Revista Brasileira de Ciências do Esporte Revista Brasileira de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:10-6 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.11.002
Artigo original
A Copa do Mundo de 1982 e o “turbilhão de emoções” nas crônicas de Nelson Motta
The World Cup of 1982 and the “Turbilhão de emoções” in Nelson Motta chronicles
El Mundial de Fútbol de 1982 y la “Turbilhão de emoções” en las crónicas de Nelson Motta
Riqueldi Straub Lisea,, , André Mendes Caprarob, Fernando Renato Cavichiollib
a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Setor de Ciências Biológicas, Programa de Pós‐Graduação em Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
b Universidade Federal do Paraná (UFPR), Setor de Ciências Biológicas, Departamento de Educação Física, Curitiba, PR, Brasil
Received 11 February 2013, Accepted 27 December 2013
Resumo

O objetivo da presente pesquisa é analisar as crônicas de Nelson Motta referentes à Copa de 82, a fim de perceber quais eram as impressões/concepções do autor acerca da Copa do Mundo, bem como da equipe brasileira que disputou tal campeonato. Para tal, apoiou‐se nos preceitos da análise literária proposta por Antonio Candido (1992; 2000), que leva em conta a fusão de texto (vinculado à autonomia estética do autor) e o contexto (momento social a que o escritor e sua obra pertencem). A partir da análise de tais crônicas é possível notar o encantamento de Motta quanto à seleção brasileira, bem como a reverberação de uma teoria freyriana.

Abstract

This research aims to analyze the chronicles of Nelson Motta related to World Cup of 1982, in order to understand what were the impressions of the author about the World Championship, as well as about the Brazilian team. To this end, it was based on the principles of literary analysis proposed by Antonio Candido (1992; 2000), which talks about the merger between text (linked to the aesthetic autonomy of the author) and context (social moment that the writer and his works belong). From the analysis of these chronicles is possible to note the enchantment of Motta for the Brazilian national team, and the reverberation of a Freyrean theory.

Resumen

El objetivo de esta investigación es analizar las crónicas de Nelson Motta relacionadas con el Mundial de Fútbol de 1982 con el fin de entender cuáles eran las impresiones/opiniones del autor sobre el Mundial de Fútbol, así como sobre la selección brasileña que jugó ese campeonato. Para ello se basó en los principios de análisis literario propuestos por Antonio Candido (1992; 2000), que tienen en cuenta la combinación entre texto (vinculado con la autonomía estética del autor) y contexto (momento social al cual pertenecen el escritor y su obra). Del análisis de estas crónicas es posible observar el encanto que Motta sentía por la selección brasileña, así como la reverberación de una teoría freyriana.

Palavras‐chave
Futebol, Literatura, Identidade, Campeonato mundial
Keywords
Soccer, Literature, Identity, World Championship
Palabras clave
Fútbol, Literatura, Identidad, Mundial de Fútbol
Introdução

Na Copa da Espanha, em 1982, com o Brasil vivendo intensamente a abertura política e a anistia, tínhamos uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos, que parecia ainda mais rápida, mais elegante e mais harmoniosa até que a do Tri. E uma torcida espetacular. Com elas vivemos um sonho e uma grande aventura, tão alegre quanto dramática, que começa numa tarde carioca, com a ditadura agonizando e o país falido – mas mais animado do que nunca. (Motta, 1998, p. 9).

Início de junho, desembarcava em Sevilha a equipe do jornal O Globo responsável pela cobertura da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Dentre os jornalistas designados para essa tarefa estavam Sérgio Cabral, Carlos Leonam, Renato Maurício Prado e Nelson Motta. De 13 de junho a 11 de julho, tais jornalistas, além de cumprir suas atribuições profissionais de cobrir a Copa do Mundo, viveram in loco as emoções, as alegrias, as histórias e os dramas propiciados pelo maior espetáculo de futebol do mundo. O princípio da década de 1980 ficou marcado como um dos períodos mais turbulentos da história político‐social do Brasil. O então presidente general João Batista Figueiredo declarava aos meios de comunicação que a sucessão à Presidência da República se daria de forma democrática e encerraria um período de 21 anos de ditadura militar, iniciada em 1964 e findada em 1985 (Skidmore, 1998; Costa e Mello, 1999).

