Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ci��ncias do Esporte 2017;39:17-23 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.02.013
Artigo original
Em pauta a produção do Grupo de Trabalho Temático Atividade Física e Saúde do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (1997‐2011)
To the agenda the production of Thematic Working Group Physical Activity and Health of the Brazilian College of Sport Science (1997‐2011)
La producción del Grupo de Trabajo Temático Actividad Física y Salud del Colegio Brasileño de Ciencias del Deporte (1997‐2011) en cuestión
Maria Isabel Brandão de Souza Mendesa, Nádia Souza Lima da Silvab,, , Marcos Santos Ferreirab, Maria Aparecida Diasa, Alexandre Palmac, Giannina do Espírito‐Santod, Carlos Alexandre Vieirae, Paula Nunes Chavesf
a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Educação Física, Natal, RN, Brasil
b Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Centro de Educação e Humanidades, Instituto de Educação Física e Desportos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Escola de Educação Física e Desportos, Programa de Pós‐Graduação Stricto Sensu em Educação Física, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Centro Universitário Augusto Motta, Departamento de Educação Física, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
e Universidade Federal de Goiás (UFG), Faculdade de Educação Física e Dança, Goiás, GO, Brasil
f Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Natal, RN, Brasil
Received 19 July 2013, Accepted 13 October 2013
Resumo

Esta pesquisa tem como objetivo mapear a produção científica do Grupo de Trabalho Temático (GTT) Atividade Física e Saúde publicada nos Anais dos Congressos Brasileiros de Ciências do Esporte (Conbrace) de 1997 a 2011, com vistas a refletir sobre indicadores epistemológicos. A partir da análise de conteúdo feita destaca‐se a pluralidade de estudos sobre saúde em diferentes abordagens científicas, de acordo com cada biênio, tendo um acréscimo dos estudos relacionados às humanidades, principalmente a partir de 2007. Aponta‐se a necessidade de uma política científica e de produção do conhecimento em educação física que valorize pesquisas sobre o SUS, tanto por meio do CBCE quanto pelas instituições de ensino superior.

Abstract

This research aims to map the scientific production of the Thematic Working Group (GTT) Physical Activity and Health published in the Annals of the Brazilian Sports Sciences (CONBRACE) from 1997 to 2011, in order to reflect on epistemological indicators. From the content analysis performed highlights the plurality of health studies in different scientific approaches, according to every two years, with an increase of studies related to the humanities, especially from 2007. Points up the need for a policy and scientific knowledge production in Physical Education that values research on the SUS, both through CBCE, as by higher education institutions.

Resumen

Esta investigación tiene como objetivo organizar la producción científica del Grupo de Trabajo Temático (GTT) Actividad Física y Salud publicado en los Anales de Ciencias del Deporte de Brasil (CONBRACE) de 1997‐2011 con el fin de reflexionar sobre el indicador epistemológico. A partir del análisis de contenido realizado se pone de manifiesto la pluralidad de los estudios de salud en los diferentes enfoques científicos, cada dos años, con un incremento de estudios relacionados con las humanidades, especialmente a partir de 2007. Señala la necesidad de una política y la producción de conocimiento científico en educación física que valoren la investigación en el SUS, tanto a través del CBCE como de las instituciones de educación superior.

Palavras‐chave
Atividade física, Saúde, Conhecimento, Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Keywords
Physical activity, Health, Knowledge, Brazilian College of Sport Science
Palabras clave
Actividad física, Salud, Conocimiento, Colegio Brasileño de Ciencias del Deporte
Introdução

O Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) foi fundado em 1978 e configura‐se como a principal entidade científica do Brasil que congrega pesquisadores, profissionais e estudantes de diferentes áreas do conhecimento relacionadas à educação física.

O CBCE é liderado por uma direção nacional e nos estados é representado pelas secretarias estaduais. Como parte integrante de sua composição também existem os grupos de trabalhos temáticos (GTTs), que foram criados em 1997 e se constituem por grupos de pesquisadores que têm interesses comuns em temáticas específicas.

