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DOI: 10.1016/j.rbce.2018.03.025
O discurso da saúde entre corredores: um estudo com participantes experientes da Prova Tiradentes
The speech of health between runners: a study with experienced participants of course Tiradentes
El discurso de la salud entre corredores: un estudio con participantes experimentados en la Prueba Tiradentes
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Jeferson Roberto Rojoa, Fernando Augusto Starepravob, Marcelo Moraes e Silvaa,
Autor para correspondência
marcelomoraes@ufpr.br

Autor para correspondência.
a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
b Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Pós‐Graduação em Educação Física, Maringá, PR, Brasil
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Recebido 21 Dezembro 2016, Aceitado 19 Março 2018
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Tabela 1. Apresentação do perfil dos participantes da pesquisa
Tabela 2. Concluintes com tempo abaixo de 40 minutos
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Resumo

O objetivo do presente artigo é analisar como corredores de rua experientes compreendem o discurso da prática da corrida como busca pela saúde. O estudo, qualitativo, foi feito com o uso de entrevistas semiestruturadas como instrumento de pesquisa. Foram entrevistados oito corredores de rua do sexo masculino com mais de 15 anos de experiência na Prova Rústica Tiradentes. O grupo pesquisado apontou que o discurso da saúde colaborou para o aumento no número de praticantes, fato que acarretou numa alteração do perfil dos corredores, além de que o principal elemento motivador dos participantes passou de uma vertente competitiva para uma busca de uma vida saudável. Conclui‐se que o discurso está disseminado no pensamento dos corredores, ele é apresentado em alguns momentos com elementos positivos e em outros com negativos.

Palavras‐chave:
Atividade física
Corrida de rua
Corredores
Saúde
Abstract

The purpose of this article is to analyze how experienced runners understand the speech of running as quest for Health. The qualitative study, was carried out using as research instruments semi structured interviews. Were interviewed 8 male runners with at least 15 years of experience. The researched group pointed out that the discourse of Health contributed to the increase in the number of practitioners, factor which resulted in changing the profile of the runners, besides that changed the main motivator of the participants, from a competitive aspect to a search for healthy lifestyle. It is concluded that the speech is widespread in the thought of the runners, being presented at some moments as positive elements already in another as negative.

Keywords:
Physical activity
Running
Runners
Health
Resumen

El objetivo de este artículo es analizar cómo los corredores experimentados conciben el discurso de la práctica de carreras como búsqueda de la salud. El estudio cualitativo se ha realizado utilizando entrevistas semiestructuradas como instrumento de investigación. Se entrevistó a 8 corredores del sexo masculino con más de 15 años de experiencia. El grupo de investigación encontró que el discurso de la salud contribuyó al aumento del número de practicantes, factor que ha cambiado el perfil de los corredores, además de cambiar la motivación principal de los participantes desde un aspecto competitivo hacia la búsqueda de una vida saludable. Se concluye que el discurso está muy extendido en el pensamiento de los corredores, que se presenta, a veces, como elemento positivo y, a veces, como negativo.

Palabras clave:
Actividad física
Carrera
Corredores
Salud
Texto Completo
Introdução

A partir do fim da década de 1960, amparada principalmente pelas contribuições do médico americano Kenneth Cooper, a corrida de rua começou a ser observada como um instrumento de melhoria na aptidão física e de busca pela saúde (Cooper, 1970; Cooper, 1972; Salgado e Chacon‐Mikahil, 2006; Gotaas, 2009; Scheerder et. al., 2015; Gratão e Rocha, 2016; Shipway e Holloway, 2016). Diante desse fato, a modalidade passou pelo fenômeno denominado jogging boom, que consiste no aumento no número de praticantes e no consequente crescimento no número de eventos (Salgado e Chacon‐Mikahil, 2006; Gotaas, 2009; Scheerder et. al., 2015; Gratão e Rocha, 2016; Shipway e Holloway, 2016).

O crescimento no número de participantes nas provas foi impulsionado, também, pela abertura das competições para a participação popular junto aos atletas de elite. Afinal, a partir da década de 1970 e, principalmente, nos anos 1980 várias corridas começaram a permitir a participação de praticantes de corrida ao lado de atletas de rendimento (Gotaas, 2009; Proni, 2011). Em território brasileiro, esse aumento começou a ser notado um pouco mais tarde, por volta de 1990, assim como apontam Augusti e Aguiar (2011).

