Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:214-6 - Vol. 39 Num.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.01.017
Resenha
A multiplicidade conceitual da acrobacia: arte, esporte e entretenimento
La multiplicidad conceptual de la acrobacia: arte, deporte y entretenimiento
The conceptual multiplicity of acrobatics: art, sport, and entertainment
Bruno Barth Pinto Tucunduvaa,, , Marco Antonio Coelho Bortoletob
a Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Biológicas, Departamento de Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
b Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física, Departamento de Educação Física e Humanidades, Campinas, SP, Brasil
Introdução

Coordenada pelo professor Dr. Denis Hauw e publicada em 2010, L’Acrobatie faz parte da coleção Pour l’Action, composta por distintas obras que visam a uma abordagem introdutória dirigida aos profissionais da educação física. O livro é um eclético conjunto de ensaios sobre o significado da acrobacia na contemporaneidade, entrelaça discussões sobre distintos aspectos históricos, estéticos e pedagógicos. Essa obra apresenta tais conceitos de forma concisa e aspira à simplicidade para o trato de um tema tão complexo e nebuloso na literatura especializada, representa um grande esforço que renova as escassas discussões sobre a acrobacia na atualidade.

De fato, se observamos o recente contexto da educação física, a produção acadêmico‐científica sobre o tema acrobacia é ínfima, tanto no âmbito do esporte como no do lazer ou mesmo no nas artes (Wallon, 2008). Dentre a produção nacional, autores como Soares (2001; 1998), do ponto de vista histórico, e Bortoleto (2011; 2008), com enfoque pedagógico, oferecem algumas aproximações, especialmente sobre a presença da acrobacia no circo e na ginástica. Desse modo, estamos diante de um verdadeiro problema, no que se refere à escassez de referências, se consideramos a importância que a acrobacia vem alcançando nas mais diversas práticas corporais contemporâneas.

Para um debate eclético sobre acrobacia

Já na introdução da obra lemos que o coordenador do livro salienta a presença da acrobacia em diversas práticas. Mostra‐a como um fenômeno polissêmico e indica que seu dinamismo técnico e estético dificulta o debate conceitual, bem como seu trato pedagógico.

Como mencionado na introdução, a acrobacia contempla a liberdade, a criatividade e a motivação por uma prática corporal que se situa entre o risco e a necessidade de controle da segurança. Logo, conhecer e reconhecer a presença da acrobacia na cultura humana não se restringe a uma análise apenas do conjunto de técnicas ou de sua multiplicidade de formas. Desse modo, esse intrincado e interessante livro é composto por pressupostos filosóficos e considerações sobre a sua importância sociocultural e as implicações pedagógicas da acrobacia.

Após uma apresentação geral da acrobacia, a obra se divide em duas partes. A primeira compreende os capítulos 1, 2 e 3, nos quais alguns pressupostos teóricos e histórico‐culturais são discutidos. A segunda, que compreende os capítulos 4, 5 e 6, versa sobre os aspectos práticos da acrobacia e aborda a sua concepção e execução em espetáculos de circo, o processo de aprendizagem da performance acrobática e os aspectos de ensino das práticas acrobáticas na educação física escolar da França.

O primeiro capítulo, de autoria de Myriam Peignist, intitula‐se “L’Homo acrobaticus”, tema de sua tese de doutorado.1 Nele, vemos um complexo debate sobre a origem do termo “acrobacia”, destaca a ideia de uma ação que conduz o corpo e o gesto às extremidades e aos extremos.

A partir de uma abordagem antropológica, a autora discorre sobre as principais características da acrobacia como arte‐linguagem, busca uma visão dinâmica e genérica que situa esse fenômeno em distintas práticas corporais, especialmente por sua qualidade performática. Entendemos que essa abordagem permite ao profissional de educação física pensar a acrobacia enquanto uma das possibilidades de exploração e de busca pelo “domínio” do corpo e da motricidade, com vista aos mais variados fins.

O segundo capítulo, denominado “Acrobatie et freestyle”, assinado por Julien Laurent, apresenta um interessante recorte de seu pós‐doutorado em sociologia, explora as formas de apropriação da acrobacia por outras práticas que não o circo e a ginástica, nas quais a acrobacia predomina e faz parte de sua lógica interna (Parlebas, 2001). Assim, observa que nas práticas freestyle, entre elas o skate, o snowboard, os patins (in‐line ou roller), o BMX (bicicross), o surfe, o windsurf e o wakeboard, a acrobacia atende à busca de manobras complexas e à virtuosidade. A discussão proposta por Laurent nos parece valiosa na medida em que ressalta a importância da observação cuidadosa das emergentes práticas corporais urbanas, que, de modo mais ou menos intencional, oferecem novas leituras para a acrobacia em seus aspectos simbólicos e funcionais.

O professor Denis Hauw,2 organizador do livro, assina o terceiro capítulo, sob o título “Compreender a organização do gesto acrobático”.3 Seu texto versa sobre os aspectos técnicos do treinamento de acrobacias, ressalta as principais características do gesto acrobático e algumas de suas implicações pedagógicas. A relevância desses saberes é fundamental para a intervenção profissional na área e o autor busca expor uma noção dos conhecimentos que devem ser cautelosamente estudados para que haja desenvolvimento técnico, garanta a integridade do acrobata, tendo em vista o risco inerente a essa atividade.

