Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:276-83 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.008
Artigo original
Arquivos pessoais de professores de educação física: organização arquivística e pesquisa histórica
Personal Archives of Physical Education Professors: organization archive and historical research
Archivos personales de profesores de educación física: organización de archivos e investigación histórica
Meily Assbú Linhalesa,b,, , Thaís Nodare de Oliveirac, Fernanda Cristina dos Santosd, Nájela Paula Tavares Camargoe
a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO), Departamento de Educação Física, Belo Horizonte, MG, Brasil
b Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Programa de Pós‐Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social, Belo Horizonte, MG, Brasil
c Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO), Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer, Belo Horizonte, MG, Brasil
d Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade de Educação (FaE), Belo Horizonte, MG, Brasil
e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO), Belo Horizonte, MG, Brasil
Recibido 01 octubre 2016, Aceptado 08 febrero 2017
Resumo

O estudo guarda relação com as atividades de pesquisa e organização de arquivos feitas no Cemef/UFMG. Identificados como Arquivos Pessoais de Professores, tais conjuntos documentais permitem identificar trajetórias distintas e interrogar a presença dos sujeitos no próprio processo de organização do campo pedagógico e acadêmico da educação física.

Abstract

The study has a connection with the activities of research and archive organization done in the Cemef/UFMG. Identified as Professors’ Personal Archives this documental collection allows us to identify different trajectories in teachers’ formation, as well as question the presence of the subjects in the organization process of the pedagogical field of Physical Education.

Resumen

El estudio tiene un vínculo con las actividades de investigación y organización del archivo de Cemef/UFMG. Identificados como Archivos personales de profesores, esta colección de documentos nos permite identificar diferentes trayectorias en la formación de los docentes, así como cuestionar la existencia de temas en el proceso de organización pedagógica de la educación física.

Palavras‐chave
História da educação física, Arquivos pessoais, Formação de professores, Centros de memória.
Keywords
History of physical education, Personal archives, Teacher training, Memory centers
Palabras clave
Historia de la educación física, Archivos personales, Formación del profesorado, Centros de memoria

Introdução

É recente o processo de consolidação da pesquisa histórica como campo de investigação para a área da educação física no Brasil. Aliadas a esse processo, diferentes iniciativas têm surgido em universidades públicas do país, com o objetivo de preservação e custódia de acervos históricos, com destaque para a criação de centros de memória e documentação. A experiência em curso no Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer (Cemef/UFMG) é parte desse processo e, entre outras características, tem se dedicado à preservação de arquivos pessoais de professores, objeto central desta comunicação.

Criado em 2001, o Cemef/UFMG está vinculado ao Departamento de Educação Física da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e constitui‐se como lugar de pesquisa, ensino, extensão, envolve pesquisadores e alunos de graduação e pós‐graduação. No momento de sua fundação, o propósito era estabelecê‐lo como lugar institucional capaz de contribuir para a recuperação, preservação e divulgação de documentos relativos à história da própria Escola de Educação Física que, dispersos na instituição, corriam risco de degradação ou desaparecimento. Atualmente, além de consolidar ações de pesquisa em história da educação física e temáticas afins, o Centro organiza o seu acervo, o qual inclui uma diversidade de documentos de arquivo, biblioteca e museu.

Em meio aos avanços e retrocessos próprios aos processos de tratamento documental, a elaboração da Política de Acervos do Cemef/UFMG (2014) priorizou atentar para as peculiaridades da documentação custodiada no Centro. Nesses termos, foi estabelecida também a sua Linha de Acervo, que, atualmente, é composta por seis eixos: os Arquivos Institucionais, os Arquivos Pessoais de Professores, a Coleção História Oral, a Coleção de Documentos Avulsos, a Biblioteca e também o Arquivo Cemef/UFMG. Cada um desses conjuntos tem características próprias, quer pela natureza dos acervos que reúne, quer pelo modo como foram recolhidos ao Centro. Os pressupostos que orientaram a organização dos documentos (o que guardar, como guardar e por que guardar) ancoram‐se, fundamentalmente, na noção de “princípio da proveniência” ou respect des fonds, conforme estabelecido na literatura arquivística (Bellotto, 2004; Ducrot, 1998). Assim, os arquivos e as coleções do Centro respeitam não somente a forma como chegaram para a custódia (ordem original), mas também as circunstâncias e as condições contextuais nas quais foram produzidos (fig. 1).