Com a permissão da participação de corredores amadores juntamente aos atletas de maior rendimento esportivo, algumas transformações foram observadas no universo das corridas de rua (Oliveira, 2010; Rojo, 2017a; 2017b). O que antes era um esporte exclusivamente competitivo passou a agregar, em um único evento, praticantes com perfis muito distintos (Oliveira, 2010; Rojo, 2017a; 2017b; Gratão e Rocha, 2016).

Como visto, as corridas de rua atualmente se constituem um cenário bastante diverso e complexo, deixaram de ser apenas um evento competitivo e institucionalizado. Nesse sentido, a definição de esporte apresentada por Barbanti (2012) abarca o cenário mais regulamentado:

(...) uma atividade competitiva institucionalizada que envolve esforço físico vigoroso ou o uso de habilidades motoras relativamente complexas, por indivíduos, cuja participação é motivada por uma combinação de fatores intrínsecos e extrínsecos (p. 57).

Com uma conceituação mais plural, Marchi Júnior & Afonso (2007) propõem uma definição polissêmica do esporte, apontam para a existência de distintas formas dos indivíduos se apropriarem das práticas esportivas. Segundo os autores, o esporte se configura nas seguintes manifestações: escolar; lazer; saúde/qualidade de vida; reabilitação; rendimento/performance; e profissional. As observações feitas por Marchi Júnior & Afonso (2007) se mostram bastantes presentes no universo das corridas de rua, uma vez que, conforme apontam Gratão e Rocha (2016), indivíduos com diferentes formas de apropriação da prática podem estar presentes num mesmo evento.

Assim, os novos tipos de corredores que se mostram presentes nas atuais corridas de rua, além de perfis distintos, têm objetivos e motivos de adesão à prática diferentes do que aqueles que a procuram como uma atividade competitiva. A pesquisa de Balbinotti et al, (2015), por exemplo, indica que, além da competitividade, existem como fatores motivadores a sociabilidade, o controle do stress, a saúde, a estética e o prazer. Tais questões também foram corroboradas na pesquisa de Gratão e Rocha (2016).

Ao considerar que a saúde é um elemento que aparece tanto como um dos responsáveis pelo boom ocorrido na corrida de rua quanto como um elemento motivador para a prática, surge a problemática a ser investigada no presente artigo: como corredores de rua experientes participantes da Prova Rústica Tiradentes se apropriam do discurso da prática da corrida de rua como busca pela saúde?

Desse modo, o objetivo geral do presente trabalho é compreender a apropriação do discurso da saúde pelos corredores experientes participantes da Prova Rústica Tiradentes. Já os objetivos específicos do artigo são os seguintes: a) entender quais elementos da corrida de rua os praticantes relacionam com o discurso da saúde; b) verificar as transformações ocorridas nas corridas de rua, apontadas pelos corredores como consequência do discurso de um estilo de vida ativo.

Material e métodos

O presente artigo se caracteriza, conforme aponta Gil (2008), como uma pesquisa qualitativa de cunho exploratório, pois busca descrever as percepções de corredores de rua experientes sobre a relação da corrida de rua com o discurso da saúde. Como instrumento de pesquisa usaram‐se entrevistas semiestruturadas. Apesar de existir um roteiro, essa modalidade de pesquisa torna flexível a fala do entrevistado (Jovchelovicht e Bauer, 2002). O esquema da entrevista, além das informações gerais sobre o corredor, foi composto por sete questões: 1) experiência dos entrevistados na prática da modalidade; 2) percepções sobre o número de participantes no evento; 3) visão sobre o perfil socioeconômico dos corredores; 4) estrutura da prova; 5) rendimento dos atletas participantes da Prova Rústica Tiradentes; 6) cobranças de taxas de inscrição; e 7) participação do poder público na organização do evento.

A escolha de corredores de rua experientes em participação da Prova Rústica Tiradentes ocorreu por essa ser um evento tradicional da cidade Maringá, Estado do Paraná. A corrida foi criada em 1975 como uma homenagem ao patrono das polícias militares do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A Prova foi criada pelo 4° Batalhão da Polícia Militar do Paraná e em 1990 a organização passou a ser responsabilidade da Secretaria Municipal de Esportes (Sesp) de Maringá (Rojo, 2017b).

