Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:91-7 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.02.003
Artigo original
Relação entre o excesso de peso e a coordenação motora de jovens atletas de atletismo
Relationship between the overweight and the motor coordination in young athletes of athletics
Relación entre sobrepeso y coordinación motora en atletas jóvenes que practican atletismo
Jefferson Verbena de Freitasa,, , Phelipe Henrique Cardoso de Castroa, Edson Campana Rezendeb, Francisco Zacaron Werneckc, Jorge Roberto Perrout de Limad
a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Faculdade de Educação Física e Desportos, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Juiz de Fora, MG, Brasil
b Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Faculdade de Educação Física e Desportos, Laboratório de Avaliação Motora, Juiz de Fora, MG, Brasil
c Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Laboratório de Estudos e Pesquisas do Exercício e Esporte (LABESPEE), Centro Desportivo, Ouro Preto, MG, Brasil
d Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Faculdade de Educação Física e Desportos, Departamento de Fundamentos da Educação Física, Juiz de Fora, MG, Brasil
Received 27 July 2013, Accepted 04 June 2014
Resumo

O objetivo deste estudo foi verificar a relação entre o índice de massa corporal (IMC) e a coordenação motora de jovens atletas de atletismo. Foram avaliados 24 jovens do sexo masculino (12,5±0,6 anos) do Projeto Cria‐UFJF. Os atletas foram classificados em dois grupos: eutróficos (IMC<20,6; n=20) e sobrepeso‐obesidade (IMC ≥ 20,6; n=4). A coordenação motora foi avaliada pelo teste KTK. Verificou‐se correlação negativa e estatisticamente significativa entre o IMC e a coordenação motora (r=‐0,69; p<0,001). O grupo sobrepeso‐obesidade apresentou menor desempenho no teste de coordenação motora comparado com o grupo eutrófico. Conclui‐se que jovens atletas de atletismo com excesso de peso apresentam menor coordenação motora.

Abstract

The aim of this study was to verify the relationship between the body mass index (BMI) and the motor coordination in young athletes of athletics. We studied 24 young men athletes (12,5±0,6 years) of the CRIA‐UFJF Project. The athletes were classified in two groups: eutrophic (BMI<20,6; n=20) and overweight‐obesity (BMI≥20,6; n=4). The motor coordination was evaluated using the KTK test. There were negative correlation and statistically significant between the BMI and motor coordination (r=‐0,69; p<0,001). The group overweight‐obesity showed lower performance on the motor coordination test compared to eutrophic. We conclude that young athletes of athletics with overweight show lower motor coordination.

Resumen

El objetivo de este estudio fue investigar la relación entre el índice de masa corporal (IMC) y la coordinación motora de atletas jóvenes que practican atletismo. El proyecto CREA‐UFJF evaluó a 24 hombres jóvenes (12,5 ± 0,6 años). Los atletas se clasificaron en dos grupos: peso normal (IMC <20,6; n = 20) y sobrepeso‐obesidad (IMC ≥20,6; n = 4). La coordinación motora se evaluó mediante la prueba de KTK. Hubo una correlación negativa y estadísticamente significativa entre el IMC y la coordinación motora (r = ‐0,69; p <0,001). El grupo de sobrepeso‐obesidad mostró un bajo rendimiento en la prueba de coordinación motora en comparación con el grupo de peso normal. Se concluye que los atletas jóvenes con sobrepeso que practican atletismo tienen una coordinación motora inferior.

Palavras‐chave
Adolescente, Esporte, Excesso de peso, Coordenação motora
Keyword
Adolescent, Sport, Overweight, Motor coordination
Palabras clave
Adolescentes, Deporte, Sobrepeso, Coordinación motora
Introdução

O desenvolvimento motor é considerado um processo de alterações nos níveis de funcionamento de um indivíduo ao longo da vida, resultante da somatória das experiências vividas pelos indivíduos e pelo desenvolvimento das capacidades funcionais (Caetano et al., 2005). Na infância, o desenvolvimento motor caracteriza‐se pela aquisição de habilidades motoras, que permitem amplo domínio do corpo, favorecem a locomoção pelo ambiente de variadas formas, como andar, correr e saltar, e a manipulação de objetos e instrumentos, tais como receber uma bola, arremessar uma pedra, chutar, escrever e lançar um objeto (Santos et al., 2004). De acordo com Maia e Lopes (2002), o desenvolvimento motor está relacionado com as características morfológicas, fisiológicas e neuromusculares, interage diretamente com as oportunidades e experiências vividas no dia a dia.

