Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2015;37:111-8 - Vol. 37 Núm.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.02.005
Artigo original
Da ‘Ginástica para a juventude’ a ‘A ginástica alemã’: observações acerca dos primeiros manuais alemães de ginástica
From Gymnastics to the Youth to The German Gymnastics: remarks on the first German handbooks of gymnastics
De la Gimnasia para la juventud a La gimnasia alemana: observaciones acerca de los primeros manuales alemanes de gimnasia
Evelise Amgarten Quitzau
Programa de Pós‐Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil
Recebido 01 Agosto 2014, Aceitaram 28 Novembro 2014
Resumo

A passagem do século XVIII para o XIX se apresenta como um momento importante na constituição do que hoje conhecemos como educação física, pois é nesse período que as primeiras sistematizações dos exercícios físicos começam a ser formuladas e publicadas em diferentes manuais de ginástica. Na Alemanha, dois manuais tiveram grande destaque nesse momento de consolidação dos sistemas de exercícios físicos: Ginástica para a juventude, publicado em 1793 por J.C.F. Guts Muths, e A ginástica alemã, publicado em 1816 por F.L. Jahn. Este artigo tem como objetivo estabelecer uma aproximação entre esses dois manuais e apresentar os argumentos usados pelos autores para justificar a importância da ginástica, bem como similaridades existentes entre as duas propostas.

Abstract

The turn of the 18th century represents an important moment in the constitution of what we now know as physical education. This is the period in which the first systematizations of physical exercises start to be conceived and published in different handbooks of gymnastics. In Germany we can find two handbooks which were very important in this moment of consolidation of systems of physical exercises: Gymnastics for Youth, published in 1793 by J.C.F. Guts Muths, and The German Gymnastics, published by F.L. Jahn in 1816. This paper aims at analyzing these handbooks, presenting the arguments used by their authors to justify the importance of gymnastics, as well as the similarities between their propositions.

Resumen

El paso del siglo xviii al xix representa un importante momento en la constitución de lo que conocemos hoy por educación física, pues en este período las primeras sistematizaciones de los ejercicios físicos empiezan a ser elaboradas y publicadas en manuales de gimnasia. En Alemania hay dos manuales que tuvieron una gran importancia en este momento de consolidación de los sistemas de ejercicios físicos: Gimnasia para la juventud, publicado en 1793 por J.C.F. Guts Muths, y La gimnasia alemana, publicado en 1816 por F.L. Jahn. El objetivo de este artículo es establecer una aproximación entre los dos manuales presentando los argumentos utilizados por los autores para justificar la importancia de la gimnasia y las similitudes existentes entre estas dos propuestas.

Palavras‐chave
História da ginástica, Turnen, Guts Muths, Jahn
Keywords
History of gymnastics, Turnen, Guts Muths, Jahn
Palabras clave
Historia de la gimnasia, Turnen, Guts Muths, Jahn
Introdução

A passagem do século XVIII para o XIX se apresenta como um momento importante na constituição do que hoje conhecemos como educação física. É nesse intervalo que podemos começar a observar, na Europa, a elaboração de manuais que têm como temática central os exercícios físicos e sua sistematização, tendo em vista sua inserção como elemento constituinte da educação burguesa. Embora Locke e Rousseau já tivessem apontado em seus escritos sobre educação para a importância do exercício do corpo para a formação plena do ser humano, é apenas no fim do século XVIII que surgem as primeiras tentativas de se pensar e organizar essas práticas sob a designação “ginástica”.

Fenômeno urbano, a ginástica, a “redescoberta” dos exercícios físicos nesse período, está intimamente relacionada ao advento de uma sociedade que se afasta do mundo natural, se industrializa, se aglomera em centros onde a circulação das pessoas, dos humores, dos “miasmas” encontra os mais diferentes obstáculos: casas mal arejadas, ruas estreitas, roupas excessivas e apertadas. Ela se desenvolve, portanto, como resposta a uma sociedade vista por médicos e pedagogos como decadente, fraca, degenerada, imóvel. Em um momento em que a população e, principalmente, a saúde da população passam a ser vistas como um requisito básico para o bom governo e para o desenvolvimento de um Estado forte. Os exercícios físicos regrados aparecem, portanto, como uma resposta aos males derivados dos novos modos de vida em ascensão na sociedade europeia e como reflexo de novas políticas que passarão a entender esse corpo também como um espaço de sua atuação.