Foram feitas entrevistas com oito corredores de rua, com inserção contundente na Prova Rústica Tiradentes. Os selecionados têm tempo de prática de corrida de rua superior a 15 anos. Tal tempo de relação com a prova indica que os entrevistados vivenciaram transformações ocorridas nessa competição. A seleção dos depoentes com esse tempo envolvido com a corrida se baseou nas contribuições de Augusti e Aguiar (2011), visto que para os autores essa seria a temporalidade na qual uma profunda mudança começou a ocorrer nas corridas de rua brasileiras.

A seleção desses depoentes foi feita através de indicações de vários indivíduos inseridos no universo das corridas de rua de Maringá. Alguns deles até foram recomendados por outros depoentes no momento de suas entrevistas. Além disso, esse número foi aleatório, pois dependeu do tempo de inserção na Prova Rústica Tiradentes e da sua disponibilidade de participar da pesquisa.

Uma descrição de cada um dos entrevistados pode ser visualizada na tabela 1.

Tabela 1.

Apresentação do perfil dos participantes da pesquisa

Entrevistado  Idade  Sexo  Tempo de prática  Número de participações  Primeira participação 
Corredor 1  62 anos  Masc.  38 anos  35  1976 
Corredor 2  54 anos  Masc.  35 anos  32  1983 
Corredor 3  62 anos  Masc.  a  3b  1975 
Corredor 4  69 anos  Masc.  29 anos  28  1985 
Corredor 5  58 anos  Masc.  34 anos  18  1983 
Corredor 6  44 anos  Masc.  28 anos  15  1993 
Corredor 7  66 anos  Masc.  45 anos  15  1976 
Corredor 8  36 anos  Masc.  21 anos  12  1997 

Fonte: Sistematizado pelos autores.

a

Ausência de dados nas respostas.

b

O entrevistado tem um baixo número de participações, porém tem estreita relação com o evento. Participou de edições nos anos iniciais da prova e atualmente atua na organização da corrida.

Como pode ser observado, para os fins de preservação e sigilo dos participantes da pesquisa, os depoentes serão tratados como Corredor, seguidos do número da ordem na qual as entrevistas foram feitas.

Todas as entrevistas foram feitas entre abril e maio de 2014. A coleta foi feita por meio de gravação de áudios que posteriormente foram transcritos e analisados, tiveram como base a análise de conteúdo proposta por Bardin (1977). As transcrições foram feitas de forma integral, mantiveram‐se as características de linguagem de cada entrevistado. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o protocolo de número 20442513.0.0000.0104.

Resultados e discussão

As perguntas feitas aos entrevistados buscaram adquirir informações sobre a percepção dos corredores de rua em relação a diversos aspectos referentes à Prova Rústica Tiradentes. Por meio da análise de conteúdo (Bardin, 1977), surgiram como uma categoria analítica elementos indicadores de que o discurso da prática da corrida de rua está relacionado ao ideário da saúde. Mesmo com a limitação da amostra, seis dos oito depoentes em algum momento da entrevista usaram o discurso da saúde como argumento em alguma de suas falas.

Vale salientar que o propósito do estudo foi o de analisar como corredores experientes se apropriam do discurso da saúde. Com isso, busca compreender em quais elementos das corridas de rua esse argumento tem apresentado significativas influências a partir da percepção dos depoentes. Porém, não se procura no presente artigo inferir posicionamentos em relação aos benefícios e/ou malefícios ocasionados pela dimensão da atividade física no cenário das corridas de rua.

Um primeiro ponto a ser discutido refere‐se ao aumento do número de participantes na Prova Rústica Tiradentes. Quando perguntados sobre como é atualmente a participação dos corredores no evento, surge na fala dos depoentes a noção de saúde. Na opinião de diversos dos entrevistados, seria essa dimensão a principal razão do aumento no número de participantes no evento. Essa questão fica exemplificada na fala do Corredor 7: “Acho que um pouco também é por causa da saúde também né, a turma tá notando que praticar esporte é muito bom, é saúde, entendeu? Então é isso aí”.

Posição semelhante é levantada pelo Corredor 6. Esse depoente, além de apontar que a prática de corrida de rua é um potencializador no aumento no número de participantes no evento, indica que o crescimento no número de corredores amadores acaba por produzir uma diminuição dos corredores com intenções competitivas.

