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TITLEREVISTA TITLEREVISTA
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:322-7 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.07.002
Artigo de revisão
Crescendo e enfraquecendo: um olhar sobre os rumos da Educação Física no Brasil
Growing and fading: a look into the directions of Physical Education in Brazil
Crecer y debilitarse: una mirada sobre los caminos de la Educación Física en Brasil
Pedro C. Hallala,b, Victor Andrade de Meloc,d,,
a Universidade Federal de Pelotas, Programa de Pós‐graduação em Epidemiologia, Pelotas, RS, Brasil
b Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq ‐ Nível 1B ‐ CA MS ‐ Educação Física, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Brasil
c Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq ‐ Nível 1D ‐ CA MS ‐ Educação Física, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Brasil
Recibido 21 enero 2016, Aceptado 01 julio 2016
Resumo

O objetivo deste texto é lançar um olhar para a atual conformação da Educação Física brasileira, notadamente no que tange à relação entre distintas perspectivas de investigação. Percebendo que o crescimento da área, algo a ser louvado, não tem logrado dar respostas aos desafios que a cercam, em função, até, de uma certa fragmentação que tem a ver com ocorrências históricas recentes, no fim sugerimos que os pesquisadores devem retomar um caminho de diálogo, postura sem a qual obliterar‐se‐á a resolução de problemas que, no limite, podem mesmo colocar em risco a própria existência da disciplina acadêmica.

Abstract

The aim of this article is discuss the current scenario of Physical Education in Brazil, particularly in terms of the views of different research paradigms. We realize that the quantitative growth of the field has been unable to overcome some challenges of the area, particularly due to a fragmentation that has historical explanations. We conclude by urging researchers to dialogue more frequently; this is mandatory to help solve some problems that, on the edge, could even put at risk the existence of this academic discipline.

Resumen

El objetivo de este artículo es realizar ciertas consideraciones sobre la conformación actual de la Educación Física en Brasil, especialmente en lo que se refiere a la relación entre las diferentes perspectivas de investigación. Nos hemos dado cuenta de que el crecimiento de este campo, algo que debe ser elogiado, no ha logrado responder a los retos del área, también debido a cierta fragmentación que tiene que ver con acontecimientos históricos recientes. Al final se sugiere que los investigadores deben retomar un camino de diálogo, una postura sin la cual no se pueden solucionar los problemas que, en última instancia, pueden poner en peligro la propia existencia de la disciplina académica.

Palavras‐chave
Educação Física, Pesquisa, Ciência
Keywords
Physical Education, Research, Science
Palabras clave
Educación Física, Investigación, Ciencia
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O objetivo deste texto é lançar um olhar para a atual conformação da Educação Física brasileira, notadamente no que tange à relação entre distintas perspectivas de investigação. Partindo de um panorama histórico da constituição da disciplina, intenta‐se perceber que respostas pode essa trajetória dar à resolução de alguns problemas que, a nosso ver, têm obliterado uma maior consolidação qualitativa da área de conhecimento e, no limite, podem mesmo colocar em risco sua existência.

Não seria equivocado afirmar que a conformação do que hoje chamamos de Educação Física – uma área acadêmica já bem delineada nos cenários nacional e internacional – é fruto de uma mudança na dinâmica de produção do conhecimento, da definitiva valorização da racionalidade como parâmetro de compreensão do mundo, desdobramento do projeto iluminista.

De um lado, as preocupações com a educação physica emergiram com o aumento dos cuidados com a infância, processo que se materializou, entre outros aspectos, na melhor conformação de propostas pedagógicas, manifesta até na estruturação da escola moderna (Julia, 2001; Vigarello e Holt, 2008). De outro lado, tinham relação com o avanço das possibilidades de maior compreensão do funcionamento corporal, com o desenvolvimento de uma abordagem que, com mais acuidade, entendia os complexos mecanismos da saúde e da doença, mudança que se explicitou na transição de um modelo de medicina mais artesanal para outro mais científico (Vieira, 2003; Faure, 2008).