Nesse impulso de sistematização dos exercícios físicos que se inicia ainda no fim do século XVIII e estende‐se ao longo de todo o século XIX, três países se destacam: Alemanha, França e Suécia (Langlade e Langlade, 1970). Segundo Soares (1994, 1998, 2000, 2009), essas escolas apresentam algumas características em comum, tais como: a crença na necessidade de regeneração da população; a ideia de uma relação direta entre corpo e mente, bem como do uso do exercício físico como instrumento também para a educação moral; a preparação para a defesa da pátria. Entretanto, ao mesmo tempo apresentam particularidades inerentes ao contexto do país em que estavam inseridas e mesmo dentro de cada país apresentam peculiaridades derivadas das finalidades propostas por seus autores e do próprio embasamento usado por eles para justificar a inserção dessa prática no cotidiano da população. Esse jogo de similaridades e contrastes fica claro, por exemplo, ao lançarmos nosso olhar sobre os dois primeiros manuais de ginástica publicados na Alemanha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX: Ginástica para a juventude, de Johann Christoph Friedrich Guts Muths, e A ginástica alemã,1 de Friedrich Ludwig Jahn. Se por um lado Jahn é claramente influenciado por Guts Muths no que diz respeito ao repertório de exercícios proposto, por outro a estruturação de seus manuais e, principalmente, a argumentação usada pelos autores para justificar a relevância dos exercícios físicos para a formação dos indivíduos e, consequentemente, para a sociedade alemã revelam diferenças entre seus objetivos.

O presente artigo busca estabelecer uma aproximação dos manuais Ginástica para a juventude, de Guts Muths, e A ginástica alemã, de Jahn, e apresentar as diferentes fundamentações usadas pelos autores para justificar a importância da ginástica, bem como as semelhanças entre suas sistematizações.

‘Ginástica para a juventude’: os exercícios físicos entre a medicina e a pedagogia

Em 1785, três anos após terminar seus estudos na Universidade de Halle, Guts Muths inicia seus trabalhos no Philantropinum de Schnepfenthal, onde se engajaria no ensino de francês e geografia e, posteriormente, passaria também a ser responsável pelos exercícios físicos diários dos alunos, cargo que ocuparia até o fim de sua carreira, em 1839. Em 1793 publica Ginástica para a juventude, livro que, dividido em duas partes, traz inicialmente uma análise sobre o sistema educacional vigente na Alemanha e a sociedade em que estava inserido, assim como uma intensa argumentação sobre a necessidade dos exercícios físicos como meio para recuperar uma sociedade que se encontrava entorpecida pela imobilidade. É apenas na segunda parte que ele se dedica à descrição de sua ginástica, dividida em três elementos: exercícios ginásticos propriamente ditos, trabalhos manuais e jogos, que seriam descritos em Jogos para o exercício e a recuperação do corpo e do espírito,2 publicado três anos depois.

Em seu prefácio, Guts Muths reconhece a importância da fisiologia como base para a elaboração do que chama de “verdadeira teoria da ginástica”. Todavia, afirma não pretender alcançar tamanha “perfeição”, pois teria elaborado essa obra apenas com base em sua experiência prática. Esse posicionamento é expresso em sua citação mais conhecida, na qual afirma estar ciente “de que uma verdadeira teoria da ginástica deveria ser elaborada baseada em princípios fisiológicos e a prática de cada exercício regulada pelas qualidades físicas de cada indivíduo, mas tal perfeição não é esperada desse trabalho, feito somente pela genuína experiência de oito anos de prática, que me convenceram de que a ginástica é necessária à educação” (Guts Muths, 1928, p. XII‐XIII).3