Figura 1.
(0.11MB).

Linha de acervo

Fonte: Cemef/UFMG, 2014, p. 2.

Os Arquivos Pessoais de Professores, eixo de destaque na linha de acervos do Centro, constituem o tema de estudo neste trabalho, que objetiva problematizar o processo de organização dos dez arquivos de professores do curso de educação física da UFMG, hoje custodiados no Cemef/UFMG. Em uma perspectiva analítica mais verticalizada, o arquivo do professor Herbert de Almeida Dutra será tomado com um caso exemplar de apreciação.

Sobre os arquivos pessoais de professores do Cemef/UFMG

Desde 2002, o Cemef/UFMG se lançou ao desafio de recolher, preservar, organizar e tornar acessíveis os arquivos pessoais de professores que atuaram no curso de educação física. Esses arquivos se distinguem dos demais por terem sido doados por parentes de docentes já falecidos, por professores já aposentados ou, ainda, por aqueles que, em atividade, escolheram pessoalmente depositar no Centro seus acervos acumulados. Uma primeira organização dos Arquivos Pessoais foi feita em 2006, com critérios que transitavam entre os pressupostos da biblioteconomia e da arquivologia. Ainda como um trabalho embrionário, a documentação foi identificada como Coleção de Ex‐Professores, que resultou em um primeiro Guia de Fontes (Rosa e Linhales, 2007).

Entretanto, uma aproximação mais cuidadosa com o campo da arquivologia e de seus saberes permitiu constatar que, no trabalho com os Arquivos Pessoais, cada acervo precisava ser reconhecido como um conjunto portador de uma identidade própria. Tal organicidade reinventa permanentemente as funções que estruturam os quadros de arranjo,1 em estreita relação contextual com as múltiplas atividades do titular do arquivo. Assim, os arquivos pessoais desafiam algumas normas arquivísticas, exigem reestruturações constantes. Na organização desses documentos, somos permanentemente convocados a duvidar das premissas da objetividade e da imparcialidade que, por muito tempo, orientaram o trabalho com os arquivos. Deparamos com uma dimensão ativa e interessada da prática arquivística, pois nos reconhecemos como produtores de sentidos (pelas escolhas feitas, pelos arranjos estabelecidos). Por certo, tais operações não implicam um desprezo ao debate metodológico.

Cada acervo pessoal que chega ao Cemef/UFMG traz sempre uma surpresa. Alguns são prioritariamente compostos de livros nacionais e estrangeiros, outros configurados como conjuntos de textos manuscritos, planos de aulas, pequenos bilhetes, convites, cartas etc. Existem também muitas fotografias, películas cinematográficas, dispositivos, certificados, medalhas esportivas e placas de homenagem. Uma diversidade que reafirma a necessidade permanente do debate metodológico e conceitual.

Como nos convida a pensar Luciana Heymann (2008), os documentos guardados por cada sujeito ou por seus parentes compõem um acervo de pistas e sinais de seus titulares: pelo modo como cada documento foi manuseado, pelas pequenas e sutis anotações, pelos rascunhos esboçados, pela originalidade como cada item foi guardado e posteriormente doado. A tal premissa outra é agregada: para além das marcas pessoais, os Arquivos Pessoais constituem também significações reveladoras de laços e vínculos sociais, redes de pertencimento e formação das quais os indivíduos fizeram parte. Ou seja, o modo como cada um marca seu percurso próprio e, ao mesmo tempo, desvenda/esconde elementos que compõem uma história social da educação física na cidade de Belo Horizonte.

