Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:73-8 - Vol. 39 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.01.010
Artigo original
Capacidade de sprints repetidos e níveis de potência muscular em jogadores de futsal das categorias sub‐15 e sub‐17
Repeated sprint ability and muscle power levels of the futsal players of U15 and U17 categories
Capacidad de sprints repetidos y niveles de potencia muscular en jugadores de fútbol sala de las categorías cadete y júnior
Juliano Dal Pupoa,, , Daniele Detanicoa, Francimara Budal Arinsb, Paulo Cesar Nascimento Salvadorb, Luiz Guilherme A. Guglielmoa, Saray Giovana dos Santosb
a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Centro de Desportos, Departamento de Educação Física, Florianópolis, SC, Brasil
b Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Centro de Desportos, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Florianópolis, SC, Brasil
Recibido 14 junio 2013, Aceptado 14 octubre 2014
Resumo

O principal objetivo deste estudo foi comparar o desempenho nos saltos verticais e sprints repetidos feitos com mudança de sentido (SRMS) e linha reta (SRLR) entre jogadores de futsal das categorias sub‐15 e sub‐17. Foram avaliados 15 jogadores do sexo masculino, que fizeram saltos verticais e testes de sprints repetidos em linha reta e mudança de sentido. Não foi encontrada diferença no desempenho dos sprints e no índice de fadiga (p>0,05) nos SRMS e SRLR, assim como nos saltos verticais (p>0,05) entre as categorias. Observou‐se correlação significativa (p<0,05) do desempenho nos SRMS e SRLR com os saltos verticais. O desempenho nos sprints e saltos verticais foi similar entre jogadores das categorias. A potência muscular foi relacionada com o desempenho nos sprints.

Abstract

The main purpose of the study was to compare the performance of vertical jumps and shuttle (RSS) and straight line (RSL) repeated sprint running between futsal players of U15 and U17 categories. Fifteen male futsal players performed vertical jumps and repeated sprints tests in straight line and change of direction. There were no significant differences of sprint performance and fatigue index (p>0.05) in the RSS and RSL, as well as vertical jumps (p>0.05) between categories. Significant correlation (p<0.05) of sprint performance in both RSS and RSL with vertical jumps performance were observed. Sprints performance and vertical jumps were similar between U15 and U17 categories. The level of muscle power was related to sprint performance.

Resumen

El principal objetivo del estudio fue comparar el rendimiento en los saltos verticales y en los sprints repetidos con cambio de dirección (SRCD) y línea recta (SRLR) entre jugadores de fútbol sala de las categorías cadete y júnior. Quince jugadores realizaron los saltos verticales y las pruebas de sprints con cambio de dirección y línea recta. No se encontró ninguna diferencia en el rendimiento de los sprints y el índice de fatiga (p>0,05) en los SRCD y los SRLR, así como en los saltos verticales entre las categorías. Hubo una correlación significativa (p<0,05) del rendimiento en los SRCD y SRLR con los saltos verticales. El rendimiento en los sprints y saltos verticales fueron similares entre las categorías. El nivel de potencia muscular se relacionó con el rendimiento en los sprints.

Palavras‐chave
Futsal, Exercício anaeróbio, Força muscular, Fadiga
Keywords
Futsal, Anaerobic exercise, Muscle strength, Fatigue
Palabras clave
Fútbol sala, Ejercicio anaeróbico, Fuerza muscular, Fatiga
Introdução

O futsal é caracterizado como um esporte intermitente, no qual ocorrem ações de elevada intensidade intercaladas por breves períodos de recuperação. Análises das demandas de jogo mostram que os jogadores de futsal de elite gastam 20% do tempo em ações de elevada intensidade, tais como sprints. Adicionalmente, tem sido verificado que os momentos decisivos são normalmente precedidos por sprints de alta intensidade com distâncias médias entre 10 e 30m (Barbero‐Álvarez et al., 2008). Assim, a capacidade de fazer sprints repetidamente (CSR) é considerada um importante atributo para o desempenho no futsal (Barbero‐Álvarez e Barbero‐Álvarez, 2003; Castagna e Barbero Alvarez, 2010).

