Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:407-13 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.10.004
Artigo original
Artes marciais mistas: luta por afirmação e mercado da luta
Mixed martial arts: fighting for statement and market of the fight
Artes marciales mixtas: lucha por la afirmación y mercado de la lucha
Alvaro Rego Millen Netoa,, , Roberto Alves Garciab,c, Sebastião Josué Votreb,d,e
a Universidade Federal do Vale do São Francisco, Colegiado Acadêmico de Educação Física, Petrolina, PE, Brasil
b Universidade Gama Filho, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Centro Universitário de Barra Mansa, Barra Mansa, RJ, Brasil
d Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Bolsista de Produtividade em Pesquisa, Brasil
e Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Educação Física e Desportos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Recebido 09 Fevereiro 2012, Aceitaram 27 Novembro 2012
Resumo

O artigo analisa o processo de construção das artes marciais mistas (MMA), descreve parte da história do valetudo no Brasil, de sua internacionalização, e identifica as marcas de ruptura entre o valetudo e o MMA. Foram consideradas como características próprias da transição do valetudo para o MMA: a profissionalização da categoria; a aceitação pelos veículos de comunicação; o acirramento do controle do corpo e dos códigos de moralidade no ethos dos lutadores; a criação de um novo produto para o mercado da luta; o deslocamento identitário dos lutadores, de representantes de determinada luta para lutadores de MMA.

Abstract

This paper analyses the process of construction of Mixed Martial Arts (MMA). Describes part of the history of “valetudo” in Brazil, its internationalization and identifies the split between “valetudo” and MMA. Own characteristics considered as the transition from “valetudo” to MMA: the professional category; acceptance by media; the tightening of body control and codes of morality in the fighters’ ethos; the creation of a new product to fight market; displacement identity of the “valetudo” fighters to MMA fighters.

Resumen

El artículo analiza el proceso de construcción de las artes marciales mixtas (MMA). Describe parte de la historia del valetudo en Brasil, de su internacionalización e identifica la diferencia entre el valetudo y las MMA. Se consideraron como características propias de la transición del valetudo para las MMA: la profesionalización de la categoría; la aceptación por parte de los medios de comunicación; el refinamiento del control del cuerpo y del código moral en el ethos de los luchadores; la creación de un nuevo producto para el mercado de la lucha; el cambio identitario de los luchadores, de representantes de determinada lucha a luchadores de MMA.

Palavras‐chave
Artes marciais mistas, Valetudo, Mercado, Jiu‐jitsu
Keywords
Mixed martial arts, Valetudo, Market, Jiu‐jitsu
Palabras clave
Artes marciales mixtas, Valetudo, Mercado, Jiu‐jitsu
Introdução

O artigo tem como escopo analisar o processo de construção das artes marciais mistas (MMA).1 Para tal, relatamos uma parte da história do valetudo no Brasil, de sua internacionalização, e identificamos algumas marcas de ruptura que levaram ao surgimento do MMA. Procuramos compreender até que ponto a mudança na forma de se denominar essa luta – de valetudo para MMA – foi mais que uma peça de marketing, com a intenção de suavizar a imagem da modalidade, de modo a torná‐la um produto de consumo com mais aceitação. Nesse sentido, o foco do relato foi pautado na identificação e demarcação das diferenças entre o valetudo e o MMA.

A motivação para investir numa análise dessa natureza é fruto do crescente apelo midiático que a modalidade tem obtido nos últimos anos, principalmente nos Estados Unidos, mas também em outros países, como Canadá, Brasil, Japão e Inglaterra. Outro ponto de interesse para a análise, e que se relaciona indissociavelmente com o apelo midiático, é a característica mercadológica dada ao MMA, especialmente em sua forma de expressão mais destacada, a promovida pela organização chamada Ultimate Fighting Championship (UFC). O fato é que o MMA se popularizou nos últimos anos e passou a atingir o grande público, para além dos praticantes de artes marciais – que há aproximadamente 20 anos constitui um mercado consumidor de eventos dessa natureza, com proporções consideravelmente menores do que as atuais.