Na questão do público em geral, houve um aumento muito grande, por que hoje o povo tão muito preocupado com a parte da saúde, tão investindo mais nesse requisito, então a parte povão ela praticamente que aumento 10 vezes mais do que era né, e a parte elite ela defasou 10 vezes mais, o que se aumentou na parte de povão diminuiu na parte de elite.

A argumentação que busca justificar o aumento de corredores devido à busca por uma vida saudável é corroborada por pesquisadores como Salgado e Chacon‐Mikahil (2006), Gotaas (2009), Shipway e Holloway (2016) e Gratão e Rocha (2016). Segundo os autores, devido ao estilo de vida da sociedade moderna, o número de indivíduos sedentários cresceu consideravelmente, levou ao surgimento de diversas doenças relacionadas à inatividade física. Diante desse cenário, a busca por atividades físicas tem crescido na sociedade hodierna (Saba, 2012). Nesse sentido, a corrida de rua seria uma prática propícia a um ganho expressivo de adeptos por suas características populares que facilitaria o acesso (Salgado e Chacon‐Mikahil, 2006).

Ainda em relação ao aumento do número de participantes na Prova Rústica Tiradentes, observa‐se no depoimento do Corredor 2 o crescimento de um discurso amparado em argumentos científicos que valoriza a prática de atividade física por parte da população no universo das corridas de rua.

Virou modismo tá, e pode ser pela observância dos pesquisadores e das pessoas que se conscientizaram, sabendo que hoje é saúde, que é uma melhora na qualidade de vida, então tá todo mundo participando, todo mundo correndo, então se elitizou um pouquinho, não que a classe média não tá participando, tá mais maciça, mas os mais humildes talvez não sejam tantos como antes.

Como pode ser observado no depoimento, o discurso da prática da corrida de rua para a busca da saúde é alimentado pelos novos contornos das pesquisas relacionadas à atividade física. Esse fato pode ser observado no estudo de Nahas e Garcia (2010), em que os autores argumentam que na primeira década do século XXI houve um aumento significativo nas publicações de artigos referentes à atividade física relacionada à saúde. Relativo a esse aspecto, vale salientar que esse ponto é intensificado quando se observam publicações recentes como a do médico brasileiro Dráuzio Varella (2015), que, mesmo com uma linguagem não acadêmica, aborda a temática dos benefícios para a saúde advinda da prática da corrida.

O fato de a atuação dos pesquisadores relacionados à área da saúde ter influenciado no aumento do número de corredores também foi observado no estudo de Bastos, Pedro & Palhares (2009), ao fazerem um levantamento da produção do conhecimento sobre corridas de rua nos programas de pós‐graduação de universidades do Estado de São Paulo. Segundo os dados levantados pelos autores, 10 das 16 referências encontradas no período da pesquisa são relativas ao campo do conhecimento que denominaram de “medicina”.

Outro elemento que emana dos depoimentos pautados no discurso da saúde refere‐se ao modelo de organização do evento. Quando perguntado sobre como é a organização atual da Prova Rústica Tiradentes, um dos corredores fez uma alusão à Corrida Internacional de São Silvestre discorreu com um posicionamento de que ambos os eventos não poderiam mais ser considerados corridas de rua.

[...] aquilo não parece corrida aquilo, o pessoal tá ali tudo fantasiado, e nada contra isso aí por que a verdade isso aí é saúde, tem o lado bom e tal, mas enquanto performance, enquanto o esporte, quanto modalidade, por que o pedestrianismo que é uma, que é a modalidade, nessa relação de performance deixa a desejar, porque o público hoje não tá preocupado com isso, tá preocupado, não tô dizendo que tá errado, mas na verdade o que precisava acontecer é ter o evento voltado pra essa, resgatar isso aí de alguma forma, entendeu? (Corredor 5)

Como é exposto nas palavras do entrevistado, apresenta‐se um novo modelo de eventos de corrida de rua, que não remete aos valores “tradicionais” da modalidade esportiva. Nesse ponto, mais uma vez é usado o argumento da saúde como um eixo de tensão nas transformações ocorridas nos aspectos referentes à corrida de rua como uma modalidade esportiva. Nota‐se aqui que a noção de saúde extrapola a dimensão física, visto que envolve o bem‐estar geral do indivíduo, que ao se fantasiar e correr de uma forma mais descontraída acaba por expressar seus sentimentos, fazer a catarse do seu dia a dia.