A CSR é determinada tanto pelo fornecimento de energia das vias anaeróbias quanto das aeróbias (Ross e Leveritt, 2001; Rampinini et al., 2007), além da dependência dos aspectos neuromusculares (Gorostiaga et al., 2009). De acordo com investigações prévias, a potência muscular foi fortemente correlacionada tanto com o desempenho em sprints isolados (Sleivert e Taingahue, 2004) quanto com a CSR (Dal Pupo et al., 2010). Todavia, Brughelli et al. (2008) verificaram que existem diferenças biomecânicas e neuromusculares quando os sprints são feitos com mudança de sentido (SRMS) ou em linha reta (SRLR). De acordo com Mendez‐Villanueva, Hamer e Bishop (2008), nos SRMS a velocidade é menor quando comparada com os SRLR, devido às constantes fases de aceleração e desaceleração. Além disso, uma vez que cada mudança de sentido requer uma força de frenagem seguida por uma força de propulsão, as características neuromusculares podem diferir entre os sprints feitos em linha reta e com mudança de sentido (Sleivert e Taingahue, 2004; Brughelli et al., 2008; Smirniotou et al., 2008).

As propriedades neuromusculares podem apresentar características diferenciadas de acordo com a idade, tendo em vista que o potencial elástico e neural do músculo esquelético é uma propriedade que pode ser melhorada ao longo dos anos de treinamento (Bosco, 1999). Assim, parece que as relações entre potência muscular e sprints repetidos são dependentes da idade e dos aspectos maturacionais. Seabra, Maia e Garganta (2001) observaram diferenças significativas no desempenho do teste contínuous jump de 15 s entre as categorias sub‐14 sub‐16. Isso indica que indivíduos com idade superior são capazes de produzir resultados superiores em atividades que envolvam a capacidade de produção de potência de membros inferiores.

No entanto, pouco tem sido investigado sobre a CSR e a potência muscular, considerando as diferentes faixas etárias do futsal. Não háo estudos conclusivos acerca das possíveis similaridades ou diferenças entre as mesmas. A investigação desses parâmetros torna‐se relevante na medida em que na prática, muitas vezes, a prescrição das cargas de treinamento nas categorias de base se dá mais em função do empirismo e da experiência pessoal do técnico/preparador físico do que propriamente a partir de um diagnóstico das capacidades dos atletas em cada faixa etária. As consequências dessa inadequação das cargas de treino pode prejudicar o desempenho dos atletas e até propiciar o aparecimento de lesões musculares, visto que fazem parte de um processo de formação esportiva.

Diante disso, os objetivos do presente estudo foram: 1) comparar o desempenho nos sprints repetidos e nos saltos verticais com contramovimento (CMJ) e squat jump (SJ) entre as categorias sub‐17 e sub‐15; 2) correlacionar o desempenho nos SRMS e SRLR com o CMJ e SJ. As principais hipóteses desta investigação foram que o desempenho nos sprints e nos saltos verticais seria maior nos atletas da categoria sub‐17; o desempenho nos SRMS teria correlações mais elevadas com o SJ, enquanto que os SRLR teriam correlações mais elevadas com o CMJ. Essa hipótese é apoiada pelo fato de que tanto nos SRMS, devido às grandes acelerações, quanto no SJ, a ação concêntrica dos extensores do joelho é determinante na geração de forças propulsivas (Bosco, 1999; Sleivert e Taingahue, 2004). Por outro lado, tanto nos SRLR quanto no CMJ a participação dos mecanismos elásticos é um dos principais determinantes do desempenho (Bosco, 1999).

Material e métodosParticipantes

Participaram desta pesquisa, voluntariamente, 15 jogadores de futsal do sexo masculino de uma equipe de Florianópolis, Brasil, que participavam de competições de nível estadual. Os atletas, cujas características estão apresentadas na tabela 1, pertenciam às categorias sub‐15 e sub‐17.

Tabela 1.

Características dos jogadores de futsal das categorias sub‐15 e sub‐17

  Sub‐17 (n=7)  Sub‐15 (n=8) 
Idade (anos)  16,4±0,5  14,6±0,5 
Tempo de prática (anos)  7,2±0,8  5,6±0,8 
Massa corporal (kg)  65,3±7,5  61,6±7,4 
Estatura (cm)  172,2±8,6  171,2±8,5 
Comp. de membro inferior (cm)  84,8±4,4  82,6±3,7 

Foram adotados os seguintes critérios de inclusão no estudo: a) treinar com frequência mínima de três vezes por semana; b) ter mínimo de dois anos de treinamento sistemático na modalidade; c) não ter lesões que impossibilitassem o esforço máximo. Antes de iniciar os procedimentos para a coleta de dados, os atletas e os responsáveis foram esclarecidos sobre os objetivos e os procedimentos de coleta de dados. Posteriormente, os responsáveis pelos participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (073‐2007).