Ao longo do manual fica claro, contudo, que baseia suas proposições principalmente sobre dois pilares: a polícia médica,4 representada pelas obras de Johann Peter Frank e Samuel Auguste André Tissot, proeminentes médicos do século XVIII; e a pedagogia, representada principalmente pelas elaborações desenvolvidas por Rousseau em Emílio, ou da educação. É com base nesses dois campos de conhecimento que desenvolve sua crítica à sociedade e à educação alemãs, defende a relação direta entre corpo e mente, bem como a necessidade de um retorno à natureza, e apresenta os benefícios trazidos pela prática dos exercícios físicos propostos em sua sistematização.

O contraste entre os malefícios da ordem urbana e os benefícios dos exercícios ao ar livre constituem‐se em um fio condutor desse manual: se seus contemporâneos afirmavam que a sociedade alemã encontrava‐se em declínio por conta de um enfraquecimento da natureza, o pedagogo dirá o contrário. Assim como Rousseau (2009, p. 7), afirma que “tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre as mãos dos homens”. Guts Muths (1928, p. 29‐30) defende a tese de que a natureza “forma todas as criaturas com o mesmo poder e segundo o mesmo padrão, tanto nos dias atuais quanto nos passados”. Nesse sentido, relaciona os antigos povos germânicos como exemplo e afirma que eles não eram mais fortes por uma “vontade da natureza”, mas por seus hábitos de vida: movimento abundante ao ar livre, envolvimento com tarefas como a caça, alimentação simples, banhos regulares, enfim, contato constante com os elementos da natureza. Ao identificar que as causas da degenerescência da população alemã se localizam nos excessos, nas comodidades e na imobilidade proporcionadas pela emergente ordem urbana, Guts Muths reflete uma tendência comum aos escritos médicos e pedagógicos do século XVIII, em que os conselhos de higiene passam a apresentar um ideal de contenção que se contrapunha a outras disciplinas do corpo então vigentes. Quando afirmavam a coincidência entre os preceitos da medicina e os da moral, médicos e pedagogos se apoiavam em princípios de uma moral ilustrada, “natural” e “racional”, que valorizava a utilidade, a sensibilidade e a moderação. Ao mesmo tempo, o higienismo educativo e médico se opunha a outras formas de regulação do corpo originadas no meio cortesão, que cifravam a distinção em uma atitude corporal empertigada e solene para a qual a literatura de civilidade tratou de educar gestos e movimentos (Vigarello, 1978). Esse ideal de imponente estatismo, propiciado entre as elites cortesãs pelo uso de vestimentas, foi severamente condenado pelos ilustrados em favor de uma educação corporal e de formas de vestir que facilitavam a circulação e o movimento. (Bolufer Peruga, 2000, p. 40‐41)

Na luta contra esse “estatismo”, os exercícios físicos são apresentados como instrumento para a recuperação física e moral da população. Sua prática regrada e ao ar livre seria valiosa para o fortalecimento corporal e para o desenvolvimento de diferentes características morais consideradas essenciais aos indivíduos dessa nova sociedade em ascensão, tais como coragem, presença de espírito, desenvoltura, resistência. Assim, num período em que “o corpo é entendido como conjunto de forças capaz de pôr em movimento determinações precisas, conter e reprimir desejos, preservar energia” (Soares, 2000, p. 46), Guts Muths (1928, p. 209) determina que a ginástica – cuja definição seria “o trabalho na forma de alegria juvenil” – deveria agir sobre músculos e nervos, movimentar ora o corpo inteiro, ora algumas partes, sempre lhe impor sobrecarga adequada, habituá‐lo a intensidades diferentes de dor, exigir persistência e expô‐lo à ação dos elementos da natureza para, assim, enrijecê‐lo e protegê‐lo. Para isso, elege um conjunto de práticas que são agrupadas nos três grandes grupos mencionados anteriormente (tabela 1).

Tabela 1.