No que tange ao posicionamento do depoente quanto ao que considera ser uma corrida de rua, podem‐se fazer aproximações com o estudo feito por Oliveira (2010). O autor apresenta em sua pesquisa a existência de dois modelos de eventos da modalidade. O primeiro seriam as “corridas convencionais”, que tem como características serem mais populares e com valores “tradicionais” da competição. Já o segundo modelo proposto são as “corridas fashion”, que, de acordo com o autor, são eventos que têm um menor apelo competitivo e características do mercado esportivo, como cobranças de taxas de inscrição, entre outros elementos.

Outro elemento encontrado nas falas dos depoentes refere‐se ao novo tipo de praticante. O perfil, que outrora fora de indivíduos com menor poder aquisitivo, agora ganha companhia de segmentos mais medianos da sociedade.

[...] vamos falar do povão hoje, povão hoje você vê bancários, é frequentadores de academia que invadiu as provas hoje do Paraná, principalmente a Prova Rústica Tiradentes, e assim como outras provas que tem em Maringá, pessoas que trabalham em escritório, pessoas que trabalham em banco, é, enfim houve‐se uma necessidade em questão de saúde, houve uma preocupação com a saúde, o esporte ele é saúde, ele é vida, ele traz saúde pras pessoas, e eles felizmente pra hoje, pra comunidade, pra toda comunidade do Brasil, tanto no esporte, não só nível Brasil, nível mundial as pessoas acordaram que o esporte faz bem pra saúde, e eles então começaram a praticar atividade pra termo de saúde, qualidade de vida, isso no geral (Corredor 6).

A hipótese relativa à mudança no perfil do praticante das corridas de rua também é apontada por Gotaas (2009), Oliveira (2010) e Rojo (2017a; 2017b). Os autores afirmam que em consequência das características da modalidade, que permitem a entrada de participantes com objetivos distintos em um mesmo evento, bem como a incidência do discurso de que sua prática traz diversos benefícios, fomentou‐se a participação desse novo perfil de corredor oriundo das classes médias que, na opinião dos depoentes, se inseriu no universo pela questão da saúde.

Com a entrada desses indivíduos no universo da corrida de rua iniciou‐se nesse espaço uma busca da superação dos limites, sejam eles físicos ou psicológicos, típicos dessa sociedade em que cada indivíduo “busca governar‐se por si mesmo como o único mestre do seu futuro” (Ehrenberg, 2010, p. 42), em que não basta simplesmente ter uma vida ativa e praticar exercícios, mas é necessário fazê‐lo numa lógica de desafio que supostamente o fará alcançar uma liberdade, ou seja, cria‐se um estilo de vida empreendedor. O esporte nesse novo cenário se torna, nas palavras de Ehrenberg (2010, p. 17‐18, grifos do autor):

“Um estilo de vida, e não apenas um exercício físico; um estado de espírito mais do que distração ou uma pedagogia virtuosa do corpo. Isso porque essa extensão das práticas e do acesso às práticas não se concerne somente aos universos dos lazeres esportivos. Ela é um aspecto de uma modificação que afeta o próprio estatuto e a significação do esporte no seu relacionamento com a sociedade. Em uma década, o esporte está a tal ponto ancorado no cotidiano que ele não constitui apenas uma forma de lazer ou uma atividade corporal específica pensada e organizada em vista de performances a se alcançar, mas a manifestação de uma relação generalizada com a existência (...) o esporte saiu dos estádios e ginásios; ele abandonou o contexto restrito das práticas e dos espetáculos esportivos: é um sistema de condutas de si, que consiste em implicar o indivíduo na formação de sua autonomia e responsabilidade.”