Delineamento do estudo

Os atletas foram submetidos a dois dias de avaliações, separadas pelo intervalo de 48h (segunda e quarta‐feira, período vespertino), para fazer dois testes de sprints repetidos de 25m, em ordem aleatória, um em linha reta (SRLR: 6×25m) e o outro com uma mudança de sentido de 180° [SRMS: 6 x (2×12,5m)]. No primeiro dia, previamente à execução dos sprints repetidos, os jogadores fizeram os saltos verticais SJ e no segundo dia, precedente aos sprints, os CMJ. No primeiro dia também foram tiradas medidas antropométricas de massa corporal e estatura para caracterização dos participantes. Para isso, usou‐se uma balança (Plena®, São Paulo, Brasil), calibrada em miligramas, um estadiômetro e uma fita métrica (Sanny®, São Bernardo do Campo, Brasil), ambos com resolução de 1mm.

As avaliações foram feitas durante a temporada competitiva da periodização e foram incorporadas na rotina diária de treinamento da equipe. Os participantes não fizeram treinamento nas 48h precedentes ao primeiro dia de avaliação e apenas treino leve (técnico/tático) entre o primeiro e segundo dia de avaliação. Todos foram orientados a comparecer alimentados e hidratados para as avaliações. Os atletas ficaram livres para ingerir água no decorrer dos testes.

Protocolo dos saltos verticais

Para determinar a potência muscular de membros inferiores os atletas fizeram três saltos verticais CMJ e três SJ, de acordo com o protocolo descrito em Bosco (1999). Respeitou‐se um minuto de intervalo entre cada tentativa. Os saltos foram feitos sobre uma plataforma de força piezoelétrica (Quattro Jump, modelo 9290AD, Winterthur, Suíça), com frequência de aquisição de 500Hz. Usou‐se a altura do salto (desempenho) como indicador dos níveis de potência muscular de membros inferiores, considerou‐se para análise o valor médio das três tentativas. O cálculo da altura foi feito com o software Quattro Jump por meio do método de dupla integração da força de reação do solo.

Protocolo de sprints repetidos (SRMS e SRLR)

Antes da execução dos protocolos de SRMS e SRLR os atletas fizeram um alongamento estático nos membros inferiores com ênfase para os músculos anteriores, posteriores e mediais da coxa. Em seguida um aquecimento constituído por corrida de baixa intensidade (trote ∼ 7km/h) durante 5min, seguido por 3‐4 sprints de 20m, conduzidos pelo preparador físico da equipe. O início das avaliações dos sprints deu‐se 10min após o aquecimento.

O protocolo dos SRMS foi composto por seis sprints de 25m feitos com uma mudança de sentido de 180° após 12,5m [6 x (2×12,5m)], com período de recuperação de 25 s entre cada repetição. Já os SRLR foram compostos por seis sprints de 25m executados em linha reta (6×25m) com período de recuperação de 25 s entre cada repetição. Os protocolos de sprints repetidos foram feitos de acordo com o modelo proposto por Buchheit et al. (2010). Os participantes foram instruídos a completar todos os sprints o mais rapidamente possível, foram feitos incentivos verbais durante a avaliação. Os atletas fizeram os testes em piso de cimento polido com tênis específicos de futsal. Para capturar os tempos dos sprints foram usadas duas fotocélulas eletrônicas Speed Test 4.0 (Cefise, modelo Speed Test 6.0, São Paulo, Brasil). Foram considerados como variáveis de performance nos sprints o melhor tempo (MT), o tempo médio (TM) e o índice de fadiga (IF), calculado por meio da equação IF=[(Σ 6 TEMPOS/MT * 6) ‐1] * 100 (Fitzsimmons et al., 1993).

Análise estatística

Os dados foram apresentados por meio de estatística descritiva na forma de média±desvio‐padrão (DP). A normalidade dos dados foi testada mediante o teste de Shapiro‐Wilk, o qual apontou normalidade para todas as variáveis (p>0,05). Assim, para comparar os tempos (MT e TM) e o índice de fadiga mensurados nos SRMS e SRLR e o desempenho (altura) nos saltos CMJ e SJ entre as categorias sub‐17 e sub‐15 foi aplicado o teste t para amostras independentes. Adicionalmente, calculou‐se o tamanho do efeito (effect size) das variáveis entre as categorias com o software G*Power 3.1. Adotou‐se o seguinte critério de classificação:<0,41=efeito pequeno; 0,41‐0,7=efeito moderado;>0,70=efeito grande (Cohen, 1988). Para verificar a correlação entre o tempo dos sprints e o desempenho nos saltos verticais foi usada a correlação linear de Pearson. As análises foram feitas no Statistical Package for Social Sciences (SPSS para Windows), versão 15.0. O nível de significância adotado para as análises inferenciais foi p<0,05.