Elementos constituintes da ginástica de Guts Muths

Exercícios ginásticos  Trabalhos manuais  Jogosa 
Saltar  Carpintaria  De movimento 
Correr  Torneiro  Sentados ou de descanso 
Arremessar  Jardinagem   
Lutar  Encadernação   
Escalar     
Equilibrar     
Levantar e carregar; exercícios para as costas; pular corda e arco     
Banhar‐se; nadar     
Exercícios de enrijecimento     
Leitura e declamação     
Exercício dos sentidos     
a

A divisão dos jogos aqui exposta representa as duas classes de exercícios apresentadas por Guts Muths em seu manual de jogos. Dentro das duas classes há ainda outras subdivisões.

Embora Guts Muths se apoie em teorias médico‐higiênicas para pensar o lugar dos exercícios físicos na educação do indivíduo, ao formular a organização de seu método opta por uma classificação “genérica”, ou seja, pelo agrupamento dos exercícios conforme o “movimento”, e não conforme questões anatomofisiológicas.5 Assim, enumera entre os “exercícios ginásticos propriamente ditos” 11 categorias que são sistematizadas e descritas a partir de uma estrutura muito similar, que busca mostrar sua prática entre povos antigos6 (quando existente), seus benefícios (físicos e morais), suas diferentes formas de execução, os cuidados a serem tomados e, quando necessário, os aparelhos a serem usados.

Os grupos de exercícios pensados por Guts Muths são constituídos, em geral, por práticas corporais comuns que, da mesma forma como aconteceria em outras sistematizações de exercícios físicos, são apropriadas pelo pedagogo e passam a ser organizadas a partir de uma ótica mais utilitária, de uma lógica pedagógica que busca não apenas o fortalecimento corporal, mas o desenvolvimento de comportamentos considerados adequados para a vida em sociedade; uma lógica que começa a caminhar no sentido de uma “pedagogia dos corpos retos” que se desenvolveria ao longo de todo o século XIX e “se viabilizaria por meio de exercícios físicos rigorosamente organizados em prol da eficiência para o trabalho, e não para o espetáculo, como até então faziam artistas das mais variadas estirpes” (Soares e Fraga, 2003, p. 81). Exemplo disso é o “funambulismo”, o ato de equilibrar‐se sobre uma corda, prática que seria combatida em outras sistematizações, como a de Francisco Ondeano y Amoros, na França.7

Em Ginástica para a juventude não há um posicionamento contra o funambulismo em si. Ao contrário, ele é apontado como uma prática valiosa para o desenvolvimento do equilíbrio. O problema reside em sua prática como uma forma de exibição, que coloca o corpo em situação de risco desnecessária. Segundo Guts Muths (1928, p. 318), ao mesmo tempo em que ela aguça nossa admiração, olhamos para ela com desprezo enquanto julgamos a moralidade dessa arte conforme o caráter moral do praticante. Isso é uma injustiça. Uma arte que coloca a agilidade do corpo humano em tamanha evidência a ponto de arrebatar nossa admiração merece melhor apreciação.

Mais adiante, o autor volta a defender essa prática e afirma que o andar na corda como normalmente é feito pelos artistas demanda muito tempo e é muito perigoso; “se pudermos retirar esses dois obstáculos, não vejo por que impedir os jovens de uma prática tão útil e que eles copiam com tanto gosto, pois os diverte” (Guts Muths, 1928, p. 328).

