Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:168-75 - Vol. 39 Num.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.003
Artigo original
O jogo defensivo diante de diferentes sistemas ofensivos no handebol: análise do cenário técnico‐tático e reflexões sobre o ensino
Defensive performance against different offensive systems in handball: analysis of technical‐tactical scenario and reflections on teaching
El juego defensivo frente a los diferentes sistemas ofensivos en balonmano: análisis del escenario técnico‐táctico y reflexiones sobre la enseñanza
Rafael Pombo Menezesa,, , Heloisa Helena Baldy dos Reisb
a Universidade de São Paulo (USP), Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP), Ribeirão Preto, SP, Brasil
b Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Faculdade de Educação Física (FEF), Campinas, SP, Brasil
Received 14 January 2016, Accepted 07 February 2017
Resumo

O objetivo desta pesquisa foi mapear os principais comportamentos e elementos técnico‐táticos defensivos diante de diferentes sistemas ofensivos no handebol. Foram entrevistados quatro treinadores experientes, cujos depoimentos foram tabulados e analisados com base no método do Discurso do Sujeito Coletivo. Diante do sistema ofensivo clássico foram apontados elementos como flutuação, variabilidade defensiva e dificultar a atuação de pontas e pivô. Diante de sistemas diferentes do clássico os treinadores sugerem dificultar a produção de espaços, alternar os sistemas defensivos e a adaptação às situações do jogo. São esperados comportamentos específicos diante dos cenários técnico‐táticos impostos por diferentes sistemas ofensivos que requerem formas específicas de treinamento.

Abstract

The aim of this work was to map the relevant defensive behaviors and elements front of different offensive systems. Were interviewed four experienced handball coaches, whose speeches were tabulated and analyzed based in the Collective Subject Discourse method. The coaches pointed that front of classic offensive system the floating, the defensive variability and hindering the activities of wings and pivot are essential. Front of offensive systems different of classic, variables as hinder spaces production, perception and adaptability to game situations and changes of defensive systems are important. Thus, specific variables are expected front of technical‐tactical scenarios imposed by different offensive systems, which requires specific training.

Resumen

El objetivo del presente trabajo fue identificar los principales comportamientos y elementos técnico‐tácticos defensivos frente a diferentes sistemas ofensivos en balonmano. Entrevistamos a cuatro entrenadores expertos, cuyos testimonios fueron ordenados y analizados sobre la base del método de las prácticas discursivas del sujeto colectivo. Ante el sistema ofensivo clásico, los principales elementos fueron la flotación, la variabilidad defensiva y obstaculizar el juego del pivote y de los extremos. Frente a los sistemas diferentes del clásico, los entrenadores sugieren dificultar la producción de espacios, cambiar los sistemas defensivos y la adaptación a las situaciones de juego. Por tanto, se esperan comportamientos específicos ante diferentes escenarios técnico‐tácticos impuestos por los adversarios.

Palavras‐chave
Pedagogia do esporte, Esportes coletivos, Handebol, Tática defensiva
Keywords
Sport pedagogy, Team sports, Team handball, Defensive tactic
Palabras clave
Pedagogía del deporte, Deportes de equipo, Balonmano, Táctica defensiva
Introdução

O handebol agrega em sua dinâmica importantes relações entre os jogadores de uma mesma equipe (cooperação) e entre jogadores de equipes adversárias (oposição), nas quais são apresentados diferentes elementos técnico‐táticos e sistemas de jogo para buscar constantemente o êxito (Garganta, 1998). As relações de oposição apresentam um contexto dinâmico influenciado pelo desenvolvimento das ações dos jogadores e suas mudanças de comportamentos técnico‐táticos.

No contexto do jogo tais relações apresentam‐se de forma complexa e o desenvolvimento dos elementos técnico‐táticos individuais (que envolve apenas um jogador), grupais (que envolve dois jogadores) e coletivos (que envolve três ou mais jogadores) (Greco et al., 2012) de uma equipe deve ser suficientemente simples para a compreensão por seus membros e complexos para os adversários (Menezes, 2012).

