTÁSTICO, 17/04/2011). No livro, essa pretensão populacional evidencia‐se, por exemplo, nos 12 capítulos instrutivos redigidos por Marcio Atalla; no fim de cada semana, em destaque, seu capítulo introdutório (p. 24), em que coloca dois quadros indicativos com os preceitos alimentares e exercícios físicos a serem seguidos de acordo com sua proposta de “reprogramação corporal”.

Esse caráter prescritivo populacional remete o quadro aos dispositivos de segurança descritos por Foucault (2008b). O autor alerta para o fato de como as estratégias biopolíticas de regulação populacional tornam possível uma nova governamentalidade. Vinculada à prescrição, aparecem os procedimentos médicos de inoculação que se destacam primeiro por serem “absolutamente preventivas” (Foucault, 2008b, p. 76); segundo, por “apresentarem um caráter de certeza, de sucesso quase total” (Foucault, 2008b, p. 76) e terceiro por poderem “sem dificuldades materiais ou econômicas maiores, ser generalizáveis a população” (Foucault, 2008b, p. 76). No Medida Certa, vemos perpassar essa estratégia de inoculação da população. Tanto no livro como no quadro, repetem‐se conselhos prescritivos. Nesses discursos, como observaram (Cândido et al., 2016), reproduz‐se uma ideia, ou melhor, um regime de verdade, que ressalta o autocuidado do indivíduo com a sua saúde.

Há, também, certa ênfase nos depoimentos de Renata e Zeca, coloca a confissão dos novos modos aprendidos de ser e estar enquanto uma das técnicas de linguagem midiática de destaque. Os personagens relatam os desafios a partir de seu ponto de vista, com os sentimentos e dificuldades enfrentadas.

No episódio de 03/04/2011, por exemplo, Renata explicita: “O meu pecado, eu confesso: é beliscar!”; em outro episódio, Zeca confessa sozinho como se sente: “Primeira vez que eu faço sábado e domingo um exercício aeróbico seguido. Com resultados desastrosos. Hoje eu tô muito cansado! Espero que eu já pareça um pouco mais magro.” (FANTÁSTICO, 17/04/2011). No episódio de 01/05/2011, Zeca confessa que começa a semana desanimado: Eu não perdi nem três quilos.” A configuração do livro também é em tom pessoal, os participantes relatam suas experiências em primeira pessoa, com grande exposição de seus sentimentos e intimidades, uma estratégia das técnicas de confissão.

Márcio Atalla, professor que acompanha os apresentadores, é o grande enunciador, profissional munido de saberes acerca do corpo, da saúde e das atividades físicas. Já no primeiro episódio, é evidenciada sua disposição física, com imagens suas na prática de exercícios, enquanto, no plano de fundo, sua fala destaca seu currículo. Formado em educação física, com experiência em formulação de rotinas para incorporação de atividades físicas ao dia a dia. Atalla representa a autoridade no assunto, bem como o indivíduo ativo – que inspira outros indivíduos.

Além de Atalla, o discurso científico do quadro também é legitimado por um cardiologista (FANTÁSTICO, 03/04/2011; 15/05/2011) e por nutricionistas que, além do acompanhamento clínico (FANTÁSTICO, 03/04/2011; 15/05/2011), trazem dicas de compras no supermercado (FANTÁSTICO, 08/05/2011); de preparação dos pratos (FANTÁSTICO, 29/05/2011); de montagem do prato no bufê por quilo (FANTÁSTICO, 24/04/2011); e do que comer no dia a dia (FANTÁSTICO, 12/06/2011). Esporadicamente, aparecem, também, outros profissionais ligados às práticas de atividades físicas, como um personal trainer – que trabalha com Zeca no decorrer de suas férias em Paris (FANTÁSTICO, 08/05/2011), uma professora de dança indiana que dá aulas ao Zeca (FANTÁSTICO, 12/06/2011) e umas atletas de canoagem (FANTÁSTICO, 05/06/2011).

Esse leque de profissionais autorizados de diferentes áreas ajuda a implantar a grande estratégia de fazer do quadro Medida Certa“um programa universal e individual, que tinha como um de seus objetivos o incentivo à prática de atividades físicas, mudanças alimentares e o controle dos corpos” (Knuth e Rigo, 2013, p. 135).

Campos discursivos associados e materialidade específica

Os discursos produzidos pelo quadro, situados predominantemente no campo das ciências da vida, produzem e reproduzem saberes relativos ao processo de emagrecimento e à obtenção de um “estilo de vida saudável”, explicitam uma relação direta de causalidade entre a promoção da saúde e a prática de atividades físicas (Cândido et al., 2016).