Andar sobre a corda, portanto, poderia ser um exercício proveitoso para o desenvolvimento do equilíbrio e contribuir para a melhoria do porte corporal, da desenvoltura, da presença de espírito e mesmo do “golpe de vista”. Contudo, para que fosse possível obter todos os benefícios inerentes a essa prática, haveria um longo caminho e uma série de prescrições que teriam por finalidade principal garantir a segurança de quem faz o exercício. Há uma sequência pedagógica que se inicia com o exercício do equilíbrio sobre uma trave, cuja largura é muito maior do que a da corda, na qual a criança ou o jovem começa caminhando sempre para frente e segurando‐se no professor. Aos poucos o professor vai soltando o aluno e, conforme ele adquire o domínio de seu corpo, novos desafios são propostos: andar de costas, equilibrar‐se no ponto mais estreito da trave, fazer saltos, tentar passar por algum colega. Somente após ter dominado esses desafios mais básicos ele estará apto para exercitar‐se na corda. Entretanto, haveria ainda uma série de aspectos que deveriam ser observados de forma a garantir a segurança do aluno: a corda deve ser substituída por fita com largura similar à de uma mão e deve ser presa a apenas dois pés de altura, ou seja, pouco mais de 60 cm, em um local cujo chão seja areia macia. Assim, “pela altura reduzida evita‐se completamente o perigo de uma queda perigosa e pela largura da corda reduz‐se o tempo de aprendizado” (Guts Muths, 1928, p. 328).

Andar sobre a corda é apenas um dos exercícios propostos por Guts Muths em sua seção sobre o equilíbrio, que discorre não apenas sobre controle do próprio corpo por meio de exercícios como sustentar‐se apenas em uma perna, ir e voltar na trave de equilíbrio, andar com pernas de pau, mas também sobre o ato de equilibrar outros objetos, o que auxiliaria especialmente no desenvolvimento da atenção.

O trabalho do equilíbrio é apenas uma das propostas desenvolvidas diariamente com os alunos de Schnepfenthal e organizadas em Ginástica para a juventude, que teve grande repercussão no período, o que pode ser atestado pela quantidade de traduções de seu manual que apareceram nos anos seguintes à sua publicação.8 Entretanto, aos poucos ele perderá espaço nos territórios germânicos para outro manual de exercícios físicos, publicado em 1816 sob o título A ginástica alemã (fig. 1).

Figura 1.
(0.55MB).

Aparelhos de ginástica apresentados em Ginástica para a juventude. A figura designada como oito corresponde ao aparelho proposto para o exercício do equilíbrio.

‘A ginástica alemã’: os exercícios físicos e o nacionalismo alemão

Escrito por Jahn, com a colaboração de Ernst Eiselen,9A ginástica alemã também defende a tese de que os exercícios físicos devem “restabelecer a simetria perdida da formação humana, inscrever a verdadeira corporalidade na mera espiritualização unilateral” (Jahn e Eiselen, 1816, p. 209). Entretanto, a medicina e a pedagogia, que ocuparam lugar central no manual de Guts Muths, são aqui substituídas por um discurso fundamentalmente político (fig. 2).

Figura 2.
(0.46MB).

Aparelhos e plano de praça ginástica apresentados em A ginástica alemã.

Jahn estudou teologia, história da Prússia e língua e literatura alemãs na Universidade de Halle, mas não finalizou seus estudos. Após anos de andanças pelos territórios germânicos, retornou a Berlim em 1809, onde passou a trabalhar como professor no Gymnasium zum Grauen Kloster, mesma escola que frequentara anos antes. Em 1811, fundou com seus alunos uma praça de ginástica na Hasenheide (campo nos arredores de Berlim), onde praticavam exercícios físicos e jogos. Fortemente ligado ao movimento nacionalista alemão, do qual também faziam parte intelectuais como Johann Gottlieb Fichte e Ernst Moritz Arndt, Jahn identificava dois grandes problemas para o desenvolvimento da Alemanha: sua fragmentação territorial e o fato de grande parcela desses territórios encontrar‐se sob domínio de tropas napoleônicas. Assim, Jahn via os exercícios físicos como um meio para se edificar uma população forte, unida e, principalmente, capaz de libertar a nação alemã do domínio francês e lutar por sua unificação política. Nesse sentido, Pereira (1962) afirma que a primeira finalidade do método jahniano era uma melhor “adaptação social” do indivíduo e seu fortalecimento em benefício da “coletividade social”.