Os defensores (nos diferentes jogos coletivos esportivizados –JCE– de invasão) têm objetivos pautados em princípios operacionais específicos: recuperar a posse da bola, impedir que o adversário se aproxime do alvo (gol) e evitar que o adversário anote o gol (Bayer, 1994; Gréhaigne e Godbout, 1995). Para contemplar tais princípios, os jogadores são distribuídos em postos específicos, que constituem o sistema defensivo da equipe (Antón García, 2002), nos quais concatenam diferentes elementos técnico‐táticos para ocupar equilibradamente os espaços da quadra e dificultar o desenvolvimento das ações ofensivas. Por esse motivo, a integração entre os diferentes elementos técnico‐táticos defensivos deve ser compreendida por cada jogador, principalmente em relação ao aspecto agrupamento‐dispersão (concentração e afastamento entre os jogadores), para que haja um equilíbrio espacial entre os jogadores, em profundidade e largura, em diversas regiões da quadra (Antón García, 2000).

Os sistemas ofensivos são organizados para que os atacantes coordenem suas ações individuais e coletivas em busca do gol (García Calvo et al., 2004) e assumam diferentes estruturas a partir de um comportamento tático flexível para surpreender os defensores (Greco, 2001; Menezes, 2011). Basicamente os sistemas ofensivos são classificados em: 3:3 (clássico, padrão para os demais), 2:4 e 4:2 (que podem se consolidar a partir de modificações do 3:3 clássico, pela ocupação do posto de pivô por um armador ou ponta) (Melendez‐Falkowski e Enriquez‐Fernández, 1988; Arias Estero, 2007; Menezes, 2011).

Nessa perspectiva de complexidade do cenário técnico‐tático do handebol, aponta‐se o papel central do treinador no processo de ensino‐aprendizagem‐treinamento (EAT), pelo emprego de métodos que enfatizem o desenvolvimento de capacidades como a percepção, a atenção, a antecipação e a tomada de decisão (Matias e Greco, 2010). Os diferentes métodos de ensino (como o analítico‐sintético, o global‐funcional e o situacional) podem contribuir de maneira específica para o desenvolvimento dessas capacidades dos jogadores se considerarem não apenas o cenário no qual se desenvolvem as ações do jogo (Greco, 2001; Menezes et al., 2014), mas também as diferentes características inerentes às faixas etárias dos jogadores (Menezes et al., 2015).

Parte‐se da hipótese inicial de que as especificidades dos sistemas ofensivos (clássico e diferentes do clássico) requerem dos defensores o emprego de diferentes estratégias e elementos técnico‐táticos. Assim, o objetivo desta pesquisa foi discutir os elementos defensivos mais relevantes diante de diferentes sistemas ofensivos e o seu processo de EAT a partir da opinião de treinadores experientes de handebol.

Metodologia

Fizeram parte da amostra quatro treinadores de handebol (dois do sexo masculino e dois do feminino) com tempo médio de atuação de 23,5±7 anos. Dos oito treinadores que se enquadravam nos critérios de inclusão no momento da coleta dos dados foram contatados, quatro não estavam disponíveis ou não retornaram os contatos. Os critérios de inclusão foram: a) dirigir equipes femininas adultas (quandoda coleta de dados); b) ter participado dos três últimos ciclos olímpicos como membro da comissão técnica da seleção feminina; e c) ter sido finalista da Liga Nacional de Handebol feminina. Todos assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa Institucional.

Optou‐se pela pesquisa qualitativa devido à busca pelo conhecimento dos pensamentos de uma comunidade (treinadores) em relação a um dado tema, a partir dos seus discursos (Marconi e Lakatos, 2011; Lefèvre e Lefèvre, 2012). O fato de lidar com a interação e a relação entre jogadores da mesma equipe e de equipes adversárias justifica a importância deste tipo de estudo, principalmente por tentar captar a dinâmica e a complexidade dessas relações, e não uma redução do enfoque com base em parte desse fenômeno (Lefèvre e Lefèvre, 2012).

Para que os treinadores expressassem suas opiniões sobre o tema abordado foi desenvolvido um instrumento de entrevista semiestruturada, que possibilitou a obtenção de informações que não seriam possíveis por uma pesquisa bibliográfica ou de observação (Boni e Quaresma, 2005). O roteiro foi composto por duas questões centrais: 1) “Diante de adversários que adotam o sistema ofensivo clássico (3:3), de que forma você espera que seus defensores atuem?”; e 2) “Diante de adversários que adotam sistemas ofensivos diferentes do clássico, de que forma você espera que seus defensores atuem?”.