Resultados

Na tabela 2 está apresentada a comparação dos tempos e do índice de fadiga nos SRMS e SRLR entre as categorias sub‐17 e sub‐15. Não foram observadas diferenças no desempenho nos sprints entre as categorias. Todas as variáveis nos SRMS, bem como o índice de fadiga nos SRLR, apresentaram tamanho de efeito “pequeno”’ entre as categorias. Já os tempos (TM e MT) nos SRLR apresentaram tamanho de efeito “grande” entre as categorias.

Tabela 2.

Comparação dos tempos e do índice de fadiga dos sprints com mudança de sentido e linha reta entre as categorias sub‐17 e sub‐15

  Sub‐17 (n=8)  Sub‐15 (n=7)  TE 
SRMS
TM (s)  5,30±0,20  5,40±0,26  0,20  0,40 
MT (s)  5,13±0,22  5,23±0,25  0,21  0,39 
IF (%)  3,26±0,91  3,23±1,95  0,48  0,03 
SRLR
TM (s)  3,91±0,15  4,07±0,23  0,07  0,82 
MT (s)  3,73±0,12  3,89±0,22  0,06  0,90 
IF (%)  4,66±1,82  4,69±2,28  0,49  0,01 

SRMS, sprints repetidos com mudança de sentido; SRLR, sprints repetidos em linha reta; TM, tempo médio; MT, melhor tempo; IF, índice de fadiga; TE, tamanho do efeito.

A comparação do desempenho no CMJ e SJ entre as categorias sub‐17 e sub‐15 está apresentada na tabela 3. Não foram observadas diferenças significativas no desempenho entre as categorias para ambos os saltos verticais. Contudo, observou‐se um efeito moderado na comparação entre as categorias no SJ e efeito grande no CMJ.

Tabela 3.

Comparação dos saltos verticais entre as categorias sub‐17 e sub‐15

  Sub‐17 (n=8)  Sub‐15 (n=7)  TE 
CMJ (cm)  45,71±5,05  41,50±5,56  0,07  0,79 
SJ (cm)  40,51±5,38  37,75±2,40  0,13  0,59 

CMJ, salto com contra‐movimento; SJ, squat jump; TE, tamanho do efeito.

Os valores de correlação dos tempos obtidos nos SRMS e SRLR com o desempenho nos saltos verticais estão descritos na tabela 4. Verificou‐se correlação significativa entre os sprints e os saltos verticais. No entanto, as correlações mais elevadas foram observadas do CMJ com o TMLR e MTLR, o que confirmou umas das hipóteses deste estudo.

Tabela 4.

Correlação entre o tempo dos sprints e a altura nos saltos verticais

  CMJSJ
 
TMMS  −0,66  0,01  −0,63  0,02 
MTMS  −0,58  0,03  −0,63  0,02 
TMLR  −0,87  <0,01  −0,63  0,02 
MTLR  −0,83  <0,01  −0,68  0,01 

TM, tempo médio; MT, melhor tempo; MS, mudança de sentido; LR, linha reta; CMJ, counter movement jump; SJ, squat jump.

Discussão

Os objetivos do presente estudo foram comparar o desempenho nos sprints repetidos e nos saltos verticais (CMJ e SJ) entre as categorias sub‐17 e sub‐15 e correlacionar o desempenho nos SRMS e SRLR com o desempenho no CMJ e SJ. Em relação ao primeiro objetivo, não foram observadas diferenças na maioria das variáveis de desempenho nos sprints e nos saltos verticais entre as categorias. Estimava‐se que as variáveis investigadas neste estudo fossem superiores nos atletas da categoria sub‐17. Essa hipótese foi ancorada no fato de que, teoricamente, as cargas de treino deveriam seguir um plano de preparação em longo prazo (i.e., plano de expectativa esportiva), em que evoluiriam gradativamente até o atleta atingir o nível profissional. Durante esse processo, ocorre o desenvolvimento e aprimoramento na condição das capacidades físicas (Smith, 2003). Outra sustentação teórica para a hipótese foi o estudo de Mendez‐Villanueva et al. (2011), em que diferenças significativas foram observadas no tempo médio em SRLR de 30m entre as categorias de jogadores de futebol (sub‐14<sub‐16<sub‐18).