Um elemento importante no desenvolvimento motor da criança é a coordenação motora (Kiphard e Schilling, 1974). Gallahue e Ozmun (2005) definem coordenação motora como a capacidade de integrar, em padrões eficientes de movimento, sistemas separados com mobilidades sensoriais mutáveis. Quanto maior o nível de complexidade da tarefa motora, maior o nível de coordenação necessário para o desempenho eficiente da mesma. Para Kiphard (1976), a coordenação motora é a interação harmoniosa e econômica dos sistemas musculoesquelético, nervoso e sensorial para produzir ações cinéticas precisas e equilibradas. A coordenação motora pode ser entendida ainda como a habilidade do corpo de integrar a ação dos músculos, a fim de executar um movimento específico ou uma série de movimentos comuns da melhor forma possível (Silva, 1989).

O perfil antropométrico é um dos fatores que podem interferir na coordenação motora. Crianças com melhor desempenho motor geralmente apresentam perfil mesomórfico (Lopes, 1993). Beunen et al. (1998) verificaram que crianças com perfil associado à endomorfia, ou seja, com maior relação peso‐estatura, apresentavam prejuízo em relação a movimentos do corpo. Esses estudos sugerem que crianças com níveis mais elevados de gordura corporal podem apresentar prejuízos na coordenação motora. Porém, em jovens atletas esses resultados podem não ser confirmados, especialmente em praticantes de atletismo, modalidade esportiva que estimula diferentes qualidades funcionais, além de aprimorar a coordenação motora para a execução adequada de gestos esportivos elaborados. Assim, é importante verificar se os prejuízos na coordenação motora associados ao excesso de peso podem ser atenuados em crianças treinadas.

O objetivo do presente estudo foi verificar a relação entre o excesso de peso e a coordenação motora de jovens atletas de atletismo.

MetodologiaAmostra

Este é considerado um estudo de caso com amostra delimitada. Foram avaliados 24 jovens atletas, do sexo masculino, da categoria pré‐mirim, entre 11,1 e 13,8 anos, participantes do Centro Regional de Iniciação ao Atletismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (Cria‐UFJF). Os atletas tinham no mínimo seis meses de treinamento e ao menos uma participação em competição de nível estadual, treinavam quatro vezes por semana com duração média de duas horas por treino. A principal característica do treinamento desses jovens atletas é o seu caráter multifatorial, no qual se trabalham as diferentes provas do atletismo. Os responsáveis pelos atletas e os próprios atletas foram esclarecidos sobre os objetivos do estudo e deram consentimento para a participação voluntária no estudo.

Avaliação antropométrica

Foram tiradas as medidas: (1) estatura, pelo estadiômetro Sanny® (Brasil), com precisão de 0,1cm, a medida obtida, após inspiração profunda, era da maior distância entre o solo e o vertex; e (2) massa corporal, pela balança digital Filizola® (Brasil), com precisão de 0,1kg, com o mínimo de vestimenta possível. O índice de massa corporal (IMC) foi obtido pela divisão da massa corporal pela estatura elevada ao quadrado. Para a classificação do IMC dos jovens atletas em eutrófico, sobrepeso e obesidade foram usados os pontos de corte sugeridos por Cole et al. (2000), de acordo com sexo e idade.

Avaliação da maturação somática

Para controlar o possível efeito da maturação sobre a coordenação motora, foi avaliada a maturação somática dos jovens atletas, por meio do Maturity Offset, que corresponde à distância temporal, em anos, em que o indivíduo se encontra do pico de velocidade de crescimento em estatura (PVC), com o método antropométrico proposto por Mirwald et al. (2002). O resultado do Maturity Offset pode ser negativo (< 0), se ainda não atingiu o PVC, ou positivo (> 0), se já ultrapassou o PVC. Para o cálculo desse indicador, foi usada a fórmula abaixo:

Cálculo do Maturity Offset em meninos.