Os discursos foram transcritos, tabulados e analisados com base no método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), no qual a partir dos trechos dos discursos de cada treinador buscou‐se construir o pensamento da coletividade, coerentemente com cada uma das partes que o compõem (Lefèvre e Lefèvre, 2012).

O DSC é composto por três figuras metodológicas: as ideias centrais (IC: descrição objetiva de um determinado discurso sobre a temática, que reduz sua polissemia); as expressões‐chave (ECH: transcrições literais de trechos contínuos ou descontínuos do discurso referentes à IC); e o DSC (composto pelas ECH que têm a mesma IC, redigido na primeira pessoa do singular, representa o discurso de todos como se fosse o de apenas um) (Lefèvre e Lefèvre, 2012).

Na apresentação de cada DSC na seção de resultados identificou‐se a procedência da fala de forma sobrescrita. Para permitir diálogos com a literatura específica do handebol, a seção de discussão foi dividida em três tópicos principais: a) atuação dos defensores diante do sistema ofensivo clássico; b) atuação dos defensores diante de sistemas ofensivos diferentes do clássico; c) aspectos gerais da dinâmica do jogo.

Resultados e discussãoAtuação dos defensores diante do sistema ofensivo clássico (3:3)

Quando indagados sobre o comportamento dos defensores diante do sistema ofensivo clássico, todos os treinadores apontam no DSC1 (originárioda IC‐1: “Variabilidade e continuidade do jogo defensivo”) a necessidade de variar as ações e manter a continuidade do jogo defensivo:

A variabilidade defensiva aparece como um aspecto importante,S1,S2 pois temos que perceber se o trabalho ofensivo adversário está dentro dos 9m ou fora, para então trabalhar a composição da defesa, ora indo na linha de tiro, ora em basculação, ora dissuadindo, ora atacando o ímpar.S2 Se o meu modelo não está dando eu troco por outro para ver se funciona; se não der certo talvez seja a hora de mudar o sistema.S3 Vai depender da característica da equipe adversária, normalmente começa no 6:0, daí vai pro 5:1 ou misto,S1 mas podemos jogar no 6:0, no 3:2:1.S4 Se tiver dois jogadores que desequilibram o jogo marca os dois individual.S1 É importante o entendimento de que é um jogo coletivo e de continuidade, assim como no ataque.S4 Tem que ter muita basculação,S2,S4 muito deslocamento lateral. A gente está conseguindo chegar a tempo, chegar no espaço, conseguindo ganhar falta de ataque.S2

Os treinadores consideram importante variar os sistemas defensivos de acordo com as imposições do jogo ofensivo adversário, seja pelo comportamento dos defensores ou pela mudança de sistema de jogo. A adequação do jogo defensivo visa a conservar seus princípios operacionais (Bayer, 1994; Gréhaigne e Godbout, 1995), manter situações favoráveis (como a superioridade numérica defensiva) e buscar o equilíbrio das relações de cooperação e oposição (Garganta, 1998), o que é apontado no DSC1 quando se sugere que se há dois atacantes que possam desequilibrar o jogo, que devam ser marcados individualmente.

Para diminuir os espaços produzidos e dificultar infiltrações e arremessos de curtas distâncias os treinadores mencionam o uso da basculação (DSC1), além da possibilidade de recuperar a posse da bola a partir de uma falta de ataque. Trata‐se de um movimento conjunto dos defensores na direção da circulação da bola, para buscar superioridade numérica no setor no qual a bola se encontra e impedir que os atacantes infiltrem ou se aproximem da linha da área (Fernández Romero et al., 1999; Antón García, 2002; Menezes, 2011). A basculação pode ser feita em qualquer sistema defensivo zonal ou misto, sendo mais usada diante de ataques posicionais pautados nas tentativas de penetração sucessivas.