No pequeno comentário escrito em um plano de aula, nos bilhetes aleatórios dispersos entre páginas de livros ou nos dossiês de matérias jornalísticas cuidadosamente colecionadas, encontramos o indivíduo, seu “modo de fazer”, seu estilo. Mas encontramos, ao mesmo tempo, um exercício público e partilhado de ações, cargos ou tarefas pedagógicas, universitárias, esportivas, recreativas. Outros indícios relevantes são aqueles concernentes a ferramentas e rituais de trabalho: os diferentes dispositivos didáticos, os modos criados e recriados de lidar com saberes e práticas, com o ofício de mestre.

Alguns acervos são constituídos por um conjunto documental mais abrangente e orgânico que demonstra diferentes aspectos da vida dos sujeitos, seja no âmbito pessoal ou profissional. No Cemef/UFMG, três dos acervos pessoais têm essa peculiaridade. São os arquivos dos professores Herbert de Almeida Dutra, Odilon Ferraz Barbosa e Fernando Campos Furtado. Os dois primeiros foram doados por parentes dos titulares, já falecidos. O terceiro tem sido doado, paulatinamente, pelo titular, em um processo negociado de produção de relações de confiança. Em outra direção, o Centro recebeu também conjuntos documentais que guardam apenas parte das trajetórias de professores, cuja seleção, em geral, prioriza documentos muito específicos, normalmente adotados na docência (a grande maioria, livros e revistas). São os acervos de Nella Testa Taranto, Edson Pisani Martini, Ivani e Terezinha Bonfim. Além desses seis arquivos já estabelecidos, um terceiro grupo está sendo inventariado. São os acervos de Eustáquia Salvadora de Sousa, Dietmar Martin Samulski, Isabel Montandon Soares e Emerson Silami Garcia. O inventário prévio implica uma atenção ao conteúdo e à tipologia documental e possibilita indicar as melhores opções para a classificação dos acervos.

Como um procedimento orientador, cada acervo passa por ações de higienização, quantificação e identificação dos documentos. Em um segundo momento, faz‐se a análise tipológica e temática que resulta na organização das séries que compõem cada quadro de arranjo. No caso do arquivo do professor Herbert de Almeida Dutra, o processo de constituição de séries tomou como referência tanto a dimensão temática quanto os tipos documentais, com o propósito de dar a ver as funções exercidas pelo titular e, de algum modo, reveladas por seu arquivo.

O acervo de Herbert de Almeida Dutra

Entre os dez arquivos pessoais de professores custodiados pelo Cemef/UFMG, o de Herbert de Almeida Dutra (HAD) pode ser considerado exemplar pela riqueza documental que agrega. No trabalho analítico feito, buscou‐se elucidar os movimentos de guarda e acumulação empreendidos pelo titular do arquivo, o contexto de acolhimento do referido acervo no Cemef/UFMG e as diferentes etapas da operação arquivística que constituíram esse arquivo pessoal, ou seja, sua preservação, organização e oferta para consulta. Além disso, interessou‐nos compreender o sujeito revelado pelos documentos e suas possíveis contribuições para a história da educação física em Minas Gerais.

Os estudos de Luciana Heymann (1997, 2013), Priscila Fraiz (1998) e Letícia Nedel (2010) foram tomados como referência para a reflexão. No diálogo com o trabalho dessas pesquisadoras, buscou‐se investigar “os sentidos conferidos à acumulação documental” em uma estreita relação com a análise das contingências que marcaram a constituição desse arquivo (Heymann, 2013, p. 67). Nesse exercício, buscamos também identificar os elementos de conexão entre o arquivo pessoal de HAD e o arquivo institucional da Escola de Educação Física, também sob a guarda do Cemef/UFMG.