Dentre os 12 GTTs existentes só há registros do mapeamento da produção do conhecimento de seis deles: Comunicação e Mídia, Corpo e Cultura, Epistemologia, Escola, Memórias da EF e Esporte e Movimentos Sociais (Carvalho e Linhales, 2007). Diante disso e, sobretudo, da necessidade de estudos que contribuam com reflexões sobre a produção do conhecimento relacionada à saúde, esta pesquisa tem como objetivo mapear a produção científica do Grupo de Trabalho Temático (GTT) Atividade Física e Saúde publicada nos Anais dos Congressos Brasileiros de Ciências do Esporte (Conbrace) de 1997 a 2011, com vistas a refletir sobre indicadores epistemológicos.

Torna‐se relevante o mapeamento proposto, na medida em que a relação entre atividade física e saúde, tema desse GTT, é um tema antigo e tem sido enfocado desde o século XIX, como mostra o editorial da Revista Brasileira de Ciências do Esporte (RBCE) de janeiro de 2001. Atualmente a produção e discussão em torno dessa temática cresce em volume e importância, na medida em que as evidências científicas reforçam a tese de que um estilo de vida ativo provoca melhorias na função e estrutura dos diferentes sistemas orgânicos, faz com que entidades internacionais de prestígio na área, como o American College of Sports Medicine (ACSM), afirmem que sua prática regular favorece aspectos importantes para a saúde e qualidade da vida dos indivíduos de todas as idades (ACSM, 2009; ACSM, 2011).

Entretanto, no Brasil, até o século XX, quem pesquisava sobre a relação entre atividade física e saúde era primordialmente médico, o que se modifica com a criação do CBCE (Mendes, 2007). Dentro dessa comunidade científica, a partir de 2001, se propõe a ampliação dessa relação e a abertura de discussões teóricas sobre esse binômio a partir de textos de Yara de Carvalho, Alexandre Palma e Marcos Santos Ferreira, dentre outros. Para esses autores, a relação entre atividade física e saúde não pode ser vista de modo linear, faz com que se considere que por si só a atividade física promova saúde, uma vez que a saúde é um processo complexo e depende de múltiplos fatores (Carvalho, 2001; Palma, 2001; Ferreira, 2001). Esses fatos reforçam ainda mais a relevância do presente estudo para uma melhor compreensão desse fenômeno no interior do GTT Atividade Física e Saúde/CBCE.

Material e métodos

Esta pesquisa caracteriza‐se como um estudo hermenêutico (RICOEUR, 1976) e foi feita por pesquisadores do Comitê Científico do GTT Saúde. Propicia um estudo em rede, agrega universidades do Nordeste, do Centro‐Oeste e do Sudeste, como a Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Federal de Goiás (UFG), a Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e o Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam). Esse estudo em rede favorece o intercâmbio acadêmico‐científico entre cinco instituições nacionais.

Primeiramente, para a reconstrução da memória do GTT Atividade Física e Saúde foi feito o registro do levantamento sobre o biênio de cada gestão, por meio de consulta aos membros do GTT e às pesquisadoras da área, mais especificamente a Yara de Carvalho1 e a Silvana Goellner.2 Yara de Carvalho foi perguntada sobre as gestões passadas e material referente ao GTT foi solicitado a Silvana Goellner.

Posteriormente, para a análise dos artigos publicados nos Anais dos Conbraces, a pesquisa focou os trabalhos apresentados como comunicações orais nos congressos que ocorreram entre 1997 e 2011. A análise desses artigos foi feita por meio da análise de conteúdo, de acordo com Bardin (1979).

Durante o percurso metodológico foi feita a leitura dos artigos e a codificação dos dados, o que contribuiu para a análise temática e a configuração de categorias.

As categorias nas tabelas foram criadas a partir de aproximações entre o que estava presente nos artigos analisados em relação aos temas definidos e deu prioridade à análise qualitativa.

Na própria leitura dos artigos foram identificadas relações com o Sistema Único de Saúde (SUS) e não houve discordância entre os pesquisadores. No que se refere à classificação das pesquisas, os pesquisadores fizeram uma relação do que era visualizado nos artigos com o que aparece nas referências de livros de metodologia da pesquisa.

Resultados e discussãoUm olhar sobre as gestões do Grupo de Trabalho Temático atividade física e saúde

De dois em dois anos, cada GTT é coordenado por um pesquisador. A tabela 1 apresenta a lista dos coordenadores do GTT Atividade Física e Saúde até 2011, quando findam nossas análises.

