Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:330-7 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.07.002
Artigo original
“Educação do corpo” e campo científico: da fluidez do conhecimento às lutas simbólicas
“Body education” and scientific field: of the fluidity of the knowledge to the symbolic contests
“Educación del cuerpo” y campo científico: de la fluidez del conocimiento a las luchas simbólicas
Guilherme Gonçalves Baptistaa,, , Pedro Henrique Zubcich Caiado de Castroa, Sílvia Maria Agatti Lüdorfb
a Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação, Núcleo de Estudos Sociocorporais e Pedagógicos em Educação Física e Esportes (Nespefe), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
b Universidade Federal do Rio de Janeiro, Núcleo de Estudos Sociocorporais e Pedagógicos em Educação Física e Esportes (Nespefe), Departamento de Ginástica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Recebido 03 Junho 2016, Aceitaram 24 Julho 2017
Resumo

O artigo objetivou identificar os autores que usam o termo “educação do corpo” no campo científico brasileiro e as áreas de conhecimento em que estão inseridos para compreender as “regras do jogo” e as lutas concorrenciais em torno da temática. Mediante pesquisa documental, foram analisados 46 artigos científicos. Detectou‐se que três dos quatros pesquisadores mais representativos no número de trabalhos são bolsistas de produção em pesquisa pela CNPq; as principais áreas de investigação foram educação e educação física; e a maioria dos autores tem formação em educação física, indica que os debates sobre a temática provêm, sobretudo, dessa área e, também, a possibilidade de migração dos sujeitos com permanência da “autoridade científica” para outras áreas.

Abstract

The paper aimed to identify the authors who use the term “body education” in the Brazilian scientific field and the areas of knowledge where they are inserted to understand the “rules of the game” and the competitive contests around the thematic. Through a documental research, 46 papers were analysed. It was noted that three of four researchers most representative in the number of papers receive “Production in Research” furtherance by CNPq; the main areas of investigation were Education and Physical Education; and the majority of the authors possesses graduation in Physical Education, indicating that the debates on the thematic mainly come from this area and the possibility of migration of the authors with permanence of “scientific authority” for other areas also.

Resumen

El artículo trató de identificar a los partidarios del término «educación del cuerpo» en el campo científico brasileño y las áreas del conocimiento donde se insertan para entender las «reglas del juego» y las reñidas competencias en torno al tema. Mediante investigación documental, se analizaron 46 artículos científicos. Se encontró que tres de cada cuatro autores entre los más representativos en el número de trabajos son becarios de Producción en Investigación por la CNPq; las áreas principales fueron Educación y Educación física, y la mayoría de autores posee titulación en educación física, lo que indica que las discusiones sobre el tema proceden especialmente de esta área y, también, la posibilidad de migración de individuos con la persistencia de la «autoridad científica» para otras áreas.

Palavras‐chave
Educação física, Corpo humano, Ciências humanas, Fronteiras do conhecimento
Keywords
Physical education, Human body, Humanities, Borders of the knowledge
Palabras clave
Educación física, Cuerpo humano, Humanidades, Fronteras del conocimiento
Introdução

A análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais trêmula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você não está encarando de maneira correta.

(Clifford Geertz, 2011, p. 20)

Antropólogos, historiadores, sociólogos, educadores e artistas, entre outros especialistas, estudam atualmente as práticas corporais e suas representações com o intuito de compreender as civilizações do passado e as culturas do presente (Sant’Anna, 2007). No entanto, o corpo1 nem sempre foi unidade de análise específica e alvo de diferentes domínios do saber.

Se antes era tratado fundamentalmente na interseção entre anatomia, fisiologia e tecnologia (Vieira, 2003), o corpo sofre alterações em seu status, de maneira mais intensa, a partir dos anos 1970 e 1980 no cenário científico. Entre as explicações para essa mudança, pode‐se sublinhar o papel dos movimentos culturais durante a segunda metade do século XX, os quais denunciavam o corpo como vivência e expressividade de um interior de sistemas culturais particulares (Porter, 1992). Para Shilling (2005), o reconhecimento do corpo como portador das relações de poder foi fundamental para sua emergência no âmbito científico na medida em que passou a constituir ponto fulcral para análises de questões socioculturais.