Denominamos de “operação arquivística” a articulação entre três dimensões fundamentais: primeiro, o tempo‐lugar dessa fabricação, ou seja, os exercícios que, no âmbito do Cemef/UFMG, um grupo de pesquisadores têm buscado fazer, com o propósito de participar do processo de preservação da memória da educação física mineira; segundo, os procedimentos e as práticas arquivísticas propriamente ditas, que envolvem um fazer atento aos ditames conceitualmente estabelecidos, não sem o exercício do desvio e da recriação, que “desnaturaliza” regras, faz emergir singularidades; por fim, a terceira dimensão, caracterizada como a “escrita”, ou seja, a representação, na forma de um instrumento de pesquisa (o inventário) dos aspectos que revelam e, ao mesmo tempo, escondem a vida, as funções, as escolhas, os encontros, os silêncios, os fazeres… de um professor.2

Eis que este estudo promoveu, então, o encontro com o papelório de Herbert de Almeida Dutra. Na tentativa de compreender as maneiras como o titular fez minuciosas atividades de acumulação e guarda, percebemos que os documentos recebidos pelo Cemef/UFMG dão a ver o esmero na produção de dossiês temáticos, na forma de preservar algumas cartas enviadas e recebidas, suas inúmeras anotações pessoais, seu material didático, os textos manuscritos produzidos por ele e por outros colegas, além de traduções de artigos técnicos e científicos por ele feitas. Livros, folhetos e revistas especializadas em assuntos relativos à educação física se somam ao material didático (impresso e audiovisual) por ele produzido ou acumulado durante o percurso docente, além da particularidade de colecionar recortes de jornais sobre temas relativos à educação física. O acervo de HAD apresenta temáticas diversas, como natação, saúde, caminhada, esportes, atividade física, alimentação, treinamento esportivo, além dos assuntos atinentes à sua atuação na gestão pública (na Escola de Educação Física da UFMG e na Secretaria Nacional de Educação Física e Desportos do Ministério da Educação).

Entre 2002 e 2007, os acervos pessoais que chegavam ao Cemef/UFMG foram tratados como “Coleções personalizadas – doações de ex‐professores”. Sobre esse momento, pôde‐se constatar certa dispersão de acervos, pois os interesses imediatos de pesquisa acabaram por “remexer” consideravelmente os diferentes conjuntos e comprometer, em alguns casos, a “ordem original”. Já em 2007, num segundo momento de organização dos acervos, foi estabelecido o primeiro Guia de Fontes do Cemef (Rosa e Linhales, 2007) e nele um primeiro quadro de arranjo para o Fundo Herbert de Almeida Dutra. Nessa fase, nota‐se que o acervo pessoal deixa de ser identificado como uma coleção genérica e já recebe a definição de “Fundo”. Como tal, o exercício de resguardar o “princípio da proveniência” parecia orientar as ações, para evitar que esse arquivo se “misturasse” aos demais acervos do Centro. O modo de organização escolhido priorizou o estabelecimento de 11 séries para o Fundo HAD, fortemente orientadas por temáticas e/ou por tipos documentais. Esse arranjo, mesmo que garantido o respeito à ordem original, revelou‐se problemático, não permitiu evidenciar claramente os parâmetros para o volume total do acervo. A primeira série, então denominada de “dossiês”, uma das mais proeminentes (em quantidade e assunto), não apresentava quantificação por item documental. Foi quantificada como “dossiê” cada uma das 37 pastas cuja organização prévia foi estabelecida pelo próprio titular (Rosa e Linhales, 2007).

Constatou‐se, então, a necessidade de um novo “refazimento”. Isso implicou um novo processo de higienização, concomitante a uma segunda avaliação geral da documentação, na busca de opções para uma reclassificação e, especialmente, que interrogou os chamados “dossiês”, compreendeu‐os não como pacotes intactos e fechados em si mesmos, mas como pistas que poderiam ajudar na compreensão do arquivo pessoal de HAD como um arquivo no qual se manifesta uma docência.