Economicamente, o Brasil passava por uma de suas mais sérias crises, assolado por um grave endividamento externo, o qual desencadeou uma série de problemas inflacionários, intensa redução dos salários reais, forte recessão nas indústrias e no comércio, que culminou com um aumento substancial nos índices de desemprego (Rezende, 2001; Torres, 1998; Cysne, 1994; Skidmore, 1988). O país vivia momentos de incertezas. Contudo, mesmo sujeito aos sérios problemas de ordem política e econômica, grande parte da nação voltava sua atenção para a Copa do Mundo da Espanha.

Comandada pelo técnico Telê Santana, a equipe brasileira contava com o entusiasmo incondicional de grande parte da população do país e imprensa especializada, pois compunha‐se de atletas com ótimo nível técnico, como Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico – esse considerado por alguns jornalistas como o melhor atleta depois da “Era Pelé” (Saldanha, 2002; Verissimo, 1999; Andrade, 2002). Ainda a favor dessa seleção, somava‐se o fato de praticar um futebol cuja ofensividade era a característica principal, como ressaltou Garrincha em declaração à revista Placar: “Nosso erro contra a Itália foi buscar alucinantemente o gol? Ora, mas o gol não é a razão do futebol? Temos de manter o estilo e torcer para que novos valores surjam, porque alguns que estiveram na Espanha não resistirão ao tempo”.

No que se refere ao apoio da imprensa especializada, conta‐se com a figura de Nelson Motta – colunista do jornal O Globo, enviado para a cobertura do Mundial da Espanha, jornalista, compositor e produtor musical, roteirista e escritor – que descreve sob a forma de crônicas o dia a dia no país espanhol durante o período da Copa do Mundo. Posteriormente, tais crônicas foram reunidas no livro “Confissões de um torcedor” (Motta, 1998), no qual Motta discorre sobre a convivência com os colegas de redação; as festas; as expectativas às vésperas dos jogos da seleção brasileira; as comemorações pelas vitórias; e, por fim, a decepção pela derrota da equipe nacional frente ao time italiano, na partida que ficou conhecida como “o desastre de Sarriá”.

Ora, sabendo que o sentido de tais escritos era não só apontar o desempenho do selecionado como também relatar um cotidiano à brasileira, e levando em consideração o contexto político‐social do país, questiona‐se: quais as construções literárias/jornalísticas usadas por Nelson Motta ao retratar o selecionado brasileiro de 1982? Diante de tais formulações, há a reverberação de um discurso identitário, com o intuito de reforçar elementos “genuinamente” nacionais?

Nesse sentido, o objetivo da presente pesquisa é analisar as crônicas de Motta referentes à Copa de 82, a fim de perceber quais eram as impressões/concepções do jornalista acerca da Copa do Mundo, bem como da equipe brasileira que disputou tal campeonato.

Para tal, apoiou‐se nos preceitos da análise literária de Antonio Candido (1992; 2000), que leva em conta a fusão de texto (vinculado à autonomia estética do autor) e o contexto (momento social a que o escritor e sua obra pertencem). Optou‐se pelo uso da análise literária, pois o gênero crônica pode ser definido como “uma mescla de literatura, jornalismo, vida social e cotidiana, sem um compromisso mais perene com o fato, é um dos poucos gêneros literários tipicamente brasileiros” (Freita e Capraro, 2012). Devido a esse caráter provisório, a crônica, durante certo tempo, foi considerada como um gênero menor, exatamente pelo fato de amalgamar os fatos, destacados nos jornais, e a estética, proveniente da literatura. Elemento que lhe concede, ainda, a característica de um gênero de fronteira.1

Sobre Nelson Motta

Nascido em 29 de outubro de 1944, em São Paulo, aos seis anos mudou‐se com a família para o Rio de Janeiro, mais precisamente para Copacabana, bairro de classe média alta onde passou a maior parte de sua vida. Jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor e crítico musical, Motta desde sua juventude esteve envolvido com o mundo da música, é autor de mais de 300 canções, participou da bossa nova, da tropicália e posteriormente do rock dos anos 1980 (Produção Cultural No Brasil, 2011).

Como escritor, Motta obteve relativo sucesso com o lançamento de três romances durante a última década, O canto da sereia (2002), obra recentemente adaptada para uma minissérie televisiva, Bandidos e mocinhas (2004) e Ao som do mar e à luz do céu profundo (2006). Lançou, ainda, um livro de contos, Força estranha (2010). Contudo, seus maiores sucessos literários foram sua autobiografia Noites tropicais (2000) e Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia (2007), no qual o autor descreve a trajetória do referido cantor e compositor, que alcançou a casa dos 140 mil exemplares vendidos. Foi colunista dos jornais Ultima Hora e Folha de S.Paulo. Atualmente, escreve colunas semanais para os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo; Motta apresenta, também, uma coluna semanal, às sextas‐feiras, no Jornal da Globo, sobre música, cultura e comportamento.