As múltiplas possibilidades de variabilidade defensiva citadas pelos treinadores também são abordadas por Antón García (2002) como um princípio decorrente das adaptações às variabilidades ofensivas. Assim, tenta‐se evitar comportamentos defensivos estereotipados que diminuem o nível de complexidade para os atacantes pela fácil adaptação e antecipação desses face às constâncias perceptivas do cenário do jogo (Antón García, 2002). É importante ressaltar que o comportamento tático flexível dos jogadores é influenciado por estímulos provenientes de diferentes métodos de ensino dos JCE, principalmente do global‐funcional e do situacional (Greco, 2001; Menezes et al., 2014), que trazem cenários nos quais os jogadores devem tomar suas decisões a partir da dinâmica estabelecida entre seus companheiros, adversários, bola e alvos.

A continuidade do jogo defensivo é destacada no discurso dos treinadores, justificada pelo fato de que se trata de um jogo coletivo que requer encadeamento de ações individuais e coletivas (Antúnez Medina e Ureña Ortín, 2002). A boa sincronização entre as ações dos defensores deve ser vista como um processo, cuja continuidade depende de sincronizações espaço‐temporais entre esses e decorre de comportamentos individuais (como a contextualização das intenções do defensor à situação apresentada) e coletivos (com o encadeamento dos elementos técnico‐táticos) para dificultar as ações adversárias (Antón García, 2002).

No DSC2 (provenienteda IC‐2: “Flutuação, cobertura e dissuasão”) os treinadores (S1, S2 e S4) abordam elementos técnico‐táticos que consideram importantes nesse cenário:

Tem que quebrar a dinâmica de conforto que os atacantes têm para alguns espaços; a flutuação é a primeira situação.S1,S2 Preconizo que o defensor deva jogar em profundidadeS4 e que nós temos que atacar o ataque, com ofensividade de média e longa distância, tem que tirar o espaço, iludir; mas antes precisa analisar quanto precisa de espaço e profundidade para essa jogadora.S2 Vai priorizar sempre os setores mais fortes, eu acho que pode avançar um jogador pra tirar um passe da esquerda ou da direita pro jogo ficar mais lento.S1 A defesa tem que trabalhar com ajudas; na marcação do pivô a gente tem que definir dois jogadores em função do que o meu adversário tiver.S4 Se tiver dois jogadores que desequilibram o jogo eu dificulto a bola de chegar nele ou eu marco eles individualmente, para diminuir a velocidade de ataque.S1

A flutuação consiste na ação de aproximação‐afastamento de um defensor em relação ao seu marcador direto (Fernández Romero et al., 1999) para tentar impedir que esse se aproxime de setores com melhores possibilidades de arremesso. Sugere‐se que os defensores atuem em profundidade, principalmente diante de armadores que têm boa capacidade de arremessos de longa distância, o que aumenta a distância desses em relação ao gol, limita seu raio de ação e proporciona o jogo em zonas menos eficazes (Fernández Romero et al., 1999; Antón García, 2002).

A dissuasão, outro elemento técnico‐tático apontado pelos treinadores no DSC2, envolve, na concepção desses, a tentativa de diminuir a velocidade ofensiva e recuperar a posse da bola. Esse elemento técnico‐tático individual é semelhante à flutuação, porém a aproximação é feita pelo defensor que marca o atacante sem a posse da bola, mas que seja um receptor em potencial, de maneira a provocar dúvidas ao passador e mostrar o interesse em recuperar a bola (Menezes, 2011).

As coberturas são mencionadas como um importante elemento técnico‐tático defensivo no DSC2, por representar o conceito de ajudas mútuas durante a marcação e a ocupação dos espaços produzidos pela circulação ofensiva. A proteção da zona da bola é seu principal objetivo, permite respaldar o defensor que flutua ou limitar o ângulo de arremesso do possuidor da bola (Bayer, 1987; Antón García, 2002). Para os treinadores as coberturas dificultam o passe para o pivô e limitam seu espaço de atuação.