O principal aspecto que poderia explicar a similaridade nas variáveis entre as categorias no presente estudo provavelmente esteja ligado às divergências entre idade cronológica e biológica na divisão delas. Contudo, não foi possível avaliar a idade maturacional dos atletas neste estudo, o que impossibilita testar essa hipótese. De modo geral, as categorias de base de diversos esportes, como o futsal, são divididas pela idade cronológica (ano de nascimento) dos atletas, que não considera aspectos de desenvolvimento maturacional. É de consenso na literatura que o desempenho nos esportes está ligado ao estado maturacional dos atletas (Malina; Bouchard; Bar‐Or, 2004; Figueiredo et al., 2009), principalmente a partir dos 13 anos, torna‐se mais significativo entre 14 e 16 anos (Malina; Bouchard; Bar‐Or, 2004), idade que compreende a faixa etária da maioria dos atletas investigados. Essa fase pubertária está relacionada ao maior desenvolvimento da aptidão aeróbia (Seabra; Maia; Garganta, 2001; Santos, 2009), anaeróbia (Beneke; Hutler; Leithaüser, 2007) e à produção de força muscular (Seabra; Maia; Garganta, 2001; Santos, 2009). Outro aspecto que pode ter influenciado nos resultados do presente estudo é o pequeno número de sujeitos avaliados em cada categoria, o que pode ser considerado uma limitação.

A ausência de diferenças nas variáveis de desempenho entre as categorias é observada em ambos os modelos de sprints repetidos (SRLR ou SRMS). Além de existirem diferenças biomecânicas e neuromusculares entre esses modelos, Buchheit et al. (2010) apontam que os SRMS são dependentes também de capacidades motoras coordenativas, tais como agilidade e coordenação. Essas capacidades, segundo Figueiredo et al. (2009), são mais influenciadas pelo treinamento do que propriamente pela idade. Isso talvez possa explicar o fato de o TM e MT nos SRMS terem valores mais próximos entre as categorias (p=0,20 e 0,21, respectivamente; TE pequeno<0,40). Já nos SRLR houve maior tendência para superioridade na categoria sub‐17 dessas variáveis (p=0,07; 0,06, respectivamente) e confirmada pelo grande tamanho do efeito encontrada no MT (TE=0,90) e TM (TE=0,82) entre as categorias.

Em relação ao desempenho nos saltos verticais, não foram observadas diferenças entre as categorias sub‐15 e sub‐17. Porém, ao analisar o tamanho do efeito observou‐se grande efeito do CMJ entre as categorias, o que evidencia certas mudanças em função da idade. Silva et al. (2012) não encontraram diferenças significativas no CMJ, tanto entre jogadores de futebol das categorias sub‐17, sub‐20 e profissional quanto entre atletas de futsal das categorias sub‐20 e profissional. Por outro lado, Figueiredo et al. (2009) demonstraram que o desempenho no SJ e CMJ foi significativamente superior em jogadores de futebol mais maturados e na faixa de 13‐14 anos. Tais resultados podem indicar que os níveis de potência muscular são dependentes da categoria e possivelmente do desenvolvimento maturacional, devido principalmente ao aumento da área de sessão transversa das fibras musculares e do aprimoramento do potencial elástico e neural do músculo esquelético (Bosco, 1999).

Outro achado que merece destaque neste estudo foi que o CMJ apresentou correlação elevada (r>0,80) com as variáveis obtidas nos SRLR (TM e MT). Isso confirma a segunda hipótese desta pesquisa, que apontava maior correlação do CMJ com o SRLR. Tal resultado está em concordância com estudos prévios, que também identificaram correlações (r=0,60) do desempenho no SRLR de 30m com o desempenho no CMJ (Wisloff et al., 2004), bem como correlações do desempenho no CMJ com o MT (r=0,60) e TM (r=0,54) em sprints repetidos de 35m feitos em linha reta (Dal Pupo et al., 2010). Ambos os estudos mencionados foram feitos com jogadores de futebol.

