Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte.2017;39:254-60 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.011
Artigo original
Corpos dissidentes: gênero e feminilidades no levantamento de peso
Dissident bodies: gender and femininities on weightlifting
Cuerpos disidentes: género y feminidades en el levantamiento de pesos
João Paulo Fernandes Soares, , Ludmila Mourão, Igor Chagas Monteiro
Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG, Brasil
Recebido 20 Setembro 2016, Aceitaram 15 Fevereiro 2017
Resumo

Este artigo busca compreender as experiências de gênero e a construção de feminilidades de mulheres atletas do levantamento de peso. O campo empírico foi feito com uma equipe dessa modalidade. Foram observadas as sessões de treinamento e feitas entrevistas individuais com oito atletas, cujas narrativas expõem a visão dicotômica de gênero presente nesse espaço. Seus corpos trazem marcas da experiência esportiva, refletidas no volume muscular e na força diferenciada. Tais transformações tornam seus corpos dissidentes e abjetos e suas sexualidades são colocadas em suspeição. À medida que tencionam e subvertem as expectativas de uma feminilidade normalizada, essas mulheres nos convidam a refletir sobre as construções de feminilidades plurais no esporte.

Abstract

This article aims to understand the gender experiences and the construction of femininities in women weightlifters. The empirical field was conducted with a team of this modality. The observation of training sessions and individual interviews conducted with eight athletes revealed a dichotomous gender view in their discourse. Their bodies bring the sports practice brands, which reflect on muscle volume and strength. Such transformations make their bodies dissident and abject, and their sexuality distrust. As far as they subvert the expectations of a standardized femininity, these women invite us to reflect on the construction of plural femininities in sports.

Resumen

Con este artículo se trata de entender las experiencias de género y la construcción de la feminidad de levantadoras de pesos. El campo empírico se llevó a cabo con un equipo de esta modalidad. Se observaron las sesiones de entrenamiento y se realizaron entrevistas individuales a ocho atletas. Las atletas exponen la dicotomía de género presente en este espacio. Sus cuerpos muestran la marca de la práctica deportiva, que se refleja en el tamaño del músculo y la fuerza diferenciada. Estos cambios hacen sus cuerpos disidentes y abyectos, y se recela de su sexualidad. En la medida que sabotean las expectativas de una feminidad estandarizada, estas mujeres nos invitan a reflexionar sobre la construcción de la feminidad plural en el deporte.

Palavras‐chave
Gênero, Feminilidades, Levantamento de peso, Estigma social
Keywords
Gender, Femininities, Weightlifting, Social estigma
Palabras clave
Género, Feminidades, Levantamiento de pesos, Estigma social
Introdução

Identificado como uma prática corporal esportiva que tem como principal característica o emprego de níveis elevados de força, o levantamento de peso fascina pela dinâmica de suas provas,1 em que os corpos são levados ao seu limite para conseguir erguer barras e anilhas ao alto, de forma robusta e estável.

Como modalidade olímpica, a versão masculina desse esporte figura no quadro das provas desde a primeira edição dos jogos em 1896. No entanto, apenas nos anos 2000, nos jogos olímpicos de Sydney, na Austrália, as mulheres foram integradas à modalidade.2

A partir da constatação dessa discrepância histórica na participação feminina no levantamento de peso, buscamos refletir sobre os significados e tensionamentos que tais corpos robustos, musculosos e fortes operam nos modelos normalizados de gênero e feminilidade. Nesse sentido, esse artigo tem com objetivo compreender as experiências de gênero e as construções de feminilidades vivenciadas por um grupo de mulheres atletas de levantamento de peso.

Tais reflexões serão problematizadas neste texto a partir dos estudos pós‐estruturalistas de gênero e da teorização queer.3

Caminhos metodológicos

A pesquisa de campo desse estudo foi desenvolvida em 2008, na cidade de Viçosa,4 Minas Gerais, no centro de treinamento de uma equipe de levantamento de peso, localizada nas dependências do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Viçosa.

O grupo de informantes desta pesquisa foi composto por oito mulheres atletas, que vivenciavam a modalidade por períodos que variaram de um a cinco anos. Como recortes geracional, étnico e de classe social, o grupo tem idades que variam de 14 a 20 anos; todas as informantes são negras ou mestiças; residem em bairros de classes populares da cidade de Viçosa e são estudantes da rede pública de ensino. Tal grupo já participou de campeonatos da modalidade em nível regional, estadual e nacional.