O processo de “refazimento”

As perguntas que orientaram o novo olhar sobre a documentação de Herbert de Almeida Dutra foram basicamente três: o que temos? Como temos? Que funções são reveladas pelo papelório? Com base nelas, foram iniciados os primeiros exercícios de reagrupamento, que priorizaram, entre outros tantos detalhes, encontrar um lugar para cada um dos “dossiês”. Chegou‐se a um desenho intermediário, ainda guiado por características mais tipológicas e temáticas do que funcionais. Outras reflexões se fizeram necessárias e foram orientadas pela tarefa de indagar os sentidos da docência, por meio da identificação de tipologias próprias a essa função e, por contraste, identificar também aquelas funções ou fazeres de HAD que, para além de suas atividades de professor, poderiam ser encontrados. Nesses termos, a “docência” foi delineada como função em uma definição alargada do termo, que não se reduz à sala de aula, embora a inclua. Na universidade, a função docência envolve e exige também o envolvimento com atividades de pesquisa, de sistematização de conhecimentos e de desenvolvimento de projetos extensionistas que transbordam os muros acadêmicos e dialogam com a sociedade.

Outra função a merecer destaque foi denominada Colecionamento. Algo muito singular ao sujeito HAD em um momento específico de sua vida: ao longo de toda a década de 1990, já aposentado, o professor Herbert se dedicou a colecionar recortes de jornais e revistas sobre temas atinentes à educação física, à saúde e aos exercícios corporais. Não somente recortava e guardava, mas também fazia exercícios de organização e classificação temática para a sua coleção. Assim, essas, entre outras séries, se apresentaram como lugares plenos de sentidos e capazes de melhor acolher a diversidade de tipos documentais incluídos no acervo: documentos textuais (1.387 manuscritos), documentos impressos (129 livros, 38 exemplares de periódicos em um universo de 20 títulos), documentos iconográficos (três fotografias) e documentos audiovisuais (19 filmes, além de um projetor de filmes 8mm). Iniciamos então o processo de classificação dos documentos para a posterior descrição e elaboração dos índices. Na figura 2, o novo quadro de arranjo com as cinco séries estabelecidas e suas respectivas subséries.

Figura 2.
(0.41MB).

Quadro de arranjo do arquivo HAD

Fonte: Linhales, 2014, p. 71.

A partir da identificação dos tipos documentais e dos temas evidenciados no acervo, iniciamos um trabalho de compreensão da “biografia do arquivo”. Para tanto, foi também necessário o levantamento de informações sobre o titular nos demais arquivos do Cemef/UFMG, por meio de entrevistas com parentes.

A sugestão de traçar a biografia dos arquivos pode ser interessante na medida em que ela contribui para desnaturalizá‐los, de maneira a demonstrar que, assim como os indivíduos, os arquivos são muitas vezes objetos de “ilusões” que fazem desaparecer descontinuidades e deslocamentos, perdas e acréscimos, tanto materiais como simbólicas (Heymann, 2013, p. 72).

A aposta não foi em vão. Ao contrário disso, encontramos muitas pistas, sensibilidades que orientaram um movimento pessoal de guarda e arquivamento. Uma “narrativa de si”? Talvez! Mas não somente. Também os acasos, os descuidos, a didática, as manias, as projeções e planos …

Sobre o professor Herbert

O envolvimento de Herbert de Almeida Dutra com a Escola de Educação Física é anterior à própria criação do curso. Em 1947, um documento intitulado “Necessidades de criação da Escola de Educação Física e Desportos de Minas Gerais” foi entregue ao então governador Milton Campos e esse ato constitui‐se como baliza, pois representa uma mudança significativa nos encaminhamentos relativos à afirmação do campo da educação física em Belo Horizonte. O texto impresso em formato caderno teve como signatários os professores Silvio Raso, Teodomiro Marcellos, Antenor Horta, Ayerton Araujo, Antonio Macedo, Maria Yedda Vecchio Mauricio, Herbert de Almeida Dutra e Gabriel Godoi. Na década de 1940, eles atuavam em escolas públicas ou particulares, desenvolviam o ensino da educação física, ou em clubes de Belo Horizonte, com ações relativas à organização esportiva, em diferentes modalidades. Muitos deles continuaram a trabalhar em prol da consolidação do propósito de formação profissional, tornaram‐se professores da primeira Escola de Educação Física de Minas Gerais, inaugurada em 1952.