Esses saberes constituem‐se enquanto agentes produtores da saúde e dos corpos de Renata e Zeca e, por consequência, também dos corpos dos telespectadores a que se endereçam. Isso é percebido no decorrer dos episódios, quando os participantes “colocam em prática” o conhecimento adquirido.

Desenrola‐se, assim uma “rede discursiva que propõe estratégias para que cada indivíduo seja responsável pela sua saúde,” (Bortolazzo e Machado, 2014, p. 80). Essa rede visa a um alcance populacional, como evidenciam passagens do quadro, como, por exemplo, o episódio que mostra a participação dos funcionários de uma empresa na cidade de Fortaleza – CE. No quadro se ressalta que esses trabalhadores aderiram à proposta desde sua primeira semana, formalizaram um desafio em contrato: aquele que perdesse mais peso em um mês ganharia o valor em reais de dez vezes a quantidade de quilos perdida por todos os participantes do desafio (FANTÁSTICO, 22/05/2011).

Há uma determinação de esquadrinhar os corpos dos participantes nas medidas e nos parâmetros populacionais atualmente predominantes nas ciências da vida, como os padrões de IMC (Índice de Massa Corporal)15. A composição corporal e bioquímica, bem como outras medidas antropométricas dos protagonistas, é aferidas várias vezes ao longo do quadro, enfatiza qual a perda de peso que os protagonistas teriam de alcançar. Essas medidas servem para reprogramar as atividades e balizar os objetivos do quadro, generalizáveis à população.

Esse entrelaçamento do corpo‐indivíduo (Renata e Zeca) ao corpo social (população) opera a partir de medidas e de normas legitimadas pela ciência: “A norma é o que pode tanto se aplicar a um corpo que se quer disciplinar quanto a uma população que se quer regulamentar.” (Foucault, 1999a, p. 302). Nesse sentido, as práticas discursivas do quadro compõem‐se em torno de uma captura dos corpos dos participantes na curva normal dos parâmetros biológicos estabelecidos, que, se pode dizer, intentam extrapolar a população.

A relação entre o campo midiático, a normalização dos corpos e a propagação de ideários de saúde para a população não é uma originalidade do Medida Certa. “Na literatura científica biomédica ou em suas construções contemporâneas que ecoam na mídia, é possível encontrar uma extensa variedade de discursos advogando a relação entre ‘corpos em forma’ e a ideia de evitar riscos à saúde” (Oliveira et al., 2010, p. 30) (Grifos do Autor).

Os estudos populacionais, por meio de medições estatísticas, foram substancialmente importantes na consolidação de parâmetros biométricos de saúde, numa intrínseca relação com a noção de risco, colocaram qualquer variação na curva de normalidade em posição de perigo, ajudaram a legitimar o discurso de que a conquista da saúde se reduz a uma responsabilidade individual que depende somente do cumprimento de certas prescrições. Nessa perspectiva, a noção de risco foi “fundamental para que se mostrasse aos participantes e aos telespectadores [do Medida Certa] a importância e a necessidade de aderir aos hábitos sugeridos” (Cândido et al., 2016, p. 355). Assim, o Medida Certa constitui‐se como uma biopolítica de caráter normalizador, baseada na promoção de “discursos de verdade” sobre a saúde e o corpo.

A escolha de Zeca e Renata para o quadro parece ter levado em consideração a relação de cada um deles com seu corpo e as possíveis variações de suas medidas corporais no decorrer de suas vidas, como se evidencia em algumas passagens do quadro e, também, do livro: “Eu nunca fui magrinha!” (FANTÁSTICO, 03/04/2011), diz Renata. Zeca desabafa: “Chega uma época na vida de um homem em que ele tem que olhar para o espelho e dizer: Estou gordo. Estou acabado. Talvez não tenha caminho de volta.” (FANTÁSTICO, 03/04/2011). No livro, Zeca ainda relata sua angústia: No entanto, mesmo com todo esse otimismo, eu sabia, lá no fundo, que estava... gordo!” (p. 10) e Renata descreve seu constrangimento com suas curvas: “Fiquei três anos sem usar biquini” (p. 15)

Essa preocupação exagerada com o corpo gordo percebida atualmente, em nosso sistema de formação discursiva, é potencializada a partir do processo de patologização da obesidade, baseado em “princípios morais, éticos, estéticos e religiosos, provenientes de momentos históricos anteriores.” (Santolin & Rigo, 2015, p. 82). No entanto, “a transformação do embelezamento em gênero de primeira necessidade marcou profundamente o século XX.” (Sant’Anna, 2014, p. 16) (grifos do autor). Principalmente a partir da década de 1980, a ginástica figura junto à promoção midiática de corpos atléticos, jovens e sexualmente desejáveis, deu origem a uma tendência que Sant’Anna (2014) denomina de “hipersaúde”, em que se torna imperativo estar 100% saudável, “sarado”.