Com o crescimento do público consumidor, principalmente nos países citados anteriormente, a modalidade tem apelo midiático semelhante ao dos esportes mais populares. Em alguns veículos de comunicação brasileiros, especialmente em seus grandes portais jornalísticos da internet, o MMA aparece como a segunda modalidade esportiva mais noticiada, atrás apenas do futebol. Um indício que contribui para afirmar esse potencial no Brasil foi a cobertura e transmissão (ao vivo) feita – no início de 2012 – pelo principal canal aberto de televisão do Brasil, a Rede Globo, que contou com a participação de seu mais conhecido narrador esportivo, Galvão Bueno. Outra indicação interessante é que essa mesma emissora abordou a temática do MMA no seu horário de maior audiência, em sua telenovela Fina estampa – exibida entre agosto de 2011 e março de 2012.

Pela forma com que tem se desenvolvido, a potencialidade de crescimento do MMA parece ser ainda maior do que a proporção já atingida. Sob essa perspectiva, o Brasil, que tem promovido a imagem de país do futebol, também pode vir a ser o país do MMA. Note que, mesmo que esteja muito distante da popularidade do futebol, e de seu potencial mercadológico, haveria pertinência numa afirmação identitária de nacionalidade, uma vez que a gênese do MMA, ou parte dela, pode ser localizada no valetudo desenvolvido no Brasil ao longo do século XX e, na atualidade, atletas brasileiros e americanos rivalizam pela supremacia no MMA.

No que se refere à participação feminina, uma primeira análise nos leva à compreensão de que, assim como no futebol, a construção da representação social do MMA tem um viés de gênero consideravelmente demarcado. O próprio UFC só passou a incluir mulheres em suas competições a partir de sua 157ª edição, em fevereiro de 2013. Apesar do crescimento da população de mulheres ligadas ao MMA, tanto entre as que o praticam quanto as que o consomem, e do atual destaque da lutadora Ronda Rousey, cujas lutas estão entre as mais consumidas pelos espectadores do UFC, a participação de mulheres em lutas de MMA ainda é pequena se comparada com a dos homens. Essa característica pode estar ligada a uma questão de (não) aceitação social, pois a imagem dos lutadores de MMA está fortemente associada a uma noção de masculinidade. Nesse espectro, para conseguir se inserir e permanecer nas grandes empresas de MMA, uma lutadora profissional precisa conviver com a ambivalência de ser forte, agressiva e competitiva sem se distanciar de uma representação conservadora e, em alguma medida, erotizada do que é ser mulher. Para ser valorizada no meio, além de vencer suas lutas, essa mulher precisa explorar uma imagem corporal sensualizada.

A produção sobre artes marciais mistas

O MMA ainda não tem uma produção acadêmica significativa no Brasil. Na revisão de publicações nacionais que fizemos foram encontrados apenas dois itens: um artigo (Thomazini et al., 2008), publicado no periódico Pensar a Prática, e uma dissertação de mestrado (Nunes, 2004), defendida no Programa de Pós‐Graduação em Ciências do Movimento Humano da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tanto o artigo quanto a dissertação são relatórios de pesquisas etnográficas em academias de lutas que lidam, de algum modo, com o MMA. Ambas as investigações trabalharam com os conceitos de controle do corpo e código de moralidade de Wacquant (2002), desenvolvidos a partir de sua pesquisa etnográfica em uma academia de boxe de Chicago, nos EUA. Trataremos mais à frente dessas pesquisas e de seus achados, numa seção específica na qual abordaremos os conceitos de Wacquant.

Com relação à produção internacional sobre MMA, ela é relativamente volumosa, principalmente em periódicos dos EUA. Sem pretender fazer uma revisão sistemática dessa produção, e tampouco apontar para o estado da arte dela, apresentaremos algumas publicações que abordam a temática do MMA por um viés semelhante ao nosso. A primeira que nos chama a atenção é o ensaio teórico de Bottenburg e Heilbron (2006) que dialoga com a teoria do processo de esportivização de Elias e Dunning (1992) e aponta para as possibilidades e limitações dessa teoria para compreender o surgimento, a disseminação e as transformações ocorridas no valetudo durante os anos de 1990. Para os autores, a história das artes marciais durante o transcorrer do século XX foi um bom exemplo do processo de esportivização – uma vez que imprimiu um controle civilizador às práticas de lutas então existentes. Já o aumento do número de lutas de valetudo no fim do mesmo século foi uma tendência oposta, um processo de desesportivização. O fator decisivo para a predominância desse processo foi a emergência de um novo mercado, que teve como principal veículo os pacotes pay‐per‐view de televisão. Isso permitiu que os empresários da mídia vendessem eventos não sancionados, que dependiam principalmente das exigências e idealizações dos espectadores, que estavam menos interessados nas especificidades reguladoras de determinado esporte do que na excitação produzida pelas transgressões das regras e da vida comum.

