Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:458-60 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.07.003
Resenha
Avaliar As práticas corporais no campo da saúde: o que podem os diálogos entre educação física e saúde coletiva
Carlos Herold Junior
Universidade Estadual de Maringá (UEM), Centro de Ciências da Saúde (CCS), Departamento de Educação Física, Maringá, PR, Brasil

Com a ambição de pensar a formação em educação física voltada para a atuação na área da saúde, vem a público a coletânea As práticas corporais no campo da saúde (Fraga, Carvalho e Gomes, 2013), com oito capítulos. Inicialmente, eles foram redigidos para um seminário1 organizado pelo projeto Políticas de formação em educação física e saúde coletiva: atividade física/práticas corporais no SUS, uma pesquisa interinstitucional que envolve USP, UFRGS e UFES.

Na introdução à obra, os organizadores Alex Branco Fraga (UFRGS), Yara Maria de Carvalho (USP) e Ivan Marcelo Gomes (Ufes) explicam que seu objetivo é a construção de “críticas ao predomínio da racionalidade biomédica na educação física” (p. 12). Para tanto, reuniram-se pesquisadores das áreas de educação física e saúde coletiva que “têm em comum as ciências humanas e sociais como fundamento teórico-conceitual e metodológico” (p. 15).

As reflexões que compõem o livro abordam a tensão entre dois conceitos fundamentais à educação física: atividade física e práticas corporais. Sem negligenciarem que atividade física tem “tradição e reconhecimento” (p. 13) na educação física, assume-se que práticas corporais fornece um “contraponto à discussão e intervenção centrada na atividade física” (p. 13), além de ter o “potencial para intervir no processo saúde-doença de modo mais articulado com os princípios do SUS” (p. 14).

O capítulo 1 – “Por uma política da vida a partir da relação corpo e vida” e o capítulo 2 – “A política da vida e a saúde”, redigidos por Selvino Assmann e Rui Machado Gomes, respectivamente, estudaram o primeiro dos quatro temas do evento: Políticas da vida e pedagogias do corpo. Os dois capítulos optam por uma abordagem panorâmica e lançam mão de um amplo leque de autores oriundos, sobretudo, da filosofia. Todavia, Agamben e Foucault é que fornecem, a cada um dos analistas a base para construírem suas reflexões. Assmann assume a análise feita por Agamben sobre a potência como condição fundamental para pensarmos a historicidade de pares conceituais fundantes da “política da vida que temos” (p. 46), como animalidade/humanidade, corporalidade/espiritualidade. Isso é feito com vista a uma “nova ética” (p. 47).

Gomes volta sua atenção para a crítica ao utilitarismo da sociedade contemporânea, em que a atenção que se dá ao corpo sustenta-se no processo histórico que levou o “homem a constituir-se a si próprio como objeto de reflexão” (p. 62). O Estado, o mercado e a dinâmica societária das “novas tribos” fazem do corpo um “lugar de discursos” (p. 62), um “regime de verdade” (p. 80) em que as problemáticas tocantes à atividade física/práticas corporais voltadas para a saúde são pensadas.

A reflexão sobre Perspectivas de pesquisa em saúde é o eixo de “Mapas corporais narrados”, de Denise Castaldo et al.; e “Pistas do método da cartografia na pesquisa em saúde”, redigido por Eduardo Passos. Denise Castaldo et al. pensam as determinantes sociais da saúde de trabalhadores latino-americanos residentes no Canadá. O uso de mapas corporais é visto como uma possibilidade de captar a forma como “as pessoas pensam sobre suas próprias vidas” (p. 84). Trata-se de solicitar aos investigados que construam uma representação visual da “intersecção da saúde, gênero, migração e fatores contextuais” (p. 85).

Eduardo Passos também se inquieta pelas dificuldades de pesquisa do campo da saúde coletiva, devidas ao hibridismo (p. 101) característico de seu objeto. As reflexões de Deleuze e Guattari sustentam a superação do “taylorismo epistemológico” (p. 103), por meio de um conhecimento produzido cartograficamente em que a realidade deixa de ser uma mera representação parcializada pela atividade intelectual. Nisso, transversalidade e processualidade são características incontornáveis para o pesquisador que fica “no limite instável entre o que comuna e o que difere” (p. 111).

O terceiro eixo de reflexões – Práticas corporais e o SUS – é formado pelos capítulos 5 e 6: “Esquecimento ativo e práticas corporais em saúde”, de Luiz Fernando Silva Bilibio; e “Práticas corporais e o SUS: tensões teóricas e práticas”, cuja autoria é de Tadeu João Ribeiro Baptista e de mais cinco colaboradores. Bilibio usa um caso-pensamento2 para estudar as hesitações de um professor de educação física ao tentar “escapar da racionalidade sanitária ligada à aptidão física” (p. 123). O autor apoia-se em Nietzsche para construir um “procedimento genealógico” (p. 128) que leve ao rompimento do “compromisso histórico com a lógica instrumental do paradigma biomédico solução-problema” (p. 128). Defende-se a necessidade de se “transvalorar valores” (p. 131) para que possamos pensar a “dimensão dionisíaca das práticas corporais” (p. 135) e promover um “exercício de esquecimento ativo” (p. 135) em relação à cultura profissional, materializada nos dilemas do professor que dá vida ao caso-pensamento estudado no seu início.