Nelson Motta soube, como poucos, transitar por diversos meios de comunicação de massa, trabalhou nos principais canais de televisão, jornais e rádios, hoje é considerado um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. Sua especialidade sempre foi a música, porém ao longo de sua carreira adquiriu conhecimentos que o permitem falar sobre novelas, programas de variedades, peças de teatro, literatura, cinema e até futebol. Outra característica importante acerca da carreira e das produções de Nelson Motta foi a afinidade com o público jovem, desde o movimento musical da bossa nova até suas incursões como roteirista de programas de TV destinados a tal público. Salvo algumas exceções, Nelson Motta tem colecionado sucessos (TRIP.com.br, 2012).

Concepções acerca da Copa do Mundo e do selecionado de 1982

Em 1998, Nelson Motta lançou o livro Confissões de um torcedor – Quatro copas e uma paixão. Nessa obra, o autor reúne seus escritos acerca das Copas de 1982 na Espanha, 1986 no México, 1990 na Itália e 1994 nos Estados Unidos. Remetendo ao título do livro, as “confissões” de Motta têm características de diários escritos durante tais eventos e são apresentadas sob a forma de crônicas em tom confessional. Cabe ressaltar que este estudo estará centrado no primeiro capítulo, intitulado de Turbilhão de Emoções, no qual Motta discorre sobre a Copa do Mundo de 1982.

Talvez a mais importante peculiaridade das crônicas reunidas nesse livro seja o fato de que Nelson Motta – ao contrário dos outros cronistas que fizeram a cobertura desse evento para o jornal O Globo – não era um especialista em futebol, apesar de ser um apaixonado pelo Fluminense e pelo selecionado brasileiro. Sua ida à Espanha não tinha como objetivo principal a produção de textos que focassem questões técnicas e táticas. Sua função era, sim, falar de futebol, mas também de música, gastronomia, festas, confraternização das torcidas, costumes locais, bem como outras situações que aconteciam no período da Copa e que escapavam à crônica esportiva especializada. Não era a primeira vez que Nelson Motta cobriria uma Copa do Mundo, em 1970 ele já havia cumprido essa função.

No México, em 1970, vivi alguns dos melhores momentos de minha vida de torcedor e de jornalista, na flor da idade, cobrindo a Copa para a Ultima Hora, uma ideia meio louca de meu guru e patrão de então, Samuel Weiner: um cronista não esportivo contando o que acontecia fora dos estádios e no coração da torcida. O Brasil dava shows de futebol em campo, a torcida arrebentava nas ruas, Wilson Simonal superlotava os maiores e mais luxuosos night clubs mexicanos, tudo conspirava a favor. [...] Depois da final consagradora, na celebração da vitória numa suíte de um dos hotéis mais chiques da Cidade do México, vi fascinado várias grã‐finas cariocas disputando para ver quem dava primeiro para Jairzinho e Paulo César Caju (Motta, 1998, p.7).

A partir desse excerto retirado do livro Quatro copas e uma paixão evidencia‐se a proposta de Nelson Motta quanto a sua função como jornalista não especializado. Ao discorrer sobre as excelentes atuações do selecionado brasileiro, o autor centra suas atenções no sucesso da música brasileira que embalava as festas na noite mexicana e, ainda, dava indícios dos interesses sexuais de damas cariocas pelos jogadores tricampeões.

Quanto às suas “confissões” sobre a Copa do Mundo de 1982, Motta destaca alguns personagens. Dentre eles pode‐se citar Dom Pepe, um conhecido DJ carioca, descrito por Nelson Motta da seguinte maneira:

Magro como um caniço, preto feito um tição, Dom Pepe é o DJ mais conhecido e querido no Rio de Janeiro há mais de vinte anos; desde que ainda se chamava Luiz na Copacabana dos anos 60. Depois trabalhou como disc‐jóquei de boates em Londres, onde morou com uma leva de brasileiros no início dos anos 70, e lá virou Pepe, mais apropriado ao temperamento apimentado do crioulo (Motta, 1998, p. 20).