As técnicas de pesquisa usadas foram a observação sistemática, com registros periódicos em caderno de campo (Magnani, 2009; Magnani, 1997) e entrevistas individuais5 (Meihy, 2005).

As narrativas foram transcritas na íntegra e analisadas através da técnica de categorização (Magnani, 2009; Velho, 2013), que visa a captar, mesmo que de forma parcial e contingente, os sentidos e significados presentes nas visões de mundo6 das informantes.

Para a construção desse artigo, o material empírico foi revisitado, fez‐se nova análise mediante o cotejamento com o referencial pós‐estruturalista dos estudos de gênero e da teorização queer.

A interpretação das narrativas das atletas fez emergir as categorias nativas: gênero ‐ associada às interpretações sobre as modificações corporais oriundas das experiências esportivas, expressas no volume e força muscular elevada e os deslocamentos das representações produzidas por parentes, colegas de escola e de treino sobre seus corpos; e a abjeção ‐ relacionada aos processos discriminatórios sofridos por essas mulheres em seus espaços de sociabilidade, as apropriações e ressignificações que elas fazem dessa abjeção nos processos de resistência e busca por uma carreira esportiva vitoriosa.

Visões do campo: a sala de treinamentos e a generificação dos espaços7

Refletir sobre as relações de gênero e as construções de feminilidades desse grupo de atletas de levantamento de peso passa pela compreensão, mesmo que parcial, da complexidade simbólica presente no local de treinamentos, visto que “a dimensão organizativa é imprescindível ao funcionamento normativo” (Dornelles, 2013, p. 229).

Pela centralidade da categoria gênero, cabe retomar algumas reflexões sobre tal conceito e suas apropriações neste estudo. Goellner (2013) expõe a trajetória histórica e epistemológica dessa categoria no campo acadêmico profissional da educação física e sua relevância no processo de reflexão e problematização dos aspectos generificados e generificadores das práticas corporais esportivas e das feminilidades e masculinidades construídas nesses contextos.

O que se nota é que boa parte dos estudos de gênero no campo da educação física opera com um conceito de gênero relacionado aos aspectos e às interpretações culturais feitas a partir das diferenças “sexuais/biológicas” percebidas entre os sujeitos.

Sobre essa visão, Figari e Días‐Benítez (2009, p. 21) nos trazem que:

No ocidente, sexo e gênero – assim como sujeito, etnia e geração, funcionam como conceitos performativos que se transformam em substâncias fictícias, unidades que inicialmente só têm realidade linguística, isto é, o sexo não é natural, tem uma história, um momento de surgimento e é produzido culturalmente, assim como o gênero.

O gênero deixa de ser apenas um conceito que visa a marcar a inscrição cultural do significado em um sexo predeterminado e passa a se referir também ao aparato de produção discursiva8 sobre o sexo.

Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo está para a natureza; o gênero é também o meio discursivo/cultural mediante o qual a “natureza sexuada” ou “um sexo natural” se produz e se estabelece como pré‐discursivo, prévio à cultura; uma superfície politicamente neutra sobre a qual a cultura age […]. Não se pode fazer referência a um corpo que não tenha sido desde sempre interpretado mediante significados culturais, portanto o sexo poderia não cumprir as condições de uma facticidade anatômica pré‐discursiva.

De fato, ver‐se‐á que o sexo, por definição, sempre foi gênero (Butler, 2003, p. 40‐41).

A partir da constatação da produção discursiva sobre o conceito biológico “imutável” do sexo, abre‐se a possibilidade do questionamento de um sistema normativo engendrado em nossa sociedade, com fortes reflexos no campo das práticas corporais esportivas: o sistema sexo‐gênero‐sexualidade. Esse diz respeito à associação direta de um “sexo biológico” (macho ou fêmea), geralmente pronunciado pelo discurso médico, a um gênero (masculino ou feminino), que fica evidente nos processos de significação dos corpos e construção de feminilidades e masculinidades normalizadas,9 e uma sexualidade heteronormativa10 compulsória relegada aos sujeitos. A partir das problematizações de Butler (2000, 2003), esse sistema arbitrário, aparentemente linear e estável, é problematizado e seu caráter de construção cultural discursiva instável e mutável fica evidenciado.