Garcia e Malcon (2010) também se valeram de Elias e Dunning (1992) para analisar as tendências de violência no esporte por meio de um exame do surgimento do MMA. O artigo entende o crescimento do MMA como um indício de um processo descivilizador (decivilizing) – remetendo‐se a Elias (1994) – e desesportivizador (desportizing) que seria explicado pela informalização da busca da excitação. Por outro lado, os autores argumentam que apesar de alguns relatos acadêmicos e parte da opinião pública apontarem para a problemática da violência no MMA, o autodomínio da violência é uma das características do MMA.

A composição da identidade dos lutadores foi outra temática observada nas publicações sobre o MMA. Spencer (2009) fez uma pesquisa etnográfica, numa academia de MMA nos EUA, em que procurou elucidar o processo social que integra a produção do habitus – conceito de Bourdieu (2007) – do lutador. O autor salientou a importância dos “calos corporais” adquiridos durante os treinamentos para suportar os rigores do ringue. A construção desses “calos” seria um processo de aprendizagem de técnicas corporais reflexivas – na perspectiva de Crossley (2001).

Hirose e Pih (2010) analisaram os tipos de masculinidade assumidos e representados pelos lutadores de MMA. De acordo com eles, os lutadores que priorizam o uso de técnicas de golpes traumáticos (socos, chutes, joelhadas e cotoveladas) representariam o tipo de masculinidade hegemônica do homem branco americano. Já os que privilegiam as técnicas de luta no solo (derivadas, principalmente, do jiu‐jitsu e do wrestling) teriam uma aproximação com masculinidades marginalizadas. Tal aproximação seria consequência da origem asiática das lutas de solo.

O valetudo no Brasil

Antes de iniciar nosso breve relato sobre o valetudo no Brasil, destacamos que a versão historiográfica da qual nos nutrimos, por meio das fontes consultadas para a elaboração deste texto,2 tem como pano de fundo a história da família Gracie. Trata‐se de um clã de lutadores brasileiros com notoriedade no meio das artes marciais no Brasil e, com a popularização do consumo do MMA, também em outros países, especialmente nos EUA. Como se pode ver no texto, a essa família é creditada grande parte do desenvolvimento do que atualmente é conhecido no mundo como Brazilian jiu‐jitsu, ou Gracie jiu‐jitsu. Obviamente, a narrativa historiográfica que parte dos fatos e feitos dessa família não retrata a história do valetudo no Brasil. Há muitas outras histórias que poderiam ser narradas. Assumimos, nesse sentido, a opção pela perspectiva da história em migalhas ou da história fragmentada, pela perspectiva de uma história múltipla, escrita no plural. Sem a pretensão, portanto, de narrar uma história que de conta de tudo e do todo (Dosse, 1992; Reis, 2000). A opção pela apresentação desse recorte em específico foi consequência tanto da disponibilidade das fontes como do protagonismo notoriamente exercido pela família Gracie, especialmente no momento da internacionalização do valetudo. Nesse sentido, assumimos que a história narrada a seguir é a versão que prevaleceu, é, pois, a versão dos vencedores. Certamente, as narrativas historiográficas sobre os Gracie, e as dos próprios Gracie, não são neutras. Essas narrativas valorizam o produto da família – o Gracie jiu‐jitsu.

Sob a perspectiva supracitada, a história dos confrontos corporais conhecidos como valetudo tem sua gênese, no Brasil, nos desafios feitos nos portos e circos no início do século XX. Menezes e Ferreira (2009) registram que em 1914 chega ao Brasil o imigrante japonês Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma. Esse homem era praticante do antigo jiu‐jitsu e graduou‐se faixa preta 3° Dan na escola de judô Kodokan. No Brasil ele se identificou como lutador de jiu‐jitsu, pois a filosofia do judô Kodokan era contrária aos desafios de valetudo. Após vencer diversos confrontos nos portos do Rio de Janeiro, viajou para Belém do Pará, onde venceu homens mais fortes do que ele em lutas de valetudo, com o uso das técnicas dos antigos samurais.

