Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Artigo original
As mulheres como autoras: produção e circulação do conhecimento sobre educação física em impressos capixabas (1932‐1936)
Women as authors: production and circulation of knowledge about physical education in the capixaba prints (1932‐1936)
Las mujeres como autoras: producción y circulación del conocimiento sobre educación física en periódicos capixabas (1932‐1936)
Marcela Bruschia,b,c,, , Omar Schneiderb,c
a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Programa de Pós‐Graduação em educação física, Vitória, ES, Brasil
b Instituto de Educação e educação física – Proteoria, Vitória, ES, Brasil
c Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Departamento de Ginástica, Vitória, ES, Brasil
Recebido 04 Julho 2017, Aceitaram 15 Março 2018
Resumo

Este estudo investiga a sistematização de saberes sobre a educação física em forma de monografias, escritas por alunas da EsEFES e publicadas em impressos locais entre 1933 e 1936. Usa os conceitos estratégia e tática para dar a ver as lutas de representação sobre os saberes autorizados da educação física e opera com o paradigma indiciário na análise das fontes. Trabalha, como fontes, com o Arquivo Permanente do Cefd/Ufes, o Diário da Manhã e a Revista de Educação. As monografias publicadas revelam as práticas discursivas autorizadas na EsEFES. A reprodução dos saberes é vista como uma tática empregada por professoras, que buscaram, dentro de um espaço dominado pelos homens, obter capital simbólico para se tornar autoridades em educação física no Espírito Santo.

Abstract

It investigates the systematization of knowledge about Physical Education in the monographs, written by the female students of EsEFES and published in local prints between 1933 and 1936. It uses the concepts of strategy and tactics to show of the representations struggles about the authorized knowledge of Physical Education and operates with the indiciary paradigm in the analysis. As sources, it works with the Permanent Archive of Cefd/Ufes, the Diário da Manhã and the Revista de Educação. The published monographs reveal the discursive practices authorized in the EsEFES. The reproduction of knowledge is seen as tactic employed by the teachers, who sought, within a male‐dominated space, to obtain symbolic capital to become authorities on physical education in Espírito Santo.

Resumen

Estudia la sistematización del conocimiento sobre educación física en forma de monografías, escritas por alumnas del EsEFES y publicadas en periódicos locales entre 1933 y 1936. Utiliza los conceptos estrategia y táctica para poner de manifiesto las luchas de representaciones sobre el conocimiento autorizado de educación física y trabaja con el paradigma indiciário en los análisis de las fuentes. Utiliza como fuentes el Archivo Permanente del Cefd/Ufes, el Diário da Manhã y la Revista de Educação. Las monografías publicadas revelan las prácticas autorizadas en la EsEFES. Se aprecia la reproducción del conocimiento como una táctica de las profesoras, las cuales, en un espacio dominado por hombres, trataron de obtener capital simbólico para convertirse en autoridades sobre educación física en el estado de Espíritu Santo.

Palavras‐chave
Escola de educação física, Professoras, Monografias, Imprensa do Espírito Santo
Keywords
School of physical education, Female teachers, Monographs, Capixaba press
Palabras clave
Escuela de educación física, Maestras, Monografías, Prensa de Espíritu Santo
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Introdução

Este artigo discute a sistematização de saberes sobre a educação física em forma de monografias, escritas por professoras em formação na Escola de Educação Física do Espírito Santo (EsEFES), criada pelo Decreto Estadual n° 1.366, de 26 de junho de 1931 (Espírito Santo, 1931). Esse material foi publicado em impressos regionais, o que nos permite enfatizar a participação das mulheres no desenvolvimento dessa área do conhecimento, em especial em um projeto de escolarização arquitetado para o estado na década de 1930.

A EsEFES produziu documentos que hoje se apresentam como fontes privilegiadas para a reconstrução da memória da instituição. Esses documentos fazem parte do Arquivo Permanente do Centro de Educação física e Desportos, da Universidade Federal do Espírito Santo (Cefd/Ufes). Nesse acervo, encontram‐se as monografias escritas pelos alunos que, naquele momento, eram requisito obrigatório para a colação de grau. Elas se destacam como produções que permitem compreender os saberes projetados para a prática pedagógica do professor de educação física. Esse material foi publicado no jornal Diário da Manhã (1908‐1937) e no impresso Revista de Educação (1934‐1937).