Permitir o jogo apenas aos armadores também é uma preocupação externada pelos treinadores (S1, S2 e S4) no DSC3 (originárioda IC‐3: “Dificultar a atuação dos pontas e do pivô”):

Os defensores que marcam os pontas não podem deixar a bola chegar até eles, pra que só os armadores movimentem a bola e o jogo fique mais lento; torna o trabalho da defesa mais fácil, pois se os pontas pegarem na bola o jogo fica mais rápido,S1 o que aumenta o perigo com a continuidade do jogo ofensivo de sobrar as laterais.S2 A marcação do pivô é fundamental em todas as situações, pois fazer gol com o pivô é a forma mais fácil e marcar o pivô é a coisa mais difícil que tem. Conseguiu colocar a bola no pivô, ou é gol, ou 7 metros, ou ele inicia um jogo de continuidade excelente. Deve destacar dois jogadores para marcar o pivô.S4

No caso dos pontas, os treinadores citam a relação com a continuidade do jogo ofensivo devido ao incremento na sua velocidade. Já a preocupação com o pivô é justificada pelo fato de ser mais fácil anotar os gols com a participação desse pela maior proximidade em relação ao gol, o que culmina com a sua marcação por dois defensores. Antón García (2002) aponta que o pivô deve estar sob contato defensivo permanente e que qualquer atacante que circule nas regiões próximas à área deve ser bloqueado ou ter seu deslocamento dificultado.

Em síntese, a partir das características dos atacantes os treinadores optam por variar primeiramente as ações dos defensores (DSC2) e, num segundo momento, os sistemas defensivos (DSC1) com as seguintes premissas: ocupar possíveis espaços produzidos pelos atacantes durante a circulação da bola; diminuir os espaços que os atacantes têm para desenvolver suas ações; diminuir a velocidade do jogo coletivo ofensivo; e auxiliar os demais defensores que deixam seus postos específicos em uma flutuação ou dissuasão.

Atuação dos defensores diante de sistemas ofensivos diferentes do clássico

Ao serem indagados sobre o comportamento dos defensores diante de sistemas diferentes do clássico, todos os treinadores entendem, assim como diante do sistema clássico, que se deve dificultar a produção de espaços pelos atacantes e induzi‐los aos arremessos de zonas desfavoráveis, conforme apresentado no DSC4 (provenienteda IC‐4: “Dificultar a produção de espaços e diminuir a velocidade do jogo ofensivo”):

Se um atacante perceber que tem espaço ele vai atacar ou vai ficar transitando a bola até a produção.S1 No desdobramento, ou eu vou na bola ou no lado mais forte, ou eu fico com um avançado mesmo na zona central.S2 É importante quebrar o ritmo do adversário, seja por uma falta ou por uma tirada de passe, porque as ações táticas são feitas para dar certo, e se eu permitir que essa ação seja feita vai ser mais difícil eu marcar no fim do que na construção dela.S4 Posso dificultar a produção de espaços pressionando uma zona, com muito apoio, e outra que não tem muito apoio joga 2×2.S3 A defesa tem que ter ajuda, tem que ser ofensiva para dificultar as ações do adversário e criar situações onde o adversário pare, que ele não tenha a posse de bola por um período longo, para que as ações táticas não tenham uma construção longa.S4 Para dificultar um pouco a movimentação eu procuro fazer um 5+1 e dificultar os passes.S2 Na verdade o avançado na defesa 5:1 não marca ninguém, marca a bola; o problema é que quando a bola passa por ela, nós não temos como segurar com o base.S3

Dentre as possíveis estratégias para dificultar a produção de espaços os treinadores citam uma marcação mais agressiva no setor ofensivo com os melhores jogadores, o que diminui a velocidade do jogo ofensivo e dificulta os encadeamentos posteriores. São requeridos dos defensores diferentes elementos técnico‐táticos para avançar o posicionamento do sistema defensivo ou para pressionar o setor mais efetivo do ataque.

Um desses elementos técnico‐táticos é a marcação, que se refere à atitude do defensor em relação ao seu marcador direto ou indireto na tentativa de obter êxito, pode ser executada em proximidade ou a distância. Na marcação em proximidade, abordada pelos treinadores, há a busca pelo contato corporal com o atacante para dificultar ou evitar ações como passe, recepção, arremesso e progressão (Antúnez Medina e Ureña Ortín, 2002; Menezes, 2011). Outras possibilidades se dão a partir dos demais elementos técnico‐táticos apontados pelos treinadores, como a basculação, a flutuação, a cobertura (também abordados diante do sistema ofensivo clássico) e a troca de marcação.