Essas alterações do trato do corpo evidenciaram novas temáticas de estudo que se disseminaram por grande parte das ciências humanas e sociais, requerendo e conjugando diferentes bases teóricas para estudos em torno do corpo. Conforme Le Breton (2006), o corpo como objeto de estudo exige um olhar multidisciplinar para compreensão de suas inúmeras representações.

Ao inserir o corpo como unidade de análise específica, os agentes de cada área se apropriam desse com linguagens particulares. A noção de campo (Bourdieu, 1976), especialmente de campo científico, é fundamental nesse contexto:

O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado. (Bourdieu, 1976, p. 88)

Alinhada à perspectiva bourdieusiana, Brandão (2010) ressalta que as posições conquistadas no campo são resultantes das disputas e negociações entre seus agentes – aqueles que conservam ou transformam as regras nesse universo. O campo científico, assim, designa um espaço relativamente autônomo, dotado de leis próprias, embora passível a influências externas, sendo as relações concorrenciais estabelecidas que definem os mais ou menos habilitados para propor alterações nas “regras do jogo” (Bourdieu, 2004).

Dessa maneira, o uso de expressões construídas em torno do corpo manifesta, em certo alcance, as disputas concorrenciais e as negociações que o constituem como objeto de estudo, presentes em diferentes domínios do saber. Para Fleck (2010), os conceitos são gerados em determinado contexto histórico e sua sobrevivência (ou não) depende de seu uso ou circulação pela comunidade científica. Nesse sentido, observam‐se indícios de que “educação do corpo” se constitua em um conceito, conforme detectado em Baptista e Lüdorf (2016), em virtude de seu uso cada vez mais recorrente no universo científico brasileiro. Soares (1996, 1998) pode ser considerada uma das precursoras no uso desse termo, sendo também responsável pela explicação do verbete (Soares, 2014) em dicionário específico da educação física.

Um primeiro esforço para compreender as formas de uso do conceito foi feito por Baptista e Lüdorf (2016), que analisaram os significados e sentidos de “educação do corpo” na literatura acadêmica brasileira. Naquela oportunidade foram detectados diferentes sentidos atribuídos à expressão, o que poderia representar, em certo grau, as próprias lutas simbólicas do campo científico.

Entretanto, observa‐se uma lacuna em relação a estudos que possibilitem analisar como tem ocorrido a circulação desse conceito, bem como as relações de poder e lutas simbólicas entre as diferentes áreas de conhecimento que o usam. Assim, a noção de capital (Bourdieu, 2011), como representação de um poder sobre determinado campo em dado momento, é fundamental para analisar as condições de luta dos pesquisadores que empregam “educação do corpo” e o contexto em torno das disputas concorrenciais no campo científico.

O objetivo do presente estudo é, portanto, identificar os autores que usam o conceito de “educação do corpo” no campo científico brasileiro e as áreas de conhecimento em que estão inseridos, com intuito de compreender as “regras do jogo” e as lutas concorrenciais que compõem esse campo.

Métodos

Para atingir o propósito desta pesquisa, optou‐se pela pesquisa documental (Laville e Dionne, 1999) com base principalmente em artigos científicos. É importante ressaltar que se priorizou a seleção apenas de artigos por considerar que o sistema peer review adotado pelos periódicos é um fator que qualifica o manuscrito no universo científico, embora se saiba que esse processo não é neutro nem isento das lutas desse campo (Maia da Silva e Soriano, 2014). Assim, buscou‐se o termo “educação do corpo” nas bases de dados SciELO, Scopus e no portal de evidências científicas BVS.2 O acesso a essas bases se justifica pelo fato de serem três importantes fontes de artigos científicos usadas pela comunidade acadêmica brasileira.