Herbert de Almeida Dutra formou‐se no curso de técnica desportiva, em 1944, pela Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD), no Rio de Janeiro. Compôs o grupo de professores da Escola de Educação Física das Faculdades Católicas em 1952, como assistente do professor Litz Octaviano Tessarolo, na cadeira Desportos Aquáticos, e tornou‐se o titular dessa em 1958.

Estudos anteriores feitos no Cemef/UFMG indiciam o envolvimento de Herbert Dutra com a profissão. Uma entrevista feita com a Sr.ª Edelweiss Dutra3 nos permite conhecer aspectos relevantes da vida do marido, falecido em junho de 2001, bem como a dissertação de mestrado de Cássia Lima (2012) sobre as Jornadas Internacionais de Educação Física. Herbert enfrentou preconceitos de seus parentes quando decidiu formar‐se em educação física, pois sua mãe não reconhecia a área como uma profissão. Por esse motivo, cursou também a faculdade de direito com o propósito de concluir o curso e entregar a ela um diploma de bacharel (Lima, 2012, p. 88).

É possível considerar que tais expectativas de ordem familiar e social tenham feito com que Herbert trouxesse para o âmbito da sua atuação na educação física contribuições recebidas nessa segunda formação, como a preocupação com a sistematização de dossiês, a qual tem características similares às que constituem os processos jurídicos. Também a capacidade de escrita e sistematização (prática pouco usual entre seus pares) e o envolvimento com cargos de gestão e representação. Da combinação das duas formações, podemos também supor a modelagem de uma atitude pessoal comprometida com a institucionalização e a profissionalização da educação física. Ações tais como as de documentar, sistematizar e fazer circular conhecimentos podem ser pensadas como formas de institucionalização, estratégias produtoras de legitimidade e respeito para com a profissão.

Na Escola de Educação Física de Minas Gerais, ocupou o cargo de diretor entre 1963 e 1969, vivenciou todos os embates e disputas relativos ao processo de federalização da escola, que passou a pertencer à UFMG em outubro de 1969. Em 1975, licenciou‐se da instituição e foi trabalhar no Departamento de Educação Física e Desportos (DED), órgão subordinado ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), em Brasília. Priorizou, nesse novo cargo, as ações relativas aos convênios de cooperação técnica com a Alemanha e os EUA, com o objetivo de intensificar o envio de professores brasileiros a esses dois países, para cursos de treinamento e pós‐graduação. Tais iniciativas possibilitaram viagens internacionais de trabalho, para as quais o professor Herbert também sistematizou dossiês. Sua área técnica de interesse e estudo foi a natação e tal especificidade é confirmada pelos livros, periódicos e filmes que colecionou, bem como pelo material didático por ele produzido.

No arquivo pessoal de Herbert, podemos perceber com positividade o “embaralhamento” entre o institucional e o pessoal, uma característica de muitos arquivos pessoais. Por vezes, o arquivamento do “eu” tem uma “função pública”, pois, como ressalta Ângela de Castro Gomes (2009), arquivar a própria vida é um modo de publicá‐la, construir possibilidades para um leitor escolhido ou indeterminado. Mesmo depois de aposentado, o professor Herbert reinventou maneiras próprias de reflexão sobre a relação entre a educação física e a sociedade. Isso pode ser facilmente percebido pelas características da documentação acumulada por ele.

Peculiaridades de um arquivo pessoal

O rearranjo dos documentos possibilitou reflexões sobre uma experiência pessoal que, embora singular, tem traços e pistas sobre recorrências e sentidos conferidos a um tipo próprio de arquivo pessoal: aquele cuja acumulação foi feita por um professor universitário. A partir desse rastro, a “produção do arquivo” (aqui compreendida como a operação arquivística feita do acervo) se orientou pelo propósito de dar a ver o docente Herbert de Almeida Dutra naquilo que o seu papelório revela e também esconde. É possível supor que em diferentes arquivos pessoais de professores encontraremos traços recorrentes, tais como as tipologias documentais próprias ao ofício de mestre e algumas rotinas pedagógicas que orientam a guarda dos documentos, como constatado no de HAD. Entretanto, não menos importante é compreender que a história de vida de cada titular, combinada com história [de vida] de cada arquivo, tende a conferir aos processos de organização documental o desafio de interrogar qualquer enquadramento estabelecido a priori, convoca sempre à reflexão sobre os arranjos e rearranjos de cada arquivo. Foi assim que, no Arquivo HAD, o fazer e o refazer foram uma constante, compreendidos como dimensões que se apresentavam necessárias à pesquisa que antecede à organização de um arquivo. Dela extraímos algumas ênfases que podem ser tomadas como peculiaridades: as do “ser professor” e as do próprio professor Herbert.