A troca de marcação é preferida pelos treinadores por dificultar a criação de espaços pelos atacantes e por buscar a igualdade numérica. Consiste em dois defensores manterem seus postos específicos diante da troca de posição entre dois atacantes, conservando a estrutura espacial do sistema defensivo (García Cuesta, 1991; Fernández Romero et al., 1999) e evitar a criação de superioridade numérica ofensiva (Antón García, 2002).

Os esforços para tentar diminuir a velocidade ofensiva a partir do aumento da ofensividade dos defensores (DSC4) também é um tema abordado pelos treinadores, para diminuir o tempo de construção das ações ofensivas e, consequentemente, o tempo de posse de bola dos atacantes. Para os treinadores, os defensores devem apresentar a intenção de recuperar a posse da bola e auxiliar os companheiros na proteção de regiões vulneráveis.

Diante de sistemas ofensivos como o 2:4 e o 4:2 todos os treinadores relatam no DSC5 (provenienteda IC‐5: “Leitura e adaptabilidade às situações de jogo”) a necessidade de os defensores se adaptarem ao contexto do jogo, para que compreendam possibilidades, objetivos e possíveis desdobramentos das ações ofensivas:

Os jogadores devem ter conhecimento das possibilidades dos adversários, independentemente de se eles vão fazer as ações ou não. O jogador ter esse entendimento e procurar fazer essa leitura, de sempre buscar defensivamente a ação do adversário.S4 Quando o sistema ofensivo vira 4:2, a partir de um desdobramento ou de uma circulação, procuro ir para o lado forte, não ir na bola, mas ficar com o lado do ataque adversário com mais chegada de gol. Tenho treinado nesse desdobramento a gente ficar no meio, porque venho analisando que as equipes fazem o desdobramento e vão jogar pela zona central. Eu faço com as minhas atletas no treinamento uma leitura da jogadora que pode receber a bola, para antecipar.S2 Quando jogamos contra equipes fortes se você dá o apoio de um lado da quadra, o jogador inteligente solta a bola rápido e do outro lado da quadra acaba com um a menos.S3 A troca de marcação aparece como um importante elemento,S4 principalmente quando uma jogadora acompanha quem vai arremessar e a outra fica com o pivô. Priorizo não flutuar no jogador da bola, porque vai sobrar o pivô, então dobra no pivô e marca o lado da bola.S1

Os sistemas ofensivos 2:4 e 4:2 proporcionam bons resultados contra defesas abertas (como 5:1, 3:2:1 e 3:3), são usados quando os armadores têm boa qualidade técnico‐tática individual e contra sistemas defensivos que atuam em linha de arremesso (Melendez‐Falkowski e Enriquez‐Fernández, 1988; Arias Estero, 2007). O sistema ofensivo 2:4 possibilita essencialmente o jogo em profundidade, sem que haja perda na noção de largura em seu desenvolvimento (Arias Estero, 2007) para criar espaços na continuidade do jogo ofensivo na região central da quadra (Menezes, 2011).

Na mudança de sistema ofensivo (do 3:3 clássico para o 4:2 ou 2:4) os treinadores sugerem pressionar o setor ofensivo mais efetivo e proteger a região central da quadra, para antecipar possíveis comportamentos ofensivos e auxiliar os demais defensores. O sistema defensivo deve adaptar‐se às características dos defensores e dos adversários, refletindo em diferentes transformações que busquem uma distribuição equilibrada em profundidade e largura dos espaços (Antón García, 2002). Assim, o defensor deve analisar as situações apresentadas pelos adversários para resolvê‐las adequadamente e pautar‐se em diferentes capacidades de jogo (Matias e Greco, 2010).