Tabela 1.

Relação de coordenadores do GTT Atividade Física e Saúde até 2011

Biênio  Coordenador 
1997/1999  Osni Jacó da Silva 
1999/2001  Dartagnan Pinto Guedes 
2001/2003  Marcos Bagrichevsky 
2003/2005  Paulo Farinatti 
2005/2007  Alexandre Palma 
2007/2009  Nádia Lima da Silva 
2009/2011  Maria Isabel Mendes 

Trazer à tona o nome dos coordenadores do GTT Atividade Física e Saúde é reconhecer a relevância desses pesquisadores na organização e coordenação das tarefas acadêmicas desse grupo. Tarefas essas que envolvem não somente a coordenação do processo avaliativo dos trabalhos que são submetidos para apresentação nos Conbraces, mas também a participação ativa no planejamento e na execução de atividades que integram planos de trabalho a serem desenvolvidos no período de cada gestão. Essas atividades são as mais variadas, destacam‐se as indicações de nomes para participação de mesas redondas, conferências e reuniões institucionais, o processo de reflexão sobre a ementa do GTT, a organização de eventos específicos do GTT e da programação específica do GTT durante cada Conbrace, dentre outras.

Cabe ressaltar também a relevância dos membros do Comitê Científico em cada gestão, dada a impossibilidade de os coordenadores trabalharem de forma isolada. Os membros do Comitê Científico são pesquisadores que têm interesse pela temática da saúde nas suas mais diversas opções epistemológicas, como aponta a ementa do GTT, e são fundamentais no processo de discussão das atividades a serem desenvolvidas em cada gestão.

Ao tratar especificamente do GTT Comunicação e Mídia, Leiro et al. (2007) ressaltam a importância do Comitê Científico para o funcionamento dos GTTs, o que muitas vezes passa despercebido. Desse modo, os autores destacam “a participação relevante e muitas vezes anônima do comitê científico do GTT, cujas várias composições estiveram integradas sempre por companheiros imbuídos do mais elevado espírito acadêmico, ajudando a construir e consolidar o trabalho das coordenações” (Leiro et al., 2007, p.163).

Nesse sentido, cabe lembrar que tanto a coordenação dos GTTs quanto a participação no comitê científico são trabalhos voluntários e requerem uma conciliação com as atividades desenvolvidas pelos pesquisadores em suas universidades. Portanto, é de suma importância que esses trabalhos sejam valorizados e reconhecidos como esforços não somente pessoais, mas principalmente coletivos, pois colaboram para a consolidação de temáticas que vêm sendo estudadas pela comunidade acadêmica da educação física.

Reflexões sobre a produção do Grupo de Trabalho Temático: 1997 a 2011

De 1997 a 2011 foram aprovados, entre comunicações orais e pôsteres, 308 trabalhos no GTT Atividade Física e Saúde (tabela 2). Ao observar a trajetória do GTT, identifica‐se um aumento no número de trabalhos aprovados de 1997 a 2001, uma queda brusca em 2003 e a retomada desses números a partir de 2005 (tabela 2).

Tabela 2.

Número de trabalhos aprovados no GTT Atividade Física e Saúde de 1997 a 2011

Cidade do Conbrace  Ano  N° de comunicações orais  N° de pôsteres  Total de trabalhos 
Goiânia  1997  23a  ‐  23 
Florianópolis  1999  19  36  55 
Caxambu  2001  23  34  57 
Caxambu  2003  10  15 
Porto Alegre  2005  30  35 
Recife  2007  21  28 
Salvador
Porto Alegre 
2009
2011 
27
31 
8
29 
35
60 
TOTAL    184  124  308 
a

Não foi possível identificar se esses 23 trabalhos foram comunicações orais ou pôsteres, motivo pelo qual eles foram analisados aqui como comunicações orais.

Diante da trajetória do GTT apresentada na tabela 3, identifica‐se que a cada Conbrace os trabalhos analisados carregam elementos que demonstram indicadores epistemológicos associados aos estudos relacionados à saúde em diferentes abordagens científicas e que contribuem com o mapeamento da produção.

Tabela 3.