Analisar esses textos, a sua circulação e a sua autoria nos permite compreender os modos de produção do conhecimento sobre a educação física em um momento em que, no Brasil, essa disciplina era escolarizada em um contexto de intensa modificação do que se entendia como os saberes que fundamentavam a sua prática nas escolas. Esses embates nos permitem evidenciar os atores que ajudaram a construir o nosso campo de conhecimento. Nesse processo, conseguimos visualizar o protagonismo das mulheres no cenário capixaba, pois elas eram responsáveis pela maioria das matrículas para o Curso de Formação de Professores, portanto era delas o maior número de trabalhos defendidos como monografias e publicados na impressa jornalista e pedagógica do período (tabela 1).

Tabela 1.

Publicações das professoras de educação física no Diário da Manhã e na Revista de Educação

Autora  Título das monografias  Data da publicação 
Isaltina Paoliello  A educação fisica como alicerce de uma perfeita educação: a influência do controle médico da educação fisica  Diário da Manhã, 1933 
Helena Serrano  A necessidade da educação fisica feminina  Diário da Manhã, 1933 
Analia Paoliello  O exercicio e a saude  Diário da Manhã, 1933 
Elcia Aquino  Educação fisica  Diário da Manhã, 1933 
Clarice Lima  Educação fisica: seu valor  Diário da Manhã, 1933 
Julieta Greppe  Da aplicação da educação fisica  Diário da Manhã, 1933 
Ormy Saleto  A educação fisica como fator de saude e beleza  Diário da Manhã, 1933 
Anita Crema  Educação fisica da mulher  Diário da Manhã, 1933 
Mercês Garcia  A educação fisica infantil  Diário da Manhã, 1933 
Maria Orlandina Bomfim  A educação physica e seus methodos  Diário da Manhã, 1933 
Adelaide Raiser  Considerações sobre educação fisica  Diário da Manhã, 1933 
Alva Piovesan  A educação fisica e o atletismo  Diário da Manhã, 1933 
Slyvia Rocha  O cristianismo como entrave ao desenvolvimento da educação fisica: o Renascimento, alguns precursores  Diário da Manhã, 1933 
Mathilde Crema  Educação fisica e sua influencia no organismo infantil  Diário da Manhã, 1933 
Felisbina Pinheiros de Moraes  A ginastica respiratoria como base da educação fisica  Rev. de Educação, 1934 
Celina Cardoso  A dansa e a ginastica ritmica na educação fisica feminina  Rev. de Educação, 1934 
Maria Aparecida Nogueira  A educação physica como factor de progresso  Rev. de Educação, 1934 
Slyvia Carlos Loureiro  Educação physica: seus efeitos physiologicos  Rev. de Educação, 1935 
Adyr Miranda  Ligeiras apreciações sobre a educação physica da mulher  Rev. de Educação, 1935 
Orlandina Ribeiro  Como o metodo francês satisfaz as necessidades sociais  Rev. de Educação, 1935 
Dalila Neves  Os jogos na educação physica  Rev. de Educação, 1935 
Alice Greppe  Por que devemos aplicar a educação physica  Rev. de Educação, 1935 
Jovita Nogueira  Ligeiros comentarios sobre a higiene e a educação fisica no Brasil  Rev. de Educação, 1936 

Fonte: Produzido pelos autores.