A alternância entre sistemas defensivos (DSC6, oriundo da IC‐6: “Mudança nos sistemas de jogo”) também é apontada pelos treinadores (S1, S2 e S3) como preponderante diante da mudança de sistema ofensivo, partindo do sistema defensivo 6:0 para 4:2, 5:1 ou 5+1 (no qual um adversário é marcado individualmente), principalmente diante de adversários com bons arremessadores de longa distância:

É preciso mudar o sistema defensivo; por exemplo, se um jogador adversário arremessa de longe, com certeza ele vai ser tirado, e mesmo com dois pivôs tem a possibilidade de fazer uma marcação mista.S1 Quando os dois pivôs já estão plantados, diferente de quando eles desdobram, procuro trabalhar 4:2 não muito aberto e não muito alto, mas um 4:2 clássico no setor que está a bola. Então eu faço um deslocamento dos dois defensores avançados, no armador que está com a bola e no seu vizinho, para diminuir as possibilidades de jogo ofensivo.S2 Se o 4:2 que já está instalado tem jogadoras lá fora na linha de 9m com bastante importância nos arremessos de média e longa distância eu procuro fazer um 5+1.S2,S3

Percebe‐se a preocupação de dificultar a produção de espaços e diminuir a velocidade do jogo ofensivo sem a criação de um estereótipo defensivo, o que dependerá da forma com que o sistema ofensivo se diferenciará do clássico: a partir do posicionamento inicial no sistema 4:2 ou 2:4, ou mesmo a partir do desdobramento de um ponta ou armador para o posto de pivô.

Antón García (2002) aponta que a região de atuação dos defensores deve ser limitada, reforçando a ideia de conservação dos postos específicos para manutenção do balanço espacial defensivo. Os deslocamentos amplos dos defensores em um sistema zonal ou misto, que acompanham as trajetórias e progressões dos atacantes, podem permitir a produção de grandes espaços para os atacantes (Menezes, 2011), sendo as trocas de marcação interessantes nesse contexto (García Cuesta, 1991; Fernández Romero et al., 1999), além da necessidade de continuidade do jogo defensivo para manter o balanço defensivo.

Por último, os treinadores apresentam dois posicionamentos em relação à flutuação diante de sistemas ofensivos diferentes do clássico: a) ao flutuar em qualquer jogador em posse da bola, haverá a produção de espaços importantes para o deslocamento do pivô e desenvolvimento de suas ações (DSC5); e b) flutuar no armador em posse da bola limita seu raio de ação, diminui sua velocidade e suas possibilidades de jogo. Entendemos que a flutuação constitui‐se um elemento que deve ser compreendido em um contexto mais amplo, juntamente com o uso de outros elementos e com o cenário imposto pelos adversários.

A dinâmica do jogo e os aspectos pedagógicos

Diante do variado cenário técnico‐tático imposto pelos atacantes, os defensores devem selecionar e usar as melhores soluções táticas para obter êxito no menor tempo possível (Antón García, 2002), de modo a empregar os elementos técnico‐táticos defensivos e promover a continuidade entre suas ações. As alterações no cenário do jogo provocadas pelos atacantes implicam percepção e identificação, pelos defensores, de aspectos que permitam planejar suas ações e dificultar o encadeamento das ações ofensivas. Na figura 1 está representado um esquema‐síntese dos achados nos discursos e dos aspectos abordados na literatura consultada.

Figura 1.
(0.32MB).

Comportamentos defensivos esperados diante do sistema ofensivo clássico e diante de sistemas ofensivos diferentes do clássico.

Destaca‐se que as vivências são importantes ao longo do processo de EAT, principalmente pelo incremento dos repertórios motor e cognitivo dos jogadores, cuja preocupação deva centrar‐se em estimular as capacidades de jogo para formar jogadores inteligentes (Matias e Greco, 2010; Menezes et al., 2014). Nesse contexto destacamos para a variedade de informações apresentada por métodos de ensino que enfatizem diferentes formas de jogos, por poder despertar nos jogadores a intencionalidade das suas ações.

Em relação aos elementos técnico‐táticos são apresentadas perspectivas diferentes em relação ao jogo diante do sistema clássico (com destaque para flutuação, dissuasão, cobertura e basculação) e ao jogo diante de sistemas diferentes do clássico (flutuação e troca de marcação).