O primeiro critério de seleção dos artigos foi o filtro da língua portuguesa, devido ao crescente número de adeptos desse termo no Brasil e pelo escopo de compreender seu uso nesse espaço. Posteriormente, selecionaram‐se artigos publicados até 2015 no intuito de avaliar o quantitativo de estudos por anos concluídos.

Os demais critérios de seleção foram: a) permitir o acesso online ao texto na íntegra; b) ser artigo original, de revisão ou ensaio; c) mencionar o termo “educação do corpo” em seu título e/ou texto, em procedimento feito via localizador de palavras do programa Adobe Reader; e d) exclusão de artigos repetidos. Após a seleção dos artigos científicos pelos critérios descritos, foram contabilizados 46 artigos científicos publicados em diversos periódicos de 2000 a 2015. Esse processo pode ser visto na figura 1.

Figura 1.
(0.29MB).

Processo de mapeamento dos artigos

Legenda: Etapas feitas do processo de mapeamento de artigos

Fonte: Dados originais da pesquisa.

Esses artigos foram sistematizados em uma planilha com as seguintes informações: data de acesso, referência do texto, autor(es), área do autor principal,3 instituição do autor, ano da publicação, número de ocorrências do termo, revista da publicação e o estrato em que se posiciona no Qualis 2014 e observações gerais. Cumpre mencionar que as informações referentes à autoria dizem respeito a todos os envolvidos no trabalho. Por outro lado, os itens “área do autor” e “instituição do autor” representam detalhes acerca do autor principal do artigo. De modo complementar foram usados documentos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), como as listas de programas de pós‐graduação e periódicos Qualis, conforme necessário.

Como o jogo é jogadoOs jogadores e o capital científico

Entre os artigos analisados a partir dos critérios estabelecidos, “educação do corpo” aparece pela primeira vez em um artigo de autoria de Soares (2000) publicado em um periódico da educação. Desde então, esse termo passa a ser empregado de modo mais recorrente no campo científico brasileiro a partir principalmente de 2010. A periodicidade de cada ano pode ser verificada na figura 2.

Figura 2.
(0.05MB).

Número de artigos

Legenda: Quantidade de artigos x ano da publicação

Fonte: Dados originais da pesquisa.

O número de artigos que usam “educação do corpo” apresenta uma tendência de crescimento, principalmente entre 2009 e 2015. É digno de nota o maior número de trabalhos nos dois últimos anos, fato que indica sua circulação (Fleck, 2010) no campo científico.

Aliada a esse dado quantitativo, uma análise minuciosa revela aspectos relevantes para o objetivo empreendido. O primeiro é o uso do termo por cada vez mais autores, visto terem sido encontrados 35 autores principais. O segundo aspecto é a maior relevância conquistada no cenário acadêmico nos últimos anos, já que seu uso aparece no título de 23 dos 46 trabalhos analisados. Os dados também ilustram a evidência adquirida pelo corpo como objeto de estudo nas ciências humanas e sociais, uma vez que todos os artigos estão vinculados a esses referenciais.

No que se refere à utilização e à evidência do conceito “educação do corpo” no universo científico, os dados corroboram o argumento de seu prestígio. Além de seu uso nos títulos dos trabalhos analisados e da indicação do crescimento de trabalhos que o empregam, sua importância é observada a partir do número de repetições do termo nos estudos. Nota‐se que os artigos apresentam variação quanto ao número de usos da expressão, essa taxa é compreendida entre uma e 27 ocorrências.4

Sob as luzes de Bourdieu (1976), pode‐se considerar que “educação do corpo” ganha prestígio no campo científico porque as reivindicações de legitimidade do conceito vêm de grupos cujos interesses são exprimidos pelo seu uso, possibilitando a acumulação de capital simbólico no campo científico. Argumenta‐se que seu emprego mais recorrente está alinhado às novas possibilidades de acumulação de capital simbólico (reputação, prestígio, reconhecimento, fomentos etc.) na forma de capital científico puro, adquirido através da produção intelectual reconhecida pelos pares de determinado campo (Bourdieu, 2004), a partir de investigações acerca do corpo que ganham projeção no campo.