Não nascemos mulheres e homens, nos tornamos sujeitos de gênero por meio de práticas sociais feminilizantes e masculinizantes, construídas em meio aquilo que valoriza, deseja, rejeita e silencia determinada época acerca dos modos de constituir sujeitos mulheres e sujeitos homens (Jaeger, 2013, p. 269).

Cabe, pois, expor que a força cultural desse sistema reside nos aparatos institucionais de saber e poder, responsáveis pela repetição contínua dos significados culturais necessários à sua manutenção e difusão. A família, as instituições religiosas, a escola e o esporte são algumas dessas instituições de saber e poder encarregadas do processo de normatização dos corpos (Dornelles, 2014).

Nesse sentido, a divisão binária das modalidades esportivas fica evidenciada na separação das categorias em masculino e feminino, apoiada na interseção dos discursos médico e esportivo, com seus testes de feminilidade e antidoping (Silveira; Vaz, 2013). Cabe às atletas se adequarem ao polo que lhes foi atribuído discursivamente, buscar competir entre “iguais biológicos”. A transição entre esses polos binários é problemática e deve ser constantemente policiada.11

Sobre o processo de normalização dos corpos no levantamento de peso, cabe trazer as experiências de nossas informantes na apropriação do local de treinamento. Nesse sentido, a sala de treinamentos apresenta‐se como espaço em que o grupo de informantes divide suas experiências no treinamento com um grupo de homens, também atletas da modalidade. Os treinamentos são coordenados pela treinadora Rose,12 que assumiu legitimidade perante o grupo a partir de sua trajetória vencedora nessa modalidade esportiva, exposta com inúmeros resultados expressivos em nível nacional e internacional.

A sala de treinamento destinada à prática da modalidade é ampla e rústica, anilhas de pesos variados, cadeiras, placas, barras masculinas e femininas, caixotes de madeira são comumente encontrados espalhados pelo chão, além das plataformas fixas de treinamento para homens e mulheres.

Nota‐se que a partilha desse espaço nos momentos dos treinamentos entre as (os) atletas está condicionada a determinados códigos de convivência. Tais relações são constantemente incentivadas pela treinadora Rose, a fim de ampliar o compartilhamento dos conhecimentos e das técnicas da modalidade pelo grupo.

No entanto, as disputas simbólicas estão presentes e seus códigos afloram na dinâmica dos treinamentos. Um desses códigos tácitos está diretamente relacionado à quantidade de peso erguida, constantemente anotada no quadro central da sala. Tais marcas esportivas são constantemente policiadas pelos homens, a fim de manter uma “reserva” de performance com relação às mulheres, expor os aspectos generificados e generificadores da modalidade, favorecer dessa forma “o emprego das diferenças ‘biológicas’ para justificar como natural a construção social das diferenças entre os gêneros” (Ferreti & Knijnik, 2007, p. 58).

A materialidade desses corpos no levantamento de peso se dá a partir de suas performances, que os posicionam em um dos lados da divisão binária dos gêneros, em que os homens acionam constantemente “aspectos biológicos” para justificar as marcas superiores. Assim, os discursos normativos produzidos vão ao encontro da essencialização dos corpos, em que há algo de “robusto”, “forte” e “viril” nos homens, que “faltaria” ou seria “atenuado” nas mulheres. (Vigarello, 2013).

Tais produções discursivas remontam ao fascínio e à repulsa que essas mulheres “forçudas” operam no decorrer da história das práticas corporais esportivas e os

tensionamentos que elas fazem nas feminilidades e masculinidades normalizadas (Goellner, 2015).

Nas experiências das competições, as narrativas de duas informantes marcam diferenciações na visibilidade feminina na modalidade.