Essas ocorrências foram desdobramentos de diversos fatos contextuais articulados observáveis em alguns países europeus, entre os quais se destacou o pioneirismo britânico.1 O pensamento ilustrado impulsionou o desenvolvimento científico que, por sua vez, potencializou os mecanismos de produção com a estruturação do modelo fabril. A vulgarização da manufatura (fábrica, indústria) interferiu profundamente na dinâmica social (Soares, 2007; Hobsbawm, 2009). Os centros urbanos cresceram, assistiu‐se à estruturação de novos estratos populacionais forjados a partir da noção de classe (a burguesia e o operariado).

Nesse cenário, a esfera pública delineou‐se como lócus privilegiado de vivências. Fortaleceu essa tendência a gestação de um mercado de entretenimento que dialogou com o avanço tecnológico. Consumo e espetáculo passaram a ser noções valorizadas.2

Da mesma forma, novos artefatos/invenções foram fundamentais no incremento dos contatos internacionais, necessários tendo em vista tanto a obtenção de matéria‐prima quanto o escoamento do excesso de produção. Com isso, transformou‐se a dinâmica de informação, relacionada à potencialização e ao controle dos negócios.

Articulou‐se com tais mudanças o fato de que o Estado‐Nação se conformou como organização política par excellence, paulatinamente a democracia se insinuou como condição para a estruturação dos países. A reboque, percebe‐se a autonomização das esferas sociais (Weber, 2004; Hobsbawm, 2009).

Nesse processo, o corpo se deslocou para o centro da cena, tornou‐se uma preocupação generalizada em vários âmbitos. Estabeleceu‐se como um importante ponto de convergência e expressão das ambiguidades e contradições da nova dinâmica social. Ao seu redor se manifesta claramente a tensão entre parâmetros de controle e liberdade (Vieira, 2003; Weber, 1988).

Exponenciou‐se, assim, a importância da educação physica, como antes constituída na fronteira entre reflexões de natureza pedagógica, relacionadas à implantação de estratégias de ajustes dos indivíduos ao complexo cenário social, e olhares advindos das ciências médicas, expressão do aumento das preocupações com a saúde e higiene, noções consideradas fundamentais para garantir a consolidação dos projetos políticos e econômicos em andamento (Vigarello, 2003).

No Brasil, a conformação da Educação Física (isso é, conjunto de preocupações e iniciativas que se estruturam num campo, com agentes, corpus de conhecimento, ações diversas de formação e representação) também se deu no século XIX, no momento em que começava a se consolidar a nação recém‐independente (Melo e Peres, 2014).

Por aqui, como na Europa, pedagogos e médicos compartilharam o protagonismo na definição dos rumos da área incipiente. Os primeiros produziram manuais e propostas de intervenção, majoritariamente a partir de suas experiências concretas e/ou inspiração no que fora produzido na Europa e nos Estados Unidos (Cunha Junior, 1998; Souza, 2011). Os segundos, da mesma maneira dialogaram com o cenário internacional, entabularam as pioneiras investigações nacionais, boa parte apresentada na forma de teses defendidas nos precursores cursos superiores de medicina (Paiva, 2003; Gondra, 2004).

Se considerarmos os padrões hodiernos, era tudo muito provisório e mesmo precário. Mas se tivermos em conta o espírito e as condições daquele momento, inegavelmente devemos encarar esses como os primeiros passos científicos da Educação Física no país, e isso ocorreu com o diálogo, contato ou, ao menos, convivência entre duas naturezas distintas de produção de conhecimento, uma advinda das ciências médicas, outra das ciências humanas e sociais.

A Educação Física se consolidou no decorrer do século XX. Nesse longo período, percebe‐se o avanço nos debates conceituais, desdobramento, até, do maior número e aprofundamento das investigações; o delineamento de iniciativas de formação profissional; a estruturação de entidades representativas; a conformação de estratégias de difusão do conhecimento (congressos, periódicos, cursos, livros).

Ainda que em certos momentos e/ou esferas tenha preponderado um ou outro lado e mesmo existido alguma tensão na definição dos rumos da área, é possível sugerir que houve, se não um diálogo costumeiro, ao menos uma boa convivência entre os agentes envolvidos com as duas naturezas de produção de conhecimento que integram a Educação Física desde suas origens. Consolidar o campo, mais relacionado à intervenção do que à pesquisa, parece ter sido o intuito maior que, de certa forma, criou laços entre os personagens.3

Uma importante inflexão nesse processo de consolidação da disciplina se observa na década de 1970. Em função de mudanças no âmbito educacional (uma nova estruturação dos cursos superiores de formação), bem como no cenário político (um maior investimento do governo de exceção em projetos esportivos), a área de conhecimento paulatinamente assumiu uma nova conformação, notadamente no que tange a seus parâmetros científicos.4

Facetas notáveis do incremento do esporte de rendimento foram a criação de laboratórios de fisiologia do exercício5 e o envio de profissionais para estágios e cursos de pós‐graduação no exterior (especialmente nos Estados Unidos). O discurso científico começou a se tornar mais mobilizado nas iniciativas da área de conhecimento.