De acordo com Reila Gracie (2008), Gastão Gracie conheceu Conde Koma em Belém e, entusiasmado com as técnicas e destreza do japonês, levou seu filho Carlos para ter aulas com ele. O rapaz aprendeu rapidamente e migrou para Rio de Janeiro, em 1922, com o objetivo de ensinar o jiu‐jitsu que aprendera com o Conde Koma. E, junto com os irmãos George e Hélio, montou uma academia que ficava em um dos quartos de sua casa.

Com o transcorrer de décadas de prática e ensino do jiu‐jitsu, os irmãos Gracie elaboraram um novo sistema de técnicas e de regras para essa arte marcial, desvincularam‐na das regras internacionais da Kodokan de Jigoro Kano (judô) e criaram a modalidade (e consequentemente a marca) Gracie jiu‐jitsu. Bem mais tarde, a partir da década de 1990, a luta desenvolvida pelos irmãos Gracie veio a ser reconhecida internacionalmente por sua notável eficiência e passou a ser conhecida como Brazilian jiu‐jitsu. Porém, para alçar a sua modalidade de luta a esse destaque, um longo caminho foi percorrido por toda a família, que provocou e aceitou todos os tipos de desafios contra lutadores do próprio jiu‐jitsu, do boxe, da luta livre e da capoeira. Desafios que se tornaram combates com diferentes regulamentações, ou mesmo sem regras, com quimonos ou sem quimonos, com luvas ou sem luvas, incluindo lutas nas quais eram permitidos os chamados golpes baixos.

O destaque que é dado ao jiu‐jitsu ao se falar de valetudo no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, é em grande parte consequência da repercussão dos desafios lançados e vencidos pela família Gracie. Foi por meio dessas lutas que os Gracie conseguiram atrair o aparato midiático e, por conseguinte, ganharam apelo público.

Os desafios das artes marciais

No decorrer das décadas de 1920 e 1930, as lutas que predominavam no Brasil eram o boxe e a capoeira, ensinados para o público em geral, e o jiu‐jitsu dos irmãos Gracie, que era ensinado principalmente para a elite carioca (Gracie, 2008). Os primeiros eventos de valetudo dessa época aconteceram nas cidades do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de São Paulo.

Com o interesse de comprovar a eficiência do jiu‐jitsu desenvolvido pela família Gracie, Carlos desafiou o campeão japonês de jiu‐jitsu, Geo Omura, considerado pela colônia nipônica o “rei da chave de braço”.3 A luta aconteceu em São Paulo, em um lugar chamado Madison Square Garden. Seu oponente era maior e mais pesado do que ele e, após arremessá‐lo por inúmeras vezes, Carlos leva a luta para o chão e encaixa uma chave de braço. Omura não desiste e Carlos estala as articulações do braço do japonês. Mesmo com um dos braços lesionado, Geo Omura continua na luta, na defensiva, e o resultado foi um empate.

Após esse combate, Carlos retorna para o Rio de Janeiro com mais visibilidade, mas o jiu‐jitsu Gracie ainda não era protagonista das notícias sobre lutas publicadas nos jornais da então capital federal. Diante disso, Carlos teve a ideia de fazer os desafios públicos, por meio dos jornais, nos quais desafiava outros lutadores por dinheiro e para mostrar que o jiu‐jitsu era superior às outras lutas. Na época, os empresários já começavam a identificar a lucratividade das lutas e inauguram a casa Guadalupe de combate para promover o valetudo. O primeiro desafio aconteceu entre o jiu‐jitsu e a capoeira, Carlos Gracie lutou contra Samuel. Essa luta ficou marcada pelos apertões de Samuel nos testículos de Carlos. Esses golpes baixos fizeram com que algumas regras fossem inseridas nas lutas de valetudo, mesmo assim essas proibições oscilaram de evento para evento (Gracie, 2008).

A família Gracie já tinha, desde a década de 1930, interesse por outras modalidades de luta, especialmente pelo boxe inglês. Em contrapartida, lutadores oriundos de outras artes marciais passaram a treinar o Gracie jiu‐jitsu para se tornar mais bem preparados tecnicamente para os combates. Verifica‐se, desse modo, uma das possíveis gêneses de uma importante marca de ruptura entre o que foi o valetudo e o que é o MMA atualmente. No MMA, como denota a sua nomenclatura, para se tornarem competitivos, os lutadores têm de dominar habilmente uma variada gama de técnicas de combate, oriundas de diferentes lutas e artes marciais.