Trabalhos analisados e relacionados ao tipo de abordagem científica de 1997 a 2011

Abordagem científica  1997  1999  2001  2003  2005  2007  2009  2011 
Biológica  19  15  10  22  10  11  12 
Humanidades  12  19 
Não identificados  4a 
Total de trabalhos  23  19  23  10  30  21  27  31 
a

Em 1997 só foram apresentados os resumos dos trabalhos

Em estudo anterior, Gonçalves et al. (1999), ao analisar os Anais do Conbrace de 1997, em Goiânia, afirmam que: “Na quase totalidade, saúde foi tomada exclusivamente em sua dimensão biológica e, quando avaliada na relação com o exercício, esse foi sugerido para melhoria de aptidão física ou recuperação de conformações anatômicas e/ou desvios posturais” (Gonçalves et al., 1999, p.129). Pelo que pôde ser percebido pela análise dos autores, além da adoção de uma única concepção de saúde exposta nos Anais de 1997, que privilegiou a perspectiva biológica, os trabalhos não abordaram os contextos nos quais os diferentes grupos estavam inseridos, minimizaram ou negligenciaram a influência e a importância dos contextos na análise.

Percebeu‐se também nos Anais de 1997 que não há discussões que problematizem a ideia de que a atividade física é saúde e está, somente, associada ao viés biológico. Entretanto, no decorrer dos anos, esse cenário epistemológico foi se alterando no GTT Atividade Física e Saúde, a ponto de, no último ano analisado, as produções relacionadas às ciências humanas predominarem, ainda que discretamente, em relação às de abordagem biológica. Algo que já vinha ocorrendo em 2007, quando os trabalhos de abordagem biológica superaram os de humanidades em apenas um (tabela 3).

Quando se debruça sobre os aspectos metodológicos das pesquisas, identifica‐se que, mesmo que nem todos os trabalhos analisados digam diretamente o tipo de pesquisa e de método adotado, consegue‐se identificar que de 1997 a 2011 as produções do GTT Atividade Física e Saúde vão se diversificando conforme os anos e contribuem para expressar uma pluralidade epistemológica.

Conforme pode ser observado na tabela 4, prioriza‐se o uso de pesquisas descritivas e de campo ao longo de todos os anos analisados. Identificam‐se também outros tipos de pesquisa, como a experimental, a exploratória, a de ação, a bibliográfica e a documental, além dos ensaios teóricos. Há ainda estudos transversais, longitudinais e epidemiológicos, bem como estudos de caso e estudos semióticos. No que se refere aos métodos de pesquisa, destaca‐se o método comparativo ao longo de todos os anos analisados, mas também aparece o método fenomenológico, a etnometodologia, a etnografia, o método indiciário e a triangulação metodológica. Identificam‐se ainda relatos de experiência, o que deve ser questionado pelo Comitê Científico, se esses trabalhos não deveriam ser apresentados em formato de pôsteres, em prioridade à apresentação das pesquisas feitas.

Tabela 4.

Trabalhos analisados e relacionados aos tipos e métodos de pesquisa de 1997 a 2011

Tipos de pesquisa  1997  1999  2001  2003  2005  2007  2009  2011 
Pesquisa descritiva 
Pesquisa de campo 
Pesquisa experimental       
Pesquisa exploratória     
Pesquisa ação           
Pesquisa bibliográfica       
Pesquisa documental       
Ensaio teórico     
Estudo transversal         
Estudo longitudinal               
Estudo epidemiológico               
Estudo de caso       
Estudo semiótico             
Método comparativo 
Método fenomenológico               
Etnometodologia               
Etnografia               
Método indiciário               
Triangulação metodológica               
Relato de experiência         
Não identificado             

A pluralidade epistemológica identificada com base nos diferentes tipos e métodos de pesquisas que compõem os trabalhos analisados reforçam a consistência da ementa do GTT Atividade Física e Saúde, uma vez que se trata de estudos de diferentes possibilidades de análises e intervenções em saúde – considerada como objeto não particular de um campo de conhecimento – e que, portanto, assumem a compreensão do fenômeno a ela relacionado por meio de diferentes saberes (da saúde coletiva, fisiologia, sociologia, filosofia, entre outros).3

Os diferentes tipos e métodos de pesquisas identificados contribuem com estudos sobre a saúde relacionados aos aspectos biológicos e aos aspectos socioculturais e, além de abarcar conhecimentos das ciências biológicas e médicas, possibilitam também conhecimentos das humanidades.