Para Bourdieu (2004), as estratégias de reconversão tomadas pelos cientistas que os conduzem a trocar de domínios ou de temas são diferenciadas conforme o agente, o capital de que dispõe e de acordo com a relação com o capital adquirido segundo seu próprio modo de obtê‐lo. Assim, os agentes que têm o senso do jogo – arte de antecipar tendências e permitir maiores chances de fazer escolhas que compensem a partir da incorporação das regras postas em jogo – e os que já dispõem de uma posição vantajosa no campo adquirem condições mais satisfatórias para usufruir dessas novas possibilidades de pesquisa e para acumular capital simbólico.

Nesse sentido, observa‐se que os autores mais representativos na uso do conceito, por meio do quantitativo de trabalhos,5 são: Alexandre Vaz; Carmen Soares e Antonio Jorge Soares, cada um com cinco trabalhos, e Edivaldo Góis Junior, com quatro. Sublinha‐se que os três primeiros são bolsistas de Produtividade em Pesquisa6 em educação pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),7 o que pode ser outro indício da valorização da expressão no campo científico e das possibilidades de acúmulo de capital simbólico eventualmente derivadas desse uso.

Para Maia da Silva e Soriano (2014), além de status e reconhecimento no campo científico brasileiro, esse tipo de bolsa permite apreender alto capital científico puro e, com isso, seus detentores “conhecem os meios de apropriação simbólica do capital específico e são reconhecidos pelos próprios pares como aqueles que têm condições de ocupar os postos que lhes dão o direito de avaliar outros jogadores” (p. 291). Em outras palavras, esses pesquisadores adquirem a possibilidade de ocupar posições de poder e, consequentemente, de acumular capital científico institucionalizado (Bourdieu, 2004) nesse campo.

Os espaços do jogo e as estratégias dos jogadores

No que diz respeito aos espaços em que o conceito “educação do corpo” é propagado de modo mais recorrente, observa‐se que classificação da área do autor principal contemplou quatro domínios do saber: educação, com 24 trabalhos; educação física, com 20; e sociologia e artes/música, com um trabalho em cada área.

Contudo, é relevante notar que, apesar de a educação física aparecer em segundo lugar quanto ao emprego da expressão, essa área surge como um possível espaço legítimo e prestigiado para estudos associados à “educação do corpo”. Essa afirmação sustenta‐se ao analisar que a maioria dos autores8 tem formação inicial (graduação) em educação física. Apenas cinco dos 35 autores principais não têm essa formação, o que demonstra indícios de uma associação do uso do termo com essa área.

Há sinais, portanto, de que a circulação da expressão decorra de discussões provindas desse domínio do saber, ou, antes, de agentes provenientes da educação física que atuam na própria ou migraram para outras áreas. Essa possibilidade de transição de áreas é expressa, sobretudo, pelos 26 trabalhos localizados na educação, sociologia e artes/música, que sugerem que o conceito também tem ganhado prestígio e legitimidade ao se inserir nesses domínios.

Segundo Sánchez Gamboa et al. (2007), Lovisolo (2014) e Castro et al. (2017; 2015), a migração de pesquisadores da educação física pode ser motivada pela possibilidade reduzida de orientadores e pesquisas atreladas às ciências humanas e sociais nos programas de pós‐graduação stricto sensu na área, no Brasil. Embora tenha havido expressivo aumento de programas de pós‐graduação em educação física nas décadas de 2000 e 2010,9 esse ocorreu, hegemonicamente, a partir da produção de dissertações e teses vinculadas ao viés biológico (Manoel e Carvalho, 2011; Castro et al., 2017).