Para que essas monografias fossem veiculadas, elas tiveram que passar por avaliações para determinar quais discursos estavam aptos a se tornar públicos. Essas avaliações eram feitas por pessoas que procuravam desenvolver um projeto para a educação física no Espírito Santo pautado no método francês. Por esse motivo, mobilizamos no estudo o conceito de lutas de representação (Chartier, 1990, p. 17), que nos ajuda a compreender como “[...] uma realidade social é construída, pensada e dada a ler”. O autor considera que as produções das representações do mundo social “[...] são sempre determinadas pelos interesses de grupos que as forjam” (Chartier, 1990, p. 17). Dessa forma, essa proposta de análise, aplicada às nossas fontes documentais, evidencia, por meio de indícios, as intenções daqueles que organizavam e determinavam as práticas que deveriam ser ministradas como conhecimento autorizado na EsEFES.

Em um período histórico marcado pela figura dos militares e de homens que ocupavam cargos no governo, em função no desenvolvimento da educação física orientado pelo método francês e de um possível interesse ideológico por trás da expansão desse modelo ginástico (Goellner, 1992; Soares, 1996), não é dada evidência a outros grupos de pessoas que muito contribuíram para a escolarização da educação física. Em função dessa estratégia, buscamos dar visibilidade às lutas de representação produzidas nos embates com as táticas (Certeau, 1994), quase silenciosos, dos praticantes que, em última instância, desejam modificar uma realidade social sem o enfrentamento em uma situação de menor capital social e simbólico.

Na década de 1930, há um investimento no Espírito Santo na formação de professoras normalistas que deveriam passar por uma especialização na EsEFES, para que elas pudessem ensinar o novo método de educação física nas escolas. O investimento nessa formação das mulheres para se tornarem professoras de educação física, até então, não tivera lugar na história da educação física. Nenhuma visibilidade havia sido dada a esses atores, que não ocupavam o centro das decisões, mas que, como veremos, tiveram uma posição de destaque na sistematização dos saberes da educação física e foram responsáveis por popularizar, pela imprensa, o sentido dessa disciplina e seus conteúdos de ensino na escola e em outros espaços de formação.

Analisar a participação das mulheres na educação física capixaba nos permite trazer para a cena novos personagens que colaboraram na construção desse campo de conhecimento e produziram, segundo Ginzburg (1991, p. 192), “[...] uma história mais rica, mais variada, mais humana [...]. A história que de vós esperamos não é uma sucessão cronológica de fatos políticos e militares que inclua, como exceção, alguns episódios extraordinários de outro gênero; mas uma representação mais geral do estado da humanidade num determinado tempo, num determinado lugar, naturalmente mais circunscrito do que aquele em que acostumam decorrer os trabalhos de história, no sentido mais vulgarizado do termo”.

O conceito de estratégia e de tática desenvolvido por Certeau (1994) nos ajuda na compreensão da forma como as professoras usaram as representações em circulação para ganhar projeção. Entenderam que o discurso pautado no método francês era uma representação daquilo que o Estado achava que deveria ser a educação física e quais teorias deveriam ser usadas para que a disciplina ganhasse sentido no campo educacional e fora dele. Consideramos que as mulheres usaram a tática para atingir seus objetivos, acessar outras esferas da hierarquia profissional e ser reconhecidas na vida pública. Temos como objetivo enfatizar os protagonismos de 23 mulheres na história da educação física do Espírito Santo, a partir do momento em que são autorizadas a discutir questões educacionais sobre o ensino da educação física para as escolas.

Como fontes para a pesquisa, usamos os documentos presentes no Arquivo Permanente do Cefd/Ufes, o jornal Diário da Manhã (1908‐1937) e a Revista de Educação (1934‐1937). A partir do paradigma indiciário proposto por Ginzburg (1999), as fontes foram analisadas por meio de indícios, pistas e vestígios, permitiram dar visibilidade às táticas operadas pelas professoras, possíveis de ser identificadas em suas escritas na conformação de um novo modelo de educação física. Os indícios deixados possibilitam ainda trazer para a cena o protagonismo das mulheres na história da educação física no Espírito Santo, demonstram como se tornaram responsáveis para que a escolarização da educação física se tornasse uma realidade em todas as escolas capixabas. Assim, o uso desse procedimento de análise permitiu construir uma micro‐história sobre o processo de escolarização dessa disciplina no Espírito Santo.