O sucessor de Carlos Gracie, na representação da família nos combates que promoviam sua modalidade, foi Hélio Gracie, seu irmão mais novo. Hélio tinha as características ideais para levar o nome e a supremacia do Gracie jiu‐jitsu adiante. Dedicado e habilidoso nas técnicas de luta e com uma característica física aparentemente desfavorável – tinha o corpo franzino. Essa característica serviria de base para um dos principais argumentos promocionais do Gracie jiu‐jitsu, ainda hoje usado, que destaca a sobrepujança do mais fraco sobre o mais forte por meio das técnicas do jiu‐jitsu.

A estreia de Hélio Gracie foi em 1932, com 18 anos, quando ganhou do boxer Antônio Portugal. Inicia‐se então a história de outro ícone do Gracie jiu‐jitsu, que, ao dar prosseguimento ao trabalho de Carlos, foi responsável por boa parte da adaptação e criação de suas técnicas. Hélio fez confrontos memoráveis e venceu praticamente todos.

Concomitantemente ao sucesso de Hélio, seu irmão George também elevava o nome do jiu‐jitsu diante de outras lutas. Em um combate de valetudo contra o lutador de luta livre Manuel, George venceu o oponente com socos bem encaixados e finalização,4 mostrou que já combinava dois estilos de lutas, boxe e jiu‐jitsu. Outro fato interessante ocorrido nessa luta foi a grande presença de mulheres no público, o que surpreendentemente demonstra o interesse das mulheres pelas lutas de valetudo nos anos de 1940.

No fim da década de 1950, a família Gracie consegue um espaço na programação de um veículo midiático que começava a se fazer presente no Brasil, a televisão. O programa Heróis do Ringue era transmitido pela TV Continental e era Carlos quem selecionava os lutadores e compunha os embates, Hélio atuava como apresentador e Carlson Gracie, filho de Carlos, destaca‐se nos combates. Desafios entre diversas academias eram feitos para o programa de TV. Em uma dessas lutas um dos oponentes acertou um soco nos testículos do adversário e em outra um dos lutadores esmurrou o outro desvairadamente após montá‐lo.5 Essas cenas violentas fizeram com que o programa Heróis do Ringue fosse retirado do ar. O estopim foi a exibição ao vivo de uma lesão grave que aconteceu em um de seus desafios – o lutador de Gracie jiu‐jitsu João Alberto aplicou uma chave de braço em José Geraldo, lutador de luta livre. Após esse episódio, o valetudo ficou estigmatizado como um espetáculo violento e as exibições nas redes de televisão brasileiras foram interrompidas. Por muitos anos os desafios públicos se tornaram raros e aconteciam a portas fechadas (Gracie, 2008).

Em 1980, Rickson Gracie, filho de Hélio, faz sua estreia, aos 21 anos, nos eventos de valetudo em luta realizada em Brasília. Rickson venceu o Rei Zulu, um experiente lutador de valetudo, ao aplicar um estrangulamento conhecido como mata‐leão. Três anos depois, aconteceu a revanche no Maracanãzinho. Diante de um público de 15 mil pessoas, Rickson dominou as costas de Rei Zulu e aplicou‐lhe novamente um estrangulamento, venceu a luta e fortaleceu a imagem de eficiência do jiu‐jitsu ensinado pela família Gracie.

A internacionalização do valetudo

Rórion Gracie, o filho mais velho de Hélio, usou a mesma tática da família para promover o Gracie jiu‐jitsu nos EUA – país para o qual emigrou no fim da década de 1970. Começou a fazer desafios que valiam dinheiro em jornais e as lutas aconteciam em sua academia ou qualquer outro lugar. Rórion e seus irmãos, com o emprego das técnicas de sua arte marcial, venciam com facilidade os adversários.

A visibilidade surgiu a partir da associação de Rórion com o seu aluno Art Davis – especializado em marketing – para a promoção de um show de valetudo para a TV. Surge assim, em 1994, o UFC, com as lutas transmitidas pelo sistema pago de TV nos EUA, o pay‐per‐view. Royce Gracie, também filho de Hélio, foi o escolhido para representar o Gracie jiu‐jitsu. Assim como o pai, Royce tem o corpo franzino, mas mostrou a então supremacia das técnicas do Gracie jiu‐jitsu e venceu as primeiras edições do UFC. Essas primeiras lutas se assemelhavam a uma briga de rua, com pouquíssimas regras e sem tempo estipulado para acabar. Além disso, para ser campeão dessas primeiras edições, Royce precisou sobrepujar três lutadores maiores e mais fortes do que ele em cada evento (Gracie, 2008).