“No treinamento eu vejo poucas diferenças, porque – igual eu falei – todo mundo apoia o outro. Acho que o negócio do peso é que pega às vezes. Quando uma mulher está levantando muito peso, os meninos ficam olhando a marca no quadro. Acho que eles ficam preocupados (risos). Agora, eu acho que nas competições tem muita diferença sim, porque as mulheres têm uma calma que os meninos não têm.” (Informante 1, 20 anos)

“Bom, eu acho que os homens são bem mais vistos que as mulheres, têm mais destaque do que a gente […]. Há uma competitividade, pois os homens acham que o esporte não é para mulher, só que as mulheres estão chegando com força no esporte.” (Informante 7, 18 anos)

A constatação de uma menor visibilidade das mulheres em relação aos homens na modalidade do levantamento de peso corrobora achados de pesquisas sobre futebol e outros esportes de confronto, em que a presença feminina fica obliterada e constantemente referenciada a atributos corporais que não se referem ao desempenho esportivo das atletas (Chan‐Vianna & Mourão, 2010); no entanto, esse processo histórico de “invisibilidade” não quer dizer que as mulheres estiveram ausentes da prática do levantamento de peso, bem como de outras práticas corporais esportivas (Goellner, 2007; Mourão, 2000).

Corpos esportivos, corpos estigmatizados, corpos subversivos?

Os corpos trazem marcas de gênero que os inscrevem, materializam e tornam inteligíveis culturalmente (Butler apudPrins & Meijer, 2002). Ao longo dos tempos, os sujeitos têm sido “indiciados, classificados, ordenados, hierarquizados e definidos pela aparência de seus corpos, a partir de padrões e referências, das normas, valores e ideais da cultura” (Louro, 2013, p. 78). Tais características dos corpos são, antes de tudo, marcas de poder.13

Como nos trazem Grespan e Goellner (2014, p. 1278), “o esporte é um local de disputas de saberes e poderes que definem padrões de normalidade sobre a aparência dos corpos, o exercício da sexualidade e a experimentação das representações de gênero”. Assim,

as informantes desta pesquisa adquirem, com sua experiência14 esportiva no levantamento de peso, marcas corporais expressas em seus músculos volumosos e força elevada, que tensionam a representação de feminilidade normalizada, em que tais marcas seriam indesejáveis.

Retomando as trajetórias dessas atletas, existem aspectos convergentes, como o início das experiências esportivas em outras modalidades, como handebol, futebol e atletismo. O processo de migração para o levantamento de peso ocorre a partir do convite de amigos/as que já praticavam a modalidade; entretanto, a decisão do grupo pela escolha do levantamento de peso como modalidade esportiva passa por experiências conflituosas em seus espaços de sociabilidade. As negociações são intensas e as subversões, necessárias nesse processo, que tem no grupo familiar os maiores pontos de apoio e incentivo, embora com algumas ressalvas e preocupações.

“Sim, a minha família me apoia da melhor maneira possível e sempre me deu força pela escolha que eu fiz. Mesmo sabendo que era para o levantamento de peso.” (Informante 3, 16 anos)

“A minha mãe encara o levantamento de peso normal; assim, às vezes ela me ajuda muito e às vezes ela fica calada, normal como toda mãe. Eu acho que ela fica preocupada com o que as outras pessoas vão falar de mim. Mas ela sabe que tem outras mulheres no levantamento de peso, tem a Rose (treinadora), daí ela não se preocupa tanto” (Informante 4, 14 anos)

Tal aprovação por parte dos grupos de sociabilidade em que as atletas estão inseridas vem, pois, a partir de uma constante vigilância dos possíveis reflexos em seus corpos devido à inserção nessa modalidade. Torna‐se comum a associação dessas experiências esportivas com estereótipos ligados à “masculinização” dos corpos, aponta para uma associação direta das alterações corporais, como aumento no volume muscular e força com um distanciamento da feminilidade normalizada.

“Sim. Olham pra mim de forma diferente, acham musculosa, esse tipo de coisa, daí eu fico quieta, acho melhor.” (Informante 1, 20 anos)

“As pessoas falam que a gente vai ficar musculosa, que esse esporte não é para mulher. Dizem: ‘Como é que pode ser mulher e atleta de levantamento de peso?”’ (Informante 5, 19 anos)

“Toda semana tem um comentário diferente, falam que a voz engrossa, que o ombro fica largo, é só isso que a gente escuta.” (Informante 4, 14 anos)

Esse processo de transformação corporal via experiência esportiva pode ser compreendido como transformações de gênero. As atletas têm a percepção de que os

significados atribuídos a seus corpos foram modificados e estão em constante alteração. Ao expor a fragilidade dessa representação de gênero, seus corpos fascinam e intimidam, atraem e repulsam, tornam‐se dissidentes e abjetos (Piscitelli, 2009).