A produção das monografias e sua circulação nos impressos capixabas

Na história da EsEFES, a elaboração de uma monografia passa a se tornar obrigatória a partir da segunda turma oferecida pela instituição, o chamado Curso de Férias,1 ocorrido entre dezembro de 1931 e março de 1932. Esses trabalhos seguiam um padrão de formatação. Eram redigidos em máquina datilográfica, tinham capa e contracapa, título, nome do aluno, registro da entrega e da apresentação, carimbados e assinados pelo diretor da escola. Por vezes, a monografia era acompanhada por uma dedicatória dirigida a algum professor, possivelmente o que teria auxiliado o discente na produção do trabalho. Essas monografias continham, em média, cinco a dez páginas, provavelmente em razão do pouco tempo destinado à sua elaboração, já que a duração da formação variava de seis a oito meses.

A partir de 1933, os trabalhos passaram a ser apresentados e lidos para uma banca examinadora, composta por professores, com a participação de autoridades de diferentes áreas do conhecimento. Para a turma do período letivo de 1933, a banca foi composta por Mario Bossois Ribeiro, chefe do Serviço de Inspeção Médica e Educação Sanitária Escolar, e Hilton Nogueira, Mario Tavares e Joaquim de Souza, professores da EsEFES (Espírito Santo, 1932‐1934). Na turma de formandos de 1934, participaram Christiano Fraga, diretor do Departamento da Saúde Pública e professor da escola; Claudionor Ribeiro, chefe do Serviço de Cooperação e Extensão Cultural; Hilda Pessoa Prado, formada na EsEFES em 1931 e diretora do Jardim da Infância Ernestina Pessoa; Maria Magdalena Pisa, diretora do Grupo Escolar Padre Anchieta; e Julieta Greppe, formada em 1933 na EsEFES e professora da escola (Espírito Santo, 1932‐1934). Para os trabalhos encerrados em 1935, a banca foi composta pelas professoras da EsEFES Celina Cardoso e Felisbinha Pinheiro de Morais, ambas formadas em 1934 (Espírito Santo, 1935). Para os trabalhos finalizados em 1939, a banca foi formada pelos professores tenente Heitor Rossi Bélache, Timoteo Filho, Napoleão Freitas e Felisbina Pinheiro de Morais.

Para as monografias produzidas pela turma formada em 1932, esses trabalhos eram somente classificados como aprovados, mas, com a organização de uma banca examinadora, as monografias, a partir de 1933, começaram a receber julgamento. Eram quatro as classificações: Distinção com Louvor, Distinção, Plenamente e Aprovado. Não localizamos os critérios usados pelos avaliadores para fazer esses julgamentos, porém inferimos que essas classificações representavam os avanços adquiridos por alguns alunos em detrimento de outros, que souberam produzir uma boa síntese monográfica, discutir as propostas de ensino para a educação física em concordância com os conhecimentos do método francês.

A classificação das monografias pode ser compreendida quando usamos o conceito de lutas de representação (Chartier, 1990). Essa nova forma de classificação pode ser visualizada como uma estratégia do grupo que administrava a EsEFES, oriundo do Centro Militar de Educação física (CMEF), atual Escola de Educação física do Exército, no intuito de propagar as ideias que defendia para o ensino da educação física. A classificação dos trabalhos monográficos era uma prática usada para designar os alunos que se destacavam ao término do curso e que colaboravam com a escrita para o desenvolvimento da educação física capixaba.

A partir de 1933, algumas alunas formadas no período letivo em 1932 publicaram suas monografias, como artigos, no jornal Diário da Manhã. Em 1934, observamos que a publicação desses trabalhos, nesse impresso, é interrompida. Para a turma formada em 1934, os trabalhos passaram a ser publicados na Revista de Educação, entre 1934 e 1936. No Quadro 1, identificamos as professoras, os títulos das monografias e a data da publicação dos trabalhos nos impressos.