As diferenças entre os autores podem ser observadas na primeira parte de A ginástica alemã, manual escrito a partir das experiências de Jahn em sua praça na Hasenheide. Enquanto Ginástica para a juventude se iniciava com uma crítica aos modos de vida e ao sistema educacional alemães, o manual jahniano, publicado em 1816, se inicia com uma exaltação da cultura germânica. Em sua introdução, os autores não discorrem sobre temas como a saúde, a natureza ou mesmo o exercício corporal: a grande questão trabalhada por Jahn e Eiselen no início desse manual diz respeito à língua alemã.

Jahn segue uma “tradição cultural alemã” (Campos, 1998) muito forte, especialmente entre os representantes do movimento nacionalista, marcada por um significativo “impulso seletivo e purificador” e que busca manter a cultura e língua alemãs livres de influências estrangeiras.10 Nesse sentido, intitula‐se como um “intérprete do eterno espírito da língua alemã” e defende a tese de que é “um direito incontroverso denominar um assunto alemão em língua alemã, uma obra alemã com palavras alemãs” (Jahn e Eiselen, 1967, p. XX). Assim, substitui o termo Gymnastik por Turnen, que, por sua vez, daria origem aos mais diversos termos usados para se referir aos assuntos relacionados à ginástica.

Jahn relaciona 17 grupos de exercícios, além de descrever cinco jogos que considera adequados para a ginástica. Sua ênfase ao apresentar os exercícios, todavia, não recai sobre esclarecimentos dos benefícios que trariam para o corpo ou sobre um ordenamento pedagógico de suas práticas. Com raras exceções, como em algumas observações sobre o nadar, andar e correr, ou uma lista dos “melhores e mais fáceis” exercícios para o aprendizado e a execução na barra fixa, seu manual consiste majoritariamente da descrição dos exercícios propostos, que são praticamente os mesmos relacionados por Guts Muths em Ginástica para a juventude (tabela 2).

Tabela 2.

Os elementos constituintes do Turnen de Jahn

Exercícios ginásticos  Jogos  Outros exercíciosa 
Andar  Homem de preto  Esgrima 
Correr  Corrida das barras  Nado 
Saltar  Cavaleiro e burguês  Equitação 
Exercícios no cavalo  Corrida de assalto  Dança 
Exercícios de equilíbrio  Jogo de bola alemão  Exercícios de guerra 
Exercícios na barra fixa    Ficar de cabeça para baixo; saltos mortais 
Exercícios nas barras paralelas    Patinação 
Escalar     
Arremessar     
Puxar     
Empurrar     
Levantar     
Transportar     
Esticar     
Lutar     
Saltar arco     
Saltar corda     

Fonte: A ginástica alemã (1967).

a

Jahn dedica apenas alguns parágrafos a esses exercícios ainda na introdução de seu livro e os aponta como práticas importantes, mas que não pertencem à praça ginástica. Seus breves comentários se limitam a observar, por exemplo, pré‐requisitos necessários (como o domínio dos exercícios sobre o cavalo de madeira antes de se iniciar a equitação). No caso da dança, reconhece seu valor no desenvolvimento de uma boa postura, mas afirma que outros exercícios ginásticos seriam mais eficientes para tal finalidade e condena as chamadas “danças de palco” e “danças de corte”.

Se compararmos a seção que Jahn destina aos exercícios de equilíbrio, por exemplo, veremos que a única consideração que faz sobre essa categoria se limita a descrevê‐la como “manutenção do equilíbrio: em repouso como em movimento” (Jahn e Eiselen, 1967, p. 72). Não há qualquer preocupação em descrever que proveitos eles trariam para o ginasta ou qual sequência seria mais adequada para seu aprendizado. Além disso, limita‐se aos exercícios em solo (como o apoio sobre uma perna) e na trave de equilíbrio, sem fazer referências aos exercícios na corda. Essa seleção é também observada por Groll (1959, p. 78) ao afirmar que, no que diz respeito aos conteúdos, Jahn é fortemente influenciado por Guts Muths e pelo círculo dos filantropos. Mas Jahn adotou apenas aqueles conteúdos que lhe pareciam valiosos para a feitura das tarefas educativas nacionais defensivas. Dessa forma limitou, por exemplo, os exercícios de equilíbrio e deixou de fora os exercícios dos sentidos, a leitura, a declamação e a dança. Por outro lado, Jahn e Eiselen expandiram o repertório de exercícios dos filantropos por meio dos exercícios na barra fixa e nas paralelas.