Importantes impactos desse processo houve na graduação e na pós‐graduação, nesse caso com a criação de cursos de mestrado na área. Além disso, percebe‐se uma melhor estruturação dos periódicos, bem como funda‐se uma entidade científica que dialogava com o conjunto de mudanças, o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE).6

No âmbito dessas ocorrências, até mesmo em função da natureza dos investimentos, havia certa predominância de um dos modelos de produção, que a essa altura já melhor se consolidara. Mesmo assim, isso não significou exclusão da outra perspectiva de investigação, manteve‐se ainda, a nosso ver, um certo grau relevante de diálogo, ao menos de respeito e convivência.7

Os anos 1980, todavia, trouxeram novas injunções. Uma parte dos impactos teve a ver com a melhor estruturação da política científica nacional, até das agências de fomento e de administração governamental (Capes, CNPq e FAPs estaduais), o que incrementou investigações, mas também desencadeou novas tensões ao redor da distribuição de recursos (por meio de bolsas e editais), relacionadas não somente à possibilidade de uma atuação profissional mais efetiva como também à definição de mecanismos de status e distinção para os pesquisadores. A propósito, paulatinamente se tornou mais usual que profissionais da Educação Física frequentassem cursos de pós‐graduação na área e fora dela.

Esse conjunto de mudanças se deu num momento político rico, agitado e tenso. O país passava por um processo de redemocratização. As instituições nacionais se repensavam ao se engajar nessa transição. O quadro nem sempre era equilibrado, era costumeiramente marcado pelo enfrentamento de posições diametrais, situações típicas de cenários semelhantes.8

Todas as áreas de conhecimento sentiram impactos desse processo, que foi mais agudo para aquelas cujos acordos eram mais frágeis, a conformação era menos sólida, o estágio de consolidação científica era ainda precário. No âmbito da Educação Física, não poucas vezes isso se traduziu em disputas entre o bem e o mal, em posições simplistas, em rupturas. De alguma forma se rompeu um delicado equilíbrio que existia havia muitas décadas. Movimentos de fragmentação foram um desdobramento dessas tensões.

Obviamente que essa tendência não se pode explicar somente pelas tensões internas da Educação Física. Até mesmo a nova dinâmica científica mundial e nacional, crescentemente complexa e burocratizada, ajuda a entender que processo semelhante tenha se passado em muitas áreas, em algumas com menos fragmentação e mais diversificação.

A princípio, isso sequer é um problema, na medida em que expressa não somente novas maneiras de organização da comunidade científica, como também uma nova postura dos pesquisadores, que já não sentiam a necessidade de declarar fidelidades medievais a uma só área, se permitiam dialogar com outros campos de conhecimento, até mesmo por uma compreensão de que os desafios impostos pela realidade exigiam novos esforços. Esse trânsito, aliás, parece ser ainda mais claro em áreas que se caracterizam menos por uma identidade epistemológica stricto sensu científica do que por uma característica de intervenção, como é o caso da Educação Física.

Vale ressaltar que, a despeito das tensões, a área de conhecimento cresceu muito em termos quantitativos nas últimas décadas. O número de programas de pós‐graduação aumentou de três, somente com curso de mestrado, na década de 1970, para mais de 30, boa parte também com cursos de doutorado, nos dias atuais.9 A produção científica atingiu patamares nunca imaginados, veiculada em periódicos nacionais e internacionais, bem como em livros e anais de eventos que, a propósito, tornaram‐se cada vez mais comuns, palcos em que se expõem os avanços das investigações, mas também se dramatizaram os conflitos candentes.