Além das características acima citadas, Nelson Motta descreve Dom Pepe de forma estereotipada: um típico carioca, malandro, esperto, engraçado, simpático e articulado. Dom Pepe repetidamente usa seus atributos no sentido de obter vantagens. Em diversos momentos da narrativa os aparecimentos desse personagem estão vinculados a episódios cômicos e situações inusitadas, nas quais seu “jogo de cintura”, sua simpatia e sua esperteza lhe rendem uma série de benefícios. Dom Pepe é um dos elementos centrais das crônicas de Motta – negro, carioca e malandro, esse personagem parece ser a representação de um “típico brasileiro”, simpático, cordial e festivo. Seu comportamento e suas ações retratam “o jeitinho brasileiro” de conseguir benefícios por meio da esperteza e malandragem. A modo de exemplificar tais características, segue o excerto sobre a estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo contra a equipe russa.

O crioulo chegou sem qualquer reserva para hotel ou entrada para o jogo, mas me assegura que estará muito bem posicionado logo mais às nove da noite quando a bola rolar no “Pai João”, que é como chama o Pizjuan.[...]. “Esse negócio de agência de turismo é para otário” vai comentando o mouro enquanto caminhamos sob o sol.[...] e partiu rumo ao Alfonso Galo, onde se hospedam, além dos bicheiros, os cartolas, os financistas, o pessoal da Fifa, grã‐finos e ricos de todos os tipos. Dom Pepe conhece alguns e vai em busca de um melhor lugar no estádio (Motta, 1998, p. 22).

Mais tarde,

Dom Pepe entra sorridente e exibe a todos uma reluzente entrada para o melhor setor, cadeira especial colada à tribuna da imprensa, descolada de um alto diretor da Globo conhecido da noite carioca, durante a blitz nos salões do Alfonso Galo (Motta, 1998, p. 23).

Outro personagem que detém papel de destaque nas “confissões” de Motta é Ernest Scott, um americano apaixonado pelo futebol e pela cultura brasileira. Mesmo natural dos Estados Unidos, país onde o futebol não tem tanta popularidade, Ernest é um dos torcedores mais fanáticos e animados das crônicas de Motta, que assim o descreve:

Ernest é um brasilianista diferente, que aprendeu português para ler Jorge Amado, Guimarães Rosa e principalmente Nelson Rodrigues no original. Ele se considera o maior fã americano do futebol brasileiro, que segue pelo mundo e do qual se acredita um dos grandes experts e teóricos. Diz‐se autor de vários ensaios inéditos sobre o tema escritos nos intervalos da vida acadêmica – se é que se pode chamar de acadêmica aquela vida... (Motta, 1998, p. 10).

Durante a Copa do Mundo da Espanha, pôde‐se notar, não apenas nas crônicas de Nelson Motta, mas na maioria dos periódicos especializados ou não em futebol, um discurso que retomava as teorias de Gilberto Freyre, em especial a veiculada na obra Casa‐grande e senzala. Tal produção, considerada como um ensaio de cunho sociológico,2 apresenta uma tese acerca da integração étnica no Brasil. A partir da miscigenação propiciada pela integração entre negros, índios e brancos, surge uma etnia típica dos trópicos, o verdadeiro brasileiro: o mestiço. Segundo Freyre, essa combinação cultural, proveniente das três etnias, conferiu ao brasileiro uma malícia, uma ginga, uma impulsividade e um “jogo de cintura” únicos. Posteriormente, Freyre destaca que esse “jeito típico brasileiro” se manifesta de forma inconfundível na maneira de o brasileiro jogar o futebol. Os dribles, os passes elípticos, os efeitos, a individualidade e principalmente a ofensividade seriam características natas dos jogadores brasileiros.

É nesse ideal de brasilidade, que encontra sua materialização por meio do futebol, que se pauta Nelson Motta ao relatar os comportamentos de Dom Pepe, na Espanha, e mesmo a visão do estrangeiro a respeito do que vem a ser brasileiro ou não. Dificilmente esse retorno discursivo embasado na tese freyriana tenha se dado propositadamente, até porque não há condições de saber se jornalistas mais jovens, como Motta, leram Gilberto Freyre ou se apenas reproduzem esse ideal disseminado por figuras como Mário Filho, Armando Nogueira e, principalmente, Nelson Rodrigues.