Além da pluralidade epistemológica do GTT Atividade Física e Saúde visualizada nesta pesquisa, destaca‐se que vários estudos da área demonstram a pluralidade epistemológica da educação física, como os estudos de Silva (2007), Fensterseifer (2006), Nóbrega (2005, 2006), Molina Neto et al. (2006), Gamboa (2007), Almeida e Vaz (2010), dentre outros.

A pluralidade epistemológica do GTT Atividade Física e Saúde identificada nesta pesquisa foi sendo construída historicamente pelos pesquisadores da área que tiveram seus trabalhos aprovados com o intuito de desenvolver pesquisas de temáticas específicas relacionadas à saúde, como podemos observar na tabela 5.

Tabela 5.

Trabalhos analisados e relacionados às temáticas investigadas de 1997 a 2011

Temáticas  1997  1999  2001  2003  2005  2007  2009  2011 
Movimento 
Antropometria  ‐ 
Aptidão física  ‐  ‐ 
Força  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Postura  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Pesquisa e informação em ciências do esporte  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Doenças  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Motivação  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Conceitos (saúde, qualidade de vida, aprendizagem motora)  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Inatividade física/sedentarismo  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Representações sociais da saúde, corpo, atividade física, estética  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Corpo, imagem corporal  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Obesidade/peso corporal  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Livro didático de saúde  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Envelhecimento  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Iniquidades em saúde  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Recreação hospitalar/brincar  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Estado nutricional/hábito alimentar  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐ 

Movimento humano e antropometria são as temáticas que aparecem desde 1997. Em seguida, temos outras temáticas, como as da aptidão física, força, postura, conceitos de saúde e qualidade de vida, doenças, motivação, inatividade física, representações sociais de saúde, corpo e estética, imagem corporal, obesidade, peso corporal, livro didático de saúde, envelhecimento, iniquidades em saúde, recreação hospitalar, brincar, estado nutricional e hábito alimentar.

É interessante perceber que os estudos sobre o movimento humano aparecem em suas diversas vertentes, ou seja, relacionados aos conceitos que expressam significados diferenciados, como é o caso de exercício físico, atividade física, práticas corporais e práticas integrativas. Essa diversidade de conceitos para se estudar o movimento humano materializada nos trabalhos analisados reforça a ideia de que é necessário questionar o nome do GTT, pois o termo “Atividade Física e Saúde” não acompanha as discussões conceituais que têm sido construídas na educação física em torno do movimento humano. Todavia, essa discussão merece um aprofundamento no interior do GTT, para que o debate possa ser feito coletivamente.

Outro ponto importante levantado na pesquisa é a relação dos artigos analisados com estudos relacionados ao Sistema Único de Saúde (SUS), que só começam a surgir em 2003, conforme pode ser visualizado na figura 1.

Figura 1.

Número de trabalhos apresentados e relacionados ao SUS de 1997 a 2011.

Dos 184 artigos analisados de 1997 a 2011, somente 13 estabelecem relações com o Sistema Único de Saúde. Essa pequena quantidade de trabalhos tem sido motivo de preocupação no interior do GTT e algumas ações têm sido feitas para ampliar o debate relacionado ao SUS.

No Conbrace de 2009, em Salvador, foram propostas mesas‐redondas que tematizavam a discussão sobre o SUS e a educação física. Em março de 2011 houve o I Encontro Brasileiro do CBCE sobre Saúde, em Natal, que teve como objetivo principal fomentar e socializar a produção do conhecimento na área da saúde, por meio de discussões que contribuíssem com a configuração de reflexões e perspectivas de análises e intervenções sobre a educação física no SUS.

Vale ressaltar que a preocupação de aproximar a educação física do SUS já estava presente na área desde 2006, como podemos observar na Carta de Porto Alegre, redigida no Seminário de Educação Física e Saúde Coletiva, em junho de 2006 (Fraga e Wachs, 2007), mas a discussão acadêmica sobre problemáticas relacionadas a essa questão pode ainda ser considerada ínfima no interior do GTT Atividade Física e Saúde.