No capítulo sexto, Baptista et al. fazem um levantamento do enfoque dado por pesquisadores da educação física à saúde pública, principalmente quando são analisados documentos e políticas brasileiras voltadas para a promoção da saúde. Depois são apresentadas práticas formativas no campo da saúde existentes no curso de bacharelado em educação física da Universidade Federal de Goiás, no qual se busca a construção de um “espaço de tensão” relacionada à “disputa sobre processos sociais” (p. 171), adota-se na formação dos acadêmicos os “aportes teórico-metodológicos da saúde coletiva” (p. 155). Essa tensão é estudada nos problemas cotidianos que a realização da proposta pedagógica do referido curso tem enfrentado.

Os dois últimos capítulos do “seminário-livro” (p. 16) se debruçam sobre as interfaces entre educação física e saúde coletiva. O sétimo estudo é de Valter Bracht, intitulado “Educação física e saúde coletiva: reflexões pedagógicas”. Inicialmente ele aborda a história do relacionamento entre educação física escolar e saúde. Evidencia-se que a educação física escolar se tornou “apenas um problema de fisiologia e não de pedagogia” (p. 179). Observa-se a existência de uma visão crítica a essa configuração, notam-se os limites dessa crítica. Afinal, ao “ampliar o conceito de saúde”, essa nova visão pensou a educação física escolar não como fomentadora direta da saúde por meio de suas práticas, mas, sim, como uma geradora de reflexões sobre a saúde, agora assumida, também, em suas dimensões históricas e sociais. Bracht vê que essa opção enfatiza uma formação profissional em educação física mais atenta à dimensão conceitual da saúde, por ele avaliada, ainda, como “limitada” (p. 189), em que pesem alguns avanços que se obteve com esse encaminhamento. Para resolver o impasse, Bracht defende a tese de que aos conceitos sobre as práticas voltadas para a saúde agreguem-se, também, “práticas (corporais) alternativas” (p. 197), sobre as quais o autor restringe-se a dizer que maiores detalhes sobre elas ainda estão sendo investigados.

No último capítulo da coletânea, Alcindo Antonio Ferla e mais dois colaboradores investigam possíveis colaborações advindas da saúde coletiva à formação em educação física. Lemos uma pergunta indicativa do escopo dos autores: “O que pode a ideia de integralidade na produção de mudanças no trabalho e na educação dos profissionais?” (p. 198) Eles observam que uma das maiores dificuldades da intervenção da educação física junto ao SUS é a formação “permeada pelo conhecimento biomédico hegemônico”, uma formação baseada na “lógica de que as pessoas são, principalmente, seus corpos biológicos” (p. 220). Nela, a intervenção da educação física no campo da saúde é um “anexo” (p. 220) aos demais componentes da equipe de saúde, do mesmo modo que o professor de educação física na escola é considerado um “anexo” à equipe pedagógica que toma as decisões mais relevantes. Os autores afirmam que a ideia de integralidade, ao mesmo tempo resultante e criadora desse limite, acaba por se reduzir “à soma de prescrições de todos os profissionais da equipe” (p. 221). Para superar essas dificuldades e tornar a educação física mais capacitada para um trabalho no campo da saúde que “seja vivo, criativo e dinâmico” (p. 224) é retomada a importância de se superar o conceito atividade física em nome de práticas corporais. Os autores, assim como Bracht, também não abordam de modo mais sistemático a construção de possibilidades concretas para a construção de entendimentos e alternativas que superem a já mencionada “tradição” (p. 13), manifesta nas já citadas resistências que essa mudança tem enfrentado.

A interface entre os campos da saúde coletiva e da educação física tem produzido reflexões de grande interesse para a formação em educação física. Com efeito, os organizadores da coletânea são nomes importantes nesse esforço intelectual promissor, um dos desdobramentos mais interessantes das análises sobre o papel histórico e social da educação física, que passaram a existir, sistematicamente, depois da década de 1980. Além disso, deve ser observado que o potencial desse diálogo entre os dois campos em tela tem sua força e visibilidade aumentadas pela realização de um projeto interinstitucional de pesquisa. Essa escolha deu às intenções investigativas dos organizadores e, consequentemente, ao primeiro livro que delas resulta um impacto maior, se comparadas com outras iniciativas de pesquisa que não acontecem de modo integrado.