Esse novo cenário contemporâneo eleva “indivíduos comuns”, praticantes de corrida de rua, a um patamar igual ou superior ao dos grandes atletas, torna‐os expressão daquilo que Ehrenberg (2010, p. 25, grifos do autor), ao pesquisar sobre as relações entre esporte e corporativismo na França, no fim da década de 1980, alcunhou de “nova mitologia esportiva”:

“A nova mitologia esportiva não coloca em cena apenas um indivíduo que cuida de sua forma e sua aparência numa sociedade em que a juventude é uma norma, e não mais uma classe de idade; ela forja o indivíduo, um indivíduo heroico que assume riscos, em vez de buscar proteger‐se deles por meio das instituições do Estado‐providência; que busca agir sobre si mesmo, em vez de ser comandado por outros. O esporte não é, portanto, um conjunto de práticas corporais específicas, uma pedagogia virtuosa, uma válvula de escape da sociedade de massa, a compensação das frustações que a maior parte de nós conhece na vida cotidiana, mas uma força de atração dos valores da ação, aos quais ele dá uma legitimidade e uma credibilidade incomparáveis, dada a força imaginária de sua tradição, o que faz da justiça o produto da concorrência. O esporte define a imagem do indivíduo ideal: um indivíduo puro sem raízes e sem passado, que não se refere a nada, a não ser a si mesmo.”

Ehrenberg (2010) ainda lembra que nesse cenário ocorreu um significativo crescimento do uso extraesportivo do esporte. O autor salienta que essa mudança possibilitou a modificação das significações que são atribuídas ao esporte, bem como a importância que lhe é reservada pela sociedade. Afinal o esporte “simboliza e promove a imagem do indivíduo autônomo, produzindo tanto sua saúde, sua aparência física, quanto sua implicação na vida profissional como empreendedor de sua própria existência” (Ehrenberg, 2010, p. 26). Com essa nova tipologia de corredores, que têm maior poder aquisitivo, a corrida de rua tornou‐se um nicho a ser explorado pelo mercado. Assim, o estilo de vida empreendedor relatado por Ehrenberg (2010) surge como um elemento que fomenta a mercantilização do universo das corridas de rua. Esse espaço torna‐se uma mercadoria, a partir da noção, induzida nos indivíduos, de uma saúde conquistada. Seja ela pela prática ou pelo uso de produtos agregados a ela.

O elemento da conquista pela prática é observado no discurso a seguir:

Então como hoje a modalidade que invadiu as pistas hoje pra correr, eles tão preocupados com a saúde, tão investindo na saúde, a cobrança não alterou muito a questão de participação, não alterou nesse requisito, mas alguns atletas mais humildes, atletas com mais necessidades, eles sofrem com essa cobrança, coisa que não acontecia há uns tempos atrás, há uns quatro anos não havia essa cobrança, né? (Corredor 6)

O posicionamento do entrevistado surgiu diante do questionamento referente à cobrança de taxas de inscrição para a participação na Prova Rústica Tiradentes. A fala do depoente indica que mesmo com um aumento crescente na taxa de inscrição ocorrida no decorrer dos anos, o número de corredores não diminuiu, a quantidade somente cresceu, justamente porque o perfil de praticantes agora tem maior poder financeiro, e o objetivo central desses participantes seria a busca pela saúde, ou seja, pagar a inscrição torna‐se também um investimento individual.

Como a saúde é um produto aos olhos do entrevistado, percebe‐se que a fala corrobora o que Proni (2011) versa sobre as características do esporte contemporâneo. Segundo o autor, o esporte se torna um produto da sociedade de massa e ao buscar aqui uma aproximação com a fala do depoente, nota‐se que a corrida de rua tornou‐se também um produto mercantilizado que venderia, conforme aponta Ehrenberg (2010), um estilo de vida empreendedor.

Outro elemento que emerge no depoimento dos entrevistados é a relação entre o crescimento no número de participantes no evento e a queda no nível técnico da Prova Rústica Tiradentes. Um dos depoentes afirma que os participantes, que anteriormente tinham um perfil mais competitivo, hoje têm a companhia de indivíduos com aspirações de um novo estilo de vida.

Então deu essa decaída, né, daquela época que era mais profissional, o negócio que era o pessoal atrás do resultado, hoje o pessoal quer mais curtir a prova, a prática mais saudável, né, e o perfil assim não do rendimento e o perfil da qualidade de vida e é um pessoal que tem mais condições e é um pessoal que cobra mais as provas também, a gente tem visto na região assim antigamente o cara atrasava meia hora, uma hora todo mundo ficava lá quietinho aguardando a largada, hoje se atrasar cinco minutos todo mundo começa a vaiar e se vê que o pessoal quer qualidade, que busca isso né? (Corredor 8)

O depoimento do corredor, no que se refere à queda de rendimento, pode ser corroborado pela tabela 2, que traz dados referentes aos resultados da Prova Rústica Tiradentes.