Para as professoras formadas em 1932 e que tiveram suas monografias veiculadas nos impressos, não foi possível demonstrar que as alunas com as melhores posições no fim do curso foram as que publicaram. A professora Isaltina Paoliello, classificada em primeiro lugar, foi a primeira a ter uma publicação no jornal Diário da Manhã, mas, para as demais alunas formadas nesse período, as monografias vulgarizadas não seguiram a ordem de classificação alcançada no fim do processo formativo. Helena Serrano, classificada em 12° lugar, foi a próxima a ter sua monografia divulgada, seguida por Analia Paoliello, classificada em sexto lugar; Elcia Aquino, 19ª; e a professora Clarice Lima, 18ª.

As classificações emitidas pela banca examinadora a partir de 1933 se constituíram como um importante indício da ordem de publicação das monografias. Das alunas que se formaram nesse ano e que tiveram seus trabalhos divulgados no Diário da Manhã, a professora Julieta Greppe, que recebeu a classificação Distinção com Louvor, foi a primeira a publicar nesse jornal. As professoras Ormy Saleto e Anita Crema, que receberam a classificação Distinção, foram as próximas professoras a divulgar seus trabalhos no impresso, respectivamente, seguidas pelas publicações das professoras Mercês Garcia, Maria Orlandina Bomfim, Adelaide Raiser, Alva Piovesan, Slyvia Rocha e Mathilde Crema, que receberam a classificação Plenamente.

Na Revista de Educação, a ordem das publicações se manteve de acordo com a classificação das monografias. Formadas em 1934, as professoras Felisbina Pinheiros de Moraes e Celina Cardoso, que alcançaram a classificação Distinção com Louvor, foram as primeiras a divulgar suas monografias no impresso em 1934, seguidas pelas professoras Maria Aparecida Nogueira, Slyvia Carlos Loureiro, Adyr Miranda e Orlandina Ribeiro, que, com a classificação Distinção, tiveram seus trabalhos publicados na revista entre 1934 e 1935.

As professoras Dalila Neves e Jovita Nogueira, que receberam a classificação Plenamente, tiveram seus trabalhos publicados em 1935 e 1936. A única exceção foi a publicação da monografia de Alice Greppe que, formada em 1934 com a classificação Distinção com Louvor, teve sua monografia publicada em 1935. Dentre as alunas que tiveram suas produções veiculadas nos impressos, nenhuma recebeu a classificação Aprovado.

Outra informação que nos oferece maiores indícios da seleção de somente algumas monografias para publicação em impressos são os elogios encontrados em algumas produções referentes ao CMEF, à EsEFES e a seus professores. Assim finaliza a aluna Helena Serrano na sua monografia: “Agora ao apresentar aos meus presados professores, respeitosa, as minhas despedidas, devo confessar‐lhes que suas sabias palavras ainda resoam em meu ouvido, que guardo, ainda quentes de carinho e de entusiasmo, vossos conselhos e ensinamentos”.

A aluna Felisbina Pinheiros Moraes (Moraes, 1934) evidencia a importância de seu professor para o desenvolvimento do tema escolhido: “Concordando com os ensinamentos do meu professor de antropometria, venho dizer que a educação respiratoria é de importancia [...]”. Jovita Nogueira (Nogueira, 1934b) também faz referência aos seus professores para a construção de sua monografia: “Ao Ilustrado Corpo Docente [...], ofereço esta pequena contribuição a sua notabilissima obra em prol da Higiene e da Educação Fisica do Brasil”.

As demais alunas exaltam os avanços obtidos pelo EsEFES. Sylvia Rocha afirma: “[...] sinto‐me feliz por ver que em nosso pequeno Estado, é cuidada com carinho esta obra admiravel que é a educação fisica, e da qual dependerá um Brasil constituido por homens fortes e capazes de o conduzirem pela estrada do progresso!”. A aluna Dalila Neves (Neves, 1934) também destaca a importância da educação física para o avanço do Estado: “[...] é de justiça que se coloque o nosso Estado em plano de destaque entre os primeiros da crusada para o aperfeiçoamento e revigoramento do nosso tipo etnico, o que concorrerá fatalmente para o nosso bem estar moral e econômico”.