CMI (comprimento de membros inferiores); ES (estatura sentado); IC (idade cronológica); m (massa corporal); h (estatura).

Avaliação da coordenação motora

Usou‐se o teste Korperkoordinationstest Fur Kinder (KTK) (Kiphard e Schilling, 1974). O KTK foi desenvolvido com intuito de diagnosticar as deficiências motoras sutis em crianças com lesões cerebrais e/ou desvios comportamentais (Gorla et al., 2009), é usado para avaliação do padrão motor de diversas populações, inclusive com crianças sem deficiência, já que tanto avalia a coordenação motora global quanto identifica crianças com distúrbios coordenativos (Gorla et al., 2000). O teste envolve componentes de coordenação corporal como equilíbrio, ritmo, força, lateralidade, agilidade e velocidade (Gorla et al., 2009), são mensurados por meio dos seguintes subtestes:

Equilibrar‐se ao andar de costas (Equac)

Objetivo: Manter‐se em equilíbrio ao andar de costas sobre a trave.

Material: Foram usadas três traves de 3 m de comprimento e 3cm de altura, com larguras de 6cm, 4,5cm e 3cm. Na parte inferior, são presos pequenos travessões de 15×1,5×5cm, espaçados de 50 em 50cm. Com isso, as traves alcançam uma altura total de 5cm. Como superfície de apoio para saída, coloca‐se à frente da trave uma plataforma de 25×25×5cm. As três traves de equilíbrio são colocadas paralelamente.

Execução: Nesse teste, inicialmente o aluno fez o reconhecimento do instrumento, ele passou uma vez de frente em cada uma das três traves até o fim do percurso, porém a experimentação da segunda foi feita quando terminou o teste da primeira. O aluno colocou‐se no início da trave de costas com um dos pés sobre ela e o outro no chão, quando o avaliador deu o comando ele colocou o outro pé na trave e assim iniciou a contagem dos pontos. Isso foi repetido nas duas seguintes. Cada passo equivale a um ponto que pode atingir um máximo de oito. Quando acontecer de o avaliado pisar no chão ou na lateral da barra a seção é imediatamente interrompida e o aluno deverá retornar ao início da trave. São feitas três tentativas e somam‐se os pontos no fim. O avaliador deverá fazer uma demonstração antes dos testes.

Saltito com uma perna (SP)

Objetivo: Coordenação dos membros inferiores; energia dinâmica/força.

Material: Foram usados 10 blocos de espuma, cada um com 50×20×5cm.

Execução: Foi colocada no chão a primeira espuma e depois uma a uma, sobre a outra. O aluno saltou as espumas com uma das pernas, quando ultrapassado ele deverá dar mais dois saltos (saltitos) sobre a mesma perna. Feito isso, colocou‐se outra espuma sobre a primeira e assim sucessivamente até completar as dez. O jovem não pode tocar a espuma em sua ação, feito isso é tentativa falha. Foram dadas três tentativas para cada altura de espuma; quando ultrapassado de primeira, serão obtidos três pontos, quando o avaliado ultrapassar na segunda tentativa dois pontos e na terceira um ponto. Isso deverá ser avaliado com cada perna e os resultados serão separados. O avaliador fez uma demonstração antes de começar.

Salto lateral (SL)

Objetivo: Verificar a coordenação sobre a pressão do tempo.

Material: Um retângulo feito no chão por fitas de 100×60×0,8cm, com um sarrafo divisório de 60×4 x 2cm e um cronômetro.

Execução: Posicionado em uma das partes laterais dentro do retângulo, o jovem ficou com as pernas juntas. Ao comando do avaliador, ele começou a saltar de um lado para o outro com as duas pernas juntas, o mais rapidamente possível, até o fim dos 15 segundos, tempo de execução do teste. No meio do retângulo, foi colocado um sarrafo que fez a divisão do retângulo em duas partes. Foram executadas duas tentativas com intervalo de um minuto entre elas. Para a contabilização dos pontos são contados os saltos no tempo de 15 segundos e somadas as tentativas. Foi considerado salto nulo quando o avaliado saltou fora da área delimitada ou tocar o sarrafo. O avaliador fez uma demonstração antes de começar.