Na quarta edição, em função da impossibilidade de se controlar o tempo das lutas, o programa de pay‐per‐view saiu do ar a dois minutos do fim da luta principal. O dinheiro teve de ser devolvido, causou um prejuízo que foi compensado com a própria repercussão do fato. O episódio chamou a atenção da mídia para a próxima edição, para Royce e para o Gracie jiu‐jitsu. No quinto UFC, Royce fez apenas uma luta contra Ken Shanrock, que havia treinado jiu‐jitsu para enfrentá‐lo. A luta terminou empatada aos 36 minutos. Esse fato gerou uma pressão para que as regras das lutas fossem modificadas. Ficou nítido que a adoção do controle do tempo das lutas era indispensável para a viabilidade do evento. Para os Gracie, tal modificação não seria benéfica, uma vez que a eficiência das técnicas de seu jiu‐jitsu dependia da ausência de limite de tempo. Cansar os seus adversários e surpreendê‐los, quando cansados, com uma finalização era sua estratégia de luta mais importante. A consequência desse impasse foi a venda das cotas pertencentes a Rórion para seus sócios e a interrupção da participação de Royce no evento.

A saída dos Gracie do UFC explicita o que estava em jogo no momento e o que era considerado mais importante para a família. Notem que, apesar de o retorno financeiro ser importante, e provavelmente foi o fator preponderante para a venda de suas cotas, a valorização de seu produto (o Gracie jiu‐jitsu) era fundamental para Rórion. Até aquele momento, o UFC era visto como um veículo que favoreceria essa valorização. Não serviria mais a esse fim caso o Gracie jiu‐jitsu fosse derrotado na arena de luta.

Após a saída da família Gracie do UFC, o evento passou por anos de ostracismo e o foco do valetudo passou a se concentrar nos eventos feitos no Japão. O primeiro a se destacar foi o Japan Open, evento que contribuiu para consagrar Rickson Gracie internacionalmente. Rickson venceu várias edições do Japan Open, em sua segunda edição o público chegou a 40 mil pessoas. Rickson se torna um ídolo no Japão.

Em 1997, um novo evento no Japão – o Pride FC6 – começa a se destacar e viria a significar um marco para a profissionalização do valetudo e o início de sua transição para o que hoje conhecemos como MMA.

Marcas de ruptura entre o valetudo e o artes marciais mistas

Os eventos de valetudo se difundiram pelo mundo e algumas regras começaram a ser universalizadas, como o uso de luvas, a proibição de cabeçadas, golpes na parte posterior da cabeça e o controle do tempo. No Pride FC essas regras já existiam e foram bem recebidas no Japão.

Porém, foi o empreendedor americano Dana White quem melhor usou o potencial mercadológico dos eventos de valetudo. Em 2001 ele se tornou o principal dirigente do UFC, função que ainda exerce, e obteve sucesso em seus planos para popularizá‐lo mundialmente e ultrapassar o sucesso do antigo modelo e de seu concorrente direto naquele momento, o Pride FC. Em sua concepção, para que um evento de valetudo pudesse atingir um mercado mais amplo e global as mudanças deveriam ser mais significativas do que as até então feitas – modificações nas regras.

A mudança mais significativa em termos simbólicos aconteceria na denominação, pois o valetudo tinha sua imagem associada à violência, era socialmente questionado e, por consequência, não tinha fácil acesso aos principais meios de comunicação.7 A mudança do nome, de valetudo para MMA, trouxe uma nova concepção sobre a modalidade, na qual diferentes marcas de ruptura se fazem presentes. Tentaremos, a seguir, identificar algumas delas.

Talvez a marca de ruptura mais nítida seja a criação do novo modelo8 de luta e uma forma especial de se identificar com esse modelo. Enquanto no valetudo representantes de diferentes lutas se enfrentavam para afirmar a eficiência delas, no MMA os lutadores assumem outra característica. Apesar de ainda identificarem suas origens com determinada modalidade, hoje quem entra nas arenas dos grandes eventos é considerado um lutador de MMA. As marcas de identidade com uma luta em específico se deslocam para o MMA. Não se veem mais, sem qualquer exceção, lutadores profissionais de MMA dedicados ao treinamento de apenas uma modalidade de luta. Para se tornarem competitivos, os lutadores de MMA precisam dominar técnicas de diferentes lutas, tanto das de golpes traumáticos (boxe, muay thai, karatê, entre outras) como daquelas que usam alavancas e projeções corporais (jiu‐jitsu, wrestling, judô, etc.).