Maria Orlandina Bomfim (1933, p. 11‐12), ao discutir o método francês, faz referência ao CMEF e à implantação desse modelo no estado:

“E’ portanto o methodo mais perfeito, razão por que é adoptado no exercito brasileiro, nas nossas escolas, e o mais ensinado nos cursos de educação physica espalhados por todo o Brasil. Aqui, nas nossas escolas, já foi introduzido, sendo ministrado por competentes professores diplomados pelo Curso de Educação Physica do Estado, obtendo os nossos collegiaes muitos proveitos”.

Ormy Saleto (1933, p. 14‐15) também apresenta o CMEF e a EsEFES como importantes obras para o engrandecimento do país: “[...] No Brasil, cabe ao Espirito Santo a honra de ter fundado em primeiro lugar a nova escola de educação fisica, depois de terem sido os métodos conhecidos no Centro Militar, na capital Federal”.

Ao procurar outras pistas que nos apontassem a presença das professoras nos impressos, observamos um grande destaque das alunas referente à presença nas aulas e à nota final. A média final alcançada pelas alunas no percorrer do curso, obtida por meio das sabatinas, dos exames finais e das monografias, proporcionava‐lhes os primeiros lugares na classificação geral. Os que conquistavam essa posição eram privilegiados nas escolhas das cadeiras das melhores escolas, localizadas na capital, Vitória, com maior facilidade de mobilização entre as instituições. Os professores que ocupavam as menores classificações, normalmente, eram transferidos para as escolas do interior do estado. Das professoras que publicaram suas monografias em impressos, todas conquistaram boa classificação na média final.

Diante desses indícios, percebemos que as 23 professoras, por seus esforços e desempenhos na EsEFES, ganharam evidência durante suas formações acadêmicas, demonstraram que se apropriaram de modo significativo das discussões apresentadas na escola e conseguiram dialogar com os saberes e transformá‐los em monografias.

Em referência às colunas educacionais presentes no Diário da Manhã e aos artigos publicados no impresso pedagógico Revista de Educação, podemos observar que se configuravam para a EsEFES como importantes lugares de circulação de saberes da educação física discutidos na instituição para a formação de professores. Mas o que teria levado ao encerramento das publicações no Diário da Manhã, em 1933, e iniciada a publicação na Revista de Educação em 1934?

Um dos motivos levantados para o encerramento das publicações no Diário da Manhã, um impresso de variedades, pode ter sido o surgimento de um periódico pedagógico, a Revista de Educação, considerado adequado para a publicação de trabalhos produzidos pelos professores capixabas sobre diversos temas educacionais, inclusive os da educação física. Na Comissão da Banca Examinadora do período letivo de 1934, ainda percebemos a presença de um dos editores da Revista de Educação, Claudionor Ribeiro, o que pode significar um indício que justifica a publicação das monografias nesse impresso.

As monografias publicadas eram transcritas na íntegra. Costumavam vir acompanhadas, no fim do texto, de uma nota sobre a classificação obtida na avaliação da banca, que informava aos leitores se tratar de uma produção dos alunos da EsEFES. Evidenciavam para a sociedade capixaba as atividades que eram praticadas na instituição e os avanços científicos apresentados pelos alunos no desenvolvimento de uma teorização que justificava a presença da educação física na sociedade e sua inserção nos sistemas educacionais.

Para Chartier (1991), dois dispositivos são essenciais para mediar o mundo do texto e o mundo do leitor, os quais provêm das estratégias empregadas pelos autores na escrita dos textos e dos que resultam de uma decisão do editor, ou de uma exigência da oficina de impressão. Assim, “[...] não há texto fora do suporte que lhe permite ser lido e não há compreensão de um escrito, qualquer que seja, que não dependa das formas pelas quais atinge um leitor” (Chartier, 1991, p. 181). Ao considerar essa informação, acreditamos que as professoras produziram, ou melhor, podemos dizer que reproduziram os discursos presentes na EsEFES, mas não fizeram isso sem intencionalidades. A (re)produção dos discursos e os elogios presentes em suas escritas se tornam uma tática (Certeau, 1994) usada pelas professoras, que objetivavam alcançar maior reconhecimento, conquistado quando tivessem seus trabalhos selecionados e publicados. Assim, elas passavam a ter voz autorizada no campo discursivo que era instituído no Espírito Santo.