Transposição lateral (TL)

Objetivo: Lateralidade; estruturação espaço‐temporal.

Material: Foram usadas duas plataformas de 25×25×5cm e um cronômetro. As plataformas foram colocadas lado a lado com uma distância entre elas de 5cm. Na direção do deslocamento é necessária uma área livre de 5 a 6 metros.

Execução: De pé, em cima de uma das plataformas, o jovem, em 20s, deslocou‐se lateralmente, usou a troca de pranchas. Com as duas pernas sobre uma das plataformas, a outra foi pega e colocada do outro lado do corpo com as duas mãos. Em seguida, o avaliado transpôs‐se para essa plataforma e continuou o movimento continuamente. Os pés não entraram em contato com o solo. Foi dado um ponto quando a criança pegou a prancha de um lado e colocou do outro e quando ela trocou de prancha. Os valores das duas tentativas, de 20 segundos cada, foram anotados (registrados) e somados. O aluno fez uma experimentação com três transposições. O avaliador fez uma demonstração antes do teste.

O somatório da pontuação obtida nos componentes do teste compõe o resultado do KTK, que foi classificado pelas normas da tabela de referência (Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude de Minas gerais, 2013) apresentada na tabela 1.

Tabela 1.

Classificação de desempenho no KTK

Classificação das provas do teste KTK para 11 anos
Variáveis  Muito fraco  Fraco  Regular  Bom  Muito bom 
EQUAC  < 34,8  34,8–44,0  45,0–51,0  52,0–58,0  59,0–72,0 
SP  < 31,0  31,0–44,0  45,0–53,0  54,0–58,0  59,0–60,0 
SL  < 39,0  39,0–48,0  49,0–56,0  57,0–56,0  67,0–145,0 
TL  < 31,0  31,0–37,0  38,0–42,0  43,0–47,0  48,0–84,0 
KTK Total  < 152,0  152,0–178,0  179,0–199,0  200,0–218,0  219,0–334,0 
Classificação das provas do teste KTK para 12 anos
Variáveis  Muito fraco  Fraco  Regular  Bom  Muito bom 
EQUAC  < 34,0  34,0–44,0  45,0–52,0  53,0–59,0  60,0–72,0 
SP  < 31,8  31,8–42,0  43,0–52,0  53,0–58,0  59,0–60,0 
SL  < 37,0  37,0–46,0  47,0–55,0  56,0–65,0  66,0–180,0 
TL  < 32,0  32,0–37,0  38,0–41,0  42,0–47,0  48,0–88,0 
KTK Total  < 152,0  152,0–174,0  175,0–197,0  198,0–220,0  221,0–360,0 
Classificação das provas do teste KTK para 13 anos
Variáveis  Muito fraco  Fraco  Regular  Bom  Muito bom 
EQUAC  < 36,0  36,0–45,0  46,0–52,0  53,0–59,0  60,0–72,0 
SP  < 31,0  31,0–41,0  42,0–51,0  52,0–57,0  58,0–60,0 
SL  < 40,0  40,0–47,0  48,0–55,0  56,0–64,0  65,0–182,0 
TL  < 32,0  32,0–37,0  38,0–41,0  42,0–47,0  48,0–71,0 
KTK Total  < 154,0  154,0–176,0  177,0–195,0  196,0–216,0  217,0–323,0 
Análise estatística

Os dados foram tratados descritivamente por meio de média±desvio padrão, valores mínimo e máximo. Os pressupostos de normalidade e igualdade de variância foram avaliados, respectivamente, pelo teste Shapiro‐Wilk e pelo teste de Levene. O teste de correlação de Pearson foi usado para verificar a correlação entre o IMC e o desempenho total no KTK. Para testar diferenças na coordenação motora entre o grupo eutrófico vs. sobrepeso‐obesidade, usou‐se o teste t de Student para amostras independentes. As análises foram feitas com o software SPSS 20.0, adotou‐se nível de significância de 5% (p<0,05).

Resultados

A caracterização da amostra está apresentada na tabela 2. A maioria dos atletas (n=20) foi classificada como eutrófica (83,3%), três tiveram sobrepeso (12,5%) e um foi considerado obeso (4,2%), de acordo com as normas de classificação do IMC. Quanto à maturação, de acordo com o Maturity Offset, todos encontravam‐se antes do PVC.