Tal abjeção suscita emoções relacionadas às valorações que dependem dos “particulares contextos de produção de sentidos dos antagonismos. A emoção básica em relação ao abjeto é o espanto e a repugnância” (Figari & Días‐Benítez, 2009, p. 23).

O abjeto também polui, contagia, deve ser evitado; o que é considerado sujo ou suscetível de poluição não é outra coisa senão a perturbadora “matéria fora do lugar”. Assim, muitos comportamentos foram instituídos como “fora do lugar”, na ilegitimidade, como sexualidades periféricas, especialmente a partir da vocação taxonômica da medicina, encontra fios de transmissão – e retroalimentação – em outros aparelhos ideológicos, como a família, a escola, a religião, os esportes, os manuais de sexualidade, de moral e boa conduta etc. (Figari & Días‐Benítez, 2009, p. 23).

Essa “matéria fora do lugar” materializa‐se nas visões que tais atletas têm de seus corpos – os músculos volumosos, a força elevada, a técnica minuciosa no manejo dos implementos da modalidade, a disciplina para os treinamentos árduos – tudo isso expõe a dissidência de seus corpos, quando são contrapostos com os corpos de outras mulheres com as quais essas atletas se relacionam em seus espaços de sociabilidade, nesse caso a escola.

“Eu me vejo com um pouco mais de força em comparação com elas. Nas aulas (de educação física) dá para notar, fica até engraçado. (Informante 1, 20 anos)

“Eu me vejo igual a elas, porém sou mais forte e gosto de esportes, e elas não. E, por não gostarem, também me criticam. Minha força me deixa diferente e é bem legal.” (Informante 3, 16 anos)

“Tenho mais disposição, mas acaba que elas me veem de uma forma diferente, porque pratico um esporte que dá mais preferência para os homens.” (Informante 5, 19 anos)

“Diferente, porque a maioria delas são cheias de frescuras, e eu não. Qualquer esporte que está tendo nas aulas (de educação física) eu faço.” (Informante 8, 20 anos)

As narrativas apresentam mecanismos discursivos de resistência aos processos discriminatórios referentes à escolha da modalidade do levantamento de peso. Ao incorporar os aspectos identitários de atleta, essas mulheres performatizam dinâmicas de conformismo e resistência, adequação e subversão desses discursos normativos.

Segundo Goffman (1988), as identidades virtuais e sociais reais são parte dos interesses e das definições de outras pessoas em relação ao indivíduo cuja identidade está em questão. Assim, essas mulheres manipulam suas identidades sociais reais com a adoção de

Estratégias que as distanciam da identidade virtual de atletas “musculosas” e “forçudas”, que se apresentam como estigmas.

Nesse sentido, as técnicas de ocultamento de símbolos de estigma ocorrem simultaneamente a um processo relacionado, o uso de desidentificadores. “O estigma e o esforço para escondê‐lo, encobri‐lo ou amenizá‐lo fixam‐se como parte da identidade dos sujeitos.” (Goffman, 1988, p. 76)

“Eu me vejo como uma mulher normal. A imagem que eu tenho de mim, é que sou uma pessoa corajosa, pois esse esporte não é para qualquer mulher, o corpo muda e agente se sente diferente das outras meninas que não fazem levantamento de peso.” (Informante 2, 19 anos)

“Eu tenho uma aparência mais larga, pois meus ombros, costas e coxas são maiores do que as delas, por causa do esporte.” (Informante 4, 14 anos)

Dessa forma, outro desdobramento que seus corpos operam é a constante suspeição de suas sexualidades heteronormativas. Ao desestabilizar os significados de gênero, constrói‐se uma imagem pré‐concebida, “masculinizada” e “masculinizante” de seus corpos, associada pelo senso comum às experiências homoeróticas, o que fica exposto nas narrativas que se seguem:

“Sim. Algumas vezes já falaram que eu era lésbica. O cara passou na janela (da sala de treinamento) e falou assim: ‘Nossa Senhora, aquela mulher ali é homem’, eu falei: ‘Nossa, gente… Calma, eu não sou não’. Muita falta de respeito às vezes, mas a gente vai levando.” (Informante 8, 20 anos)

“Dizem que a gente vai ficar cheia de músculos, igual a homem, que esse esporte é masculino, não é feito para mulher.” (Informante 2, 19 anos)

O gênero adquire centralidade na produção de convenções eróticas e, nesses cenários, essa distinção também é crucial para hierarquizar – e até mesmo excluir – categorias de pessoas (Piscitelli, 2009, p. 15); entretanto, se a base da identidade de gênero é a repetição estilizada e performativa de atos através do tempo, e não uma identidade universal dada a priori e aparentemente “perfeita”, então as possibilidades de “transformação do gênero devem ser encontradas na relação arbitrária entre esses atos, na possibilidade de uma forma diferente de repetição, na quebra ou repetição subversiva destes estilos” (Butler, 1997 apudGrunvald, 2009, p. 37).

Assim, tais discursos de interdição assumem aspectos motivacionais na realidade dessas atletas e impulsionam o aprofundamento de suas experiências esportivas na modalidade. A relação com a treinadora Rose, considerada ideal de performance feminina na modalidade, e seu sucesso esportivo abrem possibilidades para que essas atletas projetem trajetórias similares no esporte. Para a concretização desse projeto esportivo, elas têm que resistir às interdições e discriminações presentes em seus grupos de sociabilidade, em que a categoria “superação” se torna marcante.

Considerações Finais

Este artigo teve como objetivo refletir sobre as construções de gênero e feminilidades vivenciadas por atletas do levantamento de peso em suas experiências esportivas.

O que se nota é que o espaço de treinamento dessas atletas apresenta‐se como lócus de normatizações de gênero e sexualidade. Tal processo é erguido sobre o sistema discursivo cultural de sexo‐gênero‐sexualidade e é difundido através das relações de poder estabelecidas na organização e apropriação do espaço de treinamento e em seus grupos de sociabilidade.

As experiências do grupo de informantes desta pesquisa apontam para visões de mundo balizadas pela dicotomia masculino/feminino na modalidade escolhida. É notória a percepção pelas atletas da subversão que elas operam ao escolher uma modalidade culturalmente identificada e direcionada aos sujeitos discursivamente classificados como masculinos.

A partir de suas experiências performativas de gênero em suas trajetórias esportivas, os corpos dessas mulheres apresentam‐se como dissidentes e abjetos; reflexos das marcas corporais adquiridas, que são, acima de tudo, marcas de poder. Tais dissidências expõem os aspectos construídos do sistema sexo‐gênero‐sexualidade e abrem margem para subversões dos ideais de uma feminilidade normalizada.

Essas marcas são estigmas sociais e têm sido constantemente desidentificadas pelo grupo de informantes. Assim, tal dissidência é “punida” por processos e discursos discriminatórios que colocam sistematicamente em suspeição suas sexualidades. Essas experiências, apesar de sofríveis, são percebidas como motivadoras para a continuidade da trajetória esportiva.

Ao se posicionar como atletas de uma modalidade esportiva extrema como o levantamento de peso, essas atletas tensionam de forma subversiva as normatizações culturais de gênero e feminilidade e abrem margem para a reflexão sobre a multiplicidade de gêneros possíveis no campo esportivo e na sociedade.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Virilidades esportivas
História da virilidade 3: a virilidade em crise? Séculos XX‐XXI., pp. 269-301

As atletas competem em 7 categorias, divididas pelo peso corporal (até 48, 53, 58, 63, 69, 75 e acima de 75 quilos). Há uma demanda das atletas junto à Federação Internacional de Levantamento de Peso (IWF) para que seja incluída a oitava categoria de peso, como ocorre na versão masculina do esporte. As competições são compostas de duas provas: o arranco, ou arranque; e o arremesso. No arranco/arranque, a atleta deve erguer a barra acima da cabeça em apenas um movimento sem pausa. Já o arremesso é executado em duas etapas: primeiro, a barra é erguida até a altura dos ombros, por cima do peito; em seguida, a barra é elevada acima da cabeça. Quando a atleta consegue estabilizar o peso, a arbitragem solicita que o peso seja abaixado. As atletas têm três tentativas em cada prova. O objetivo é obter o melhor total, que é a soma do maior peso levantado nas duas provas. Em competições oficiais, há também premiações para as melhores marcas em cada uma das provas. (Confederação Brasileira de Levantamento de Pesos, 2015).