A segunda marca pode ser identificada no episódio da venda das cotas do UFC pertencentes a Rórion Gracie. A opção pela venda foi sustentada pela inviabilidade de, com a imposição de um controle do tempo das lutas, manterem a supremacia do Gracie jiu‐jitsu. Para Rórion, o que estava em jogo era a afirmação do Gracie jiu‐jitsu e sua consequente valorização simbólica e mercadológica. Sua família levou quase um século para criar e valorizar a sua marca, seria contraproducente participar de um evento em que a imagem dessa marca pudesse ser desgastada. Com o surgimento do MMA e a consolidação da profissionalização da modalidade, cria‐se um novo produto – o próprio MMA. O que está em jogo para os lutadores não é mais a afirmação de sua luta (de origem), mas a sua subsistência enquanto profissional de MMA.

Junto com a profissionalização veio um trabalho mais denso de exposição midiática, que repercutiu no crescimento dos canais de comunicação que têm incluído o MMA em suas pautas e também no aumento considerável da intensidade com que noticiam essa modalidade. Para conseguir essa exposição, eventos como o UFC têm se valido de diferentes estratégias, desde a geração intencional de polêmicas entre os atletas, em grande parte dramatizações, até a criação de um reality show, o The Ultimate Fighter. O fato é que tais estratégias lograram êxito e o nome MMA se popularizou e despertou o interesse dos patrocinadores, que identificaram um público cada vez mais diverso – crianças, adultos, homens e mulheres, lutadores ou não.

Controle do corpo e código de moralidade

Wacquant (2002) publicou uma obra, que se tornou referência para as análises sociais sobre lutas, em que apresenta os resultados de uma pesquisa etnográfica feita em uma academia de boxe num subúrbio de Chicago. Uma das construções teóricas estabelecidas pelo autor serviu de base para as poucas pesquisas sobre MMA publicadas no Brasil. Essa teoria discute parte do ethos dos boxeadores investigados, especificamente os modos de regulação da violência estabelecidos por meio do controle do corpo e de um código de moralidade.

Nas duas pesquisas brasileiras sobre MMA a que tivemos acesso (Nunes, 2004; Thomazini et al., 2008), essa temática foi explorada e os autores corroboraram as ideias de Wacquant. Ambos os autores demonstraram, por meio dos dados coletados em suas etnografias, que os lutadores de MMA também desenvolvem um controle do corpo (ou de si) e um código de moralidade que canaliza suas técnicas para a luta feita nas academias e nas arenas de combate. As brigas de rua e a violência gratuita são vistas como um estorvo para a reputação do MMA e também para as suas próprias carreiras profissionais. Consideramos as reinterpretações de Nunes (2004) e Thomazini et al. (2008), a partir da teoria de Wacquant (2002), válidas e importantes para o desenvolvimento da reflexão sobre essa prática corporal. Tentaremos, portanto, contribuir com a observação de mais uma nuance, ao levar em consideração essa construção teórica na transição do valetudo para o MMA. Para tal, relembraremos alguns eventos públicos e notórios (para os lutadores que viveram a época).

No auge dos eventos do valetudo no Brasil, especialmente as décadas de 1980 e 1990, os desafios entre lutadores de diferentes artes marciais eram frequentes. Tais desafios não raro chegaram às vias de fato e tiveram como palco as próprias academias de lutas ou ainda locais públicos, como estacionamentos de shoppings centers, clubes que sediaram competições e as praias do Rio de Janeiro. Um caso emblemático está registrado em vídeo público na internet9 e ocorreu na praia da Barra da Tijuca, nos anos de 1980. Trata‐se de uma luta entre Rickson, considerado o melhor lutador da família Gracie de sua geração, e Hugo Duarte, um dos mais importantes representantes da luta livre carioca.

Os confrontos referidos acima não se caracterizavam como uma briga de rua e uma violência gratuita, pois havia de algum modo regulações que os ordenavam. Não eram brigas generalizadas e não há relatos de espancamentos ou coisa parecida. A lógica que prevalecia era quase a mesma dos confrontos de valetudo com juízes e organizados em arenas. O que estava em jogo também era a afirmação de uma arte marcial. Mas havia uma diferença, pois os confrontos em locais públicos muitas vezes foram desencadeados por problemas de ordem pessoal entre os lutadores.

