Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:106-7 - Vol. 40 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.10.001
Resenha
Entre projetos de corpo e de nação: sobre “Educar los cuerpos al servicio de la política: cultura física, higienismo, raza y eugenesia en Argentina y Brasil”, de Eduardo Galak
Entre proyectos de cuerpo y de nación: sobre “Educar los cuerpos al servicio de la política: cultura física, higienismo, raza y eugenesia en Argentina y Brasil”, de Eduardo Galak
Between body and nation projects: about “Educar los cuerpos al servicio de la política: cultura física, higienismo, raza y eugenesia en Argentina y Brasil”, by Eduardo Galak
Alexandre Fernandez Vaz
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação, Departamento de Estudos Especializados em Educação, Florianópolis, SC, Brasil

Eduardo Galak é professor da Universidad Nacional de La Plata (UNLP) e pesquisador do Conselho Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet). Trata‐se de um jovem pesquisador com importante relação com a vida acadêmica no Brasil, aonde constantemente vem para participar de eventos, chega mesmo a coordenar um Grupo de Trabalho Temático junto ao CBCE. Além disso, além de suas muitas publicações por aqui, desenvolve com frequência trabalhos em parceria com colegas brasileiros, figura como pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Educação e Sociedade Contemporâneo (UFSC/CNPq). Em outro momento, colaborou com a editoria desta RBCE.

Falamos, portanto, de alguém que conhece algo do Brasil e de seus processos de educação do corpo, em especial no que se refere aos modelos escolares propostos em momentos de importante mobilização do ideário nacionalista. Em perspectiva comparada, ainda que não de todo, e tendo seu país como anteparo, é sobre isso que versa Educar los cuerpos al servicio de la política: cultura física, higienismo, raza y eugenesia en Argentina y Brasil, lançado, no ano passado na Argentina. Mais especificamente, trata‐se de mirar os anos 1920 e 1930 em suas estratégias de politização dos corpos. Na base disso, estratégias higienistas que, no Novo Mundo, não podem deixar de encontrar certa eugenia. Havia um crioulismo a ser combatido, mesmo que, discursivamente, ele pudesse ser incorporado como parte da formação nacional. De fato, foi, no Brasil e no país vizinho.

Resultado de estágio pós‐doutoral na UFMG sob a supervisão de Marcus Aurélio Taborda de Oliveira, que assina o prólogo, a pesquisa foi feita nos marcos de uma sociologia histórica. O tema é muito importante e apesar de ter sido aqui e ali já muito pesquisado ainda se deixa investigar de forma profícua. É o caso do livro, dividido em duas grandes partes e com uma síntese final, além dos textos que o apresentam e introduzem. Ambas estão muito bem concatenadas. Embora as revistas que formam o corpo central de documentos em análise apareçam sobretudo na segunda, a primeira não é, como a leitura da introdução talvez dê a entender, uma exposição teórica que depois ganhará sentido na interpretação. Desde o princípio o livro se atém ao objeto, cujas colorações ganham contorno em distintas abordagens com criatividade analítica – como é o caso, entre outros, da teoria dos dois corpos do Rei. Se elas não chegam, às vezes, às últimas consequências, é porque exigiriam mais páginas, talvez sigam, de qualquer forma, como convite à pesquisa e ao debate.

Centralmente, a investigação se ocupa de duas revistas como fontes privilegiadas, uma circulante em Minas Gerais, Revista do Ensino, outra na Província de Buenos Aires, Revista de Educación de la Provincia de Buenos. A comparação entre ambas (e entre os países) diz algo sobre as políticas do corpo como tais, mas mostra também as especificidades de cada movimento. Talvez aí resida algo que convide o trabalho de pesquisa a prosseguir, uma vez que ora o livro trata os documentos em particularidade, ora os toma como expressão de processos mais amplos, sínteses históricas. No limite, há um trânsito entre cada revista ser documento e objeto de estudo.

As proposições dos modos de educar os corpos são proposições de como uma nação deve ser. Uma pergunta que o trabalho de Galak ajuda a responder é o quanto educar significa politizar, preparar para a vida pública, ainda que, no caso de democracias mal‐ajambradas, isso se dê em seu reverso. A politização se dá como investimento no biológico, no corpo feito organismo nos marcos de uma biopolítica. Ou seja, a política não comparece como formação, mas como conjunto de estratégias de dominação, em especial porque é no plano da constituição do Estado que ela se dá. Ao destinar os esforços ao que se entendia ser a melhoria da raça, colocou‐se um duplo problema: que se pensasse em uma raça nos termos de uma nação – que, por definição moderna, se coloca na conjunção entre território e população – e que se ensejassem intensos esforços pedagógicos nessa direção.

Tal empenho encontra lugar e tempo, mas também todo um aparato categorial e empírico que vai da infância à família, da enfermidade à ciência como definidora daquela. O que se entende por raça se modifica ao longo do tempo, já que a história de um conceito é a do seu tratamento e recepção – de sua radicação política, é bom lembrar; a ciência se estabelece nos países a partir dos modelos europeus. Não é para menos, são do Velho Continente as referências de modernidade. Mas, por estes lados, a força política em nada é pequena, mescla‐se nos marcos pedagógicos a demandas psicológicas e morais.

Países complexos, corpos rebeldes que precisam ser modernizados, aperfeiçoados, higienizados. Toda uma pedagogia, que nem sempre permanece a mesma, para esse intuito. Vale muito a leitura do livro de Eduardo Galak.

Copyright © 2017. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2018;40:106-7 - Vol. 40 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.10.001