Além disso, o êxodo de autores demonstra sinais da fragilidade das fronteiras de conhecimento no campo científico e as constantes lutas por delimitações de espaços de autoridade científica e pelos capitais simbólicos nesses meios (oportunidades, prestígio, recursos etc.), interpretado a partir de Bourdieu (2011). Em relação às características da educação física, Vaz (2003) argumenta que um dos fatores envolvidos na complexidade de estabelecer fronteiras de conhecimento é a dificuldade da constituição de uma problemática teórica própria da área por debater temas distantes entre si.

Essa amplitude de temas não é contemplada de maneira idêntica na área, sobretudo na pós‐graduação. Conforme Lüdorf (2002), Hunger et al. (2009) e Castro et al. (2017), a questão biológica se consagrou e, até hoje, configura‐se como preponderante nos programas de pós‐graduação stricto sensu em educação física, representada em suas pesquisas científicas. Tal fato ocorre não apenas por questões de interesses investigativos dos pesquisadores da área, mas, também, pelas regras avaliativas de instituições que normatizam a produção científica em educação física no Brasil, entre as quais se destaca a Capes (Maia da Silva e Soriano, 2014).

As consequências dessas regras são observadas na limitação quanto à publicação de estudos no viés sociocultural em periódicos bem avaliados na educação física, o que não ocorre quanto àquelas atreladas à vertente biológica (Manoel e Carvalho, 2011; Maia da Silva e Soriano, 2014). Ademais, a partir da consulta ao WebQualis da educação física e da educação, nota‐se que as possibilidades de publicação em periódicos nacionais mais bem avaliados pelo sistema Periódico Qualis, classificação A1, voltados para os saberes das ciências humanas e sociais, são significativamente superiores na educação se comparada com a educação física.10 Nenhum periódico foi localizado na educação física, por outro lado na educação foram achados 25 nessa classificação.

Essa discrepância, também, surge ao analisar os periódicos que foram alvos de publicação em relação aos trabalhos investigados que tratavam de “educação do corpo”. Esses periódicos podem ser vistos na tabela 1.11

Tabela 1.

Periódicos de publicação dos artigos

Revista  Número de trabalhos  Área de melhor avaliação pela Capes  Estrato (Periódicos Qualis) 
Revista Brasileira de Ciências do Esporte  Educação física; História; Interdisciplinar  B1 
Movimento  Educação física  A2 
Educar em revista12  Educação  A1 
Pró‐Posições  Educação  A1 
Currículo Sem Fronteiras  Educação; História  A2 
Cadernos Pagu  Antropologia/Arqueologia; Interdisciplinar; Sociologia  A1 
Educação e Pesquisa  Educação  A1 
Educação & Sociedade  Educação  A1 
Motriz  Educação física; Psicologia  B1 
Revista Brasileira de Educação Física e Esporte  Educação física  B1 
Caderno Cedes  Educação; Ensino  A1 
Revista Brasileira de Educação  Educação  A1 
Revista Saúde e Sociedade  Planejamento urbano e regional/Demografia  A1 
Sociedade e Estado  Sociologia  A1 
Revista da Educação Física/UEM  Arquitetura e urbanismo  A2 
Pensar a Prática  Planejamento urbano e regional/Demografia  B1 
Revista Trabalho, Educação e Saúde  Ensino; Planejamento urbano e regional/Demografia; Psicologia; Saúde coletiva; Serviço social; Sociologia  B1 
Mental  Sem classificação  Sem classificação 

Legenda: Periódicos de publicação dos artigos e suas respectivas avaliações.

Fonte: Dados originais da pesquisa.

Observa‐se que há mais periódicos com avaliação A1 em educação do que em relação a outros domínios do saber. Embora haja diversas revistas voltadas diretamente para a educação física, nota‐se que muitas têm avaliação superior em outras áreas, em vez da própria educação física. Esse fato ilustra, de certa maneira, a escassez de veículos mais bem avaliados pelo Sistema Integrado Capes para publicação de trabalhos na área.