A seleção de alguns trabalhos publicados no Diário da Manhã e na Revista de Educação permite perceber as lutas de representação de determinado grupo social, composto pelos professores da EsEFES, oriundo do CMEF, e por pessoas que exerciam cargos públicos do governo do estado. Eles agem estrategicamente, decidem as discussões que compõem o campo educacional, selecionam os discursos que consideravam legítimos para se pensar o saber docente.

Quando analisamos o Diário da Manhã e a Revista de Educação, observamos que ambos estavam a serviço do governo do Espírito Santo. Segundo Martinuzzo (2013), o Diário da Manhã, criado em 1908, em um primeiro momento, não teve seus interesses satisfeitos com a nomeação do capitão João Punaro Bley para governador, em 1930, mas, aos poucos, passou a caminhar de acordo com o governo intervencionista. Já o impresso pedagógico Revista de Educação, criado em 1934, teve como editores pessoas ligadas a cargos públicos do governo estadual (Schneider et al., 2013). A partir dos interesses dos editores na produção desses impressos, podemos considerá‐los uma rede de práticas “[...] capaz de dar a ver a ambiência em que [o impresso] foi produzido e as relações de força que determinaram sua forma e suas marcas de produção” (Schneider, 2003, p. 39‐40).

Os conhecimentos em circulação nos impressos

Nas monografias produzidas na EsEFES, muitos assuntos foram discutidos. Considerando somente as monografias encontradas nos dossiês dos alunos, fizemos uma categorização dos temas nesses trabalhos, durante a década de 1930, no Espírito Santo. De 129 monografias, delineamos 14 eixos temáticos, conforme o figura 1.2

Figura 1.
(0.1MB).

Temas das monografias dos alunos do Curso de Educação Física na década de 1930

Fonte: Produzido pelos autores.

Por intermédio de ambos os levantamentos, evidenciamos o que era mais discutido na escola e digno de ser publicado para os leitores dos impressos. Ao fazer uma comparação com os temas mais produzidos no curso durante toda a década de 1930 com os temas veiculados, observamos que alguns se mantêm entre os assuntos mais discutidos, como Saúde, Mulher e Infância. Outros temas desapareceram e ainda alguns modificaram a sua ordem de importância, como os Métodos Ginásticos, que ocupavam o primeiro lugar dentre as monografias com maior publicação, em relação ao tema Progresso, que, dentre os mais produzidos na escola, teve somente uma monografia veiculada (fig. 2).

Figura 2.
(0.08MB).

Temas das publicações das professoras nos impressos capixabas

Fonte: Produzido pelos autores.

A circulação dos temas nos impressos determina os saberes que deveriam ser incorporados na prática docente do professor de educação física, demonstra também a relação mantida no estado com o método francês, uma vez que as monografias sinalizavam a relevância do método para o desenvolvimento do ensino da educação física. A adoção do método francês no Brasil e no Espírito Santo era justificada, pois, “[...] em perfeita concordancia com as descobertas cientificas mais recentes, satisfaz cabalmente ás necessidades porque continúa a tradição da escola franceza, que era a mais aceitavel, e tem por fim, em sua evolução, o aperfeiçoamento da raça” (Greppe, 1933, p. 4), trouxe resultados “[...] extraordinariamente salutares á respiração, circulação, nutrição, ao sistema nervoso e cerebro, sobre os ossos e musculos” (Saleto, 1933, p. 11).