A miscigenação, que antes causava repulsa, é apontada por Freyre como a definidora de uma identidade do Brasil, a qual se consolidava no jogar futebol. Dessa forma, dado o bom desempenho esportivo brasileiro, o futebol passa a ser caracterizado, sobretudo por literatos e cronistas esportivos, como um ícone da nacionalidade, cujas particularidades se apoiavam nas características expostas por Gilberto Freyre – a ginga, a malícia e o improviso (Helal et al., 2001; Soares, 2003; Antunes, 2004).

Assim, tal como aponta Soares (2003), as contribuições culturais que, segundo Gilberto Freyre, foram possibilitadas pela pacífica relação entre a casa‐grande e a senzala acabam por se mostrar, sobretudo nos textos jornalísticos como a crônica esportiva, sob a visão determinista de um país onde não haveria racismo, ao que alguns chamaram de “freyrismo popular”. Esse freyrismo popular ganha tônica com Mário Filho em O negro no futebol brasileiro, de 1947, obra na qual o autor expõe o futebol enquanto um meio privilegiado de inserção dos negros e mestiços na sociedade brasileira. Ou seja, toda a caracterização do que viria ser o mestiço – uma mistura entre a benevolência dos portugueses, a submissa sexualidade dos negros e o ingênuo comportamento do índio (Capraro, 2007; Santos, 2012) – refletia‐se na maneira de jogar futebol. Ginga, improviso, brincadeira, poesia e arte, elementos também identificados no samba, na capoeira e, posteriormente, no carnaval, direcionavam‐se para o futebol e compunham a superioridade brasileira dentro das quatro linhas.

Assim, as proposições “popularizadas” de Gilberto Freyre, no que concerne ao homem negro e mestiço, bem como à sua singularidade no esporte, ganham força e são reafirmadas por literatos brasileiros, via jornais, principalmente. Freyre influenciou uma geração de literatos e contribuiu para uma nova interpretação do Brasil, segundo a qual a figura do mestiço se fazia valer nas representações futebolísticas (Santos, 2012, p.29).

Tal como aponta Capraro (2007), Gilberto Freyre fazia parte de um círculo de relações constituído por literatos como Mário Filho, José Lins do Rego e Nelson Rodrigues. Esses cronistas foram os principais responsáveis pela reverberação do discurso freyreano, o que permitiu que gerações futuras, como Armando Nogueira, Nelson Motta, Tostão dessem continuidade à máxima da brasilidade baseada na ginga. Nelson Rodrigues, que, além de cronista esportivo, era já um reconhecido dramaturgo e, posteriormente, figura carimbada nas mesas redondas da televisão, foi um dos grandes responsáveis por toda essa reverberação – primeiramente pela fama, que abrangia outros campos que não o esportivo, e em segundo lugar por ser o mais longevo, escreveu até 1980 (Castro, 1992; Santos, 2012).

Somado à reverberação do discurso freyreano – enquanto uma quase “tradição inventada”3 que, de tanto ser repetida, adentrou o campo do tradicional jeito de ser brasileiro – parte‐se, aqui, da hipótese de que esse retorno à tese sociológica freyriana teria um motivo principal. Após a Copa do Mundo no México, em 1970, na qual o Brasil se sagrou tricampeão mundial, a seleção brasileira jamais reapresentou um futebol sequer razoável. Nas Copas de 1974 e 1978 o “futebol arte”4 cedeu lugar a um “futebol‐força”. A seleção brasileira praticava um futebol parecido com o estilo europeu de jogar, menos ofensivo, menos criativo, pautado principalmente pela marcação e pouca ofensividade: “Lembram‐se de 1978? Sabíamos que seríamos derrotados. Poderia ter sido no primeiro turno, mas escapamos. Estávamos jogando o ‘futebol‐força’, para mim o futebol estúpido e pouco inteligente” (Saldanha, 2002, p.147). Após a longa espera de 12 anos a seleção brasileira de 1982 recuperava aquela índole ofensiva de 1970. As atuações da equipe nacional eram convincentes, o futebol nacional voltava a ser jogado de um “jeito tipicamente brasileiro”. Foi nesse período que se viu (res)surgir o neofreyrismo, constatação esboçada no seguinte excerto:

Ernest passou o almoço falando em miscigenação e na democracia racial jorgeamadiana na Seleção Brasileira: desde Falcão louro de olhos azuis à africanidade de Serginho, da paulistice olímpica de Oscar à mulatice genial de Júnior, à potência de Eder índio, a raça brasileira representada e sintetizada num time de futebol (Motta, 1998, p. 26).