Tabela 2.

Características antropométricas e maturação somática (Maturity Offset) de jovens atletas de atletismo (n=24)

  Média  Mínimo  Máximo 
Idade (anos)  12,5±0,6  11,1  13,8 
Massa corporal (kg)  42,0±9,4  25,0  66,3 
Estatura (cm)  149,6±8,2  134,0  165,0 
Estatura sentado (cm)  77,2±4,7  66,7  88,2 
Comprimento de membros inferiores (cm)  72,4±4,3  64,2  71,9 
IMC (kg/m218,6±3,2  13,9  27,2 
Maturity Offset (anos)  ‐1,6±0,8  ‐3,5  ‐0,2 

Na tabela 3, encontram‐se os valores obtidos no teste KTK, assim como a classificação média dos avaliados. De acordo com os valores normativos do KTK, os jovens atletas de atletismo apresentaram valores médios classificados como bom e muito bom.

Tabela 3.

Valores descritivos e classificação da coordenação motora de jovens atletas de atletismo (n=24) avaliada pelo teste KTK

  Média±desvio‐padrão  Mínimo  Máximo  Classificação 
Somatória do equilíbrio  57,1±13,0  24,0  72,0  Bom 
Somatória dos saltitos com uma perna  58,1±4,6  40,0  60,0  Bom 
Somatória dos saltos laterais  77,2±11,3  45,0  95,0  Muito bom 
Somatória das transposições laterais  55,0±8,1  34  72  Muito bom 
Resultado KTK  247,3±32,5  156  299  Muito bom 

Não foi observada relação entre a coordenação motora e a maturação somática (r=‐0,14; p=0,52; n=24). Por outro lado, verificou‐se correlação negativa e estatisticamente significativa entre o IMC e a coordenação motora (r=‐0,69; p<0,001; n=24). Isso indica que quando o IMC aumenta, a coordenação motora diminui. De acordo com essa análise, 50% da variância na coordenação motora poderiam ser explicados pelo IMC do jovem atleta (fig. 1). Entretanto, a inspeção visual do gráfico de dispersão entre o IMC e a coordenação motora, avaliada pelo desempenho total no teste KTK, sugere que a correlação entre essas variáveis é significativa para valores de IMC maiores do que 20,6, ou seja, somente nos atletas com sobrepeso‐obesidade (fig. 1). De fato, a comparação entre as médias dos grupos eutrófico vs. sobrepeso‐obesidade confirma que o grupo sobrepeso‐obesidade apresentou menor desempenho no teste de coordenação motora comparado com o grupo eutrófico (193,7±34,6 vs. 258,0± 19,2, respectivamente) (fig. 2).

Figura 1.
(0.11MB).

Gráfico de dispersão entre a coordenação motora, avaliada pelo teste KTK, e o índice de massa corporal (IMC) de jovens atletas de atletismo da categoria pré‐mirim (n=24).

Figura 2.
(0.07MB).

Blox‐plot da coordenação motora, avaliada pelo teste KTK, em função da classificação do índice de massa corporal (IMC) de jovens atletas de atletismo da categoria pré‐mirim (n=24).

*Diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Discussão

O principal achado do presente estudo foi que jovens praticantes de atletismo da categoria pré‐mirim com excesso de peso (IMC>20,6) apresentam prejuízos na coordenação motora independentemente da maturação somática.

O fenômeno da obesidade infantil tem sido objeto de estudo de muitas pesquisas recentes (Rennie e Jebb, 2005). Tal fenômeno parece estar relacionado ao aumento dos níveis de sedentarismo de crianças e jovens, ligado diretamente à ausência na participação de programas que promovem a prática de exercício, que implicaria a redução das habilidades motoras, bem como o aumento da prevalência do sobrepeso e da obesidade (Catenassi et al., 2007). A relação inversa entre IMC e a coordenação motora encontrada no presente estudo corrobora os achados de outros autores (Berleze et al., 2007; França et al., 2007; Graf et al., 2004; Valdivia et al., 2008), que destacam a influência negativa da obesidade sobre o desempenho motor. Graf et al. (2004) correlacionaram o IMC, o nível de atividade de lazer e as habilidades motoras de crianças alemãs com idade entre seis e sete anos. Os resultados encontrados demonstram queda do desempenho motor com o aumento do IMC e melhoria no desempenho com maior nível de atividades de lazer. Esses autores verificaram que os indivíduos com menor IMC alcançaram melhores resultados no teste KTK. Quando avaliada a influência do percentual de gordura sobre a coordenação motora, Valdivia et al. (2008) verificaram que crianças com menor percentual de gordura apresentaram melhor coordenação motora.