O quarto capítulo se intitula “Artes do circo: qual o seu lugar na acrobacia?”,4 escrito por Magali Sizorn,5 e discute a relação da acrobacia com o circo, aborda‐a enquanto um elemento de linguagem que expressa a maestria do corpo, um símbolo do exercício da razão, do controle de si e do domínio do espaço. A partir de um apanhado histórico, Sizorn faz algumas aproximações entre o circo e a ginástica oitocentista, discute questões estéticas, bem como o conceito de corpo (forte, disciplinado e habilidoso), tece uma análise semelhante à feita por Soares (2001) e Bortoleto (2011).

O quinto capítulo, também de autoria de Denis Hauw, intitula‐se “O desenvolvimento da performance acrobática”.6 Nele apresentam‐se novos argumentos sobre a construção do gesto acrobático e sobre a estruturação de sua aprendizagem. Novamente, por meio de uma análise técnica, o autor apresenta os fatores que influenciam a performance acrobática, desde as características biomecânicas do movimento até a importância da adaptação do sistema neuroperceptivo à acrobacia.

Concluindo a obra, o sétimo capítulo foi escrito por Jean‐François Robin,7 sob o título “A acrobacia no meio escolar”.8 O autor trata dos princípios didáticos e metodológicos nos quais os professores de educação física escolar na França se baseiam para ensinar a acrobacia. Conforme ressalta em seu texto, o ensino de acrobacias na educação física francesa está integrado aos “ciclos” (blocos de conteúdo/temáticos) de ginástica, prática que, como o próprio destaca, tem perdido sua atratividade entre os estudantes daquele país, devido à monotonia de abordagens aos seus conteúdos em termos de cativar a atenção do aluno. Nesse sentido, vale ressaltar o estudo feito por Schiavon e Nista‐Piccolo (2007), cujos resultados também apontam para o desinteresse da prática da ginástica entre escolares no Brasil, muito embora nesse caso os motivos estejam atrelados à baixa popularidade da ginástica como opção de prática corporal e à limitada formação técnico‐pedagógica dos professores para atuar com essa modalidade.

Considerações finais

Não só por sua originalidade, tanto nas abordagens teóricas como na diversidade de práticas acrobáticas debatidas, L’Acrobatie nos parece uma importante fonte de inspiração acadêmica e pedagógica para um campo fértil, porém carente de análises aprofundadas. A diversidade de abordagens sobre o conceito de acrobacia permite uma visão mais ampla de suas possibilidades, mesmo que por vezes as concepções dos autores sejam contraditórias, como percebemos entre Peignist (cap. 1, p. 12), que a defende como um aspecto natural e espontâneo da motricidade humana, uma vez que resulta da exploração criativa das habilidades corporais; Hauw (cap. 3, p. 45), que a considera uma ação antinatural; e Robin (cap. 7, p. 113), que a retrata como um evento complexo que se inicia a partir de um voo com rotações (ex.: salto mortal). Ainda assim, os capítulos tecem um interessante discurso sobre a acrobacia, mostram seu valor simbólico, gestual e pedagógico, reforçam os diálogos que podem ser estabelecidos com a educação física contemporânea, seja no esporte, no entretenimento ou no meio artístico.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
Bortoleto, 2011
M.A.C. Bortoleto
Atividades circenses: notas sobre a pedagogia da educação corporal e estética
Cadernos de Formação RBCE, (2011), pp. 43-55
Bortoleto, 2008
Bortoleto MAC. (Org.). Introdução à pedagogia das atividades circenses. Volume 1. Jundiaí – SP: Editora Fontoura, 2008. 272 p.
Parlebas, 2001
P. Parlebas
Léxico de praxiologia motriz, juegos, deporte y sociedad
Paidotribo, (2001)pp. 502
Peignist, 2008
Peignist M. Homo Acrobaticus: Essai pour une reencontre des mots et des gestes 2008. 498 f. Tese (Doutorado em Sociologia) Universidade René Descartes – Sorbonne, Paris V, Paris, 2008.
Schiavon e Nista‐Piccolo, 2007
L. Schiavon,V. Nista-Piccolo
A ginástica vai à escola
Movimento, 13 (2007), pp. 131-150
Soares, 2001
Soares CL. Acrobacias e acrobatas: anotações para um estudo do corpo. In: Bruhns HT, Gutierrez GL. (Org.). Representações do lúdico: II Ciclo de debates lazer e motricidade. Campinas: Autores Associados, 2001. p.33‐41.
Soares, 1998
C.L. Soares
Imagens da educação no corpo: estudo a partir da ginástica francesa no século XIX
Autores Associados, (1998)pp. 168
Wallon, 2008
Wallon E. (Org.). O circo no risco da arte. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 189 p.

Denis Hauw é mestre de conferências da Faculdade de Ciências do Esporte e Educação Física da Universidade de Montpellier (França), onde desenvolve, desde 1999, pesquisas sobre as atividades acrobáticas, com ênfase no trampolim e esqui acrobático de alto rendimento.

Comprendre l’organisation du geste acrobatique.

Arts du cirque: quelle place faite à l’acrobatie.

A autora tem doutorado em ciências e técnicas em atividades físicas e esportivas (STAPS), com tese intitulada Être et se dire trapéziste, entre le technicien et l’artiste. Ethnosociologie d’um cirque em mouvement; atualmente, é mestre de conferências na Universidade de Rouen (França).

Le développement de la performance acrobatique.

Doutor em educação física, ex‐docente na Universidade de Paris 12 (Val‐de‐Marne) na área da ginástica; Presidente da Afraga (Associação Francesa de Pesquisa da Ginástica e Atividades Acrobáticas); atualmente é pesquisador no Institut National du Sport, de l’expertise et de la performance (Insep), em Paris.

L’Acrobatie em milieu scolaire.

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Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:214-6 - Vol. 39 Num.2 DOI: 10.1016/j.rbce.2016.01.017