Como é uma obra que apresenta uma pesquisa ainda construção3, percebe-se que a empreitada é plena em dificuldades. Evidencia-se a percepção de que as mudanças almejadas, embora sustentadas em referenciais teóricos importantes para um diálogo/debate muito profícuo com a “tradição biomédica”, esbarram em hábitos instalados no pensamento e na prática dos profissionais, dos usuários, das instituições formativas e de saúde. Eles guiam, também, uma parcela importante de acadêmicos que pensam a presença histórica da educação física na saúde e da saúde na educação física. Essa percepção é valiosa e as análises publicadas no livro colocar-se-ão como relevantes estímulos para que o diálogo entre a educação física e a saúde coletiva se amplie com o fito de superar esses desafios. Para termos uma ideia dos resultados desses estímulos no âmbito restrito ao desenvolvimento das pesquisas feitas pelos organizadores da coletânea, pode-se avaliar que eles já produziram um enfrentamento mais contundente da situação diagnosticada se compararmos ao próprio teor das análises que lemos no livro em questão. Além da já mencionada segunda coletânea publicada (ver nota 4), em outro trabalho de 2015 (Carvalho, Gomes e Fraga, 2015) é circunscrita a problemática das pesquisas com a contundência que tipicamente se extrai de um processo reflexivo meticuloso, possibilita aos passos que daí são dados uma maior liberdade e vigor na expressão das ideias. Ao se indagar sobre “o problema” que estudam, eles afirmam:

O problema? O próprio conceito de saúde na educação física... ainda muito restrito ao mensurável, ao dizível e também ao visível nos modos de compreender o corpo e de como produzimos saúde. Portanto, estamos nos colocando diante do desafio de nos descolar de determinada forma de pensar a respeito da saúde. E pensar já é difícil, porque nós só pensamos quando somos forçados a isso, quando acontece algo que nos incita, ou que nos perturba, ou que nos desconcerta, ou, ainda, que nos machuca (Carvalho, Gomes e Fraga, 2015, p. 149).4

Essa retórica mais incisiva, se comparada com a postura dos organizadores no livro de 2013 em tela, não é apenas uma mudança formal ou linguística. Ela denota uma maior clareza dos desafios que se apresentam. Abordá-los, atacá-los, por meio da ampliação dessas análises será fundamental não apenas para se superar a séria e dolorosa “dificuldade do pensamento”. O que está em jogo é a construção de proposições de alternativas viáveis que façam frente aos limites epistemológicos e políticos, precisamente delimitados por As práticas corporais no campo da saúde.

Financiamento

A) Auxílio à pesquisa, Fundação Araucária – Edital 14/2012 Universal de Pesquisa Básica e Aplicada, protocolo 37389, convênio132/2014. B) Bolsa de Produtividade em Pesquisa. CNPq, edital Produtividade em Pesquisa PQ 2015, processo 304633/2015-1.

Referências
Carvalho et al., 2015
Y.M. Carvalho de,I. Gomes,A.B. Fraga
Educação física+ciências humanas+saúde
Educação física+humanas, pp. 129-154
Fraga et al., 2015
A.B. Fraga,Y.M. Carvalho de,I.M. Gomes
Práticas corporais no campo da saúde: uma política em formação
Rede Unida, (2015)
Fraga et al., 2013
A.B. Fraga,Y.M. Carvalho de,I.M. Gomes
As práticas corporais no campo da saúde
Hucitec, (2013)
Siegmann e Fonseca, 2007
C. Siegmann,T.M.G. Fonseca
Caso-pensamento como estratégia na produção de conhecimento
Interface (Botucatu), 11 (2007), pp. 53-63

O evento ocorreu em 12 e 13 de novembro de 2012.

A partir da influência deleuziana como “estratégia de produção de conhecimento”, sobre o caso-pensamento afirmam Siegmann e Fonseca, (2007): “Um método composto de um olhar sensível do pesquisador para si mesmo e para o outro dentro da prática clínica, mas que procede a uma análise crítica de suas experiências profissionais”.

Os organizadores publicaram uma segunda coletânea em que novas reflexões são apresentadas. Fraga, Carvalho e Gomes (2015), disponível em http://www.redeunida.org.br/editora/biblioteca-digital/serie-interlocucoes-praticas-experiencias-e-pesquisas-em-saude/praticas-corporais-no-campo-da-saude-uma-politica-em-formacao-pdf/view Acesso em 9/12/2015.

Outro exemplo da relevância produzida pelas pesquisas em tela pode ser lido em outro excerto do mesmo capítulo: fazer um “... contraponto à medicalização da vida, à racionalidade biomédica e aos julgamentos que o tempo todo excluem o diferente, aquele que não se encaixa nas classificações e ordens, nos exige reativar, no plano da cultura, a forma da potência, a nossa vitalidade” (Carvalho, Gomes e Fraga, 2015, p. 151).

Copyright © 2017. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:458-60 - Vol. 39 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.07.003