Tabela 2.

Concluintes com tempo abaixo de 40 minutos

Ano  Número de concluintes  Conclusão abaixo de 40 minutos  % do total de concluintes 
2002  820  190  23,170% 
2006  1153  161  13,963% 
2012  1296  121  9,3364% 
2015  1773  99  5,5837% 

Fonte: Sistematizado pelos autores com dados fornecidos pela Prefeitura Municipal de Maringá.

Dados referentes a corredores do sexo masculino.

A baixa no nível técnico da Prova Rústica Tiradentes não é uma exclusividade do evento. Segundo Dallari (2009), tanto em corridas de 10km quanto em maratonas tem se observado a queda no desempenho geral dos participantes. Em mapeamento do resultado de uma edição da prova maringaense, feito por Rojo, Rocha & Nazario (2016), os autores apresentam que 44,2% dos participantes gastaram mais de 60 minutos para completar o percurso, o que significaria um baixo desempenho esportivo. Os autores apontam a hipótese de que os objetivos entre corredores e competitivos são diferentes, o que corrobora a fala do depoente em relação ao nível técnico da prova.

Considerações finais

O presente artigo buscou analisar a apropriação do discurso da prática da corrida de rua como saúde por corredores de rua experientes participantes da Prova Rústica Tiradentes. Foi constatado que seis dos oito entrevistados em algum momento da entrevista se ampararam em elementos que relacionam a corrida de rua com a temática da saúde. A busca por esse estilo de vida saudável foi apresentada pelos depoentes como argumento para o aumento no número de praticantes, transformação do modelo de corrida de rua e mudança no perfil dos praticantes. Diante dos depoimentos, tanto os organizadores das provas quanto a maioria dos corredores envolvidos nos eventos valorizam mais a prática saudável do que a competitiva.

Outro ponto presente dos depoimentos colhidos foi que a prática da corrida de rua em prol de uma melhoria na saúde contribuiu para o aumento do número de praticantes, mesmo com a cobrança de taxas de inscrição. Além disso, foi apresentado pelos entrevistados o argumento relativo à diminuição no nível técnico da Prova Rústica Tiradentes, que, segundo a percepção dos depoentes, é ocasionado pelos interesses voltados ao estilo de vida saudável.

As pesquisas feitas em âmbito acadêmico também surgem como fator para o aumento do número de praticantes da corrida. Segundo os entrevistados, a atuação e o discurso de pesquisadores apresentam, com bases científicas, um posicionamento favorável à prática da atividade física e à melhoria da saúde.

A título de conclusão, apresenta‐se que o discurso da prática da corrida de rua como um caminho para a busca da saúde está disseminado na fala dos entrevistados. Os argumentos são apresentados tanto com aspectos positivos quanto com negativos. Entre os salutares os depoentes apontaram a disseminação da prática e a melhoria na organização dos eventos. Já entre os negativos os corredores apontaram para o enfraquecimento da dimensão esportiva e a consequente queda do nível técnico das corridas. Também convém ressaltar o papel dos pesquisadores da área da atividade física e saúde, que contribui para o desenvolvimento quantitativo da modalidade, o que seria um anseio dos órgãos públicos e da sociedade ligada os discursos da prática em prol da qualidade de vida da população.

Vale salientar, no entanto, que os discursos apresentados pelos depoentes podem estar carregados de conhecimentos geridos a partir das suas experiências cotidianas, uma vez que não necessariamente a prática da corrida de rua fornecerá saúde para o indivíduo, com um olhar “milagroso”. Contudo, o que se vende não é uma vida saudável, e sim um estilo de vida empreendedor sugerido por Ehrenberg (2010). Outro ponto a se considerar é que mesmo com a mudança no perfil do praticante e no motivo pelo qual se faz a prática da modalidade – aumento da participação de indivíduos que buscam a saúde por meio da prática – atenta‐se para a particularidade da corrida de rua, modalidade que é capaz de congregar em um único evento, praticantes que se apropriam de diferentes manifestações esportivas, sejam elas lazer, saúde, reabilitação, rendimento ou mesmo esporte profissional e espetacularizado.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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O presente trabalho contou com financiamento do CNPq (Iniciação Científica) e da Capes (Mestrado).

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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

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