De fato, o acesso ao conhecimento, no âmbito da Educação Física brasileira, aumentou em todos os níveis. Uma análise baseada apenas em números sugere que a área evolui de forma extraordinária. Todavia, será que esse crescimento em termos quantitativos tem sido acompanhado de um fortalecimento qualitativo, se pensarmos a área como um todo? Sem negar que houve algum aperfeiçoamento das iniciativas de pesquisa, o que ponderamos é se isso tem sido compatível com o volume do que tem sido produzido e se tem em conta uma disciplina una e integrada.

O fato é que o cenário atual nos apresenta uma área muito fragmentada, composta por subáreas diversas que pouco interagem. Observa‐se também uma cada vez mais comum migração (e não somente diálogo) de pesquisadores oriundos da Educação Física ligados às ciências humanas e sociais para outros campos de conhecimento (especialmente Educação, Ciências Sociais, História, Comunicação), aproveitam – e por vezes até mesmo protagonizam – movimentos de maior valorização das práticas corporais como objetos de pesquisa, reversão de uma tendência anterior de certo desprezo pelos temas em função de preconceito intelectual (Melo e Santos, 2013).

Isso é bom para a Educação Física? Não temos dúvida de que o diálogo multidisciplinar (e, quem sabe, até interdisciplinar) é algo a ser valorizado. Da mesma maneira, além de ser fato irreversível, pode ser muito benéfico para a área a evolução das subáreas, se daí se puder aportar algo que contribua com a resolução dos problemas mais gerais da disciplina.

Tomemos como exemplo a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, criada em 2007. Desde 1997, se organiza um Congresso Brasileiro de Atividade Física e Saúde. Desde 1995, publica‐se uma Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde. Nos anos pares, eventos regionais levam a discussão sobre a temática a todos os cantos do Brasil. Também é oferecido um curso anual de imersão, no qual doutorandos e recém‐doutores são estimulados a planejar suas carreiras.10 Em 2014, o Congresso Mundial de Atividade Física e Saúde Pública foi no Rio de Janeiro.

Da mesma forma, podemos mencionar os congressos de História da Educação Física e do Esporte, que ocorrem desde 1993, bem como a participação de pesquisadores da nossa área em eventos da Associação Nacional de Historiadores (Anpuh), o mesmo que ocorre nas iniciativas de outras entidades científicas, como nas da Associação Nacional de Pesquisa e Pós‐Graduação em Educação (Anped) e da Associação Nacional de Pós‐Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Encontramos até mesmo investigadores oriundos da Educação Física que veiculam seus artigos em importantes e reconhecidos periódicos das ciências humanas e sociais.

Em todos os casos, há que se celebrar o trânsito de conhecimentos e aprendizado de outras possibilidades de investigação que podem trazer contribuições para melhor pensar os diversos temas que integram a ampla e flexível área de Educação Física.

É plenamente compreensível que as subáreas mantenham suas iniciativas próprias, normalmente organização de eventos, publicação de periódicos e criação de sociedades científicas. É certo que, ao longo dos últimos anos, essas iniciativas têm sido esforços louváveis. Mas o que tem sido feito para que haja maior interação?

O que é inaceitável, a nosso ver, é que a consolidação das subáreas oblitere ou fragilize a existência de espaços de convivência nos quais os temas de interesse comum da área sejam debatidos. Mais ainda, que isso seja o efeito de qualquer forma de desrespeito, desvalorização ou desigualdade na forma de encarar as mais diversas tradições de investigação. Ponderamos, portanto, que existe uma diferença entre diversificação saudável e fragmentação perniciosa.

Nos dias de hoje, no Brasil, qual o fórum conjunto da disciplina? O CBCE prevê em seu estatuto congregar “profissionais e estudantes que possuem em comum o interesse pelo desenvolvimento dos estudos e pesquisas relacionadas à área acadêmica convencionalmente denominada Educação Física”.11 No entanto, a entidade tem tido dificuldades de exercer maior protagonismo, um indicador das já citadas rupturas dos anos 1980, mas também da sua relutância em repensar seu modus operandis. Chama a atenção, por exemplo, que a maioria dos bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq não costuma participar dos encontros promovidos por essa sociedade científica.