Notem que no MMA os desafios e desavenças entre lutadores ainda se fazem presentes. Há lutadores famosos pelas suas provocações, veiculadas em entrevistas e em sites de relacionamento da internet. Nos eventos organizados pelo UFC, a pesagem dos atletas, feita no dia anterior ao das lutas, usualmente é palco de provocações e tensões. No entanto, essas desavenças, em grande parte, se tratam de estratégias para a promoção das lutas e algumas vezes para a promoção pessoal. Os lutadores são orientados para representar e adotar determinado discurso que vise a promoção da luta. Atualmente, os lutadores profissionais parecem adotar um código de conduta para essa nova modalidade, no qual não há lugar para embates públicos e lutas desencadeadas por diferenças pessoais. O que está em jogo são suas carreiras profissionais. Consideramos, portanto, que as características assumidas pelo MMA, anunciadas por meio de suas marcas de ruptura com o valetudo, especialmente o processo de profissionalização e a maior exposição midiática, serviram para, de certo modo, acirrar o controle do corpo e o código de moralidade dos lutadores.

Considerações finais

Concordamos com Nunes (2004) e Thomazini et al. (2008) quando consideram que o controle do corpo e o código de moralidade do lutador de boxe, descritos por Wacquant (2002), também são encontrados no ethos dos lutadores de MMA. E, ainda, consideramos que na transição do valetudo para o MMA essas características se acirraram, constituíram uma das marcas de ruptura que procuramos identificar neste ensaio.

Outra marca de ruptura importante foi a criação de um novo modelo de lutas, no qual não basta ser eficiente em apenas uma modalidade. Esse novo modelo, ao inviabilizar a manutenção do treinamento de uma luta em específico, acabou por deslocar a identidade dos lutadores de sua luta de origem para o próprio MMA. Os atletas passaram a se identificar como lutadores de MMA.

O mercado da luta também apareceu como uma questão central em nossas reflexões sobre a transição do valetudo para o MMA. Mesmo no valetudo havia uma importante preocupação com a venda de um produto. No entanto, o produto a ser vendido já existia. Eram as artes marciais que os lutadores defendiam – com destaque para o Gracie jiu‐jitsu. No MMA, cria‐se um novo produto a ser vendido. E, por fim, a aceitação do MMA pelos meios de comunicação provavelmente foi consequência do sucesso da criação do novo produto.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Sigla do termo original em inglês, Mixed Martial Arts.

Foram consultados livros, periódicos e uma dissertação de mestrado. Assim como nossa própria trajetória, enquanto professores e/ou praticantes de artes marciais, nos propiciou acesso a informações das quais lançamos mão para a construção do relato. Também foi feita uma entrevista exploratória com um informante de elite – atualmente atua como técnico e organizador de eventos de MMA no Brasil e já treinou atletas com destaque internacional, como os irmãos Rodrigo (Minotauro) e Rogério (Minotouro) Nogueira.

Golpe de jiu‐jitsu no qual a articulação do cotovelo é superestendida, o que leva à submissão (desistência da luta) ou a uma contusão.

Finalização é o nome dado ao término de uma luta por submissão do adversário, ou interrupção do árbitro, em decorrência de uma chave de articulação ou estrangulamento.

Posicionamento no qual um dos lutadores permanece deitado com as costas no chão e o outro sobre ele, dominando‐o, montado em seu tórax.

Evento de MMA entre 1997 e 2007.

Um exemplo emblemático é o caso das Organizações Globo no Brasil. Durante muito tempo nenhuma notícia sobre eventos dessa natureza foi veiculada nos periódicos, nas rádios e nos canais de televisão dessa empresa de comunicação.

Não entendemos que o MMA já possa ser considerado uma nova luta. Trabalhamos com a ideia de modelo para indicar que há uma nova forma de se lidar com as lutas já existentes. Como o próprio nome aponta, no MMA os atletas precisam mixar diferentes lutas. No entanto, acreditamos que num futuro próximo o MMA se tornará uma nova luta.

É possível encontrar essas filmagens no YouTube.

Autor para correspondência. (Alvaro Rego Millen Neto amillen@gmail.com)
Copyright © 2015. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2016;38:407-13 - Vol. 38 Núm.4 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.10.004