Essa hipótese acima mencionada foi apoiada pelo fato de que tanto nos SRLR quanto no CMJ a participação dos mecanismos elásticos é um dos principais determinantes do desempenho. Em sprints em linha reta, principalmente feitos em distâncias maiores (aproximadamente 30m), o atleta permanece com uma postura corporal mais ereta, sendo capaz de potencializar os elementos elásticos do músculo esquelético (Mendez‐Villanueva; Hamer; Bishop, 2008). Nestes casos evidencia‐se que a velocidade alcançada nos SRLR está mais relacionada à eficiência do ciclo alongamento‐encurtamento dos músculos agonistas do movimento, a exemplo dos extensores do quadril (Sleivert e Taingahue, 2004). A eficiência desse mecanismo se deve principalmente ao nível de stiffness do conjunto músculo‐tendíneo, o qual exerce um fator importante na regulação do desenvolvimento de força muscular durante a corrida (Kubo et al., 2007).

Pode‐se observar que as variáveis TM e MT obtidas durante a execução dos SRMS apresentaram correlações moderadas com o CMJ. Esse achado assemelha‐se aos dados de Wisloff et al. (2004), que encontraram um r=0,72 para a correlação entre o desempenho no CMJ e nos SRMS de 10m em atletas de futebol. Por sua vez, Brughelli et al. (2008) observaram um valor médio de correlação de aproximadamente 0,40 entre a altura dos saltos verticais e a performance em teste de sprints para a maioria dos estudos analisados em seu trabalho de revisão. Ferrari Bravo et al. (2008) demonstraram que as mudanças de sentido dos sprints repetidos, assim como nos SRLR, exigem dos atletas elevados níveis de potência muscular para os atletas conseguirem desacelerar a uma velocidade superior a 20km.h−1 e, na sequência, voltarem a acelerar. Adicionalmente, Brughelli et al. (2008) e Ferrari Bravo et al., 2008) destacam a importância da potência muscular de membros inferiores nos SRMS, nos quais se requer uma força de frenagem seguida de uma força propulsiva, fatores esses que podem determinar o desempenho nessas ações. Esse fato também tem sido demonstrado por Gorostiaga et al. (2009), ao encontrarem correlações entre sprints repetidos e a produção de potência no meio‐agachamento e no CMJ em jogadores de futsal e futebol.

As correlações observadas entre o desempenho no SJ e as variáveis TM e MT obtidas nos dois modelos de sprints (SRLR e SRMS) apresentaram coeficientes moderados e similares, contrariaram, em parte, uma das hipóteses do presente estudo. Estimou‐se que o SJ estaria mais fortemente relacionado com o desempenho no SRMS, visto que esse salto mensura a potência muscular com somente a fase concêntrica do movimento, o que reflete a habilidade de recrutamento neural do atleta (Bosco, 1999). Além disso, nos SRMS, devido às curtas distâncias e grandes acelerações, a ação concêntrica dos extensores do joelho é determinante na geração de forças propulsivas (Sleivert e Taingahue, 2004).

Resultados semelhantes foram apresentados em estudos prévios, em que a potência máxima produzida no SJ mostrou‐se moderadamente correlacionada com o desempenho em SRLR com as distâncias de 5m (r=−0,64) (Sleivert e Taingahue, 2004), 20m (r=−0,47) (Häkkinen, 1989) e 60m (r=−0,63) (Bosco; Komi; Ito, 1981). Do mesmo modo, Smirniotou et al. (2008) verificaram, por meio de uma análise de regressão múltipla, que a performance em um SRLR de 30m é dependente, principalmente, do desempenho no SJ. Essas relações indicam que a ação concêntrica dos músculos extensores do joelho requisitadas no SJ também é considerada determinante na geração de forças propulsivas durante sprints feitos em linha reta.

Conclusão

O desempenho nos dois modelos de sprints e nos saltos verticais não apresentou diferença entre as duas categorias analisadas, sugerindo que a idade cronológica pode não ser o método mais adequado para avaliar o estado de desenvolvimento neuromuscular dos jogadores de futsal. Todavia, o desempenho nos sprints em linha reta, assim como no CMJ, parece sofrer mudanças (grande tamanho do efeito) em função da idade. Ainda, é possível destacar que o nível de potência muscular pode ser considerado um dos aspectos importantes para jogadores de futsal, visto que está relacionado ao desempenho em um sprint e na capacidade de sprints repetidos, tanto quando feitos em linha reta quanto com mudança de sentido.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Autor para correspondência.
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:73-8 - Vol. 39 Núm.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.01.010