Quanto aos aspectos de estruturação do jogo defensivo (plano estratégico‐tático), os treinadores apontaram que diante do sistema ofensivo clássico são relevantes: alternar os sistemas defensivos, variar as ações defensivas, dificultar a atuação dos pontas e do pivô, dar continuidade ao jogo defensivo e o trabalho conjunto defensor‐goleiro. Já diante de sistemas ofensivos diferentes do clássico os treinadores apontam aspectos como: alternar os sistemas defensivos, dificultar a produção de espaços, diminuir a velocidade ofensiva e a leitura e adaptabilidade às situações do jogo. Assim, é importante que haja oposição de forma ativa exercida pelos defensores para perturbar constantemente os atacantes, diminuir seus espaços e poder induzi‐los a erros (Latiskevits, 1991).

Os elementos técnico‐táticos abordados pelos treinadores não são manifestados espontaneamente, se considerarmos que os atacantes têm condições vantajosas frente aos defensores (que jogam em detrimento da posição da bola) (Bayer, 1987). Nesse sentido, apontamos que os defensores não devem ter uma característica apenas reativa em relação aos diferentes comportamentos ofensivos, mas que possam induzir os atacantes a desenvolver suas ações em regiões da quadra que limitem as suas possibilidades e, ainda, sejam favoráveis às ações dos defensores.

No tocante ao complexo cenário do jogo, entendemos que os treinos devem proporcionar bom desenvolvimento das ações dos defensores em um ambiente com variabilidade de estímulos que possibilitem o contato com amplas possibilidades do jogo ofensivo. Um exemplo da importância da variabilidade do ambiente de treino reside na relação de cooperação entre os defensores, evidenciada quando os treinadores aludem às coberturas, à basculação e às trocas de postos específicos.

O uso de métodos de ensino que privilegiam as vivências por meio de jogos e de situações reduzidas extraídas do jogo formal permite o desenvolvimento desses elementos em um contexto semelhante ao do jogo formal, premissa esta já indicada por Menezes et al. (2015) quando se trata de diferentes faixas etárias. A transferência dos conhecimentos e capacidades do contexto do treino para o jogo aparece como premissa para ambos os métodos (global‐funcional e situacional), garante a especificidade da aplicação do conjunto de táticas inerentes ao handebol (Menezes et al., 2014). Evidencia‐se a ênfase em aspectos referentes às relações de cooperação e oposição, pois apresenta diferentes possibilidades aos defensores para desenvolver estratégias que sejam exequíveis durante o jogo, pauta‐se na demanda apontada pelos treinadores entrevistados.

Conclusão

No handebol as relações de cooperação e oposição apontam um cenário técnico‐tático complexo, no qual há a constante busca dos jogadores pelo êxito. A disposição dos defensores em um sistema visa a estabelecer linhas gerais de atuação desses em seus postos específicos para dificultar o jogo coletivo adversário (e sua produção de espaços) e tentar recuperar a posse da bola. Destacam‐se os esforços individuais e coletivos, manifestados pelos elementos técnico‐táticos defensivos, que garantam uma boa continuidade do jogo defensivo e a possibilidade de jogar em igualdade ou superioridade numérica.

A hipótese inicial de que os sistemas defensivos devem apresentar comportamentos específicos em função dos diferentes cenários impostos pelos sistemas ofensivos se confirmou a partir das entrevistas. A análise dos discursos dos treinadores permitiu mapear os elementos técnico‐táticos e os princípios de jogo mais relevantes para a constituição de sistemas defensivos diante de diferentes cenários. Revelou‐se, ainda, que os defensores devem empregar elementos técnico‐táticos específicos mediante os cenários estudados, com preocupações recorrentes à produção de espaços pelos atacantes, à variabilidade das ações, à adaptação às situações impostas pelos adversários e às ajudas mútuas entre os defensores.

No âmbito do processo de EAT do handebol é possível sugerir, se considerarmos os discursos dos treinadores sobre a dinâmica do jogo, aspectos estratégico‐táticos defensivos para orientar o planejamento desse processo, que deve ser conduzido de forma ampla e variada, pautado em diferentes métodos de ensino. Destaca‐se que mais estudos são necessários para concretizar uma proposta para o EAT dos aspectos defensivos em diferentes faixas etárias, se considerarmos as possibilidades de variação do jogo ofensivo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Autor para correspondência. (Rafael Pombo Menezes rafaelpombo@usp.br)
Copyright © 2017. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:168-75 - Vol. 39 Num.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2017.02.003