Essa restrição, possivelmente somada a outros fatores, pode estimular a transição dos autores adeptos dos referenciais das ciências humanas e sociais na educação física ao encorajá‐los a publicarem em outras áreas, como afirma Lovisolo (2014). Nota‐se, também, a interferência de pressões para a produção e acumulação de capital científico puro, obtido por meio de trabalhos reconhecidos e legitimados pelos pares. Essas regras avaliativas contribuem para configurar (ou até reforçar) a lógica interna da educação física na medida em que cooperam para afastar pesquisadores originários da educação física e, ao mesmo tempo, ajudam na conservação de sua estrutura ao incentivar a prevalência dos estudos de escopo biológico em detrimento daqueles de cunho sociocultural.

Não se trata, portanto, apenas de uma simples migração de domínios, mas, possivelmente, da busca dos pesquisadores formados em educação física por espaços mais propícios para publicações e diálogos entre os agentes, e por prestígio, enquanto pesquisadores das ciências humanas e sociais. Logicamente, os motivos não se esgotam nesses citados, mas, em princípio, podem se constituir em alguns dos principais desse processo.

Sob outra perspectiva, cumpre destacar a manutenção de “educação do corpo”, expressão ligada aos autores com graduação em educação física, nesse contexto de transição de áreas pelos agentes, como visto na educação, sociologia e artes/música. A possível constituição de grupos reconhecidos nesses novos espaços, principalmente na educação, permite analisar “educação do corpo” como um conceito capaz de propiciar a inserção de autores da educação física nesses domínios do saber com a permanência de um monopólio da “autoridade científica”, como diria Bourdieu (1976). Desse modo, acentuam‐se as possibilidades de esses agentes disputarem os capitais presentes nos novos espaços. Cabe lembrar que os três autores bolsistas de Produtividade em Pesquisa pela CNPq, Alexandre Fernandez Vaz, Antonio Jorge Gonçalves Soares e Carmen Lúcia Soares, são contemplados por pesquisas desenvolvidas na educação.

Essa chance de permanência da “autoridade científica”, sobretudo na educação – alvo principal das migrações na investigação feita – pode estar associada à própria natureza epistemológica dessa área. Segundo Charlot (2006), a educação é um universo de conhecimento fundamentalmente “mestiço”, capaz de atender aos múltiplos saberes e práticas que circulam em outros diversos espaços. Além disso, a educação física ainda se caracteriza por ser uma área de conhecimento e intervenção pedagógica, o que a leva a dialogar com saberes e teorias de outros domínios (Betti, 2005), como, por exemplo, a educação. Com base nessas proposições, ganha realce a ideia de que a migração dos agentes da educação física ocorre, também, porque esses podem ser reconhecidos nesse novo espaço. Cumpre ressaltar que essa migração, certamente, não ocorre de maneira linear, incontestável e determinada.

Por outro lado, tal permanência da “autoridade científica” é possível porque o corpo é objeto de estudo em diferentes áreas, uma vez que “Pensar o corpo é uma tarefa um tanto complexa, dadas as diversas dimensões que podem ser exploradas” (Lüdorf, 2005, p. 243). Em outras palavras, o caráter transdisciplinar dos estudos do corpo contribui para o processo de migração dada a complexidade das análises, longe de ser unidimensional.

Considerações finais

Observou‐se que o conceito “educação do corpo” apresenta‐se mais recorrentemente no cenário acadêmico nos últimos anos e seus usos estão associados aos saberes das ciências humanas e sociais. Tal crescimento e circulação demonstram, até certo ponto, sua aceitação pelos pares como objeto legítimo e seu prestígio no campo científico, uma vez que possibilitam a acumulação de capital. Esse último item é ilustrado ao destacar que três dos quatro principais autores adeptos dessa temática têm bolsas de produtividade em pesquisa.

As principais áreas nos quais o termo foi localizado foram educação e educação física, áreas marcadas pela “mestiçagem” (Charlot, 2006). Contudo, a maior parte dos autores tem graduação em educação física, o que demonstra sinais de que as discussões provêm, principalmente, dessa área, o que merece ser mais bem investigado a partir da análise de outros materiais.