Outra característica marcante das crônicas de Motta refere‐se à amistosidade, à festividade e à cordialidade da torcida brasileira na Espanha. Aproveitando‐se do bom desempenho apresentado pela seleção, a torcida cativava torcedores de outras nacionalidades por meio da alegria e da simpatia “típicas dos trópicos”. O sucesso de torcer pela seleção brasileira ocasionou alguns episódios cômicos, em que mais uma vez Dom Pepe era protagonista, como no seguinte excerto:

Incrível, mas ser brasileiro na Espanha está dando status, pela arte e beleza do futebol exibido em campo e pela alegria e simpatia da torcida nas ruas, penso e pasmo. Badaró também está espantado por merecer a simpatia popular apenas por ser brasileiro.[...] Campeões da simpatia já somos: ontem mesmo, Dom Pepe contou, eles estavam cervejando numa rambla, ou ramblando numa cerveja, ele não se lembra bem, quando um grupo de escoceses e alemães se aproximou da mesa atraído pela batucada e uma das jovens pediu um autógrafo ao crioulo, levantando o kilt e oferecendo uma roliça e alva bundinha à caneta, enquanto o namorado, um lourão sueco, rolava de rir (Motta, 1998 p. 40).

Havia, ainda, por parte da imprensa local uma preocupação quanto ao jogo Brasil e Escócia. A torcida escocesa, após a primeira partida, já tinha protagonizado alguns atos violentos, mesmo com a vitória do seu selecionado frente à Nova Zelândia, por 5 x 2. A preocupação da imprensa e da polícia espanhola se justificava pela conduta violenta dos torcedores escoceses, pelo grande contingente de torcedores brasileiros e pela iminência de uma vitória do Brasil, que poderia exaltar os ânimos de ambas as torcidas. No entanto, os confrontos entre brasileiros e escoceses não se efetivaram. Apesar de a vitória brasileira, por 4 x 1, o que se viu foi um clima amistoso entre as torcidas rivais descrito por Motta da seguinte maneira:

Estamos esperando os escoceses: a pugna pode se transferir do campo para as calles. Eles, os ferozes torcedores distilled and bottled in Scotland, comandados por Rod Stewart, são turbulentos tradicionais, por estilo e prática continuada.[...] Os jornalistas locais estão excitados com as perspectivas de choques entre brasileiros e escoceses nas ruas, mas tudo que se consegue ver nas praças e mesas de bares são trocas de garrafas e amabilidades. Eles de saiotes com as caras vermelhas e nós mulatos de camisas amarelas e sotaque nordestino (Motta, 1998, p. 26).

Pouco mais tarde,

Fomos duas horas antes, convictos da vitória: nem quando tomamos o primeiro gol deles nos assustamos. Quase já faz parte dessa seleção ser provocada para brilhar, como as estrelas temperamentais. E veio a resposta fulminante, a chuva de gols, a exibição de talento sem forçar o ritmo: tento controlar os gritos de gol na garganta, ainda convalescendo de rouquidão dolorida e ridícula (especialmente em língua estrangeira) depois da epopeia russa. O jogo foi tão limpo e a vitória tão inquestionável que na saída do estádio Benito Villamarin, pelo Passeo de las Delícias afora, o que se via eram brasileiros e escoceses trocando camisas e bandeiras. Nos bares, juntos, bebendo para comemorar e para esquecer (Motta, 1998, p. 30).

No Brasil, o clima de euforia já tomava conta da torcida, as boas performances do selecionado já se refletiam num clima de favoritismo. Os principais periódicos noticiavam que, após longos anos de espera, a seleção nacional reunia totais condições de se sagrar tetracampeã mundial. Na Espanha, a TV Globo intensificava uma campanha de distribuição de brindes com motivos nacionais, no sentido de atrair torcedores de outras nacionalidades aos jogos do Brasil: “A TV Globo, paralelamente à cobertura do evento, estimula a torcida local com brindes, gadgets, plásticos, canetas, camisetas, milhares e milhares de bandeiras. Começa a ser criado, com simpatia, o clima de festa que o Brasil queria” (Motta, 1998, p. 26).

O resultado da campanha feita pela TV Globo, as boas apresentações da seleção nacional e o carisma da torcida brasileira em terras espanholas surtiram o efeito esperado. No jogo contra a Argentina, a maioria dos 44 mil torcedores presentes ao estádio Sarriá, em Barcelona, vestia a camisa amarela.