Estariam esses pesquisadores priorizando os eventos das subáreas, deixando de interagir em fóruns mais gerais da Educação Física? Qual o momento em que os pensadores da Fisiologia do Exercício dialogam com os pensadores da História do Esporte? Qual o espaço em que a Biomecânica dialoga com a Pedagogia? Onde está o diálogo entre a Atividade Física e Saúde e a Aprendizagem Motora? Reconhecendo que é grande o desafio de estabelecer maior contato entre diferentes tradições epistemológicas, não seria possível recuperar ao menos uma convivência mais fraterna, disposição inicial sem a qual qualquer relação já nasce maculada?

Parece evidente que a área de Educação Física deve voltar a se constituir num espaço para todos os seus pesquisadores, não se contentar com o fato de que a “fuga de cérebros” – a mudança de área de alguns investigadores – se dê não por questões epistemológicas (decisão pessoal plenamente aceitável), mas sim por decorrências contextuais que tornam a convivência inviabilizada. A propósito, se os profissionais são formados, nos cursos de graduação, a partir das mais diferentes disciplinas, das mais distintas tradições, a pós‐graduação e a pesquisa como um todo não teria de também expressar essa característica?

Essa disposição para reverter o quadro de fragmentação, por certo, não pode se manifestar apenas no âmbito das intenções; tem de se materializar em ações concretas. Como contemplar melhor a nossa diversidade nas iniciativas ligadas à pesquisa, até no âmbito dos mecanismos de avaliação e concessão de recursos? Em qualquer caso, tratar‐se‐á de, no mínimo, respeitar as peculiaridades de cada perspectiva de investigação, não estabelecer parâmetros que deixem de atender à pluralidade da área, que somente digam respeito a uma das tradições científicas.

Isso não significa concessões, postura que não combina com o desenvolvimento científico. O rigor deve, de qualquer maneira, ser uma marca de toda investigação e disso não podemos abrir mão. Basta apenas entender que não há um único critério de rigor, dada a diversidade de mecanismos e perspectivas de pesquisa.

Devemos recuperar pontos de contato que gerem a possibilidade de maior diálogo. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (200912 e 201213) demostram que metade dos alunos do nono ano das capitais do país relataram não ter tido duas aulas de Educação Física na semana anterior à pergunta. Em outras palavras, metade dos alunos, no fim do ensino fundamental, tem zero ou uma sessão semanal na escola.

Qual a resposta coletiva que a Educação Física vai dar para esse resultado incômodo? Isso é só um problema dos pesquisadores vinculados à perspectiva sociocultural? É uma preocupação exclusiva dos investigadores das ciências biomédicas? Não teríamos, nos mais diversos âmbitos (intervenção, formação, política em geral e política científica), de ter pautas em comum que nos unam em torno de causas que sejam gerais para a área? Não seria essa uma possibilidade de “combater” a excessiva fragmentação?14

Ao tocar nesse tema, devemos lembrar que, em função das características de nossa área, temos o enorme desafio de reduzir a distância entre os avanços de nossa produção científica e o que é empregado pelos professores que atuam na escola, na academia, nos clubes, no campo esportivo. Será que a pesquisa atualmente produzida nos programas de pós‐graduação está sendo útil para os profissionais de Educação Física? Obviamente nem toda investigação tem obrigação de ser aplicada, mas esse não deveria ser um aspecto a também mobilizar nossa atenção?

Devemos ter em conta que, felizmente, disputas acirradas entre as diferentes subáreas, marcadas até por distintos e diametrais pontos de vista científicos e políticos, fazem parte da história da Educação Física no Brasil. Ainda que nem sempre, majoritariamente essa diversidade pode ser encarada como uma expressão de uma construção não autoritária, indicador de que se trata de uma área viva e intensa, algo a ser louvado. Por mais desgastantes que sejam, tais tensões têm sido importantes para o crescimento do campo.

No entanto, não se podem confundir disputas acadêmicas, científicas e políticas com embates pessoais, questões de interesse contextual com projetos futuros de uma área mais sólida, crítica necessária com qualquer forma de preconceito. A seguir esse processo, inviabilizaremos o convívio entre as diferentes subáreas da Educação Física. Com isso, daremos “um tiro no pé”, esvaziaremos a força de nossas reivindicações e a importância de nossa disciplina, algo que em última instância não vai fazer bem para qualquer um de nós envolvidos, tampouco para a sociedade brasileira.