No decorrer da temporada, produzem‐se investimentos sobre os corpos, ao passo que se produzem, também, representações de um conceito de saúde e de beleza, imbricados em práticas discursivas normalizadoras, que, mesmo que não sejam originárias do Medida Certa, ali se reinventam (Knuth e Rigo, 2013).

Uma conclusão na “medida certa”

Acompanhado pelo professor de educação física Marcio Atalla, o quadro Medida Certa constituiu‐se enquanto veículo de difusão/produção de saberes acerca do corpo, que se orientam pela silhueta, pelo peso e pela aptidão física, interpela e mobiliza os espectadores a aderirem às condutas consideradas como modelo de saúde.

Não se teve como intuito, nesta pesquisa, averiguar a recepção do quadro ou seus efeitos nos telespectadores. No entanto, mesmo sendo possível identificar que algumas estratégias usadas na proposta seriam de restrito acesso à maioria da população brasileira, como as intervenções multiprofissionais, percebe‐se que as práticas discursivas do quadro situam‐se no campo da biopolítica.

A presença de mecanismos normalizadores referentes ao corpo e à saúde em suas práticas discursivas pode ser percebida no caráter prescritivo, na ênfase nas técnicas de confissão e no grande esforço para difusão de saberes científicos vinculados a parâmetros de saúde. Mesmo tendo dedicado pouca atenção para as desigualdades econômicas e socioculturais do Brasil, o Medida Certa foi modelo para promoção de certas políticas públicas no País (Knuth e Rigo, 2013).

Mais do que questionar a validade do quadro e dos saberes produzidos e reproduzidos, intentou‐se evidenciar suas práticas discursivas, próprias do campo midiático e vinculadas a um sistema de formação discursiva baseado na normalização dos sujeitos para seu governo. Ao ocupar‐se de ensinar modos de ser e estar aos indivíduos na contemporaneidade, a partir de seu vasto aparato de linguagem, o Medida Certa executa complexos processos de comunicação e de subjetivação, que objetivaram, entre outras coisas, construir sujeitos adeptos a determinados padrões comportamentais e a certas relações de biopoder.

Nessa perspectiva, o quadro funciona como um dispositivo pedagógico midiático (Fischer, 2002), que atua como um instrumento de disseminação de padronização de medidas, hábitos e condutas, reforça e produz significados e representações sociais acerca da estética corporal e da normalização de um determinado “estilo de vida” desejado pelo governo para a população.

Ao produzir e reproduzir regimes de verdades em tom alarmista, o Medida Certa aproxima‐se mais de uma perspectiva de vigilância e de controle da vida e das formas de viver, como as percebe Peter Pelbal (2003), do que de uma perspectiva que prima por um maior cuidado ético e estético do corpo e da saúde, pois “as relações de poder são, antes de tudo, produtivas” (Foucault, 1979, p. 236). Todavia, como assinala o próprio autor (Foucault (1979, p. 241): “a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Assim, podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa.”

Apesar de atualmente vermos o crescimento de novas configurações midiáticas, como aquelas pertencentes à realidade digital e ao contexto das redes sociais, o quadro Medida Certa ainda se destaca, principalmente por ser um exemplo emblemático do modus operandi de normalização do corpo e da saúde e dos e modos de subjetivação midiáticos, reais e virtuais, que emergiram no começo do século XXI. Assim, mesmo que não esteja mais no ar, o quadro representou uma nova configuração histórica de como interagir com o público, enfim, uma relevante ferramenta biopolítica de alcance populacional.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978‐1979)
Martins Fontes, (2008)
Foucault, 2008b
Foucault Michel
Segurança, território e população: curso no Collège de France (1977‐1978)
Martins Fontes, (2008)
Foucault, 2008c
Foucault Michel
Arqueologia do Saber 7 ed. Tradução Luiz F. B. Neves
Forense Universitária, (2008)
Gil e Antônio Carlos, 2008
Gil,Antônio Carlos
Métodos e técnicas de pesquisa social
6a ed., Atlas, (2008)
Hall, 2016
Hall Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: PUC, 2016.
Knuth e Rigo, 2013
Knuth AG, Rigo LC. Desafios contemporâneos para a educação física: considerações sobre “medida certa” e a sociedade de controle. In: SANTOS, Rita de Cássia Grecco dos (org.). Sociologia da Educação: Debates contemporâneos e emergentes na formação de professores. Rio Grande: FURG, 2013.
Oliveira et al., 2010
Oliveira, Alexandre Palma de; et al. Culto ao corpo e exposição de produtos na mídia especializada em estética e saúde. Movimento, Porto Alegre, v. 16, n. 01, p. 31‐51, jan./mar., 2010.
Palma et al., 2012
Palma, Alexandre; et al. Os “pesos” de ser obeso: traços fascistas no ideário de saúde contemporâneo. Movimento, Porto Alegre, v. 18, n. 04, p. 99‐119, out/dez de 2012.
Santolin et al., 2015
Santolin Cezar Barboza, Rigo Luiz Carlos. O nascimento do discurso patologizante da obesidade. Movimento, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 81‐94, jan./mar. de 2015.
Santolin et al., 2012
Santolin Cezar Barboza, Rigo Luiz Carlos. Combate à obesidade: uma análise da legislação brasileira. Movimento, Porto Alegre, v. 18, n. 02, p. 279‐296, abr/jun de 2012.