Os temas apresentados nas monografias reforçam a perspectiva de que a EsEFES teria adotado o método francês como modelo oficial para seu ensino, conforme já sinalizado por Bruschi et al. (2017), diante das práticas feitas na instituição para a formação dos professores. Nesses discursos está a voz das professoras. Elas reforçam o que os indivíduos no poder esperavam da educação física. Essas mulheres usaram os dispositivos disponíveis na escola para suas escritas, mas elas não eram quaisquer mulheres. Eram normalistas que traziam um outro discurso sobre o porquê da educação física. No entanto, não podiam usar o discurso da ortopedia, da correção dos corpos e da regeneração, pois, com a Revolução de 1930, instaurou‐se outro discurso. Elas não lutam contra esse novo discurso; passam a usá‐lo, pois, em muitos aspectos, ele traz traços do discurso anterior. Ao fazer isso, tornaram‐se aptas a seguir suas carreiras como autoridades na área educacional da educação física.

Considerações finais

Entendemos que a circulação das monografias nos impressos fez parte de um projeto cultural de escolarização da educação física. Foram selecionadas por um projeto editorial que determinava os saberes que deveriam circular, alicerçaram a prática dos professores de educação física em atuação e que recorriam aos impressos como uma forma de estar atualizados sobre as discussões presentes no campo, além de informar a todo o estado a importância que era depositada na educação física.

Ao analisar as monografias da EsEFES, entendemos essa elaboração intelectual como um quesito obrigatório, as observamos como dispositivos de controle, que permitiam à instituição verificar o nível de adesão dos professores ao discurso oficial, mas também se configuram como a memória da educação física. Esses trabalhos ainda expressam as lutas de representação, as estratégias e as táticas produzidas em um momento de profundas mudanças políticas e culturais do entendimento do papel da educação e da educação física na formação das futuras gerações.

As monografias são objetos culturais produzidos, postos em circulação e apropriados. São entendidas também como uma estratégia para o controle da formação dos professores e dos leitores que teriam, com as publicações, um material que expressa as boas práticas no ensino da educação física. Provavelmente, a publicação das monografias era determinada diante das intenções do governo, já que as pessoas que ocupavam o cargo de editor desempenhavam funções importantes no governo de João Punaro Bley e mantinham relação com os militares.

Por meio de indícios deixados pelos documentos, observamos as ações de indivíduos que se encontravam em concorrência. A elaboração das monografias e as relações mantidas no curso podem demonstrar como algumas professoras se apropriaram de um conhecimento considerado superior, que lhes foi apresentado como saber autorizado, e o converteram em monografias, o que garantiria visibilidade aos autores e um capital simbólico (Bourdieu, 1990), permitiram serem reconhecidas na vida pública e fazerem circular suas produções circular em impressos.

Esses indícios representam um jogo de interesses, mas que não se verifica à primeira vista. Só percebemos quando dirigimos nosso olhar para as pistas que os documentos deixaram, mesmo sem a intenção da instituição. Em um período em que as mulheres ainda não tinham um espaço consolidado na vida pública, as professoras se deixaram levar pelo discurso autorizado, publicaram as monografias, elogiaram a escola e seus professores, mas ao fazer isso agiram taticamente. Usaram um discurso de uma sociedade ainda marcada pelo patriarcalismo, que acreditava que a função social da mulher era a procriação e o cuidado de filhos para o desenvolvimento e a proteção da pátria. Existe uma resistência a vivenciar a condição feminina esperada, entretanto elas foram para o espaço de atuação pública e trabalharam como professoras nas escolas e na própria EsEFES, formaram novos professores e produziram conhecimento. Tornaram‐se, assim, protagonistas dos assuntos educacionais da educação física no estado, pois, com suas publicações nos impressos, outros passaram a ter que ouvi‐las e a reconhecer a autoridade que passaram a ostentar.

Financiamento

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – Processo 445012/2015‐3); e Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Encontramos as monografias produzidas até 1939. Destacamos que de 1936 a 1938 não foram oferecidos cursos na EsEFES, em função de que a instituição teria que reorganizar seu currículo para receber a designação de Escola Superior de Educação Física, o que ocorreu somente em 1939.

No tema Outros estão agrupadas as monografias cujos assuntos não possibilitaram uma classificação. Incluímos nesse item também a monografia sobre dança, com apenas um trabalho.

Autor para correspondência. (Marcela Bruschi mbruschi.cefd@gmail.com)
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