Se não considerarmos seriamente o desafio de reverter esse quadro de fragmentação, corremos o risco de ver num futuro próximo a nossa área dissolvida, já que reduzida a apenas alguns dos seus elementos constituintes. Isso seria tanto uma negação da sua trajetória histórica quanto algo que impactaria negativamente a própria inserção da Educação Física no campo científico, não dificilmente a tornaria simplesmente um apêndice de outras áreas consolidadas.

Enfim, as grandes questões de nossa área de conhecimento não podem ser plenamente respondidas por somente uma das suas subáreas constitutivas. Se quisermos que a Educação Física cresça, mas também se fortaleça – isso é, um desenvolvimento sistêmico, não somente circunstancial e frágil – é essencial que a convivência e o diálogo profícuo voltem a ocorrer.15 Do contrário, corremos o risco de que as diversas “gavetas” que hoje ainda compõem uma mesma “estante” sejam vistas, no futuro, como fragmentos de algo que ficou no passado, que não existirá mais.

Antes que isso ocorra, talvez seja mesmo hora de voltar ao passado. Não de forma idealizada, pois os tempos que se foram também tinham lá seus problemas. Trata‐se de olhar para o passado para lembrar que, como área, nascemos e desenvolvemo‐nos como uma fauna diversa, integrada por gente e conhecimento advindo de diferentes tradições de pesquisa. Se não atuarmos de forma minimamente integrada, corremos o risco de sequer existir para além de uma frágil institucionalidade.

Recuperar o diálogo e a convivência não é somente um ajuste com o passado, mas uma compreensão que o presente nos impele para que possamos perspectivar um futuro alvissareiro.16

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Para mais informações, ver Thompson (2001).

Para um debate sobre esses temas, ver os artigos integrantes do livro organizado por Charney e Schwartz (2001).

Não há um estudo que aborde todo o período. Sobre alguns recortes temporais, ver Melo (1996), Ferreira Neto (1999) e Schneider (2010).

Ainda não temos grande número de estudos que façam um bom balanço dos anos 1970. Para os interessados, sugerimos Oliveira (2003).

Um balanço sobre a trajetória desses laboratórios pode ser encontrado em Rocha et al. (2005).

Sobre a trajetória do CBCE, ver Paiva (1994) e Ferreira Neto (2005).

Pelo menos em parte, pode ser considerada uma expressão dessa tendência a própria composição de diretorias do CBCE. Em várias gestões, foi integrada por pesquisadores de diferentes tradições de pesquisa, alguns dos quais até estabeleceriam no futuro oposições diversas.

Para um olhar sobre a área nos anos 1980, ver Daolio (1998) e Caparroz (2005)

Reconhecidos pela Capes, são, hoje, 32 cursos de mestrado acadêmico, dois de mestrado profissional e 20 de doutorado. Disponível em: <http://capes.gov.br/cursos‐recomendados>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Para mais informações, ver: http://www.sbafs.org.br/. Acesso em: 18 jan. 2016.

Disponível em: <http://www.cbce.org.br/cbce‐estatuto.php>. Acesso em: 18 jan. 2016.

Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/pense/default.shtm>. Acesso em: 16 jan. 2016.

Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/pense/2012/>. Acesso em: 16 jan. 2016.

Perspectiva semelhante já foi abordada por Vaz (2008).

Vale lembrar que ideia similar, desde um outro ponto de vista, foi defendida por Lovisolo (2000) e Vaz (2008).

Vale observar que alguns dos temas neste artigo tratados têm merecido, em maior ou menor grau, com enfoques distintos, a atenção de outros autores, como, por exemplo, Bracht (1999). Da mesma forma, não desconhecemos outros colegas que em momentos anteriores se envolveram em debates sobre os mais diversos assuntos afeitos à Educação Física brasileira (ver por exemplo, o debate sobre a avaliação da pós‐graduação entabulado pelos colegas Mauro Betti, Yara Maria de Carvalho, Jocimar Daolio, Giovani De Lorenzi Pires e Eduardo Kokubun na Revista Brasileira de Pós‐Graduação, em 2004, disponível em http://ojs.rbpg.capes.gov.br/index.php/rbpg/issue/view/RBPG, acesso em 16 jan. 2016).

Autor para correspondência. (Victor Andrade de Melo victor.a.melo@uol.com.br)
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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:322-7 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.07.002