No presente estudo, é importante destacar que o prejuízo na coordenação motora foi observado principalmente nos atletas com IMC>20,6, ou seja, naqueles considerados como sobrepeso ou obesidade. No grupo de atletas considerados eutróficos, não houve associação entre IMC e coordenação motora. Isso significa que, nesse grupo populacional, a relação massa corporal/estatura passa a influenciar negativamente somente a partir de um determinado ponto, nesse caso IMC acima de 20,6. O que se nota com isso é que mesmo em jovens treinados o excesso de peso influencia diretamente na coordenação motora, ou seja, o treinamento não é capaz de igualar as condições motoras de jovens sobrepeso ou obesos. Para que se tenha uma melhor eficiência e rendimento, mesmo jovens em treinamento precisam perder gordura corporal. Outro fator importante que deve ser destacado é o baixo número de indivíduos com excesso de peso dentro desse grupo do atletismo. Isso não se restringe a esse grupo, mas sim é uma característica da modalidade, no qual com exceção dos arremessadores, os atletas têm um perfil eutrófico.

Uma possível variável que pode influenciar a coordenação motora é a maturação, o que não foi corroborado pelos resultados do presente estudo. Segundo Malina et al. (2004), o desenvolvimento da maturação influencia diretamente nas diferentes qualidades físicas, como potência aeróbia, força, velocidade, resistência e desempenho em tarefas motoras, de modo que esse efeito não pode ser desprezado na análise da coordenação motora de jovens atletas, uma vez que crianças e adolescentes com maturação avançada tendem se sobressair em relação aos com maturação atrasada. Estudos anteriores que avaliaram a relação entre medidas antropométricas e a coordenação motora (Berleze et al., 2007; Collet et al., 2009; Deus et al., 2010; Graf et al., 2004; Valdivia et al., 2008) em jovens e crianças não analisaram o estatuto maturacional em que os avaliados se encontravam. No presente estudo, a maturação somática foi avaliada pelo Maturity Offset, distância em anos que o indivíduo se encontra do PVC, e não foi observada influência desse indicador sobre a coordenação motora.

De acordo com a literatura, o baixo desempenho motor pode estar ligado principalmente à falta de experiência motora (Caetano et al., 2005), à falta de instrução adequada e a fatores motivacionais (Gallahue e Ozmun, 2005). No presente estudo, todos os avaliados participavam de pelo menos seis meses de treinamento de atletismo, com experimentação de diversas habilidades motoras básicas. Dessa forma, a relação encontrada entre a coordenação motora e o IMC parece ser independente do repertório motor adquirido ou do nível de atividade física dos atletas, mas sim em função dos prejuízos impostos pela distribuição corporal a padrões adequados ao movimento funcional e esportivo.

Como limitações do presente estudo, destaca‐se o pequeno tamanho amostral. Além disso, os resultados não podem ser extrapolados para o sexo feminino. Para discriminar melhor o efeito do treinamento, deveria ser incluído um grupo controle, composto de jovens não engajados em treinamento sistematizado. Novos estudos devem ser feitos com uma maior amostra, incluindo atletas do sexo feminino, para verificar a relação entre IMC e desempenho em diferentes provas do atletismo.

Conclusão

Jovens atletas de atletismo com excesso de peso apresentam menor coordenação motora do que aqueles com IMC dentro da faixa de normalidade. Ou seja, somente o treinamento não é suficiente para que jovens com excesso de peso tenham o mesmo desempenho motor de jovens eutróficos, é necessário que percam gordura corporal.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Autor para correspondência. (Jefferson Verbena de Freitas jeffersonverbena@gmail.com)
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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:91-7 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.02.003