Para a formação inicial e continuada em educação física é necessário conhecer que o SUS foi criado em 1988 pela Constituição brasileira. Segundo a Lei Federal 8.080/90, o SUS “é o conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta ou indireta e das fundações, mantidas pelo poder público e complementarmente pela iniciativa privada”. Além disso, o SUS tem como princípios o atendimento integral; a universalidade dos serviços; a equidade na assistência à saúde; a descentralização da gestão e a participação da comunidade.

Dentro das possibilidades de atuação no SUS, o profissional de educação física é contemplado pela Portaria GM n° 154, de 24 de janeiro de 2008, republicada em 4 de março de 2008, para atuar junto com outros profissionais de saúde no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e colaborar com as Estratégias de Saúde da Família (ESF) e suas equipes.

Os eixos centrais dos NASFs são: interdisciplinaridade; intersetorialidade; educação popular; território; integralidade; controle social; educação permanente em saúde; promoção da saúde; humanização.

Com tantos eixos norteadores que pretendem superar o modelo hospitalocêntrico, é importante, então, levar em consideração que a atuação dos profissionais de educação física não deve limitar‐se a avaliar e prescrever exercícios físicos, mas atuar na saúde, respeitando sua demanda de escuta integral e cuidadosa dos indivíduos e dos coletivos, como exposto na Carta de Porto Alegre, em 2006 (Fraga e Wachs, 2007). Nesse sentido, acredita‐se que o GTT Atividade Física e Saúde do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte precisa ampliar ainda mais suas discussões acadêmicas em torno desse tema.

Considerações finais

Após a análise dos 184 artigos publicados nos Anais dos Conbraces relacionados ao GTT Atividade Física e Saúde de 1997 a 2011 relacionamos indicadores epistemológicos, por meio das categorias construídas durante a análise de conteúdo.

Esse mapeamento da produção acadêmica reforça a ementa do GTT Atividade Física e Saúde, pois apresenta a pluralidade de estudos sobre saúde em diferentes abordagens científicas, de acordo com cada biênio, tem um acréscimo dos estudos relacionados às humanidades, principalmente a partir de 2007.

Identificou‐se ainda que as temáticas estudadas relacionadas à saúde são variadas e a cada biênio surgem novas temáticas. Por outro lado, a temática do movimento humano e da antropometria aparece desde 1997.

Esse mapeamento amplia o debate acadêmico‐profissional na educação física relacionado às temáticas da saúde e do movimento humano. Além disso, essas reflexões contribuem para a formação profissional, em termos de ensino, pesquisa e extensão, uma vez que produzem indicadores epistemológicos que retratam a construção dos saberes sobre saúde e seus possíveis diálogos. Esta pesquisa colabora para a construção da memória do GTT Atividade Física e Saúde, a partir das publicações e pela possibilidade de gerar discussão, no sentido de contribuir com estudantes e pesquisadores que se interessam pela temática da saúde.

Ressaltamos a necessidade de se continuar chamando para dentro do CBCE membros de outras entidades científicas para enriquecer o debate sobre atividade física e saúde e destacamos que membros desse GTT também poderiam fomentar o diálogo junto a essas.

Além disso, esta pesquisa também deixa claro que há necessidade de se continuar a despertar os trabalhos relacionados ao SUS, pois essa discussão ainda carece de estudos e de aprofundamentos. Para tanto, aponta‐se a necessidade de uma política científica e de produção do conhecimento em educação física que valorize pesquisas sobre o SUS, tanto por meio do CBCE quanto pelas instituições de ensino superior.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Pesquisadora da área que foi diretora científica do CBCE em duas gestões: 2005‐2007 e 2007‐2009.

Pesquisadora da área e coordenadora do Centro de Memória do Esporte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ceme), responável por preservar e divulgar aspectos relacionados à memória e à história do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.

A ementa do GTT Atividade Física e Saúde é encontrada no site do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, especificamente em http://www.cbce.org.br/br/gtt/atividade‐fisica‐saude/

Autor para correspondência.
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Revista Brasileira de Ci��ncias do Esporte 2017;39:17-23 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.02.013