Foucault (2008a, p. 431) conceitua biopolítica como: “a maneira como se procurou, desde o século XVIII, racionalizar os problemas postos à prática governamental pelos fenômenos próprios de um conjunto de viventes constituídos em população: saúde, higiene, natalidade, longevidade, raças”.

Este artigo é produto de dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós‐Graduação em Educação Física da Universidade Federal de Pelotas em 2016.

Governamentalidade é um conceito usado por Foucault (1979; 2008b) que remete às novas tecnologias para gerir a vida da população através do exercício do biopoder, referente não apenas às práticas regulamentadoras por parte do Estado, mas à forma geral de condução da conduta humana.

Foucault (2008b) usa como sinônimos os termos mecanismos reguladores e mecanismos de previdência.

Definimos esse conceito, a partir de Fischer (2002), como um aparato discursivo e, ao mesmo tempo, não discursivo, constituinte do campo midiático que atua na produção e veiculação de saberes sobre os indivíduos e seus modos confessados e aprendidos de ser e estar na cultura em que vivem.

Sobre o uso do termo “campo midiático”: entendemos que as mídias constituem um campo, similar ao sentido que Bourdier (1983) atribui ao conceito de campo: um espaço não homogêneo, plural, polifônico e, geralmente, multidiscursivo.

Décimo livro mais vendido nas livrarias de Curitiba na primeira semana de 2012, na categoria “não ficção”. Ver: <http: www.apoiocomunicacao.com.br="" isualizar="" egistro.php?id="2880&page_name=noticia&index"> . </http:>

Ver: <http: gente.ig.com.br="" ntes‐e‐depois‐na‐balanca‐com‐zeca‐camargo="" 1596990097293.html=""> . Outros indícios da abrangência e dos efeitos do quadro são as ações derivadas da primeira temporada do quadro Caminhadas Medida Certa, que movimentou 54 mil pessoas em 11 capitais do país,e Medidinha Certa, que reuniu cerca de 50 mil pessoas, bem como a presença de suas influências em políticas públicas (Knuth; Rigo, 2013). </http:>

De acordo com os pressupostos de Gil (2008): descrição das características do objeto, uso de técnica padronizada de coleta de dados, estabelecimento de relações entre os dados coletados e o contexto histórico, político, social e cultural e discussão dessas relações existentes, na tentativa de identificar fatores determinantes para sua construção.

Ver: <https: www.youtube.com="" ser="" itemagra="" ideos=""> . </https:>

Para outras considerações metodológicas, consultar Fischer, 2013), especialmente o capítulo II, “Uma proposta de roteiro para análise de produtos televisivos”.

Compreendidas como práticas culturais de produção de significados através da linguagem (Hall, 2016), implicadas em relações de poder.

Essas categorias se entrecruzam e se ressignificam a partir do empírico.

Ver: <http: memoriaglobo.globo.com="" ostras="" antastico‐40‐anos.htm=""> . </http:>

Ver: < https://play.google.com/store/apps/details?id=br.com.ftips.medidacerta&hl=pt>.

O IMC adquiriu um novo patamar de popularização, principalmente a partir 1948. É a partir desse ano que a obesidade, definida em relação ao IMC, passa a ser classificada oficialmente como uma patologia, integra a Classificação Internacional das Doenças (CID) (Santolin e Rigo, 2015).

Autor para correspondência. (Angélica Teixeira da Silva Leitzke leitzke.angelica@gmail.com)