Há grande correspondência entre os exercícios e aparelhos propostos por Guts Muths e aqueles apresentados por Jahn. Em alguns momentos, a própria descrição de sua execução é muito similar, quando não igual. Contudo, “toda a instrumentalização de Jahn é feita conforme objetivos políticos, não pedagógicos” (Pilz, 2007, p. 74) e, por isso, sua atenção se volta mais para questões relacionadas ao desenvolvimento de uma “comunidade ginástica”. Assim, dedica‐se ao estabelecimento de um conjunto de regras de conduta que deveriam ser seguidas pelos ginastas e seriam resumidas nos chamados “4F”. Essa sigla deriva do lema Frisch, frey, fröhlich, fromm – Ist des Turners Reichtum (Jahn e Eiselen, 1967, p. 233), ou seja: “A riqueza do ginasta é ser vivo, livre, alegre e devoto”. Os Turner – como são chamados os praticantes do Turnen – deveriam, por meio dos exercícios físicos e jogos, adquirir força, agilidade e coragem, bem como aprender a agir por seu povo e sua pátria. A praça ginástica e as sessões de exercícios tornar‐se‐iam um espaço onde os jovens alemães deveriam ser educados em busca de um espírito de camaradagem e igualdade. Assim, o código de conduta desenvolvido em A ginástica alemã determinará os procedimentos a serem tomados ao se chegar à praça ginástica (seguir apenas os caminhos indicados, dirigir‐se inicialmente à área de encontro, alimentar‐se apenas nos momentos estipulados), os sentimentos a serem cultivados pelo ginasta durante os exercícios, a roupa a ser usada para a prática do Turnen: com o intuito de romper quaisquer diferenças entre os ginastas, Jahn estabelece que todos devem usar o mesmo traje cinza, feito com um tecido maleável, resistente e acessível a todos.

Fatores como o engajamento de Jahn na disseminação de sua ginástica e sua exibição em festas, bem como uma forte ligação com o movimento estudantil,11 contribuíram para a dispersão do Turnen para além dos arredores de Berlim, o que lhe permitiu conquistar uma quantidade considerável de adeptos que organizaram comunidades ginásticas em diferentes territórios germânicos e se transformaram, assim, no “primeiro movimento organizado a defender tendências nacionalistas em público e na sociedade como um todo” (Pilz, 2007, p. 53). A organização do Turnen em sociedades voltadas exclusivamente para essa prática e o diálogo com outras organizações civis alemãs, como as confrarias estudantis e as sociedades de cantores, fizeram com que o movimento ginástico se destacasse dentro de um movimento associativo mais amplo que se desenvolveria na Alemanha ao longo de todo o século XIX.

Considerações finais

Ginástica para a juventude e A ginástica alemã são expressões de um movimento que passa a pensar os exercícios físicos como elementos essenciais na formação do indivíduo. Ambos apresentam como característica comum a apropriação de práticas corporais já conhecidas, repensam‐nas com finalidades e objetivos específicos. Todavia, se olharmos para as descrições dos exercícios e para determinados aparelhos em ambos os manuais, fica claro que há considerável influência do primeiro sobre o segundo, derivada não apenas do contato de Jahn com a obra Ginástica para a juventude,12 mas também, provavelmente, de sua visita a Schnepfenthal, em 1807, que lhe teria possibilitado observar Guts Muths a executar suas propostas na prática.13

As diferenças, portanto, não residem nos exercícios propostos, mas na fundamentação usada pelos autores. Enquanto Guts Muths transitava entre conhecimentos da medicina e da pedagogia para pensar sua ginástica e compor sua metodologia de trabalho, na qual fica clara a preocupação com questões como a segurança dos praticantes e a busca por mostrar os benefícios dos exercícios, Jahn traz à tona aspectos marcadamente políticos e vê no fortalecimento corporal o caminho para a formação de uma comunidade capaz de defender os territórios germânicos e lutar por sua unificação.