Aprender e ensinar educação física: profissionalizar, colecionar

Um arquivo pessoal de um professor inclui uma variedade de tipos e gêneros documentais capaz de revelar suas atividades docentes. O “fazer‐se” professor se torna perceptível, por exemplo, nos planos de aula, nos trabalhos elaborados por seus alunos, nas atividades de avaliação e nas inúmeras lâminas para retroprojetor sistematizadas por HAD. Para além desses dispositivos didáticos, próprios da sala de aula, destacamos os artigos lidos, assinalados com comentários e, muitos deles, traduzidos para o português, quando a versão original estava em inglês. O exercício de traduzir, muitas vezes empreendido pelo titular, revela‐se como uma operação de reinvenção na qual destaca partes, enfatiza e reelabora ideias que podem ser pensadas como ações de um sujeito que aprende para poder ensinar.

Não menos importantes são os projetos por ele sistematizados para ações de intervenção na sociedade, especialmente aqueles para os quais foi convocado a colaborar com veículos de comunicação, como a televisão e o rádio, e com setores de gestão municipal e estadual, nas áreas de educação e esporte. Nesses projetos, seus saberes docentes extrapolaram o cotidiano da formação de professores, propagam‐se para a sociedade e estendem o ato de ensinar para outros tempos e lugares. Herbert também sistematizou relatos, recolheu e guardou documentos quando empreendeu viagens que objetivaram conhecer, em outros países, os cursos de formação profissional em educação física.

Ser professor e pensar o seu campo de atuação profissional também se torna evidente quando analisamos o significativo número de “Papeizinhos, papéis médios. Definições, conceitos, glossários, considerações” classificam uma das séries que constam de seu arquivo. Esse título, dado por ele mesmo, inclui uma infinidade de pequenas anotações, ideias projetadas, destaques sobre assuntos de estudo. Se, à primeira vista, poderiam ser identificados como papéis dispersos, quando analisados na série documental que os reúne, dão a ver os propósitos de estudo e de sistematização de conceitos e noções que pareciam necessários ao professor Herbert em seus exercícios de “pensar” o campo pedagógico e acadêmico da educação física.

No arquivo de HAD também encontramos indícios de seus esforços pessoais e como representante institucional na permanente defesa pública da profissão. São recorrentes as pistas reveladoras de um agir rotineiro em defesa da legitimação da educação física como campo de atuação profissional. Seus esforços, nem sempre bem‐sucedidos, como membro do Conselho Estadual de Educação ou como diretor da Escola de Educação Física de Minas Gerais, indicam ações de liderança e de representação pública, pelos diálogos que empreendeu, pelos documentos e projetos que sistematizou, quase sempre como porta‐voz de uma coletividade.

Nas décadas de 1970 e 1980, merecem destaque as ações estratégicas por ele coordenadas no âmbito de setores federais responsáveis pela formulação de políticas de educação física e esporte. Herbert contribuiu especialmente em comissões que abordavam a “Pesquisa em educação física e desporto” e a “Pós‐graduação em educação física”. Institucionalizar e profissionalizar parecia exigir, no período, um alargamento do lugar acadêmico da educação física no âmbito das universidades e ampliar, assim, o espectro de possibilidades.

Já na década de 1990, na condição de professor aposentado, Herbert dedicou‐se a construir uma volumosa coleção de recortes de jornais e revistas sobre temas atinentes à educação física. Segundo informações de seus parentes, manteve uma rotina de trabalho no escritório particular e, entre outras tarefas, reuniu paulatinamente uma infinidade de reportagens publicadas em jornais e revistas de grande circulação sobre diversos temas.