Com a nossa torcida engrossada por espanhóis, corsos, cipriotas, italianos, escoceses i tutti quanti, adentramos trêmulos o estádio de Sarriá com o sol a pino. Como tem gente vestindo a camisa amarela! Tem gente do mundo inteiro vestindo o ex‐símbolo do mau gosto, hoje o must da temporada europeia: a cor que vem dos trópicos, a cor do verão. (Motta, 1998, p. 41).

Com a convincente vitória sobre os argentinos, então os campeões mundiais, aumentou‐se o clima de favoritismo que tomava conta da torcida brasileira. Segundo alguns especialistas, foi a melhor atuação da equipe até aquele momento. A euforia já não era contida, o Brasil era o principal postulante ao título mundial. No jogo seguinte, contra a Itália, novamente notou‐se um grande contingente de torcedores de outras nacionalidades que agora torciam pela seleção brasileira. Mais uma vez, o estádio se apresenta lotado, cerca de 44 mil torcedores ocupam todos os espaços disponíveis: “Agora os espanhóis estão vestindo a camisa brasileira junto com os escoceses, os turcos, os suecos, os pobres, os ricos, os americanos e até já alguns argentinos, todos contra a Itália, na porta do estádio sob o sol escaldante” (Motta, 1998, p. 44).

A seleção italiana chegava ao mundial da Espanha sob uma intensa crise, provocada pela descoberta de manipulação de resultados no certame italiano em jogos da loteria, o caso Totonero (World Cup Fifa, s/d). Havia o risco de suspensão dos envolvidos nesse esquema, alguns jogadores da equipe temiam não poder disputar a Copa, porém a suspensão dos envolvidos não se efetivou e a Itália pôde contar com seus melhores atletas. A equipe italiana fazia uma campanha pouco empolgante, praticava um futebol de qualidade duvidosa. Até a disputa contra o Brasil, o selecionado italiano acumulava três empates e apenas uma vitória, marcara apenas quatro gols durante a competição. Em contrapartida, o Brasil apresentava uma campanha com quatro vitórias, 13 gols a favor e um futebol alegre e ofensivo. Mais uma vez, o Brasil era favorito.

Não era possível, mas era: nem mesmo a imaginação torpe de um cérebro doentio ousaria tanto. Somente um capricho do destino para fazer esse time italiano ganhar desta Seleção Brasileira – talvez nossa mais brilhante de todos os tempos –, de quem perderiam nove vezes em dez. Em silêncio, ruminamos perplexos nossa colossal frustração no meio da massa amarela e silenciosa que deixa o estádio entre as buzinas e gritos italianos (Motta, 1998, p. 44).

O Brasil fora derrotado pela equipe italiana por 3 x 2. A seleção brasileira estava fora da disputa pelo título mundial. Segundo Motta, a torcida brasileira, que antes era a mais festiva, agora fica silente diante do inesperado resultado. Contudo, a seleção de 1982 apresenta uma característica singular: mesmo sem sequer ter chegado à final do campeonato, recebeu elogios quanto a sua atuação na Espanha e até os dias de hoje é lembrada como uma das melhores seleções de futebol de todos os tempos (Wisnik, 2008).

... com os olhos inchados e a camisa encharcada de suor, sou invadido pela raiva e compaixão pelo Grande Time, que mostrou o mais bonito e inventivo jogo, o mais elegante e eficiente futebol deste Mundial e nos deu 15 vezes à garganta o grito vitorioso de um gol... (Motta, 1998. p. 45).

Esta assertiva de que a seleção de 1982 foi a melhor seleção de todos os tempos reflete, em essência, todo aquele ideal reforçado já nas décadas de 1940 e 50. Diferentemente da percepção de Nelson Rodrigues, sobre um complexo de vira‐latas que recrudescia a cada derrota (Santos, 2012), o selecionado de 82, embora perdesse a Copa, representava uma retomada da identidade brasileira, baseada no jogo bonito, criativo, de gingado típico dos trópicos. Essas nuances identitárias, construídas em torno da equipe em questão, reforçam também a tradição mais inventada do Brasil – a de que o futebol‐arte brasileiro é o melhor futebol do mundo.

Somado a isso, há de se destacar o fato de que Nelson Motta estava na Espanha exatamente para retratar os bastidores da competição, de uma maneira agradável aos olhos dos leitores brasileiros que consumiam o jornal O Globo. Sem descartar, ainda, a possibilidade de o próprio jornalista ter se envolvido com as peripécias dos bastidores sobre o qual relatava. Motta não só escrevia para brasileiros, como também era brasileiro e possivelmente estava embebido por essa brasilidade, que, segundo suas narrativas, se fazia tão admirada pelos estrangeiros.