Assim, se Ginástica para a juventude tem como principal contribuição o estabelecimento de uma sistematização dos exercícios físicos a partir de uma perspectiva mais próxima da ciência e contou com considerável repercussão além das fronteiras germânicas, os preceitos apresentados em A ginástica alemã se concentram mais na descrição e observação das condutas dos ginastas e serviram como base para o desenvolvimento de um movimento que, desde o início ainda na Hasenheide, passou a se organizar em “sociedades ginásticas”, que tiveram forte envolvimento no cenário político alemão ao longo do século XIX. Jahn, assim, se apropria do conjunto de práticas proposto por Guts Muths e o amplia, mas o pensa não em termos de aprendizado individual, e sim como um instrumento para a construção de uma coletividade que fosse apta a lutar por um objetivo político‐patriótico comum.

Financiamento

Bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo n° 2011/22240‐8.

Conflitos de interesse

A autora declara não haver conflitos de interesse.

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Nos originais, Gymnastik für die Jugend e Die Deutsche Turnkunst, respectivamente.

No original: Spiele zur Übung und Erholung des Körpers und Geistes.

As traduções aqui apresentadas são de minha autoria.

Importante observar que embora opte por essa organização “genérica”, no fim de seu manual Guts Muths apresenta também um resumo dos exercícios ginásticos organizados a partir de sua ação sobre as partes do corpo (Guts Muths, 1928, p. 496‐501).

Ao mesmo tempo em que os modos de vida dos antigos povos germânicos serviram como exemplo para Guts Muths na primeira parte de seu manual, nesse segundo momento, ao tratar propriamente da ginástica e de seus exercícios, elege como modelo e inspiração as práticas corporais da antiguidade greco‐romana.

Sobre as prescrições de Amoros e as sistematizações dos exercícios físicos na França, ver Soares (1994; 1998).

No século XIX Ginástica para a juventude foi traduzido e publicado na Dinamarca, Inglaterra, nos Estados Unidos, na França, Holanda, Suécia, Itália e Grécia (Ulfkotte, 2010).

Assistente de Jahn e coautor de A ginástica alemã. Deu continuidade aos trabalhos em Berlim durante o período das chamadas “guerras de libertação”, quando Jahn e parte de seus ginastas se filiaram aos exércitos voluntários para lutar pela expulsão dos franceses que ocupavam os territórios germânicos.

O fato de no início do século XIX a Alemanha ser ainda um “conceito puramente cultural” (Hobsbawm, 2008, p.72) teria impulsionado a vinculação entre língua e nação. É nesse cenário, por exemplo, que Fichte, antes entusiasta da Revolução Francesa, passa a defender a originalidade do povo e da língua alemã, o que o levaria a ser posteriormente reconhecido como personificação do “patriotismo em sua forma mais pura e intelectualmente potente” (Sheehan, 1989, p. 377).

O Turnen de Jahn teve grande recepção entre os membros das confrarias estudantis (Burschenschaften). Elias (1997, p. 90) afirma que esses estudantes, que o conheceram durante as guerras de libertação, entusiasmaram‐se por sua ginástica, pois nela “não eram forçados a praticar formas rígidas e inflexíveis e era dada à liberdade individual amplas oportunidades dentro de uma estrutura de igualdade para todos”.

Uma das seções do livro de Jahn é dedicada ao levantamento de obras relacionadas ao Turnen. Nessa listagem aparecem, por exemplo, as três obras que Guts Muths escrevera até o momento (o manual de ginástica, o manual de jogos e um livro sobre nado), bem como obras de médicos como Galeno, Frank e Tissot, as quais aparecem agrupadas sob o título “uso e necessidade da ginástica”.

A visita de Jahn a Schnepfenthal é o único registro que se tem de um encontro entre os dois autores (Ulfkotte, 2010).

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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2015;37:111-8 - Vol. 37 Núm.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.02.005