Na organização de sua coleção, também fez exercícios de categorização dos recortes recolhidos, por meio de agrupamentos temáticos, posteriormente estabelecidos em ordem alfabética. Um agir classificatório que provoca interrogar sobre suas intenções. Haveria um plano de trabalho a ser feito com esse material coletado ou era apenas um passatempo de um professor aposentado? Por que escolheu esses assuntos para colecionar, e não outros afeitos à área, como os resultados e feitos do mundo esportivo? Respostas a essas perguntas não são oferecidas pelo arquivo de HAD e, assim, convocam à pesquisa e confirmam que um arquivo, qualquer um, apresenta‐se, muitas vezes, como lacunar e pleno de silêncios.

Considerações finais

O trabalho de pesquisa feito no Arquivo HAD resultou na conclusão de um inventário que permitirá aos pesquisadores interessados conhecer a organização estabelecida para o conjunto documental doado ao Cemef/UFMG. A organização desse arquivo pessoal, com os vários exercícios de fazer e refazer o quadro de arranjo, pode ser tomada também como um traço próprio à trajetória do Centro e de seus pesquisadores, para aprender sobre o “como fazer” com os acervos institucionais e pessoais.

De todo modo, parece‐nos possível constatar que esse arquivo produziu um “lugar” institucional para a trajetória docente do professor Herbert de Almeida Dutra na educação física mineira. Assim, o arquivo, de algum modo, constitui‐se como um artefato capaz de conferir legitimidade social para uma experiência singular. Vale confirmar que o professor Herbert não guardou seus papéis ao longo de cinco décadas para “deixá‐los para a história”. Entretanto, agora transformados em um arquivo, comparecem como um legado para a história da educação física: “Um investimento social por meio do qual uma determinada memória individual é tornada exemplar ou fundadora de um projeto político, social, ideológico etc.” (Heymann, 2005, p. 2).

Ao mesmo tempo, o Arquivo HAD tende a qualificar e legitimar o Cemef como um “lugar de memória” da educação física mineira. Sua presença põe em relevo a história da própria Escola de Educação Física, sugere que as narrativas sobre ela sejam recompostas, desconstruam versões monumentalizadas e façam falar os silêncios também presentes nos arquivos institucionais.

Financiamento

Projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Edital Universal 01/2013.

Título do projeto: Arquivos de professores: construções conceituais e metodológicas na organização dos Arquivos Pessoais do Centro de

Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer (Cemef/UFMG).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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M.A. Linhales
Relatório de estágio pós‐doutoral ‐ arquivos de professores: construções conceituais e metodológicas na organização dos arquivos pessoais do Cemef/UFMG
CPDOC, (2014)
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L. Nedel
A guardiã da verdade
Memória e identidade nacional, pp. 125-158
Rosa e Linhales, 2007
M.C. Rosa,M.A. Linhales
Guia de fontes: acervo do Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer
Cemef‐UFMG, (2007)

De acordo com o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística (Brasil, 2005, p. 141), os quadros de arranjo são “esquema estabelecido para o arranjo dos documentos de um arquivo, a partir do estudo das estruturas, funções ou atividades da entidade produtora e da análise do acervo”.

Assumimos como premissa a ideia de que existe uma estreita relação entre a pesquisa arquivística necessária ao processo de organização de acervos permanentes e a “operação historiográfica”, que, de acordo com Michel de Certeau (1982), pode ser pensada como uma “fabricação” que inclui “a combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita”.

Acervo Cemef. Coleção História Oral. Dutra, Edelweiss. Entrevista concedida a João Carlos Fernandes, Kellen Nogueira Vilhena e Lorena Viggiano Rocha da Silva. Belo Horizonte, 12 de julho de 2011.

Autor para correspondência. (Meily Assbú Linhales meily_linhales@yahoo.com.br)
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:276-83 - Vol. 39 Núm.3 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.008