Esse dado, também, indica algumas das estratégias desenvolvidas pelos agentes originários da educação física para acumular capitais e, de certo modo, resistir às regras avaliativas da Capes, já que acabam migrando para outras áreas que têm condições mais satisfatórias para pesquisas nas ciências humanas e sociais. Aliás, a transição dos autores da educação física para outros domínios do saber, sobretudo a educação, com a permanência de uma autoridade científica, demonstra que a delimitação das fronteiras do conhecimento é bastante fluida, ainda mais em trabalhos voltados para o estudo do corpo.

Por fim, a epígrafe do trabalho é elucidativa por assinalar caminhos para pesquisas que tratam objetos marcados pela historicidade, como, por exemplo, o corpo. Ao sugerir trabalhar com e na imprecisão, Geertz (2011) oferece não somente a estranheza de uma ciência falha, mas, sobretudo, a necessidade de investigar a complexidade de nossos objetos de estudo. Talvez, “educação do corpo” seja uma tentativa nesse sentido ao propiciar a possibilidade de fragilizar as fronteiras do inexistente.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Aqui, o corpo está no sentido demarcado por Soares (1999) como o primeiro plano de visibilidade humana, lugar privilegiado das marcas da cultura e espaço de imposição de limites psicológicos e sociais. Entende‐se que o corpo é “território tanto biológico quanto simbólico” (Sant’Anna, 2006, p. 3).

Procedimento feito em 23/03/2016.

A classificação da área do autor foi organizada conforme os seguintes critérios: 1°) Programa de pós‐graduação (PPG), em que o autor principal está vinculado ao período da publicação; 2°) caso o autor apresente vínculo com mais de um PPG ou ausência de vínculo com a PG, verificou‐se, por meio do curriculum lattes, em que área há maior frequência de publicações; 3°) se não houvesse esses dados, optou‐se pelo vínculo institucional; 4°) na ausência de qualquer tipo de vínculo, foi usada área de formação inicial (graduação) do autor.

Para ilustração, 15 trabalhos têm apenas uma ocorrência do termo “educação do corpo”, enquanto seis trabalhos têm mais de dez ocorrências do termo.

Para essa classificação, a coautoria dos trabalhos foi também contabilizada.

Informações disponíveis na Plataforma Lattes.

Essas bolsas são concedidas aos pesquisadores que se destacam, valorizam sua produção científica a partir de critérios normativos estabelecidos pelo próprio órgão e por seus Comitês de Assessoramento (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Importante ressaltar que essa informação foi retirada do sítio eletrônico do CNPq (http://www.cnpq.br/documents/10157/5f43cefd‐7a9a‐4030‐945e‐4a0fa10a169a), não apresenta ano de publicação nem o número da página.

Esses dados referem‐se ao autor principal dos estudos e foram obtidos a partir da análise do curriculum lattes de cada autor.

Atualmente, há 50 programas de pós‐graduação stricto sensu cadastrados na área 21, nos quais está alocado o campo da educação física no Brasil. Deve‐se ressaltar que aparentemente três programas não se referem especificamente à educação física, têm enfoque em outros aspectos como terapia ocupacional e reabilitação funcional. Portanto, o total que compõe especificamente a área seria de 47 programas. Para mais informações, ver https://sucupira.capes.gov.br.

Os periódicos avaliados como A1 na educação e na educação física podem ser consultados no Sistema Integrado Capes pelo WebQualis. Para mais informações, acesse http://qualis.capes.gov.br/webqualis/publico/pesquisaPublicaClassificacao.seam.

Cumpre ressaltar que a partir de 2001 a Revista Educar passou a ser denominada Revista Educar em Pesquisa. Assim, os artigos que foram publicados em ambas as revistas foram contabilizados na nova denominação.

Os dados de classificação foram obtidos através da Plataforma Sucupira: https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublicacaoQualis/listaConsultaGeralPeriodicos.jsf.

Autor para correspondência. (Guilherme Gonçalves Baptista baptista.ufrj@yahoo.com.br)
Copyright © 2017. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:330-7 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.07.002