O elemento identitário também é retomado, de certa forma, a partir de Nelson Rodrigues, mas ultrapassa a questão de vencer ou perder, quando jogar o genuíno futebol canarinho, mesmo que fracassando nos resultados, parece ser mais digno de comemoração do que jogar objetivamente e findar campeão. Mas essa é uma outra discussão...

Conclusão

A partir da leitura e da análise dos escritos de Nelson Motta acerca do selecionado brasileiro que disputou a Copa do Mundo da Espanha em 1982, pode‐se inferir que o jornalista se mostrou encantado e creditou à equipe nacional o melhor futebol apresentado dentre todas as outras seleções: “Dos brasileiros foi tirado o título, mas nada lhes tira o orgulho e a certeza do futebol mais bonito e emocionante deste mundial” (Motta, 1998, p. 48). Torna‐se necessário, aqui, ressaltar que essa concepção de Motta sobre a atuação do time brasileiro não era consensual na crônica esportiva especializada. A modo de exemplo, pode‐se considerar que João Saldanha – colunista do Jornal do Brasil – formulou, no mesmo período, críticas veementes ao modo como o Brasil se apresentara nesse mundial.

Motta, ao destacar alguns personagens, como Dom Pepe, retratado como o “típico brasileiro” – malandro, festivo e amistoso –, bem como ao descrever a admiração de estrangeiros pela cultura brasileira, ou pela maneira única de se jogar o futebol, esboça a reverberação da teoria freyriana (neofreyrismo). Mesmo que muito provavelmente não tenha lido Gilberto Freyre, de maneira direta, o autor reapresenta a visão do futebol estabelecida décadas antes da Copa de 82. Nelson Motta, enquanto um jornalista a fim de atingir um público leitor/consumidor, faz reverberar a popular máxima de que o Brasil tem o melhor futebol do mundo, em um momento bastante propício. Ora, passadas as Copas de 1974 e 78, em que o selecionado nacional não teria atuado à altura de sua capacidade esportiva, 1982 representaria uma espécie de rompimento com a má fase. Ruptura essa que, assim como na década de 1950, foi produzida e cultivada pela mídia, por meio dos intelectuais e literatos que escreviam. Pois bem, eles deixaram seu legado, retomado com avidez em julho de 82.

Outro aspecto importante a se destacar, nesta pesquisa, é o fato de Nelson Motta não ser um jornalista especializado em futebol. Pelo estilo da escrita, suas crônicas se aproximam de um colunismo social ou mesmo de crônicas do cotidiano, as quais enfatizam os acontecimentos com os personagens e suas vidas pessoais. Seus escritos soam vagos quando se trata de questões técnicas e táticas, porém são de uma riqueza singular quando versam sobre questões que circundam o jogo, relatando de forma muito original aspectos relacionados com a simpatia e malandragem brasileira; o status de ser torcedor da seleção canarinho, mesmo não sendo natural do país; a integração das torcidas; e, principalmente, a admiração da cultura brasileira (música, culinária, festividade) por outros povos.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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A noção de fronteira se refere a um espaço de interseção que permite a circularidade entre os campos, da ficção e do factual, não há parâmetros que possibilitem a delimitação dessa fronteira. Os gêneros fronteiriços são compreendidos, portanto, como um tipo de literatura com determinado grau de proximidade com o contexto, elemento que as estabelece na linha tênue entre ficção e realidade histórica (Capraro, 2007).

O ensaio de cunho sociológico pode se enquadrar como um gênero de fronteira, pois, embora não se vincule à ficção, é bastante próximo da estética da literatura. Trata‐se de uma tese sociocultural, cuja linguagem se aproxima mais da literatura do que da linguagem acadêmica, além do fato de o autor se pautar mais em suas próprias lembranças do que no uso de fontes (Capraro, 2007).

No presente texto, compreende‐se “tradição inventada” como uma prática que, de tanto ser repetida ao longo do tempo, acaba por implicar a continuidade em relação ao passado e inculca certos valores e comportamentos (Hobsbawm e Renger, 1997).

A problematização do conceito futebol‐arte consta do artigo “Gilberto Freyre e o futebol‐arte” (Barreto, 2004).

Copyright © 2015. Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte
Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2017;39:10-6 - Vol. 39 Num.1 DOI: 10.1016/j.rbce.2015.11.002