Este artigo recebeu o Prêmio de Literatura Científica no Conbrace 2015, no GTT Gênero.

Maria Elizabete Jorge, a “Bete do peso”, foi a atleta brasileira pioneira a participar nas participações olímpicas no levantamento de peso em Sydney, Austrália, em 2000. Aos 43 anos de idade, ela competiu na categoria até 48 quilos e obteve o 9° lugar. Nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, a atleta brasileira Jaqueline Ferreira, obteve o 8° lugar na categoria até 75 quilos, entretanto, após algumas de suas adversárias terem sido desclassificadas por conta de doping em 2016, sua colocação foi refeita e ela obteve o 5° lugar. Recentemente, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, Rosane Reis obteve o 5° lugar na categoria até 53 quilos. Mais informações sobre a história de vida de Maria Elizabete Jorge podem ser obtidas nos documentários: “Bete do peso”, do diretor Kiko Mollica (2015), e “Mulher de peso”, das diretoras Kamila Simões et al. (2014), Vera Daian e Felipe França.

Mais sobre a teorização queer e suas apropriações no Brasil, ver Louro (2001, 2013) e Miskolci (2009, 2012).

A cidade de Viçosa fica localizada a 225kmda capital mineira, Belo Horizonte. Tem uma população de 72.220 habitantes (IBGE, 2010), e possuía à época da pesquisa, um dos centros de treinamento credenciados pela Confederação Brasileira de Levantamento de Pesos (CBLP), que fica localizado nas dependências do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Em momento prévio ao processo de realização das entrevistas, todas as informantes, bem como os responsáveis legais ‐ no caso das informantes menores de dezoito anos ‐ assinaram os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLEs) do estudo.

O conceito de visão de mundo diz respeito ao “quadro que os sujeitos de uma determinada cultura elaboram das coisas como elas são na simples realidade, seus conceitos de si mesmos e de aspectos da sociedade em que vivem” (Geertz, 1989, p. 93).

Tais reflexões surgem a partir dos registros realizados no caderno de campo da pesquisa.

Os discursos podem ser entendidos como sistemas e códigos de significação que constituem o conjunto de enunciados de um determinado campo de saber, construídos historicamente dentro das relações de poder (Foucault, 2011).

Normalizar significa eleger, arbitrariamente, uma identidade específica com parâmetro, em relação à qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas, atribuindo a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. (Silva, 2009 apudGrespan e Goellner, 2014, p. 1273).

A heteronormatividade diz respeito à “ordem sexual do presente, fundada no modelo heterossexual familiar e reprodutivo. Ela se impõe por meio de violências simbólicas e físicas dirigidas principalmente a quem rompe normas de gênero” (Miskolci, 2012, p. 44).

Grespan e Goellner (2014), e Anjos (2015) expõem os processos discriminatórios sofridos por atletas que tensionam e subvertem as normas de gênero e sexualidade–Fallon Fox no MMA e Michael no Voleibol–em que as violências simbólicas buscaram, em última instância, readequar esses corpos divergentes às normas do sistema sexo–gênero–sexualidade.

Por questões éticas, os nomes das informantes, ao serem apresentados no texto, serão fictícios ou identificados numericamente.

O conceito de poder utilizado nesse estudo será o elaborado por Michel Foucault, que concebe o poder como inerente às relações sociais dos sujeitos. Estes são micropoderes difusos, constantemente subvertidos e alternados. Dessa forma, nenhum poder exerce tão alto grau de coerção que não abra espaço para subversões cotidianas e alternâncias desse mesmo poder (Foucault, 1992).

As experiências são entendidas como as correlações, em uma cultura, entre os campos de saber, tipos de normatividade e formas de subjetivação (Foucault, 2004).

Revista Brasileira de Ciências do Esporte.2017;39:254-60 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.011